• Nos dias que correm é cada vez mais comum deixarmos cair as tradições. Sobretudo as do foro privado. Há quem dispense o anel de noivado, o copo-de-àgua e até a magia de dormir a última noite de solteiros separados. Também são já muitos os que substituem o bacalhau da consoada por refeições congeladas, os que não sabem o que é um folar ou os que acham normal desejar um feliz aniversário a um amigo chegado via Facebook.

    Pois eu, que até me considero uma mulher bastante moderna e entusiasta da evolução social, compreendo que os tempos mudam as vontades e que cada um deve fazer o que faz sentido para si, mas há alguns limites.Isto a propósito de uma tradição que eu conheço desde miúda e que aparentemente o meu marido, com quem partilho a minha existência há quase 13 anos, não: que o marido deve oferecer um presente à mulher quando ela dá à luz.

    Ora para mim esta é uma daquelas tradições que pensava que toda a gente conhecia, talvez porque me lembro de ter uns cinco ou seis anos, quando a minha mãe me mostrou a pequena jóia que o meu pai lhe ofereceu quando eu nasci. Mais tarde, quando a minha irmã nasceu, também me lembro que houve uma jóia a coroar o momento. Por isso, para mim era óbvio que um dia que tivesse um filho, receberia um presente.

    Pois. Para mim. Porque para o meu marido esta foi uma notícia chocante, chegando mesmo a insinuar que eu estava a inventar a história. Na altura, expliquei-lhe que não tinha inventado nada, que pensava que era uma prática comum e até comecei por aceitar os argumentos lógicos dele, que defendiam que este é um ano difícil, uma criança dá uma enorme despesa, estamos a lançar um projecto on-line que requer financiamento, enfim. Quase lhe pedi desculpa por estar a sugerir que ele gastasse dinheiro em algo tão prescindível como uma jóia. 

    Até ao dia em que ele anunciou que ia comprar um iPhone4 xpto. Então comprar um telefone cujo preço equivale a um ordenado médio e que daqui a um ano já está desactualizado é ser moderno, enquanto que sonhar com uma jóia que simboliza o nascimento de um filho e que fica para a posterioridade é ser antiquada? Não me parece. Por isso, e estando eu na eminência de ser mãe, venho ao mundo anunciar que para mim a tradição ainda é o que era e que tanto gosto de brincos como de anéis.