• Foi na adolescência que decidi que queria ser jornalista. Em primeiro lugar, porque, à data, era a única carreira que eu conhecia que me permitiria passar o dia a escrever e depois, porque sempre quis lutar contra as injustiças e desigualdades do mundo e achava que o jornalismo me permitiria expô-las publicamente, tornando o mundo um bocadinho melhor. Sim, eu ia ser como o Bob Woodward, a Diane Sawyer, a Lois Lane! Ah, a ingenuidade da adolescência…

    Não foi preciso avançar muito no curso de Comunicação Social e Cultural para perceber que a minha visão romântica do jornalismo era irrealista e que o que se esperava de uma redacção no século XXI era a criação conteúdos. Porque conteúdos interessantes vendem e se vendem há mais publicidade e se há mais publicidade há mais dinheiro. Para os accionistas. A verdade é um detalhe, ouvir todas as partes só se der tempo e há temas demasiado deprimentes e sobre os quais ninguém quer ouvir falar. Quem é que quer saber da mutilação genital feminina que acontece em solo português, quando o Cristiano Ronaldo acabou de ser pai recorrendo a uma barriga de aluguer?

    Ainda assim, entre colegas de curso que enveredaram pelo jornalismo, jornalistas que vi trabalhar durante o estágio que fiz na SIC e outros que fui conhecendo ao longo da minha vida profissional, sei que muitos há que continuam a lutar para noticiar factos, longe do circo mediático, ouvindo todas as partes e em cumprimento com o Código Deontológico. Muitos, mas não os suficientes para manter a qualidade e idoneidade dos meios de comunicação social portugueses.

    Há muitas razões para haver mau jornalismo, a começar, como já referi, na pressão para criar conteúdos relevantes a uma velocidade cada vez mais estonteante. Já não há tempo nem dinheiro para fazer jornalismo de investigação e, muitas vezes, os jornalistas acabam por não fazer o seu trabalho como gostariam porque há que fechar o jornal ou entrar em directo para a televisão. A isso aliam-se as linhas editoriais duvidosas, a substituição de jornalistas experientes por estagiários acabadinhos de sair da escola e ainda a extinção dos revisores, como se os correctores automáticos do computador pudessem tomar o seu lugar.

    Mas ainda assim, com todos estes motivos que podem desculpabilizar algumas gaffes, incoerências ou notícias mal explicadas, não há desculpa para tudo.

    Não há desculpa para os erros ortográficos e gramaticais. Isto deveria ser ponto assente em qualquer profissão, mas é muito mais grave em qualquer área da comunicação.

    Não há desculpa para confundir um anúncio com uma notícia. Como não devia haver desculpa para transformar em notícias publicidade disfarçada de nota de imprensa.

    Não há desculpa para trocar o nome a um convidado (já me aconteceu mais do que uma vez). Revela falta de atenção e algum desrespeito. A maioria dos convidados de programas de informação e mesmo de entretenimento fazem-no de graça. Roubam horas às suas actividades profissionais ou pessoais para responderem a um convite, para irem falar sobre um assunto que os editores do meio em questão consideram importante para o seu público.

    Não há desculpa para dar tempo de antena a curiosos que iam a passar no local e não têm absolutamente nada de relevante para acrescentar. Isso não são testemunhas, nem fontes, nem coisa nenhuma.

    Não há desculpa para dizer primeiro e confirmar depois. As notícias são protagonizadas por pessoas. As pessoas têm vidas, famílias e não vale tudo para ter um furo.

    Não há desculpa para entrevistar pessoas que acabaram de perder alguém e nem sabem o que estão a fazer.

    Não há desculpa para ser enviado para um país estrangeiro em reportagem ou tentar entrevistar alguém de outra nacionalidade sem falar uma outra língua. É constrangedor assistir a cenas dessas. Eu, pelo menos, sinto uma enorme vergonha alheia.

    Não há desculpa para fazer copy/paste das notas de imprensa recebidas ou, pior, dos textos dos colegas de profissão. Isso não é falta de tempo: é falta de brio.

    Não há desculpa para não se tirar o rabo da cadeira e preferir fazer entrevistas por email. Ao menos não lhes chamem entrevistas.

    Não há desculpa para muito do que se vê publicado ou que é divulgado pelos órgãos de comunicação deste país. E o problema não é só deste país.

    Cada dia tenho mais dificuldade em encontrar um meio no qual confie. Leio tudo com um pé atrás. Porque lá está, os bons jornalistas que trabalham em cada um desses meios, não compensam os maus. O que é pena, porque ainda há, de facto, alguns jornalistas muito bons. E cada dia fico mais agradecida por ter acabado por enveredar por outra profissão, uma que também anda pelas ruas da amargura, uma que também tem a sua dose de colegas que envergonham a classe, mas isso seria assunto para uma outra crónica.

    E a questão que se coloca é, precisamente, a que dá título a este desabafo. Neste mundo instantâneo, descartável, onde se socializa mais por detrás de um teclado do que cara a cara, onde o que interessa são os números e os lucros, haverá salvação para o jornalismo?