• A Dona Infância era muito pequenina e sorridente, como se quem lhe pôs o nome tivesse vislumbrado numa recém-nascida o tipo de mulher em que se iria tornar. No dia em que a conheci, não queria acreditar que tivesse mesmo aquele nome. Ninguém se chama Infância, dizia eu do alto dos meus seis anos, Infância não é um nome. É sim, respondia ela, é o meu nome. E eu ria-me muito, porque não sabia que as pessoas podiam ter nomes assim.

    A Dona Infância cirandava pela casa a uma velocidade estonteante. Admira-me que não tenha partido mais bibelôs, tal era a pressa com que passava de umas prateleiras para as outras com o pano cor-de-laranja. Pensando bem, partiu bastantes. A minha mãe ficava furiosa, não pelo acidente em si, mas porque a D. Infância nem sempre confessava o crime e deixava ficar lá o objecto arrumadinho, até ao dia em que alguém lhe tocava e reparava que estava partido. A mim dava-me jeito o desleixo, pois das poucas vezes que parti alguma coisa, fiz como ela, evitando um raspanete. 

    A Dona Infância andava sempre a correr, escada acima, escada abaixo, com as socas brancas a espancarem o chão, e nunca tinha tempo para brincar comigo. Assim, andava eu atrás dela a fazer perguntas e a contar histórias. Foge daí sua magana, dizia-me ela quando eu me sentava na cama que ela acabara de fazer. E eu ria-me muito, porque nunca tinha ouvido a palavra magana. 

    A Dona Infância chamava-nos meninos e levava-nos o lanche num tabuleiro. Pão com manteiga para um, pão com fiambre para outro, leite com chocolate para um, sem chocolate para o outro e ainda voltava para trás quando os meninos mimados diziam que afinal queriam bolachas. Eu não gostava que ela andasse para a frente e para trás, por isso, comia quase sempre o que ela trazia, mesmo que não me apetecesse.

    A Dona Infância nunca fazia queixinhas aos nossos pais, por mais disparates que fizéssemos, e eram muitos, sobretudo quando convidávamos os amigos ou os primos para brincarem lá em casa. Deixava-nos fazer cabaninhas com os lençóis acabados de passar, deixava-nos escorregar pela escada num colchão, a fingir que estávamos a descer rápidos, deixava-nos pôr a televisão aos berros e saltar em cima da cama e nunca nos pediu para tirar os sapatos para não sujarmos o chão. Quando eu e o meu irmão nos pegávamos, a Dona Infância era o meu esconderijo e dizia fique aqui ao pé de mim menina, deixe lá estar o seu irmão. E eu ficava e deixava que me fizesse festinhas com as mãos ásperas.

    A Dona Infância não sabia ler. Foi um choque para mim quando me apercebi disso. Um adulto que não sabia ler? Então nunca foi à escola? Não, menina. Porquê? Porque tive de ir ajudar os meus pais no campo. E lá não havia escolas? Não. E porque é que não aprendeu depois? Porque comecei a trabalhar e não tinha tempo. Então como é que sabe qual o autocarro para casa? Pelo número. E quando a sua filha leva recados no caderno como é que sabe o que é que está lá escrito? Ela lê para mim. E a sua filha nunca lhe ensinou? Não. Porquê? Porque ela tem mais do que fazer e tem de estudar muito. E como é que assina o seu nome nos testes? Com uma cruz. E eu ria-me, porque não sabia que era possível alguém não saber escrever o nome. 

    No dia seguinte, decidi ensinar a Dona Infância a ler. Tinha sete anos. Todos os dias, enquanto a minha mãe não chegava e a D. Infância não tinha outro remédio senão ficar comigo, ia buscar o meu livro da primeira classe e ensinava-lhe as letras. Primeiro as vogais, depois as consoantes, como eu tinha apreendido. A Dona Infância não tinha paciência nenhuma para aquilo. Já estava de casaco vestido e só olhava para o relógio a fazer contas de cabeça ao tempo que ia demorar a chegar a casa se perdesse o próximo autocarro. Meia hora de caminho, mais fazer o jantar para filha, mais arrumar a casa dela depois de horas a arrumar a nossa. E eu irritava-me porque era tão fácil ler e ela não queria aprender. Então, mandava-lhe trabalhos de casa, que ela levava na mala mas nunca fazia. Porém não desisti: só a larguei quando me certifiquei de que sabia escrever o seu nome. 

    A Dona Infância uma vez levou-me a casa dela. Fomos de autocarro, no catorze, e chegámos a um bairro com muito prédios e poucas árvores. O dela era verde seco. Não me lembro bem da casa, mas lembro-me da filha, a Luísa. Estava decidida a não gostar dela. Imaginava-a uma filha má, baixinha e carrancuda, que nunca tinha ensinado a própria mãe a ler. Deparei-me com uma mulher alta, ruiva, e sorridente. Tinha uma voz muito calma e um tom muito doce e piscou-me o olho antes de se fechar no quarto. Passei a gostar dela.

    A Dona Infância um dia foi-se embora e eu chorei muito. Fiquei mesmo zangada com a minha mãe por ter permitido tal coisa, longe de saber as razões de uma e de outra. Ao longo dos anos fui-me cruzando com ela na rua e dava-lhe sempre um grande beijinho. Trabalhava numa outra casa ali perto. Também tem meninos? Perguntei numa das primeiras vezes em que nos encontrámos. Não, menina, é a casa de uma senhora velhota. E eu fiquei aliviada porque não ia haver outra menina para roubar o meu lugar. 

    Os anos passaram, eu deixei de a ver, mas mesmo depois de vir morar para Lisboa, ia tendo notícias suas. Volta e meia a minha mãe lá me dizia, sabes quem encontrei hoje na rua? A Dona Infância. Perguntou por ti e mandou-te um beijinho. E eu ria-me, porque me lembrava sempre dos seus beijinhos apressados, como toda ela. Até que um dia a minha mãe me disse, sabes quem morreu? A Dona Infância. E eu não achei graça nenhuma. Não tem graça nenhuma não nos podermos despedir das pessoas por quem temos algum carinho. Não tem graça nenhuma perder alguém que, embora muito distante, faz parte da nossa vida. Mas logo depois comecei a recordar os inúmeros episódios que vivemos juntas e não pude deixar de sorrir. Dela só retenho memórias boas. As memórias da minha Infância.





  • Ouvi dizer  que a Apple e o Facebook anunciaram que vão financiar o congelamento de óvulos para que as suas funcionárias possam adiar a maternidade.
    (Pausa.
    Pausa de incredulidade, de indignação, de estupefacção.)
    É das coisas mais assustadoras e ignóbeis que li em toda a minha vida. Aliás, enquanto mãe e mulher, é tão revoltante, que me apetece deitar o Mac onde estou a escrever pela janela fora e apagar todas as minha contas do Facebook.
    Segundo os defensores desta nova modinha de Silicon Valley, a medida permite que as mulheres dediquem os melhores anos da sua vida às suas carreiras, alcançando cargos nunca antes imaginados, até agora dominados por homens, podendo mais tarde (provavelmente aos 50, porque não?) abrandar o ritmo e ter filhos. É um procedimento caro, que não está coberto por seguros de saúde e, no fundo, os "beneméritos" estão a fazer um favor e a incentivar a natalidade, ainda que geriática.
    Ora, eu sei que os produtos criados por estas empresas são (supostamente!) facilitadores da vida moderna. O telefone que é um computador, o relógio que dá música, o tablet que armazena bibliotecas inteiras, a rede social que nos faz estar a par de tudo o que os nossos  amigos andam a fazer, as aplicações e todas as distracções que nos estão a tornar cada vez menos humanos, cada vez menos sociais. Mas sabem de uma coisa caros senhores de Silicon Valley? Não precisamos que interfiram nos nossos ciclos reprodutivos.
    Se querem realmente contar com as mulheres nas vossas empresas podem começar por lhes pagar o mesmo que pagam aos homens. Com um salário melhor, as mães não têm de sacrificar a carreira para dar atenção aos filhos. Porque podem pagar a uma empregada para lhes orientar a casa, a roupa e a cozinha; podem contratar uma ama para tomar conta das crianças nos dias em que têm de ficar até mais tarde; podem escolher uma casa perto do local de trabalho, para poupar o tempo de deslocações e assim terem mais horas livres para o seu cargo e para as crianças. Depois podem usar o dinheiro dos óvulos e usá-los para pagar as licenças de maternidade prolongadas, ou os dias em que temos de faltar porque os miúdos estão doentes ou têm a festa da escola. Por último, podem mesmo criar creches e ATLs no edifício, para que as mães não tenham de sair a correr de uma reunião porque a escola vai fechar e ninguém foi buscar o miúdo. Tal como criam refeitórios, ginásios e, no caso da nova sede do Facebook, canil! Com todo o respeito e amor que tenho por animais, construir um canil e não construir uma creche é o mesmo que dizer "aqui só queremos solteirões sem vida, cujo único ser vivo com quem contactam para lá da porta do escritório tem quatro patas".
    Em pleno século XXI, o tipo de mentalidade por detrás desta medida é aterrorizador. O corpo humano não é software sujeito a actualizações. A seguir vão programar o sexo dos filhos conforme as necessidades demográficas? Ou financiar a eutanásia para quem tem a seu cargo familiares debilitados? Saiam mas é de trás dos vossos computadores e abram os olhos. Olhem-se ao espelho e vejam os monstros em que se tornaram. Autómatos. Vazios. Olhem pela janela e reparem em algo de expraordinário: há vida para lá do vale onde só a tecnologia se desenvolve. Há vida, há valores, há humanidade. Acima de tudo, há a melhor coisa do mundo: as crianças.


  • Malala nasceu no Paquistão em 1997. O seu pai, poeta e professor, ensinou-lhe a importância da educação, sobretudo para as meninas. Quando o região onde Malala vivia foi ocupada pelos talibãs, que começaram a proibir primeiro a televisão, depois a música e, por fim, o acesso das meninas à educação, Malala, de apenas 11 anos, criou um blog na BBC Urdu onde escrevia sobre os seus pontos de vista acerca da educação e da vida sob o domínio talibã.
    O blog chamou a atenção internacional e Malala foi história no New York Times, passando a receber ameaças de morte. O primeiro Prémio da Paz para a Juventude no Paquistão e a nomeação pelo Arcebispo Desmond Tutu para o International Children’s Peace Prize foram a gota de água: os talibãs decidiram que tinham de a calar. Assim, no dia 9 de Outubro de 2012, um talibã entrou no autocarro da escola, chamou pelo seu nome e deu-lhe um tiro na cabeça.
    Qual guerreira de um livro de aventuras, Malala sobreviveu. Os médicos dizem que foi quase milagre, eu acho que foi por vontade superior. Assim que recuperou, Malala continuou o seu trabalho, tornando-se o rosto e a voz de milhões de meninas a quem a educação é vedada por razões políticas, culturais ou religiosas. O seu discurso nas Nações Unidas, no dia em que fez 16 anos, é das coisas mais inspiradoras que já vi. Mas uma das frases que mais me marcou noutros dos seus famosos discursos foi quando disse que "milhões de crianças do mundo não querem um iPhone, ou uma playstation ou chocolates. Querem apenas um livros e uma caneta". Hoje ganhou o prémio Nobel da Paz. Mais do que merecido.

    Se quiserem seguir e apoiar o trabalho de Malala, podem fazê-lo aqui.



    PS: O prémio Nobel foi "dividido" com outro ser humano extraordinário, Kailash Satyarthi, pela sua luta pelos direitos das crianças na Índia, sobretudo o fim do trabalho infantil e direito à educação. Já salvou mais de 80 mil crianças da escravatura.