• Os Domingos são os dias que custam mais a passar. O café está fechado, o quiosque só abre de manhã, a carrinha da escola não pára à porta para recolher os miúdos, os carros não buzinam apressados. Quase toda a vizinhança tem algo melhor para fazer do que calcorrear aquelas ruas quotidianas, que ficam então plácidas e entregues aos sons do vento nas árvores.

    Tomo o pequeno almoço, tomo os comprimidos, tomo o meu banho e passo a manhã no quiosque a discutir as notícias do dia com o Sr. Manel e outros dos seus clientes. Prefiro quando somos só os dois. Os outros só gostam de falar de futebol.

    Acabo por comprar o Correio da Manhã, mas é mais por hábito. Lembra-me quando os miúdos eram pequenos e disputavam as páginas do Chico Omelete. Às vezes ainda passam lá por casa, mas é mais para uma visita rápida e a certeza de que lhes dou uma nota para irem gastar nas noitadas ou em lá o que é. Já não têm o teu bolo de laranja por que ansiar. Já não acham graça às minhas histórias. Já cresceram.

    Quando o Sr. Manel fecha o quiosque a rua fica deserta e restam-me ir ao Esteves. Lembras-te do Esteves? Adoravas lá ir para comer o arroz de marisco. Eu nunca gostei muito de tal iguaria, mas comia para te acompanhar porque a dose era para dois. Agora, sempre que lá vou, não me apetece outra coisa, embora tenha de me calar com pataniscas ou uma sopa de cozido. Eu sei que não devia comer sopa de cozido, que tenho dificuldade em digerir comidas tão pesadas e que um peixinho me faria melhor, mas o que é que queres? Não consigo comer peixe sem estar arranjado. Valem-me as pataniscas.

    Sento-me sempre na mesma mesa, a nossa mesa, que o Esteves simpaticamente reserva com uma daquelas placas castanhas com letras douradas. Sento-me no teu lugar, porque é virado para a televisão e sempre me vou distraindo, ao invés de estar a olhar para as pessoas nas outras mesas. Não sei como é que conseguias estar ali sentada a refeição inteira sem que o olhar te fugisse para aquele ecrã. Ignoravas simplesmente a sua existência, que quando se está à mesa é falta de educação estar a olhar para o lado.

    Como devagar. Não que esteja a saborear o prato, mas antes para que o tempo vá passando e não tenha de ir logo para casa. Nos dias de maior movimento noto os olhares reprovadores das pessoas que esperam por uma mesa. Normalmente são jovens, cheios de pressa, impacientes. Habituaram-se a ter tudo a toda a hora e depois ficam nervosos se alguém lhes pede para esperar. Olham-me com desdém, como quem se interroga se eu não tenho mais nada que fazer do que estar ali a ocupar uma mesa que dava perfeitamente para quatro com o meu pudim comido lentamente com uma colher de café. Ignoro-os. Felizmente o Esteves também. Nunca me fez sentir a mais, nunca me apresentou a conta antes de eu lha pedir, nunca me tirou o prato da frente para me apressar. Um bom homem o Esteves. Por isso continuo a ir lá todos os Domingos. E quando o Pedro me quer levar a almoçar a outro lado, digo que não. Prefiro ir ao Esteves, onde pelo menos, às vezes, cheira a arroz de marisco.

    Se está de chuva fico por lá mais um bocado, a tentar entreter-me com o jornal enquanto ouço as conversas das mesas do lado se estas me despertam a atenção. E olha que ouço com cada uma... Melhor que muitos argumentos de telenovela, podes crer. Se aqui estivesses também ias achar graça. Parece que te estou a ver a erguer a sobrancelha e a esconder o riso por detrás do guardanapo.

    Se está bom tempo vou caminhar pelas ruas desertas até ser vencido pelo cansaço e voltar para casa. Custa-me subir as escadas, custa-me abrir a porta, custa-me ver o teu cadeirão vazio. Se ao menos tivesse um gato. Bem me disseste para arranjar um gato. Qualquer dia sigo o teu conselho. Diz que são asseados e fazem muita companhia.

    Para afastar as saudades faço uma panela de sopa com a receita que me deixaste. Eu sei que podia experimentar outra receita, que uma sopa pode ser de qualquer coisa, mas eu só gosto da tua. Fico ali a ver os legumes a cozinhar lentamente e sempre se passa mais uma hora.

    Durmo uma sesta. Leio um bocado. Como a sopa. Vejo o telejornal. Falo ao telefone com a Marisa, que continua sem perceber porque é que eu não vou viver para casa dela. Eu lá ia deixar esta casa? Seria como deixar-te. Não, não quero deixar-te. Tu que estás no espelho do quarto a admirar o vestido antes de sairmos para jantar. Tu que estás no corredor a pendurar os casacos que os miúdos largaram no chão. Tu que estás a passar a ferro ao pé da janela. Tu que estás em cada um dos meus suspiros há mais de cinquenta anos.

    Vou para a cama e fecho os olhos com força, na esperança de fazer o sono chegar. Na esperança de que este Domingo passe depressa e com ele a dor de estar mais um dia sem ti.


    ©ruhunuyaka


  • Agora que já estás há tanto tempo no mundo quanto estiveste dentro de mim, apetece-me engolir-te para voltarmos a ser um só. Mas depois deixo de ser egoísta e fico imensamente feliz por te poder partilhar. Porque o mundo precisa de coisas fofas e doces. E porque contigo o mundo é, infinita e inquestionavelmente, um lugar melhor.




  • Escrevi "Os 30" durante o final de 2009 e o início de 2010. Os tempos estavam difíceis, a crise era global, mas como também já andávamos em crise desde 2001, a malta ia andando (expressão típica portuguesa que tão bem exprime o nosso temperamento) sem se queixar mais do que o costume.

    O livro (para quem, escandalosamente ainda não leu!) conta a história de um grupo de amigos dos tempos de faculdade, que se reúnem num jantar depois de muito tempo afastados. É contada por três personagens, com três visões e experiências diferentes da vida, uma das quais até se pode dar ao luxo de viver às custas do marido. 

    Ora serve esta crónica simplesmente para dizer que se fosse hoje, o livro se calhar não existia, visto que os amigos continuariam afastados e dificilmente se iriam reunir nos próximos anos ou mesmo décadas. Um estaria emigrado na Noruega, outro no Canadá, outro no Brasil, outro em Angola, outro em Singapura, e outro no interior do país a viver com os pais, depois de ter entregado a casa ao banco. Iam-se mantendo em contacto via Facebook e com uma ou outra ligação via Skype e iam adiando as promessas de uma visita ("vem que só tens de pagar a viagem e podes ficar cá em casa) porque os vinte dias de férias por ano não dão para tudo e é sempre preciso guardar uns quantos para ir a Portugal comer uns caracóis em Agosto.

    Ai Portugal, Portugal, ou nas palavras de Pessoa:

    "Senhor, a noite veio e a alma é vil.
    Tanta foi a tormenta e a vontade!
    Restam-nos hoje, no silencio hostil,
    O mar universal e a saudade."