• E se fosse por cá?
    E quando for por cá?
    Como será sair de casa de manhã para o trabalho e a última frase dita à pessoa que mais amamos ser qualquer coisa estúpida e banal como"não te esqueças de tirar os bifes para o jantar"? Ou deixar os miúdos na escola à pressa e não lhes ter dado aquele último beijinho que nos pediram à porta da sala, porque já estávamos atrasados?
    Como será sentir o chão fugir debaixo dos pés, sobreviver o terror e à devastidão e sair para a rua sem saber para onde ir? Sem um mísero telefone para saber se outros estão bem, sem possibilidade de avisar que estamos bem, sem saber o que aconteceu a todos aqueles que amamos?
    Como será chegar a casa e ela não existir, ouvir gritos e não conseguir socorrer, não ter como ajudar?
    Como será viver os dias seguintes, com a certeza de que perdemos tudo?
    Há tragédias que nos fazem pensar na mortalidade, na finitude, nas coisas que devem ser ditas e feitas antes de ser tarde de mais. E outras que estão tão longe que depressa se tornam notícia de rodapé, como se o sofrimento humano fosse diferente consoante o ponto geográfico onde nos encontramos.
    Mas não é.
    Lembremo-nos disso e ajudemos como gostaríamos que um dia nos ajudassem, tivéssemos a infelicidade de passar por algo semelhante.


    Como ajudar?

    Unicef
    A Unicef quer oferecer ao Nepal barras de purificação de água, kits de higiene ou suplementos nutritivos para as crianças e famílias .

    Cruz Vermelha
    As equipas da Cruz Vermelha no Nepal participam desde o primeiro dia em operações de resgate e ajuda médica.

    Programa Mundial de Alimentação
    Existe uma grave falta de água potável no Nepal, mas também falta alimentação para as populações afectadas. O Programa Mundial de Alimentação é financiado a 100% por doações.

    Handicap International
    Uma organização que se foca no apoio a pessoas com deficiência. Está no Nepal desde o ano 2000 e tem mais de quatro dezenas de voluntários que distribuem, por exemplo, kits para pessoas com deficiência, equipamentos de mobilidade e organizam programas de reabilitação.

    Oxfam
    Trata-se de uma coligação de organizações de apoio humanitário. Lançou uma missão de resgate de vítimas no Nepal e está em coordenação com a Unicef para distribuir água potável e cuidar dos feridos.

    Save the Children
    Tal como a Unicef, o seu principal objectivo no Nepal é prestar auxílio às crianças do país, mas também quer alcançar as famílias mais vulneráveis. Dez por cento da doação destina-se a operações futuras.

    Care
    A Care está no terreno no Nepal e pede doações. O seu plano é o de alcançar mais de 75 mil pessoas e oferecer abrigo temporário, alimentação e kits de purificação de água.

    Ajudar o Nepal
    Trata-se de uma rede nepalesa de apoio humanitário no Nepal. A sua acção, como explica a organização no seu espaço na Internet, concentra-se sobretudo no apoio educativo e médico.


  • O Dia da Mãe é sempre aquele dia que não gostamos de ignorar (afinal, mãe é mãe), mas que também não achamos necessário abrir o champanhe (afinal, é só um dia que alguém inventou). Ou seja, gostamos sempre de ter uma lembrancinha para as nossas mães queridas, mas não queremos gastar muito dinheiro, certo? Este dilema ganha proporções mais dramáticas para os jovens pais que querem dar algo especial às mulheres em nome dos filhos que ainda não têm idade para irem às compras sozinhos.
    Assim, para além de recomendar o meu novo livro, que, modéstia à parte, tenho a certeza que a maioria das mães ia gostar de receber, deixo aqui outra sugestão bem original e pouco dispendiosa:

    - um print personalizado da autoria da talentosa Sofia Silva



    Tal como todas as outras ilustrações que compõe as «Coisas Que Uma Mãe Descobre (e de que ninguém fala)», esta está à venda no blog da artista e pode ser personalizada com o nome ou nomes dos vossos filhotes. Agora imaginem numa moldura bonita pendurado na parede da sala ou do quarto. Digam lá que não é uma graça?

    E o melhor é o preço: apenas €10 para um print de 18x13cm. Apressem-se porque a Sofia só aceita encomendas até domingo (26/04) de modo a conseguir garantir que todas chegam a tempo. Ah, pois, para os mais distraídos, o Dia da Mãe é já a 3 de Maio.

  • O nome. Antropónimo. O nosso primeiro vínculo com o mundo. A confirmação da nossa existência. Parte inseparável da nossa identidade, tantas vezes influenciadora do carácter do denominado. Sim, o nome. Esse que deixa de existir a partir da concepção.

    Tudo começa nas consultas de obstetrícia. “Olá Mãe”, “sente-se aqui, Mãe”, “o seu livrinho, Mãe”, “está de quantas semanas, Mãe?”. Das enfermeiras às auxiliares, não há quem se lembre de usar o nosso nome. Também há amigos e familiares que, de forma carinhosa, começam a chamar-nos Mamã por tudo e por nada. Até aqui tudo bem. No meio de tanta felicidade, a antecipação dessa nova faceta na nossa vida acaba por nos enternecer. Só que o caso muda de figura quando as crianças nascem. A partir desse momento, quer se goste, quer não, do senhor do café, à dona da mercearia, todos ficam com amnésia e passam a referir-se a nós como “a Mãe de”, com a maior das naturalidades e sem que possamos ripostar. Pior: há maridos que começam a fazê-lo. Senhores, por favor, não façam isso. A sério, deixem esse tratamento para a vossa mãezinha, a bem de uma vida sexual saudável.

    Adiante! À medida que as crianças começam a socializar, seja no infantário, seja no parque lá do bairro, a coisa só piora. Dá um beijinho à Mãe do António, Diz adeus à mãe da Sofia, Boa tarde, daqui fala a Mãe do Nuno, Queres ir ao cinema com a Mãe da Rita?, até que, por fim, somos nós próprias que nos alheamos na nossa identidade, acabando por proferir a torto e a direito um “Olá, sou a Mãe do Tiago e da Carlota”.

    E se a coisa se passa assim quando estamos a conversar cara a cara, quando nos olham nos olhos e vêem efectivamente quem somos para lá do nosso papel de progenitora, nem queiram saber o suplício que se pode tornar uma simples conversa telefónica. Passo a transcrever o último telefonema com a costureira onde costumo por as roupas a arranjar:

    - Boa tarde dona Estefânia, daqui fala a Filipa.
    - Ah, que Filipa?
    - Filipa Silva
    - Não estou a ver...
    - A Filipa, da bicicleta
    (silêncio do outro lado)
    - A Filipa, estive aí no outro dia com um vestido branco para apertar, lembra-se?
    - Ah sim, loura, não é?
    - Não dona Estefânia, morena, baixinha... A Filipa, a mãe do Tiago e da Carlota!
    - Ah! Claro! Filipinha, como vai? E o Tiaguinho como está? Não o vejo há tanto tempo...e a menina? blá, blá, blá, blá, blá, blá...

    E pronto, andamos décadas a construir a nossa identidade, pelo estilo de vida, pelo aspecto físico, pela ocupação, pelos lugares que frequentamos, pelos livros que lemos, pela música que ouvimos, para num instante ficarmos reduzidas a isto. Ou aumentadas. Sim, deixamos de ter nome, mas ser “A Mãe” de alguém, no fundo, no fundo, compensa largamente a perda momentânea da nossa individualidade.

    Texto originalmente publicado no livro Coisas Que Uma Mãe Descobre (e de que ninguém fala)

  • Há uma história que se conta acerca das diferenças culturais entre americanos e portugueses. O americano vê o vizinho num carro novo e pensa: "Ena, tem um carro novo, deve ter trabalhado bem para isso". Já o tuga, pensa: "olha, olha aquele chico-esperto com um carro novo, deve andar a traficar droga ou a roubar alguém".

    Sim, o tuga é invejoso por natureza. Não sei de onde vem tamanha tacanhez, mas a verdade é que muitos portugueses não perdem a oportunidade de desdenhar quem tenha algum tipo de êxito, seja pessoal ou profissional. E pior, tenta relativizar sempre a dimensão do mesmo. "Não percebo porque é que lhe acham tanta graça", "não é assim tão gira", "foi promovido? grande coisa!", "qualquer pessoa faz aquilo", "melhor do mundo? Não acho nada".

    Podia ficar aqui um dia inteiro a citar exemplos de portugueses massacrados diariamente por este odioso sentimento, ainda por cima destilado dos seus compatriotas, mas prefiro apenas falar de mim, que nem sequer sou assim tão conhecida, nem bem sucedida.

    É incrível o número de hienas que estão lá em baixo, na base da árvore do meu sucesso, à espera que eu caia. São as hienas que andam sempre a vigiar, ansiando por um passo em falso. São as hienas que nunca me congratulam por um novo feito e que, confrontadas com o mesmo, se saem com um desdenhoso "ah, é verdade, lançaste um livro não foi?", como se fosse a coisa mais banal do mundo. Top 100 da Amazon? Grande coisa. Agora tem a mania que é escritora. Olha para ela, armada em boa, a partilhar fotografias dos programas onde esteve. Só programas foleiros, claro. De certeza que anda a escrever no trabalho. Só pode. Como é que ela tem tempo, com dois filhos? Ou então paga a alguém para escrever por ela. A vaca, que nem amamenta os filhos. E feia, ainda por cima.

    Pois, a inveja...
    Desde cedo que tive de lidar com ela. Primeiro porque a minha mãe me vestia bem demais (pindérica, vaidosa), depois porque os meus pais tinham lojas conhecidas (tem a mania que é rica) ou porque era uma aluna interessada e todos os professores gostavam de mim (graxista). Daí que também cedo tenha aprendido que o melhor a fazer é continuar a subir, sem olhar para baixo, mesmo correndo o risco de ver a minha determinação e auto-confiança confundida com altivez. Azar. Nunca fui indelicada, nunca pedi favores, nunca usufruí de qualquer vantagem. Tudo o que conquistei foi por mérito próprio, fruto do meu trabalho e das minhas horas sem dormir. Porque quando se faz o que se gosta, encontra-se tempo para tudo. Tempo, imaginação e vontade.

    A inveja...
    A inveja corrói e não é por acaso que é considerada um dos pecados mortais. Alimenta-se de todas as inseguranças e medos de falhar. Cega-nos até deixarmos de ver a mais clara evidência: o sucesso dá muito trabalho e há quem arregace as mangas e avance sem medo, procurando todos os dias fazer mais e melhor, e quem fique a ver a vida a passar.

    Por isso, aos invejosos, digo apenas isto: continuem a roer-se. Roam-se até não terem dedos, até não terem língua para espalhar o vosso veneno. Pretendo continuar a dar-vos bastantes motivos para o fazerem.