• Em 2005, Dino Casimiro tirou esta fotografia, acreditando poder tratar-se de uma das maiores ondas do mundo. Aqui, na vila da Nazaré, a apenas 100km de uma capital europeia, podia estar o próximo destino para os amantes de ondas gigantes. Garrett McNamara foi o único big wave rider contactado pela Nazaré que aceitou vir ver com os próprios olhos este fenómeno. Chegou em 2010 e deu início a um projecto que hoje corre o mundo, o ZON North Canyon.

    Este projecto resultou em três documentários (um por cada ano em que Garrett passou meses em Portugal a desafiar as ondas na Nazaré), que captam momentos magníficos, não apenas para quem gosta de surf, mas para todos os que gostam de uma boa história sobre homens que desafiam a Natureza. Além disso, foi este projecto que permitiu que Garrett quebrasse o recorde do Guinness da maior onda alguma vez surfada.

    Este mês foi finalmente lançado o site oficial do projecto, onde a história é contada através de imagens inéditas lindíssimas e vídeos surpreendentes. Eu tive a honra de escrever os textos para este site. Um trabalho um pouco ingrato, uma vez que neste caso cada imagem vale mesmo mais que mil palavras. De qualquer modo espero que gostem do site e gozem a viagem.





  • Uma das minhas citações preferidas é da escritora Doris Lessing, que, muito antes de atingir maior popularidade com o Nobel da Literatura, disse algo como "Algumas pessoas obtêm fama, outras merecem-na". É que isto da fama tem muito que se lhe diga, sobretudo na sociedade hipermediatizada em que vivemos. Na maioria dos casos, os famosos de hoje são-no por coisas banais e até estúpidas, que vão dos reality shows às festas da moda, passando  pelo trabalho de empresas de relações públicas pagas a peso de ouro, deixando no anonimato aqueles cujo nome não deveria ser esquecido. Nomes como Alberto Janes, poeta e compositor.

    As poucas pessoas que têm a sorte de conhecer a obra deste senhor estão ligadas ao fado, onde se mantém uma referência incontornável. É que Alberto Janes escreveu e compôs alguns dos fados mais conhecidos do repertório de Amália Rodrigues, como "Foi Deus", "Oiça lá ó Sr.Vinho", "É ou não é", "Vou dar de beber à dor", só para citar alguns. Só que, ao contrário de outros, que viveram na sombra da Diva em busca de protagonismo, este poeta não procurou mais do que alguém que desse vida às suas palavras, continuando a sua vida discreta de farmacêutico e, mais tarde, professor.

    Há uns anos tive o privilégio de poder ler e compilar a obra completa de Alberto Janes, que estava espalhada entre folhas e cadernos avulsos num apartamento no centro de Oeiras, depois da sua mulher morrer. Um privilégio apenas possível por ser casada com um dos seus netos. Quando conheci o Hugo, ele perguntou se eu gostava de fado e se conhecia o seu avô. Respondi com sinceridade: embora gostasse muito de fado, o nome Alberto Janes não me dizia nada. Com o tempo fui conhecendo a obra e ficando cada vez mais curiosa. Gosto de poetas e autores que escrevem de forma simples, sem floreados, sobre temas universais, sobre sentimentos comuns a todos a nós. Queria ler mais e mais e não descansei enquanto não pus as mãos naqueles cadernos antigos e cheios de versos verdadeiros. Bem dita a hora.

    Descobri uma obra de grande qualidade e que, quer queiramos, quer não, faz parte da história do Fado e da Poesia portuguesa. Uma obra que não faz sentido continuar escondida. É um projecto da família um dia editá-la, mas até lá, e porque hoje se celebra o Dia Mundial da Poesia, partilho convosco um dos meus poemas preferidos, na esperança de começar a tirar Alberto Janes do esquecimento. Não só pelo meu marido e pelos meus filhos, que já têm como legado o sangue deste poeta nas veias, mas por todos os que gostam de coisas bonitas.



    AOS MEUS

    Os meus versos, nem eu sei
    Porque os faço, na verdade,
    Quando a tristeza me invade
    Como se fosse um castigo,
    Sinto uma voz interior,
    Que me fala, que me anima,
    Numa conversa que rima,
    Talvez a brincar comigo.

    Às vezes, na hora triste
    Da tarde em que o Sol se esconde,
    Fecho os olhos, nem sei onde,
    Vai caminhando o meu ser,
    Que sinto ao morrer do dia,
    Rasgado dentro do peito,
    Um poema de dor feito,
    Que nunca soube escrever.

    E num dia igual a tantos,
    Em que parta, me vá embora,
    Deve ser àquela hora
    Tão sombria do sol pôr,
    Os amigos, os meus filhos
    E quem se lembrar de mim,
    Conhece lendo-me assim,
    A minha vida interior.

    Alberto Janes (1909-1971)




  • Um dos maiores desafios de uma gravidez é manter a sanidade mental perante as enormes transformações a que o nosso corpo está sujeito. Não me refiro apenas aos inevitáveis quilos a mais, alargamento das ancas, das costas, dos pés, inchaços e demais transtornos. O grande problema são mesmo as hormonas.

    Da puberdade à menopausa, o desequilíbrio hormonal é algo com que todas as mulheres aprendem a conviver, devido àquela coisa fantástica que se chama menstruação. Há sempre uns dias do mês em que nos sentimos mais irritadas ou cansadas ou vulneráveis ou tudo isso ao mesmo tempo. E se, por um lado, a gravidez nos dá vários meses de tréguas desse problema, por outro, altera a função de praticamente todas as glândulas do organismo resultando em estados psicológicos ainda mais difíceis de controlar e que duram não apenas uns dias por mês, mas toda uma gestação.

    É que a placenta produz várias hormonas necessárias à manutenção da gravidez. A principal hormona que a placenta produz, a gonadotropina coriónica humana, evita que os ovários libertem óvulos e estimula-os a produzir continuamente valores elevados de estrogénios e de progesterona, que são necessários para que a gestação prossiga. A placenta também produz uma hormona que estimula a actividade da tiróide. Uma tiróide mais activa muitas vezes acelera a frequência cardíaca e provoca palpitações, sudação excessiva e instabilidade emocional. Muitas vezes é uma maneira de dizer. A verdade é que, pela minha dupla experiência e observação de outras grávidas, é SEMPRE.

    Como resultado, as grávidas choram, as grávidas gritam, as grávidas perdem a cabeça com coisas tão parvas como partir um copo ou deixar queimar o arroz. Para mais, as grávidas sentem-se sozinhas e incompreendidas, pelo que o apoio das amigas é essencial e os telefonemas e visitas muito apreciados. As grávidas sentem-se assustadas e ansiosas, pelo que a compra compulsiva de tudo quanto é livro e revista da especialidade é perfeitamente normal, mesmo quando já ocupam uma prateleira inteira da sala. As grávidas sentem-se menos atraentes, pelo que é importante que os companheiros as acarinhem e elogiem, mesmo naqueles dias em que, à simples pergunta “Porque é que estás tão mal disposta?”, a resposta for “Porque é de manhã e tu estás a falar”.

    A má notícia é que pouco há a fazer para contrariar este estado. Quem convive com uma grávida tem de se munir de uma dose extra de paciência e compreensão. Respirem fundo e peçam desculpa, mesmo sem saber bem porquê. Não façam muitas perguntas, muito menos daquelas parvas tipo “o que é que tens?” ou “o que é que eu fiz?”. Não contem como se divertiram imenso na discoteca até às seis da manhã ou de como estava delicioso o jantar de bife tártaro acompanhado de vinho tinto. Acima de tudo, não se queixem a uma grávida. Nenhum problema, a não ser que seja uma doença grave ou um acidente quase letal, se compara às privações e provações a que uma mulher está sujeita durante a gravidez. O “hoje dói-me tanto a cabeça” ou “não preguei olho a noite passada” podem ser mesmo considerados insultos, sobretudo nas últimas semanas de gestação.

    A boa notícia é que é um estado temporário. Bom, na verdade, o início da amamentação também provoca desequilíbrios hormonais, desta vez devido à acção de outras duas queridas hormonas, a prolactina e da ocitocina, sendo por isso importante manter o stock de Kleneex em casa. Mas com o tempo, a coisa acalma e a mulher volta ao ritmo de desequilíbrio mensal a que todos estavam habituados. Depois de sobreviver às sevícias das hormonas da gravidez e puerpério, a TPM parecerá uma brincadeira de crianças.


    PS: deixem nos comentários as vossas experiências de desequilíbrio hormonal :D
    A minha mais grave foi quando atirei um balde de tinta amarela à porta de um café em obras, porque eles insistiam em começar a fazer barulho antes das 8 da manhã (ainda há vestígios de tinta no passeio...)


  • Não é segredo para ninguém que anda por aí muita gente estúpida. Faz parte da vida e do equilíbrio do Universo. Aliás, a Humanidade não existiria se todos os seres humanos fossem brilhantes, inteligentes e dedicados ao pensamento. Seríamos ingovernáveis, viveríamos na anarquia, morreríamos de fome e de frio, porque as tarefas intelectuais alimentam a alma, mas não o corpo.

    O problema surge quando as pessoas estúpidas chegam a posições de poder. E são tantas... Não apenas no poder que nos governa, mas sobretudo nas actividades que fazem parte do nosso dia-a-dia. O chamado poderzinho. O poderzinho não mata mas mói. Encosta-nos à parede, tenta humilhar-nos sem necessidade, sem motivo aparente, apenas porque sim, apenas para se sentir momentaneamente superior.

    Um exemplo de poderzinho é o exercido por certos elementos das forças de autoridade. Sabem aquele polícia antipático que gosta de se fazer de mau e ameaçar-nos com uma multa quando paramos o carro em segunda fila por dois minutos, mas que depois estaciona o seu veículo em cima do passeio ou em frente à garagem? Aquele que nem diz bom dia, passando logo para o “os seus documentos por favor”? Tenho um desses na minha rua. Está sempre a saltitar de café em café, a desfilar a sua enorme barriga flácida, e só se mexe para chatear quem pára mal o carro. Faria melhor figura se multasse quem passa a mais de 60km/h numa zona residencial, ou chamasse a atenção de quem deixa o cãozinho fazer necessidades no passeio. Mas não. Isso seria fazer algo útil pela sociedade, algo que os estúpidos não conseguem alcançar.

    Outro exemplo de estúpidos que gostam de exercer o seu poderzinho são os chefes autoritários. Lá está, se não fossem estúpidos não tinham necessidade de serem desagradáveis com os colegas. Normalmente dividem-se em dois tipos: os que gritam, exigem, dão ordens, mas nunca põem a mão na massa, não se coibindo, no entanto, de ficar com os louros do trabalho dos outros; e os que são tão inseguros que querem fazer tudo sozinhos, para mostrarem trabalho e se sentirem imprescindíveis, em vez de delegar, ensinar e trazer o melhor da sua equipa ao de cima. Qualquer um dos tipos tem duas caras: a cara de mau para os subordinados e a cara de animal amestrado para os superiores hierárquicos. E qualquer um dos tipos tem também um desfecho de carreira: ou os seus superiores são igualmente medíocres e protegem-se uns aos outros nos seus cargos de chefia, perpetuando a estupidez corporativa; ou os seus superiores não são estúpidos e acabam por colocá-lo numa posição aparentemente privilegiada, mas que é apenas uma maneira de limitar os estragos que a sua estupidez poderia provocar na organização. (Agora já sabem porque é que o estúpido que não dá uma para a caixa tem o título de director e um gabinete só para ele.)

    Depois temos o funcionário público estúpido: aquele que nos deixa ficar na fila durante duas horas para depois nos dizer que tínhamos de ter o papel, o carimbo, o impresso, o documento ou o raio que o parta, mas agora só amanhã. Aquele que nos olha com um ar superior e um sorriso maléfico enquanto nos entope com burocracias e exigências, sabendo que não temos outro remédio senão obedecer e esperar o tempo que for preciso. E ainda há o professor estúpido, que descarrega as suas frustrações nos miúdos, o segurança estúpido que nunca pode fazer nada, o porteiro de discoteca, enfim, os exemplos são incontáveis, infelizmente.

    Bem sei que os estúpidos também têm direito à vida e a uma carreira profissional, mas não deviam ter direito a estar em posições em que possam deliberadamente prejudicar ou dificultar a vida dos outros. Como se infernizar quem lhes aparece pela frente com a sua boçalidade fosse a maneira de se vingarem de uma vida chata e sem perspectiva de melhoras.

    Devia haver uma lei universal, tão definitiva como a lei da gravidade, que proibisse o acesso de pessoas estúpidas a qualquer tipo de poder. Por exemplo, numa candidatura a uma função ou promoção, havia um teste ao nível de estupidez do candidato e quem se revelasse uma besta, simplesmente não poderia ser admitido (por mais cunhas que tivesse ou favores que fizesse). “Muito obrigado pelo seu tempo e pela sua candidatura, mas o teste revelou que você é demasiado estúpido para este lugar. Boa tarde e boa sorte”. E pronto, o estúpido ia à sua vida e o mundo era um lugar melhor. Porque a estupidez humana não tem limites, mas devia ter.

  • De tempos a tempos surge um verdadeiro ícone da moda. Não estou a falar das "it-girls" que os fashionistas adoram e que normalmente são modelos ou musas dos designers. Estou a falar daquelas mulheres que não sendo modelos profissionais, seja em que aparição pública for, estão sempre deslumbrantes.

    Não é nada fácil alcançar esse estatuto, até porque as revistas e bloggers de moda não dão hipóteses a qualquer erro. Basta um vestido mal escolhido para determinada celebridade ser ridicularizada, com a mesma facilidade com que, na semana anterior, fora idolatrada. E a época dos prémios, que vai dos Gotham Awards aos Óscares é, por excelência, a altura em que todos os holofotes estão apontados para as passadeiras vermelhas, à espera do desfile das estrelas e dos seus erros de guarda-roupa. Mas para a queniana Lupita Nyong'o parece fácil.

    A actriz, que começou a dar nas vistas no Outono passado, quando o filme "12 anos escravo" começou a ser apontado como um favorito para os Óscares, a cada aparição pública dá uma lição de estilo. De Outubro até à noite de ontem, conseguiu estar irrepreensível em todas as passadeiras vermelhas. De tal forma que depressa se tornou a estrela de vários editoriais de moda, Vogue incluída, e foi escolhida como cara da nova campanha da Miu Miu. E se hoje não é segredo que todas as estrelas têm o seu "personal stylist" para ajudar na escolha da indumentária de cada ocasião, também é verdade que,  no que toca a estilo, ou se tem ou não. No caso de Lupita, cuja "stylist" é a não tão conhecida Michaela Erlanger, o estilo emana para lá dos vestidos e é difícil encontrar uma fotografia em que não esteja linda de morrer. De sorriso doce e pele de chocolate, talento nato e sentido de estilo, acredito que Lupita se vai tornar num ícone da moda (e não só!) para várias gerações. O Óscar para Melhor Actriz Secundária que ganhou ontem à noite será apenas o começo.