• Queridos leitores,

    Sendo esta a minha época do ano ano preferida, não podia deixar de vos deixar algumas palavras.

    Palavras de gratidão por me lerem, por me comentarem, por me partilharem e, sobretudo, por me incentivarem a continuar a escrever neste blog. São vocês que me fazem sair da preguiça e correr atrás das palavras quando elas parecem esconder-se. São vocês que me fazem perder o medo quando começo a achar que não tenho nada de interessante para dizer. São vocês que me guiam quando me perco em devaneios, fazendo com que me concentre e dê sempre o meu melhor.

    Espero continuar a conseguir trazer-vos alguns momentos de reflexão ou de entretenimento (conforme o caso e o tom dos textos), aqui no blog e nos novos livros que já se desenham na minha cabeça.

    Boas festas e que 2016 seja um ano cheio de oportunidades para serem felizes.

    Beijinhos de flocos de neve,

    Filipa




  • As restruturações a que estão a ser sujeitas várias redacções deste país são tristes, mas são sobretudo o reflexo de um país que despreza a escrita e o pensamento. É um mal que grassa há várias décadas e que agora, na era digital, vem acentuar-se dramaticamente. E foi preciso haver despedimentos em massa para se começar a falar do assunto.

    Para mim há três razões fundamentais para que as coisas tenham chegado a este ponto.

    1) Os jornais começaram a ser geridos como empresas

    Não é uma novidade do século XXI (aliás os grandes grupos mediáticos começaram a surgir no século XIX), mas parece que foi neste século que se perdeu a vergonha. É que as empresas são criadas e geridas para darem lucro aos seus accionistas dê lá por onde der.

    Ora eu não tenho nada contra os accionistas seja do que for e até sou fã de um certo capitalismo. Mas na minha opinião, os lucros devem ser partilhados entre os accionistas depois de se pagarem salários justos, dignos e que deixem os profissionais motivados e empenhados em dar sempre o seu melhor. São esses profissionais que fazem do jornal um bom ou mau periódico. São esses profissionais que fazem conteúdos, que é precisamente o que as pessoas compram. Ou pensavam que as pessoas compravam o jornal para verem anúncios bonitos de página dupla?

    Assim, a mesma empresa que quer vender as suas páginas aos anunciantes por preços exorbitantes, afirmando que os números de circulação são fantásticos e toda a gente adora aquele jornal, são as mesmas que deixam de investir nos produtores de conteúdos, que acham que um estagiário faz o mesmo que um jornalista com quinze anos de experiência ou que dar uma notícia é apenas copiar o texto que lhe chega das agências noticiosas. Pois não é. E com o passar do tempo isso nota-se.

    A partir do momento em que os conteúdos deixam de ser interessantes, relevantes e sobretudo originais, a partir do momento em que os artigos de opinião deixam de ser estimulantes, agitadores e sobretudo bem escritos, não vale a pena comprar. Lá se vai o valor da página dupla para metade e mais uns jornalistas para o desemprego.

    2) Os jornalistas começaram a trabalhar por tuta e meia

    Para vingarem num mercado em crise, numa profissão saturada, num sonho de criança, os aspirantes a jornalistas aceitam qualquer coisa para conseguirem o primeiro emprego. O que interessa é começar, entrar na redacção, mesmo se for um estágio não remunerado, depois logo se vê, se eles gostarem de mim convidam-me para ficar, certo? ERRADO! Quando acabar o estágio, quando começarem as reivindicações salariais, as empresas só fazem uma coisa: substituem o estagiário/precário/jornalista-que-não-ganha-para-pagar-a-renda por outro que aceite ficar com o seu lugar, caladinho e agradecido, como deve ser.

    Por outro lado, os jornalistas desempregados começam a aceitar um preço simbólico pelas suas peças feitas em regime de freelancer, até ao ponto em que trabalham de borla. Sim, muita gente (jornalistas mas sobretudo cronistas) escreve de borla só para aparecer, só para poderem dizer que tiveram um texto seu publicado aqui ou ali, só para não estarem parados. Ora os donos dos jornais, podendo ter quem escreva de borla, não vão pagar para ter conteúdos. E passado o entusiasmo das primeiras peças publicadas, quem é que escreve com a mesma motivação a troco de (quase) nada? Que qualidade se pode esperar dali? Mais um entrevista feita por telefone, mais uma investigação feita na Net, que não há dinheiro para gastar em viagens nem tempo para falar com as pessoas cara a cara. Mais uma plataforma online onde se aceita publicar seja o que for, desde que não se pague nada, sobre o pretexto de estar a dar voz a novas vozes.

    3) O público acha que tem o direito a ter tudo de graça

    Notícias, música, espectáculos, livros e até os quadros com que decora a parede, tudo tem de ser baratinho ou grátis. Para quê comprar o jornal, se está lá tudo na versão online? E se não estiver, está noutro jornal qualquer ou no Google ou no Youtube ou no mural de um amigo. Ou seja, o hábito de ler as notícias de manhã ou ver o jornal à noite ainda existe. Falta é o hábito de pagar por esses produtos. Falta acabar com a mania de que qualquer um pode fazer um textozito, uma cronicazinha, uma reportagenzeca. Falta educar o público no sentido de acarinhar as pessoas que escrevem, que pensam, que investigam, que criam. Porque quando estas pessoas deixarem de fazer o que fazem tão bem, teremos de nos alimentar dos plagiadores, dos pseudo-intelectuais, dos acacianos na acepção queirosiana da palavra.

    Agora podemos substituir a palavra jornais por editora de livros, editora discográfica, produtora de espectáculos, e a palavra jornalista por escritor, músico ou artista e perceber porque é que o valor da criação intelectual e artística continua em queda. E assim continuará.


    ilustração de Mac &Ninny