• «Amanhece na cidade.

    É outro dia.

    O asfalto, ainda frio das horas soturnas, começa a reluzir assim que tocado pelos primeiros raios de sol. Folhas de árvores rodopiam pelos passeios, embaladas pelo sopro que a passagem do primeiro autocarro da manhã provoca. Um copo de plástico, que toda a noite balouçou junto ao lancil, aninha-se na curva da estrada, junto a um novelo de cabelos e cotão, vestígios de um dia anterior.


    Amanhece na cidade.

    É outro dia.

    Aos poucos, os sons de diferentes acordares começam a misturar-se até se tornarem uma espécie de melodia. Primeiro os murmúrios: “bom dia”, “acorda”, “olá, amor”, “dormiste bem?”, “já são horas”. Depois os gritos: “desliga o despertador”, “ainda estás deitado?”, “vamos chegar atrasados”, “Levanta-te!”. Primeiro os pézinhos-de-lã, depois as passadas barulhentas. Primeiro a máquina do café, a chaleira, o chuveiro, a persiana. Depois as televisões, os elevadores, os motores, as portas que batem abafando  com o seu estrondo um “até logo”. Primeiro os objectos, depois as pessoas, que chegam e partem desta praceta onde me encontro, indistintas de todas as outras pessoas que chegam e partem de cada uma das ruas de Lisboa ou de qualquer outra cidade. Pessoas com pressa, pessoas com tempo, pessoas que tomam o café à janela, pessoas que refilam, pessoas que bocejam, pessoas cujos gestos são sempre os mesmos, levantar a grade, varrer o chão, correr, entrar no carro, acenar, voltar atrás, passear o cão, respirar fundo, recomeçar. Como se cada novo dia não fosse mais do que a continuação do dia anterior. Como se cada dia não encerrasse em si o potencial de ser totalmente diferente. Tal como os prédios onde vivem, que não se desviam um milímetro do espaço onde estão alicerçados, também as pessoas não se desviam muito das suas rotinas. Acomodadas. Expectantes. Passivas.

    Gosto de pessoas. São o meu passatempo preferido. Aliás, gosto tanto de pessoas que chego a afeiçoar-me até às que não merecem que se goste delas. E fico especialmente fascinado com esta coisa de encararem a vida como algo que corre independentemente delas próprias, como se não fosse preciso fazer nada senão deixá-la avançar ao seu ritmo imperturbável, como se fossem viver para sempre. Divirto-me com o modo egocêntrico com que ignoram completamente o seu verdadeiro lugar na ordem das coisas. Alegro-me com o facto de acharem-se importantes e especiais, quando na verdade não passam de meras partículas na história do Tempo. São ínfimas as que apreciam verdadeiramente aquilo que têm ou aquilo que são; e mais ínfimas ainda as que têm consciência da sua verdadeira insignificância na vida do planeta, este pequeníssimo ponto que gravita em torno de uma de cem mil milhões de estrelas, que compõem uma de duzentos mil milhões de galáxias de um dos vários universos possíveis.

    Ainda assim, como seria o mundo sem elas? Sem os seus pecados e virtudes? Sem aquelas frases feitas que repetem para se sentirem melhor com a sua mortalidade e com a ignorância acerca dos mistérios do Universo, “tudo tem uma razão", “nada acontece por acaso”, “foi a vontade de Deus”, “oxalá”, “é o destino”? Sem a sua busca pela perfeição e pelo sentido da vida? E se nada fizer sentido? Por que raio havia de fazer?

    Ah, as pessoas... O que mais aprecio neste meu jogo de observá-las e adivinhar a vida de quem se cruza comigo é não precisar que me contem o que quer que seja. Gosto de deduzir, desvendar, apreender as suas histórias pelo simples estudo dos seus trejeitos. Por exemplo, para a maioria dos transeuntes que atravessam a praceta, a mulher que acabou de sair do 12 A não é mais do que uma miúda de aparência vulgar, adjectivo que até seria adequado se apenas tivéssemos em conta a indumentária pouco provável para uma manhã de um dia de trabalho: camisa de cetim demasiado decotada e sapatos com saltos demasiado altos. Está afogueada, tem o cabelo molhado e divide o olhar entre o interior da mala, para verificar se tem todos os seus pertences, e o telemóvel, que manuseia a uma velocidade estonteante. Dirige-se para o metro. Ainda terá de caminhar um bocado.

    Porém, se reparassem melhor, depressa notariam que não está assim vestida por ser vulgar. Aquela foi a indumentária que escolheu para uma saída à noite que, inesperadamente, terminou numa casa que não era a sua. Reparem agora no modo apreensivo com que franze o sobrolho, não só por saber que vai chegar atrasada ao local de trabalho, mas sobretudo por não ter tempo para ir a casa mudar de roupa. Para evitar olhares de desdém, os mesmos que já começa a sentir dos tais transeuntes que a julgam vulgar, certamente irá comprar uma camisa ou blusa mais discreta na primeira loja que encontrar a caminho do escritório. Os pés, esses, terão de aguentar os saltos excessivamente altos todo o dia. Está irritada consigo própria por ter adormecido naquele lugar e mais irritada ainda por ter gastado todo o dinheiro que tinha em copos e agora ter de ir de metro, quando lhe teria dado muito mais jeito apanhar um táxi. E todo este transtorno por uma noite de sexo banal. Como sei que foi banal? Porque se tivesse sido bom, nada disto importaria. Estaria de sorriso nos lábios e até se esqueceria das dores nos pés. Dificilmente tornarei a vê-la entrar ou sair daquele prédio que não lhe pertence. É apenas mais uma das mulheres que por lá passam.

    Não, não sou adivinho, nem um ser omnipresente. Não, não sou detective, nem espião. Só que ando nestas ruas há tantos anos que em poucos segundos consigo perceber o que escondem os gestos de cada pessoa que se cruza no meu caminho. E se entrarem e repousarem na minha napa preta, consigo desvendar todos os seus mistérios pelo simples sentir da pulsação. Também há o cheiro que emanam, o tipo de perfume que usam, o género de roupas que envergam, os acessórios com que se adornam, os sotaque e as expressões que utilizam, mas o coração é o mais fiável. Tum-tum. A ansiedade. Tum-tum. A paixão. Tum-tum. O medo. Todas as emoções têm o seu ritmo e, por mais que o tentem ocultar mudando o semblante, afinando a voz, escolhendo as mentiras que vão dizer, o bater do coração nunca mente. E mesmo quando tenho de recorrer à imaginação para colmatar alguma falha na história, não é nada que mude a essência das coisas, porque essa está lá, dentro destes seres que tanto me fascinam.

    De qualquer modo, pouco importa desvendar como sei o que sei. O que realmente importa é partilhá-lo convosco, não é verdade? Porque, quer queiram admitir quer não, todos vocês têm curiosidade em saber mais sobre a vida dos outros. Não conseguem deixar de espreitar por uma porta entreaberta, ignorar a conversa da mesa do lado, questionar por que razão fulano deixou a mulher ou sicrano ficou rico. A curiosidade está-vos no sangue. Daí o sucesso das telenovelas, dos jornais sensacionalistas e dos reality shows. Não é a mera busca de entretenimento fácil, muito menos um interesse antropológico. É puro voyeurismo. O prazer secreto de saber mais sobre os outros do que eles sabem sobre vós. De ver sem ser visto. De conhecer as suas histórias mirabolantes, aventureiras, pecaminosas, ou simplesmente banais. A vossa existência ganha significado pelas histórias de todos os dias. Por comparação. Por oposição. Por confrontação.

    Então, deixem-me começar pelo mais simples: a história por trás das mãos que me guiam.»


    in Amanhece na Cidade, de Filipa Fonseca Silva, Bertrand Editora 2017

    NAS LIVRARIAS A 9 DE JUNHO!


  • Hoje é aquele dia fofinho em que toda a gente apregoa aos quatro ventos o quão maravilhoso é ser mãe. O dia em que nos lembramos de todas as coisas boas que os nossos rebentos adoráveis nos dão: os beijinhos lambuzados, os abraços que nos atiram ao chão, os desenhos coloridos que fazem para nós, o colinho e o cafuné no sofá, o elogio da professora no caderno de recados. O dia em que recebemos mais um miminho feito na escola, que não fazemos ideia onde colocar, se bem que tem de ser num local visível, não vá estarmos a reprimir um potencial Rodin.

    E no meio de tanta flor e de tanto coração, não há muitas mulheres que tenham a coragem de dizer, sobretudo num dia como o de hoje, em que os nossos anjinhos até nos levaram o pequeno almoço à cama, que isto de ser mãe é muito bonito mas tem certas e determinadas especificidades que nos tiram do sério.

    Pois bem, em nome da verdade, eu digo-o. E digo também quais são, precisamente, as dez coisas que mais detesto nesta aventura de ser mãe, por nenhuma ordem em especial.

    1) Ouvir «mamã!» trezentas vezes só na primeira hora do dia. Eu sei que um dia vou ter saudades, mas há dias em que é de mais. Cada frase proferida por um deles é precedida de uns quatro ou cinco mamãs, na melhor das hipóteses.

    2) Ser interrompida quando estou a falar com outras pessoas, por motivos tão importantes como «afinal a minha bola estava na varanda».

    3) Acordar mais cedo do que teria de acordar se não tivesse filhos, sobretudo aos fins de semana.

    4) Ter de fazer, ou pelo menos planear, o jantar diariamente. (Por falar nisso, esqueci-me de descongelar o jantar de hoje, por isso o menu é esparguete com atum. De lata. Outra vez.)

    5) Estar cheia de sono quando consigo finalmente sair à noite com os meus amigos, tendo então de me render à evidência de que já não tenho pedalada (nem paciência) para acompanhá-los.

    6) Gastar dinheiro em roupas e sapatos que só duram, no máximo, seis meses, quando há por aí tanta coisa gira que eu poderia comprar para mim e fazer durar uma vida.

    7) Ter de dizer vinte vezes para lavarem os dentes, ou calçarem os sapatos, ou sentarem-se à mesa. Todos os dias.

    8) Não conseguir tomar um banho sem que ninguém me interrompa.

    9) Quando eles falam comigo ao mesmo tempo, cada vez mais alto para que a voz de um se sobreponha à do outro, esperando que eu responda simultaneamente aos dois. Pior, quando fazem isto no carro.

    10) Ter de falar de manhã.

    Sim, hoje é dia de flores e corações cheios. Mas, mamãs felizes de todo o mundo, nos outros dias, aqueles em que vos passa pela cabeça a grande interrogação «mas por que me meti nisto?», lembrem-se desta lista e de que não estão sozinhas.