• Até há sete semanas, ficava de mau humor se dormisse menos de oito horas por noite ou saltasse uma refeição. Ficava doente por ver a sala desarrumada, com almofadas caídas no chão e copos espalhados na mesa, ou sempre que o cesto da roupa suja começava a transbordar. Era impensável não ter as unhas impecáveis, salpicadas por vernizes da cor mais fashion da estação, ou passar um dia sem calçar um dos quarenta pares de saltos altos que habitam no meu armário.

    Mas depois surgiu um pequeno ser a trocar-me as voltas todas e dou por mim a dormir nunca mais de três horas seguidas, a olhar para o relógio e reparar que passou-se meio dia desde a última vez que comi, a encontrar várias peças de roupa espalhadas pela casa, bem como copos, pacotes de leite, babetes e chuchas e simplesmente ignorá-los, a ter as unhas numa lástima, porque cada vez que vou pintá-las lembro-me que o tempo de secagem vai coincidir com a hora de mudar a fralda e, agarrem-se que esta é mesmo grave, a deparar-me com pó nos meus stilletos, tal é o tempo que passou desde a última vez que viram a luz do dia (ou da noite).

    O "amanhã é que vou cortar o cabelo" ou o "hoje à noite vou finalmente ver aquele filme" começam a soar a promessas eleitorais de final de campanha. Por isso, a primeira grande lição que o pequeno ser que se mudou cá para casa me ensinou é que não vale a pena fazer grandes planos. É viver um dia de cada vez e aproveitar horas como esta, em que calhou eu estar a passear pelo meu blog e dar-me uma enorme vontade de escrever no exacto momento em que ele dorme profundamente. Se tivesse planeado, decerto não iria conseguir.



  • Ficarei feliz no dia em que não se celebrar este dia.

    Em pleno século XXI haver a necessidade de dedicar um dia às mulheres é, para mim, um insulto e uma tristeza. Um insulto porque nos coloca no patamar dos desprotegidos, tal com as crianças, os famintos, os doentes ou as árvores. Uma tristeza porque, na verdade, continuamos a precisar de relembrar ao mundo que ainda estamos a anos luz da igualdade perante os homens.

    Ainda ganhamos menos e trabalhamos mais, ainda somos prejudicadas na carreira por querer ter filhos, ainda somos o maior grupo vítima de violência, ainda temos a maioria das tarefas domésticas por nossa conta, ainda somos olhadas de lado por enveredar por certas profissões ou por ter comportamentos típicos dos homens, ainda somos descriminadas nas mais pequenas coisas. 

    Por isso, não consigo ver o 8 de Março como uma celebração e ai de quem me oferecer nem que seja uma flor. Quanto muito posso vê-lo como uma homenagem a todas as mulheres que lutaram pela igualdade ao longo da história. E àquelas que ainda hoje lutam para que um dia este dia seja um dia igual aos outros.