• Nos últimos anos, como já todos estão cansados de saber, Lisboa transformou-se numa das capitais mais apetecíveis do mundo. Prémios, artigos, reportagens, votação do público, votação de especialistas. É unânime para todos o que nós, portugueses, já sabíamos: Lisboa é uma das cidades mais espetaculares do planeta.

    Com toda esta atenção chegou o dinheiro para obras necessárias, que tornaram e continuam a tornar a cidade cada vez mais bonita, e chegaram também os hotéis sofisticados, os restaurantes premiados, as lojas mais fashion, os terraços, as esplanadas, os prédios devolutos de cara lavada, os museus dinamizados, os comerciantes mais abastados, os turistas boquiabertos e nós, os que cá vivemos, cada vez mais inchados com todo o reconhecimento. Sem ironias, que eu sou daquelas que me regozijo com o fenómeno e prefiro ter um hotel de 5 estrelas na Baixa do que um prédio a cair de podre, tal como prefiro ter ciclovias e esplanadas do que carros em cima dos passeios. Já estive em cidades que recebem muitos mais turistas do que Lisboa e nem por isso perderam encanto. Ou seja, não são os turistas que me preocupam.

    O que ultimamente começo a temer é que a ganância nos leve longe de mais, uma vez que toda a gente que tem um metro quadrado na cidade, de repente, acha que está sentado em cima de uma mina de outro e faz tudo para o rentabilizar. Falo dos proprietários, que começam a despejar inquilinos e lojistas, por exemplo, não para os substituir por outros inquilinos e lojistas que paguem rendas mais caras e actualizadas, como está no seu direito, mas antes para fins exclusivamente turísticos, seja na versão hoteleira ou na versão short-renting. Falo das lojas tradicionais, drogarias, sapateiros, alfarrabistas, tasquinhas e oficinas que começam a ser substituídas por lojas de souvenirs feitos na China ou por marcas de cadeias internacionais. Falo dos negócios que toda a gente vê que são feitos para o estrangeiro deslumbrado e do preço das casas que saem das reabilitações a ultrapassar os sete dígitos, tornando-se proibitivos para quase todos os portugueses.

    Eu sei que é difícil gerir o interesse público, histórico, cultural e os direitos dos proprietários, que os têm e nunca devem ser esquecidos, mas o que faz uma cidade não são só as suas bonitas fachadas e monumentos. Na verdade, e especialmente no caso de Lisboa, grande parte da alma e charme está nos próprios lisboetas. O que será do Castelo, de Alfama, da Mouraria, do Bairro Alto sem os seus típicos moradores? O que será dos Santos sem aqueles que se envaidecem pela sua rua porque é sua, porque sempre foi sua, porque lhe está no sangue? O que será dos cafés sem o bolo caseiro, a sandes de torresmos, o pastel de bacalhau frito em óleo com vários dias? Como será passar pelas ruas e não ver as cuscas à janela, os malandros encostados, os reformados a jogar no largo, as crianças a brincarem sem vigilâncias, donas daquelas calçadas, protegidas pela vizinhança? Como será deixar de ouvir o sotaque lisboeta, como deixou de se ouvir os cauteleiros, as varinas e os vendedores ambulantes, cujos pregões estão agora reduzidos a registos escritos?

    Estas dúvidas assaltaram-me com maior intensidade quando estive recentemente em Salvador da Bahia, no Brasil. Tinha lá estado há precisamente vinte anos e na altura fiquei apaixonada pela cidade. Mesmo sob chuvas torrenciais a cidade vibrava e o centro antigo, a zona do Pelourinho, era um mosaico de cor, música e autenticidade. Havia músicos em cada esquina, mães de santo, mulheres trajadas de baianas a venderem bugigangas, mas que não cobravam para tirarmos uma fotografia com elas, igrejas de porta aberta, galerias de arte repletas de obras originais, de artistas locais, havia pessoas a saírem e a entrarem das suas casas e rodas de capoeira. Era um sítio turístico, claro, mas com alma. Desta vez estava lá tudo, igualzinho e até melhorado, com as fachadas todas bonitinhas e nenhum lixo no chão. Mas não estavam lá as pessoas. Nem os botequins, agora substituídos por restaurantes com mobília nova e ementas tipo buffet. Nem a música, nem o cheiro. No rés-do-chão de cada edifício, loja sim há um restaurante, loja não há uma loja de souvenirs que vende exactamente o mesmo que a loja anterior. Dos ímanes às t-shirts, dos quadros às canecas, é tudo igual em todas as lojas. Não vi uma única criança. Nem mesmo das mais pequeninas que ainda não andam na escola. Parecia que estava num cenário de um filme, onde está tudo lá, excepto a vida. Foi triste. Talvez não tivesse sido se fosse a minha primeira vez em Salvador. Mas tendo como comparação o que vivi vinte anos antes, foi um choque.

    E é isso que não gostava que acontecesse a Lisboa. Quero vê-la bonita, cosmopolita, hospitaleira, cheia de gente de todo o mundo, mas também cheia de lisboetas. Porque a verdade é que, ao contrário dos parisienses, dos madrilenos, dos romanos, nós não temos rendimentos que nos permitam viver numa cidade em que as casas custam mais de um milhão de euros e em que as rendas das lojas só conseguem ser suportadas por multinacionais. O que faz com que o nosso destino se aproxime mais do dos baianos.

    Não sei quais as medidas mais eficazes para impedir tamanha tragédia. Pode passar por coisas como a tal lei de protecção do comércio local tradicional com interesse histórico, que supostamente será aprovada até ao Verão, ou por outras que limitem o número de casas com licença para arrendamentos de curta-duração, de modo a que as casas reabilitadas fiquem disponíveis para arrendamento de longo prazo, ou por outras ainda que limitem a especulação imobiliária provocada por esta nova moda dos estrangeiros comprarem cá casas com o único intuito de terem morada fiscal portuguesa e não pagarem impostos, mantendo-as fechadas e inabitadas grande parte do ano. Não sei. Mas penso que todas essas medidas e outras que surjam devem ser estudadas e ponderadas com seriedade, para que daqui a uns anos não nos deparemos com uma cidade fantasma, com fachadas de plástico a imitar o antigo, alimentada por cadeias tipo Padaria Portuguesa, e cuja alma foi vendida ao turismo.

  • Uma das melhores coisas que a experiência de publicar livros me trouxe foi a possibilidade de conversar com os meus leitores. É uma relação diferente da que se cria com seguidores do blog ou de redes sociais, porque um livro é um objecto em si, que simplesmente se pode fechar e arrumar numa prateleira para não tão cedo voltar a ser aberto. Ou seja, quando se lê uma crónica num blog ou um post no Facebook é fácil e imediato fazer um comentário. Mas haver leitores que depois de terminarem um livro se dão ao trabalho de pegar num smartphone ou computador para me escreverem um email ou mensagem a falar de um livro meu é sinceramente comovente.
    Por vezes escrevem-me para elogiar ou comentar o livro, mas muitas vezes acabam por fazer pequenos desabafos ou partilhar um bocadinho das suas histórias. E de repente parece que nos conhecemos, embora nunca nos tenhamos cruzado. E de repente cria-se uma ligação muito especial.
    A Liliana é uma dessas leitoras. Contactou-me pela primeira vez meses depois de "Os 30" terem saído e, desde então, a cada novo livro, há sempre da parte dela uma palavra carinhosa. Por isso, foi com todo o gosto e sem qualquer hesitação que respondi ao seu pedido de entrevista. Uma entrevista que acabou por resultar muito bem, mérito das perguntas dela.

    Digam lá se não concordam.


    1- Quem era a Filipa antes e depois do primeiro livro editado?
    Continuo a mesma Filipa, a Filipa que sempre quis ser escritora e que sempre escreveu histórias. A diferença reside no facto de agora ter mais confiança na minha escrita porque houve quem quissesse publicar o que eu escrevi e porque recebi boas criticas dos leitores. Ou seja, descobri que o que escrevo interessa às pessoas (pelo menos a algumas) e isso acaba por me dar mais motivação para continuar a escrever.


    2-Qual a sensação dum trabalho reconhecido?
    É fantáśtico! É descobrir que afinal as minhas histórias, as minhas personagens, as minhas ideias são relevantes. Saber que provoco nos meus leitores o mesmo que tantos escritores que li me provocaram. 

    3- Qual dos três livros é o teu preferido ou te deu mais gozo fazer? Porquê?
    O meu preferido é "Os 30", porque foi o primeiro. Não há amor como o primeiro, não é? Mas o que me deu mais gozo fazer foi o livro de crónicas "Coisas que uma Mãe Descobre (e de que ninguém fala)", porque tive o prazer de trabalhar com a minha grande amiga Sofia Silva, a autora das ilustrações, e juntas construimos o livro como se fosse também um áĺbum de recordações para quem o lê.

    4- Quem são a Filipa-Escritora e a Filipa-da-publicidade? São a mesma pessoa? É possível, algum dia, só existir uma delas?
    A Filipa-Escritora é a verdadeira Filipa. O que resulta desse trabalho são as minhas ideias, reflexões, paixões. É um trabalho criativo mas íntimo e pessoal. A Filipa-da-publicidade trabalha em dupla e é obrigada a responder a um briefing do cliente, ao escurtínio de directores criativos, às decisões dos directores de marketing, às exigências do público a que se dirige. É um trabalho criativo mas colectivo e completamente impessoal. Nem poderia ser de outra forma: quando escrevo para publicidade escrevo em nome da marca que estou a trabalhar. Não pode transparecer a minha voz.
    Gostava de um dia poder ser apenas a Filipa-escritora.

    5- E se amanhã acordasses e tudo tivesse sido um sonho?
    Continuava a escrever e a enviar manuscritos a editoras até conseguir realizar o sonho.

    6- Que conselhos dás a quem quer seguir os teus passos?
    Muito trabalho, muito sentido crítico, muita preseverança. Ter a humildade para saber que há centenas de escritores melhores que nós, que é muito difícil vender livros em Portugal, mas que isso não pode ser desculpa para pararmos de escrever e deixarmos de fazer mais e melhor.

    7- Quais são os pros e os contras de ter um trabalho editado?
    Os pros são ter uma voz e ver a nossa mensagem chegar a pessoas que nao conhecemos, que nem sonhávamos que pudessem ler as nossas palavras. Os contras são passarmos a estar sujeitos ao cyber-bulling (para quem como eu está muito presente nas redes sociais) e à crítica destrutiva e infundada.

    8- Eram estas as tuas expectivas?
    Chegar ao top 100 da Amazon? Não, isso foi muito mais do que tinha imaginado.


    9- Já pensaste em desistir? Porquê?
    Nunca pensei em desistir, porque escrever é o que mais gosto de fazer. Enquanto tiver leitores, mesmo que sejam poucos, vou continuar a publicar. E se um dia não tiver leitores continuarei a escrever para mim.

    10- Tens novidades que possas partilhar?
    Sim! Esta Primavera vai sair o meu quarto livro. Ainda não posso revelar o título, mas posso dizer que se trata de um romance contemporâneo e que se passa nas ruas de Lisboa.

    11- Uma frase...
    Não há impossíveis

    12- Algo que não realizaste no mundo da literatura...
    Viver da escrita

    13- Os teus livros serem convertidos em filmes, séries e/ou peças de teatro seria...
    Maravilhoso. Adorava ver como um realizador ou encenador pegaria nas minhas histórias e como os actores dariam corpo às minhas personagens.

    14- A escrita para ti é...
    Indispensável

    15- Os teus livros para ti são...
    Filhos. E agora que sou mãe ainda tenho mais certeza disso: temos uma gestação que nos faz alternar entre o prazer puro e o sentimento de "porque é´que me meti nisto" (o processo de escrita, edição, revisão tem momentos dramáticos); depois temos um parto onde nos vemos entre o medo e a mais completa alegria (o equivalmente ao lançamento do livro); depois vêm os primeiros tempos, em que temos de ter todos os cuidados com a promoção e divulgação do livro, para garantir que tem uma vida longa nas prateleiras das livrarias; e por fim temos de deixá-lo partir, crescer sozinho, passar de mão em mão. Como os filhos, os livros deixam de ser só nossos e passam a ser de todos os que os lêêm. E ainda bem.


    Podem ler a peça completa no blogue da Liliana. Embora em ache que ela exagerou um bocadinho no título, até porque eu só tenho um metro e meio ;)

    http://www.devaneiosdemissl--8.com/2017/02/a-entrevista-grande-filipa-fonseca-silva.html?m=1