• 1.

    - Tédio: um peso que me invade a alma e engole a vontade. A cada minuto que passa, transforma-se em impaciência. Um nervoso miudinho que faz parar a respiração na exacta proporção em que o coração acelera. «O que é que tens?» «Nada.» «Então, porque é que estás a suspirar?» «Porque me apetece. Porquê? Agora também não posso?» O que vale é que ele não me responde. Depois de quinze anos de vida em comum, finalmente percebeu que há alturas em que o melhor é estar calado. Porque é que estás a suspirar, pergunta ele. É preciso ter lata. É preciso estar completamente alheado do que se passa à sua volta. É preciso ser muito egocêntrico. Não sei se é por ser homem. Será que a vida é assim tão mais fácil para os homens? Claramente não têm de se preocupar com a celulite, com as unhas partidas, com o cabelo. Já não bastava a sorte de poderem fazer xixi em tudo quanto é canto, também não têm de se preocupar com as sobrancelhas, os cremes, a maquilhagem, as meias de vidro, esconder o peito para não parecer atrevida, mas não o suficiente que pareça uma frígida. Um homem de cabelo desgrenhado e barba por fazer, desde que tenha aquele cheiro a banho tomado, é sexy. Uma mulher de cabelo desgrenhado e que não teve tempo para ir à depilação, mesmo com cheiro a banho tomado, é uma desmazelada, nojenta, que devia ter vergonha de sair assim à rua. Então nesse caso, porque é que as mulheres não podem entrar uma hora depois do que os homens nos seus locais de trabalho, por exemplo? É isso que me apetece perguntar ao meu chefe quando me olha reprovadoramente se chego depois das nove e meia, lançando um irónico «Boa tarde! Obrigada por teres vindo»… O que é que eu tenho, pergunta ele. Ora, diga-me lá doutor, por onde quer que comece?
    O médico olhou para o relógio de pulso e apenas disse:
    - Desculpe, Vanessa, mas vai ter de começar na próxima sessão. Acabou-se o nosso tempo.
    - Mas doutor...
    - Ora Vanessa, já sabe as regras... Aponte o que me ia dizer, ponha isso tudo por tópicos num papel e falamos na próxima sessão.
    Agarrou na mala e no casaco com fúria e saiu disparada, batendo a porta atrás de si. Ao fim de quase dois meses de terapia continuava a não entender porque é que as sessões tinham de ser interrompidas. Logo quando uma pessoa começava a soltar-se. Sim, porque os primeiros vinte minutos quase não deviam contar. Alguém consegue sentar-se e pegar na conversa exactamente onde a tinha deixado na última sessão? O que sentira na semana anterior nada tinha a ver com o que sentia agora. Era preciso pensar, organizar as ideias, pegar no caderninho e relembrar o que tinha dito. Depois era preciso abstrair-se do mau aspecto do psiquiatra. O lábio superior suado, as unhas demasiado compridas, o blazer de xadrez todo coçado, os dentes amarelos. Não era nada fácil.
    Grande ajuda. Mais de duzentos euros por mês. Só de pensar em tudo o que poderia fazer com esse dinheiro até ficava mal disposta. Se ao menos o montante lhe fosse entregue directamente... Mas não era. O juiz fora muito claro: quarenta sessões de psicoterapia num médico escolhido pelos serviços sociais, no final das quais seria submetida a um teste por parte de uma entidade independente, que avaliaria se estava apta a conviver em sociedade. Ainda só ia em oito. Havia dias em que Vanessa não tinha a certeza se a alternativa não teria sido melhor: quatro meses de prisão efectiva. No fundo quatro meses passam a correr. O tédio seria o mesmo, mas com uma vantagem: estaria sozinha. Sem ninguém para lhe encher a cabeça, sem obrigações domésticas, sem ter de decidir o que vai ser o jantar, sem ter de saber onde estão os óculos dos outros, sem a brutalidade do quotidiano.
    Lá fora a chuva caía impiedosamente. «Porreiro», pensou, «Vou dar cabo dos sapatos». Encostou-se o mais que pôde à porta do prédio para evitar molhar-se enquanto procurava a chave do carro. Claro que teria sido uma boa ideia, não fossem as pessoas que constantemente entravam e a saiam. Os empurrões, as cotoveladas, os pedidos de desculpa por estar a incomodar, a mão a vasculhar a mala, a apalpar cada objecto, na esperança de sentir o metal da chave ou o cabedal do porta-chaves. Espelho, porta-moedas, batom, pinça, caixa dos óculos, óculos escuros, carteira, telemóvel, comprimidos. A chuva a penetrar na camurça dos sapatos. Não eram apenas uns salpicos. Eram manchas negras, que nunca mais conseguiria disfarçar. Outro encontrão, outra cotovelada e, afinal, a chave estava no bolso do casaco.

    É curioso que não haja mais acidentes na estrada. O carro, pelo menos nas grandes cidades, está a transformar-se num catalisador de toda a raiva e angústias que acumulamos ao longo do dia. Aceleramos com os olhos vidrados no semáforo que teima em não mudar. Travamos com a mesma fúria com que gostaríamos de ter pisado aquela pessoa insuportável que nos fez perder a cabeça. Buzinamos como se o som que se espalha na rua fosse o grito que temos de guardar. Achamo-nos intocáveis, invencíveis dentro da nossa fortaleza de metal. Ali não ouvimos os insultos, não sentimos o cheiro dos outros, não somos contagiados pela viscosidade urbana.
    Vanessa segurava o volante com a mesma força que gostaria de ter exercido no pescoço do psiquiatra. Ou do marido. Ou daquela loura altiva que nem pediu desculpa quando lhe deu com o saco nas pernas ao entrar no prédio do consultório. Como se ela não existisse. Que cabra! Foi arrancada da sua fúria por um sem-abrigo a bater-lhe no vidro. As mãos imundas e frágeis estendidas. Os nós dos dedos em ferida. Era só o que lhe faltava. Detestava dar dinheiro a estas pessoas. Achava mais útil dar o dinheiro às instituições que as acolhem ou que distribuem cobertores e comida. Mas, naquele instante, lembrou-se dos sapatos. Se a chuva faz tanto mal a um pedaço de camurça, o que não fará à alma de quem vive na rua? Viu uma mancha negra a espalhar-se pelo corpo do homem. O casaco cada vez mais ensopado, as gotas penduradas na barba. Tal como os seus sapatos, aquele homem estava irremediavelmente perdido... Deu-lhe um euro e não se importou quando o carro de trás começou a buzinar. O sinal estava verde há mais de três segundos.
    Conduziu sem saber para onde. Foi seguindo e seguindo, evitando todas as saídas familiares. Após duas horas, o depósito entrou na reserva e só aí reparou que já não chovia. Podia desligar o limpa pára-brisas. Parou na área de serviço seguinte, sem se interrogar onde estaria. Nem sequer era uma área de serviço. Era uma simples bomba de gasolina de uma estrada secundária e deserta. Reparou que tinha setenta e três chamadas não atendidas no telemóvel. Da filha, da escola da filha, do marido, do psiquiatra, do advogado, da mãe, de Diana. 
    «Que histerismo», pensou. Qual era o mal de estar incontactável durante duas horas? Não podia estar simplesmente no cinema? Numa zona sem rede? Ter o telefone no silêncio? Não podia simplesmente desaparecer? Ou fazer desaparecer as pessoas à sua volta? A filha, o marido, a mãe e, sobretudo, a Diana, como se nunca tivessem existido? Não que os odiasse, só que por vezes sufocava só de pensar neles e em todas as rotinas que representavam. Imaginava muitas vezes como seria a vida se fosse órfã, solteira e sem filhos. Poder fazer o que quisesse, às horas que quisesse, com quem quisesse. Poder ir para a cama com aquele gajo giro do outro lado do bar. Ou mesmo com o gajo feio da bomba de gasolina. Não ter almoços de família, Natais cheios de gente, férias de Verão com a casa às costas. Gastar o dinheiro do aparelho da filha numa viagem à Tailândia. Ficar de pijama todo o dia, sem sequer tomar banho. Comer bolachas de chocolate no sofá e não se importar com as migalhas que caem. Uma refeição sozinha. Nenhuma conversa. Apenas olhando a parede em frente durante longos minutos, sem ter de ouvir «O que é que tens?». Como seria? Como seria ser livre? Absolutamente livre?





    Opiniões e mensagens de leitores sobre o livro

    "Um livro que se devora de uma ponta à outra. Se ainda não conhecem a Filipa Fonseca Silva, deviam conhecer. É uma autora talentosa e escreve uma história bestial." The Thursday Interview

    "Acreditem, nunca uma crise de meia idade foi retratada de melhor forma!" The Chicklit Pad

    "(...) E este livro é precisamente isto: a busca pela felicidade, o 'grito do Ipiranga' para a descoberta de si próprio e do que quer fazer da sua vida.  http://aminhaleituras.blogspot.pt/201... "

    "(...) gostei bastante de como a autora introduziu o tema da repetição dos mesmos hábitos todos os dias, da falta de liberdade em escapar à rotina de todos os dias, receando sempre os juízos de valor dos outros.   http://cronicasdeumaleitora.blogspot.... "

    "Quero felicitá-la pela forma como escreve, pois terminei a leitura do livro "O Estranho ano de Vanessa M." e amei, simplesmente. Muitíssimo obrigada!"

    "Este livro foi uma lufada de ar fresco, leve e viciante!"

    "Recebi o seu livro ontem à tarde e já acabei de o ler. Nunca tinha lido um livro em tão pouco tempo! Adorei! Uma escrita simples, fácil de entender, fácil de ler e acima de tudo muito natural e realista. "

    "Nunca um livro me tinha conseguido agarrar desta forma. A história, foi como se eu própria estivesse lá inserida!"






  • Não é por mal, a sério que não. Eu própria, antes de ser mãe, já fiz o mesmo e garanto-vos que é um fenómeno inconsciente. Tal como não nos lembramos do amigo que detesta sushi se o programa é ir ao japonês, também não nos lembramos do amigo com filhos se o programa é ir ao Lux até às 6 da manhã. É perfeitamente legítimo.

    Mas há outros motivos para ajudar à festa. O primeiro é que quem não tem filhos não tem horários. Tanto janta às oito como às onze, tanto vai para a praia ao meio-dia como à meia-noite, tanto lhe faz andar ao sol como à chuva e não tem muita paciência para condicionar a sua vida em função dos horários de pais de filhos pequenos.

    Segundo, quem não tem filhos, como deixa de ver os recém-pais nos circuitos habituais (restaurante preferido, café do costume, concerto do momento), assume que não vale a pena fazer o convite porque de certeza que não vai ser aceite. Mesmo eu já assisti a conversas do tipo, “Devíamos dizer alguma coisa à Fulana”, “Deixa estar, ela tem o bebé, de certeza que não pode ir”. E, na verdade, é provável que oito em cada dez convites sejam efectivamente recusados, sobretudo por fenómenos imprevistos como: não arranjar baby-sitter a tempo, a criança acordar nesse dia cheia de febre ou ter dado uma noite horrível, daquelas que nem cinco cafés conseguem dar genica aos progenitores. Mas há todas as outras vezes em que os recém-pais não só podem, como desejam ardentemente ter um serão sem ver o BabyFirst.

    Por fim há a (má) fama que as mães aleijadas criaram. As mães aleijadas são uma espécie muito comum, que consiste em mulheres que eram normais até terem um rebento mas que agora acham que a vida deve girar em torno do mesmo. Não há conversa que não comece em fraldas e não acabe em dicas sobre como encontrar o colégio perfeito. Ora quem não tem filhos, não podia estar menos interessado em qualquer um desses temas. Aliás, mesmo quem tem filhos, na maior parte das vezes, quer mesmo é aproveitar uma saída com amigos para não falar deles. Resumindo, os amigos já levaram tantas secas sobre crianças, sobretudo porque quiseram ser educados e perguntar como estava o Júnior, que ficaram traumatizados e agora fogem a sete pés de qualquer casal que anuncie uma gravidez.

    Por isso mães e pais que se sentem negligenciados, não fiquem tristes nem ofendidos com os vossos amigos. Eles amam-vos muito e daqui a uns anos voltam a telefonar. Nem que seja para perguntar qual é a melhor marca de cadeirinha automóvel. Aí volta tudo a ser como antes, mas agora com montes de miniaturas na mesa do lado.

    E quanto a vocês, jovens amigos livres e descomprometidos: aproveitem. Durmam até ao meio-dia sempre que poderem, saiam para jantar às onze da noite, vão de fim-de-semana à última hora, acima de tudo sejam espontâneos. Por daqui a uns meses ou anos, essa coisa de decidir ir beber um copo às dez da noite vai acabar. A não ser que seja um copo de leite. 




  • Eis a campanha que eu e a minha dupla Sofia Silva (que foi também quem ilustrou a capa da versão inglesa do meu livro) fizemos para a promoção d' Os Trinta. Gostam? Então podem partilhar :)






  • Os Domingos são os dias que custam mais a passar. O café está fechado, o quiosque só abre de manhã, a carrinha da escola não pára à porta para recolher os miúdos, os carros não buzinam apressados. Quase toda a vizinhança tem algo melhor para fazer do que calcorrear aquelas ruas quotidianas, que ficam então plácidas e entregues aos sons do vento nas árvores.

    Tomo o pequeno almoço, tomo os comprimidos, tomo o meu banho e passo a manhã no quiosque a discutir as notícias do dia com o Sr. Manel e outros dos seus clientes. Prefiro quando somos só os dois. Os outros só gostam de falar de futebol.

    Acabo por comprar o Correio da Manhã, mas é mais por hábito. Lembra-me quando os miúdos eram pequenos e disputavam as páginas do Chico Omelete. Às vezes ainda passam lá por casa, mas é mais para uma visita rápida e a certeza de que lhes dou uma nota para irem gastar nas noitadas ou em lá o que é. Já não têm o teu bolo de laranja por que ansiar. Já não acham graça às minhas histórias. Já cresceram.

    Quando o Sr. Manel fecha o quiosque a rua fica deserta e restam-me ir ao Esteves. Lembras-te do Esteves? Adoravas lá ir para comer o arroz de marisco. Eu nunca gostei muito de tal iguaria, mas comia para te acompanhar porque a dose era para dois. Agora, sempre que lá vou, não me apetece outra coisa, embora tenha de me calar com pataniscas ou uma sopa de cozido. Eu sei que não devia comer sopa de cozido, que tenho dificuldade em digerir comidas tão pesadas e que um peixinho me faria melhor, mas o que é que queres? Não consigo comer peixe sem estar arranjado. Valem-me as pataniscas.

    Sento-me sempre na mesma mesa, a nossa mesa, que o Esteves simpaticamente reserva com uma daquelas placas castanhas com letras douradas. Sento-me no teu lugar, porque é virado para a televisão e sempre me vou distraindo, ao invés de estar a olhar para as pessoas nas outras mesas. Não sei como é que conseguias estar ali sentada a refeição inteira sem que o olhar te fugisse para aquele ecrã. Ignoravas simplesmente a sua existência, que quando se está à mesa é falta de educação estar a olhar para o lado.

    Como devagar. Não que esteja a saborear o prato, mas antes para que o tempo vá passando e não tenha de ir logo para casa. Nos dias de maior movimento noto os olhares reprovadores das pessoas que esperam por uma mesa. Normalmente são jovens, cheios de pressa, impacientes. Habituaram-se a ter tudo a toda a hora e depois ficam nervosos se alguém lhes pede para esperar. Olham-me com desdém, como quem se interroga se eu não tenho mais nada que fazer do que estar ali a ocupar uma mesa que dava perfeitamente para quatro com o meu pudim comido lentamente com uma colher de café. Ignoro-os. Felizmente o Esteves também. Nunca me fez sentir a mais, nunca me apresentou a conta antes de eu lha pedir, nunca me tirou o prato da frente para me apressar. Um bom homem o Esteves. Por isso continuo a ir lá todos os Domingos. E quando o Pedro me quer levar a almoçar a outro lado, digo que não. Prefiro ir ao Esteves, onde pelo menos, às vezes, cheira a arroz de marisco.

    Se está de chuva fico por lá mais um bocado, a tentar entreter-me com o jornal enquanto ouço as conversas das mesas do lado se estas me despertam a atenção. E olha que ouço com cada uma... Melhor que muitos argumentos de telenovela, podes crer. Se aqui estivesses também ias achar graça. Parece que te estou a ver a erguer a sobrancelha e a esconder o riso por detrás do guardanapo.

    Se está bom tempo vou caminhar pelas ruas desertas até ser vencido pelo cansaço e voltar para casa. Custa-me subir as escadas, custa-me abrir a porta, custa-me ver o teu cadeirão vazio. Se ao menos tivesse um gato. Bem me disseste para arranjar um gato. Qualquer dia sigo o teu conselho. Diz que são asseados e fazem muita companhia.

    Para afastar as saudades faço uma panela de sopa com a receita que me deixaste. Eu sei que podia experimentar outra receita, que uma sopa pode ser de qualquer coisa, mas eu só gosto da tua. Fico ali a ver os legumes a cozinhar lentamente e sempre se passa mais uma hora.

    Durmo uma sesta. Leio um bocado. Como a sopa. Vejo o telejornal. Falo ao telefone com a Marisa, que continua sem perceber porque é que eu não vou viver para casa dela. Eu lá ia deixar esta casa? Seria como deixar-te. Não, não quero deixar-te. Tu que estás no espelho do quarto a admirar o vestido antes de sairmos para jantar. Tu que estás no corredor a pendurar os casacos que os miúdos largaram no chão. Tu que estás a passar a ferro ao pé da janela. Tu que estás em cada um dos meus suspiros há mais de cinquenta anos.

    Vou para a cama e fecho os olhos com força, na esperança de fazer o sono chegar. Na esperança de que este Domingo passe depressa e com ele a dor de estar mais um dia sem ti.


    ©ruhunuyaka


  • Agora que já estás há tanto tempo no mundo quanto estiveste dentro de mim, apetece-me engolir-te para voltarmos a ser um só. Mas depois deixo de ser egoísta e fico imensamente feliz por te poder partilhar. Porque o mundo precisa de coisas fofas e doces. E porque contigo o mundo é, infinita e inquestionavelmente, um lugar melhor.




  • Escrevi "Os 30" durante o final de 2009 e o início de 2010. Os tempos estavam difíceis, a crise era global, mas como também já andávamos em crise desde 2001, a malta ia andando (expressão típica portuguesa que tão bem exprime o nosso temperamento) sem se queixar mais do que o costume.

    O livro (para quem, escandalosamente ainda não leu!) conta a história de um grupo de amigos dos tempos de faculdade, que se reúnem num jantar depois de muito tempo afastados. É contada por três personagens, com três visões e experiências diferentes da vida, uma das quais até se pode dar ao luxo de viver às custas do marido. 

    Ora serve esta crónica simplesmente para dizer que se fosse hoje, o livro se calhar não existia, visto que os amigos continuariam afastados e dificilmente se iriam reunir nos próximos anos ou mesmo décadas. Um estaria emigrado na Noruega, outro no Canadá, outro no Brasil, outro em Angola, outro em Singapura, e outro no interior do país a viver com os pais, depois de ter entregado a casa ao banco. Iam-se mantendo em contacto via Facebook e com uma ou outra ligação via Skype e iam adiando as promessas de uma visita ("vem que só tens de pagar a viagem e podes ficar cá em casa) porque os vinte dias de férias por ano não dão para tudo e é sempre preciso guardar uns quantos para ir a Portugal comer uns caracóis em Agosto.

    Ai Portugal, Portugal, ou nas palavras de Pessoa:

    "Senhor, a noite veio e a alma é vil.
    Tanta foi a tormenta e a vontade!
    Restam-nos hoje, no silencio hostil,
    O mar universal e a saudade."


  • A propósito de notícias de recentes divórcios e separações, dei comigo a debater com o meu marido quais serão os motivos principais para tantos casais com filhos pequenos tomarem tal decisão. Mais: o que leva um casamento a deteriorar-se tão rapidamente, ao ponto de acabar antes das crianças chegarem à idade de ir para a escola? Argumento para cá, argumento para lá e ele sai-se com um “porque as mulheres mudam muito depois de serem mães”. 

    Aí o meu lado feminista indignou-se e não descansou enquanto não obteve uma explicação menos vaga. O que é mudar muito? Mudar o quê? A personalidade? A forma de ver a vida? Os objectivos que tinham em comum? Emocionalmente brilhante e muito diplomaticamente, até porque não nos esqueçamos que também eu fui mãe há 8 meses e a frase podia soar a recado, o meu marido lá justificou a afirmação. Então parece que, do ponto de vista dos homens, as mulheres mudam porque tomam para si a quase total responsabilidade pela criança, criticando os homens quando eles fazem as coisas de maneira diferente. Isso leva a que acumulem tarefas atrás de tarefas, desde os banhos, ao preparar o jantar, tratar da roupa, do gato e das plantas, até à exaustão. Ora a exaustão leva a uma menor tolerância para com as falhas do marido, bem como uma ainda menor disponibilidade para o sexo, o que os deixa tristes e abandonados (coitadinhos).

    Concordo. E acrescento que é essa mesma exaustão que leva as mulheres a não querem sair à noite, pois sabem que, no dia seguinte, as crianças acordam cheias de energia às oito da manhã independentemente do tamanho da ressaca dos pais; a marcarem jantares para a hora em que antes se lanchava, porque já sabem que à meia noite estão a cair para o lado; e a preferirem ir para o parque em vez de ficarem no sofá a ver um filme, visto que no parque os miúdos sempre se cansam enquanto que em casa não vão parar sossegados e só um dos progenitores (normalmente o homem) vai conseguir ver o filme até ao fim. Sim, as mulheres mudam depois de serem mães. Porque todas as decisões que tomam têm agora de ter em conta um (ou dois, ou três!) pequeno ser. E sim, é verdade que algumas exageram e passam a viver em função dos filhos, negligenciando todas as outras relações e aniquilando todas as outras facetas da sua personalidade. Mas mesmo as mais pragmáticas não conseguem fugir à evidência de que a vida agora é a três e, independentemente do terceiro elemento ser um filho, um cão ou um amigo que precisa temporariamente de um tecto, as coisas inevitavelmente mudam um bocadinho.

    Mas então podemos colocar a coisa ao contrário. E se os casamentos falham porque os homens não mudam depois de serem pais? Porque querem fazer os mesmos programas, os mesmos horários e esperam a mesma disponibilidade da parte das suas parceiras, como se o bebé fosse um boneco a pilhas, previsível e controlável? 

    Pois. É uma questão complicada e dificilmente se chegará a um consenso. Por isso, o melhor é que todos, homens e mulheres, quando estão prestes a serem pais, se mentalizem de que, independentemente de quem muda ou não muda, o casamento nunca mais vai ser o mesmo. 

    Mas pode até ser muito melhor.



  • Além das folhas, do vento e da chuva, o Outono traz com ele a esquizofrenia do guarda-roupa. Trata-se de um fenómeno de curta duração que ataca a maior parte da população, com excepção daqueles que, faça frio ou calor, andam sempre de calças de ganga e t-shirt.

    Num dia saímos à rua de sandálias e no dia seguinte de galochas. Num dia levamos um casaquinho e no outro arrependemo-nos de ter vestido uma manga comprida. A incoerência é tão grande que quando estamos a escolher a roupa de manhã, se formos à janela observar os transeuntes para nos ajudar na decisão, ficamos ainda mais baralhados. É que vamos deparar-nos, por um lado, com as fashion victim de botas e casaco comprido, que isto de ter os modelitos da nova colecção Outono/Inverno escondidos há semanas no armário já as estava a deixar loucas; e por outro lado, com os viciados do sol de manga curta e perna à mostra, que isto de ter de guardar as havaianas até à próxima Primavera é um suplício e antes apanhar uma pneumonia que colocar a pele em contacto com tecidos mais robustos.

    Resultado: por umas meras semanas as mulheres de todo o mundo têm finalmente desculpa para dizer com toda a propriedade (e sem serem alvo de um reviramento de olhos dos seus parceiros) que não têm nada para vestir. Aproveitem!






  • Durante a primeira gravidez, sobretudo no final, quando as dores nas costas tornaram impossível calçar os meus queridos saltos altos, a coisa de que tive mais saudades foi do meu guarda-roupa fashion. A saia comprida de cintura subida, os vestidos justinhos, os tecidos sedosos. Pensava eu, na minha ingenuidade de mãe de primeira viagem, que assim que recuperasse a forma poderia voltar a usar tudo como antes. Pois não podia estar mais enganada.

    Voltar a usar a nossa roupinha não é "apenas" uma questão de recuperar a silhueta. É uma impossibilidade que advém de todo um novo estilo de vida. Não que as mães tenham de se vestir de mães. Só que, de repente, a escolha da fatiota do dia está condicionada por diversos factores que antes nos passavam completamente ao lado.

    Eis os quatro mais relevantes e as respectivas soluções que encontrei para contorná-los:

    1) Andar com um bebé ao colo não se coaduna com saltos de dez centímetros.
    Sobretudo na calçada portuguesa. Por isso, temos duas hipóteses: ou andamos de saltos mais baixos ou não tiramos o bebé do carrinho (a minha opção preferida). Aliás, o carrinho até ajuda na árdua tarefa de calcorrear as ruas das nossas cidades sem enfiar o salto num dos inúmeros buracos que encontramos pelo caminho. Se além do pequeno bebé existirem outras crianças, nomeadamente menores de seis anos que gostam de correr para o meio da estrada ou desparecer no meio do centro comercial, o melhor é ficar sempre pelos sapatos rasos.

    2) O verniz colorido não é uma opção. 
    É que entre as inúmeras lavagens de biberões, banhos, mudas de fraldas e o desapertar minúsculos botões e molinhas das roupas do bebé, acreditem que o Rouge Noir fica desfeito em três tempos. Assim, a minha opção é manter as unhas das mãos arranjadas, mas pintadas com verniz transparente e aproveitar a cor para as unhas dos pés.

    3) Há tecidos que não são à prova de bebé. 
    Logo, há peças que devem simplesmente ficar longe das crianças. Baba, leite, papa, fruta, bolsado, são apenas alguns dos fluidos que podem destruir uma camisa de seda ou um vestido de cetim. E acreditem que, por mais aventais que ponham, o vosso pequenino ser vai encontrar maneira de vos sujar. A maioria das vezes de forma tão amorosa que a dor de ver aquela peça arruinada é atenuada. Naquele momento. Depois, quando estamos a tentar adormecer, volta para nos assombrar. O que fazer? Antes de vestir seja o que for pergunto-me "ficarei muito triste se esta peça se estragar?". Se a resposta for sim, a peça volta para o armário à espera de um jantar só para adultos.

    4) Brincos e acessórios transformam-se em perigosas armadilhas. 
    Se por um lado, dão jeito para entreter o bebé na origem de uma birra no meio do restaurante, também podem dar uma enorme dor de cabeça, quando ele rebenta o colar e começa a colocar as pecinhas na boca ou quando nos rasga um lóbulo com um puxão no brinco. Alternativa? Brincos de mola, peças que não se partam, investir em cintos e carteiras em vez de pulseiras e colares.

    Em suma, não é preciso renunciar às últimas tendências, nem começar a usar apenas leggings e túnicas baratas. Só temos de readaptar o nosso estilo e lembrarmo-nos que, agora, já não estamos sozinhas. E ainda bem.

    ©Sofia Silva
    http://mademoisellesilva.blogspot.pt/

  • Amanhã é a última vez que poderemos gozar o feriado de Nª.Srª. da Assunção. Segundo os peritos, os senhores que tudo sabem e que trouxeram, ao longo de 20 anos, o nosso país ao estado em que está, a redução do número de feriados serve para aumentar a produtividade.

    Pode ter o seu quê de verdade, num país em que toda a gente faz pontes ou junta dois dias de férias ao feriado para ficar com quase uma semana inteira de descanso. Mas o 15 de Agosto? Que diferença é que vai fazer quando 90% da população está de férias de qualquer maneira. Ou será que ninguém reparou que o país pára nas primeiras semanas de Agosto? Restaurantes, mercearias, escolas, creches, até há empesas do sector privado que incentivam os trabalhadores a tirar férias neste mês, porque pouco há para fazer.

    Isto é o que se chama uma medida para inglês (ou neste caso, alemão) ver. Seriam mais honesto se acabassem com o 25 de Abril, cujos princípios e valores estão a ser cada vez mais ignorados.





  • Num país em que só se fala de futebol, de repente, durante as olimpíadas, é só entendidos nas diversas modalidades. Cada atleta que é eliminado recebe comentários de desdém. Que é uma vergonha, que é para isto que serve o nosso dinheiro, que mais valia ter ficado em casa. Como se, lá por termos o melhor jogador de futebol do mundo, todos os atletas que vestem as cores nacionais tivessem a obrigação de disputar finais e trazer medalhas.

    Ora, será que essas mesmas pessoas sabem o que é preciso trabalhar para chegar sequer às olimpíadas? Será que sabem que ser apurado já é uma vitória, num país que nem os estádios de futebol enche, quando mais os recintos de outras modalidades? Ou que a maioria dos atletas olímpicos têm que ter um trabalho a tempo inteiro e só podem treinar nas suas horas livres?

    Os mesmos jornalistas que fazem capas com a nova contratação do Benfica no dia em que um atleta português ganha uma medalha num Europeu ou num Mundial da sua modalidade, por exemplo, deviam agora explicar aos tugas, porque é que ficar entre os 10 primeiros de uma competição disputada por atletas de todo o mundo é, literalmente, um feito olímpico.

    Parabéns a todos os que trabalharam para estar agora em Londres (e também aos que não puderam estar por lesões). Não liguem aos tugas. Somos mesmo assim.



  • Digam o que disserem, argumentem o que quiserem, a verdade é que amamentar não é exactamente aquele momento terno e pacífico que as imagens do acto nos mostram. Pelo contrário! Para a maioria das mulheres, até que mãe e filho apanhem o jeito, é um momento difícil e doloroso. Claro que os benefícios para o bebé são imensos e inegáveis, mas para muitas mães, por mais razões que a Organização Mundial de Saúde, a associação das mães que amamentam até os miúdos irem para a escola primária e os pediatras fundamentalistas dêem, amamentar é uma seca. Eu assumo que não gosto e aposto que muitas mulheres só continuam a amamentar por meses a fio porque têm medo dos olhares reprovadores que lhes fazem quando dizem estar a ponderar dar às suas crias leite artificial.

    Das inúmeras razões para não gostar de amamentar que me vêm de repente à cabeça, vou destacar apenas as que ninguém nos explica quando estamos grávidas e que só descobri quando iniciei a experiência: 

    1. Mamilos doridos 
    Não me estou a referir aos problemas graves que algumas mulheres têm, que incluem feridas, infecções etc. Mesmo que corra tudo bem, há sempre uma altura do dia em que os mamilos estão doridos ou hipersensíveis de tanta chupadela. Sim, há cremes e pomadas que se podem usar; sim, há protectores de silicone, mas a verdade é que ao início dói e não é pouco.

    2. Falta de sexo de qualidade
    Pois minhas amigas, o dia chegará em que vos vai apetecer fazer o amor. Só que a amamentação retira a lubrificação natural e, além disso, as maminhas deixam de fazer parte da equação. Porquê? Se um duche de água quente faz o leite começar a sair imaginem o que farão umas mãos ávidas. Já para não falar do ponto acima: mamilos doridos. (Isto também aumenta a frustração do pai da criança, porque apesar de todos os dias ter diante si um peito enorme e firme, de fazer inveja a muitas capas da Playboy, não lhe pode tocar) 

    3. Demora horas! 
    Bem sei que nos primeiros meses o papel da mãe é, exactamente, dedicar-se 100% ao seu bebé. Para isso é que existem licenças de maternidade e tudo mais. Mas passar oito horas por dia a amamentar é de dar em louca. Porquê oito horas? Porque os bebés pequeninos comem pelo menos 7 vezes por dia e o ritual é: come de uma mama durante uns 15 minutos (se não mais, porque há quem diga que se deve deixar o bebé ficar o tempo que lhe apetecer – claramente pessoas que têm muito tempo livre nas mãos), 5 ou 10 minutos para arrotar, mais 5 ou 10 minutos na outra mama e voltamos ao filme de arrotar. Depois há que mudar a fralda, o que por vezes inclui mudar a roupa toda, e a possibilidade do bebé estar a engasgar-se e precisar de arrotar mais um bocadinho. Nisto passou-se no mínimo uma hora. A meio da noite significa que quando voltamos para a cama e estamos finalmente prontas para voltar a dormir, já só faltam duas horas para o bebé voltar a acordar. E a meio do dia significa que naquelas duas horas temos de optar entre dormir um bocadinho ou tomar banho, comer e fazer tudo o que há para fazer em casa. Bom, não é?

    4. Sentimo-nos umas autênticas vacas 
    Sobretudo quando temos de tirar leite para deixar para o bebé ou simplesmente porque o peito está demasiado cheio e pode encaroçar. Aí sim, temos a confirmação de que não passamos de um mamífero cuja função é ser ordenhado. Cada apertão é um esguicho, tal e qual uma vaquinha leiteira. Muito sexy. 

    5.Não sabemos se o bebé está a comer muito ou pouco 
    Por isso, pode acontecer ele chorar depois de ter comido durante mais de meia hora e nós a desesperar sem saber o que ele tem. Já comeu, tem uma fralda limpa, tem colinho, o que será? Fome. Toca a por a maminha de fora e começar tudo outra vez.

    Resumindo, as vantagens para o bebé são grandes (embora eu e milhões de crianças tenhamos sido alimentadas a leite artificial e estejamos aqui, bem muito obrigada), mas para a mãe resumem-se a ser muito mais prático do que andar com biberões atrás e ajudar a perder mais depressa o peso da gravidez.

    Pronto. Agora os fundamentalistas da amamentação podem indignar-se e insultar-me. Mas antes de o fazerem e de tratarem todas as mães que não querem amamentar como criminosas, lembrem-se que é uma opção individual. Todas as mães querem o melhor para os seus filhos e muitas vezes, uma mãe feliz e bem disposta faz melhor à saúde do bebé do que uma mãe deprimida, que amamenta por obrigação e que passa essa energia negativa ao seu rebento.


  • E como o mercado português é muito pequeno, agora vamos tentar conquistar o mundo! Partilhem e divulguem junto dos vossos amigos estrangeiros :)


    http://www.amazon.co.uk/Thirty-Something-Nothings-Dreamed-ebook/dp/B008WNPXZE/ref=sr_1_1?s=books&ie=UTF8&qid=1344855521&sr

    http://itunes.apple.com/pt/book/thirty-something-nothings/id543025069?mt=11

    http://www.diesel-ebooks.com/item/SW00000174047/Fonseca-Silva-Filipa-Thirty-Something-Nothing-s-How-We-Dreamed-It-Would-Be/1.html

    http://www.barnesandnoble.com/w/thirty-something-filipa-fonseca-silva/1112037510?ean=2940044672666

    https://www.smashwords.com/books/view/174047

    E com uma capa maravilhosa feita pela grande ilustradora Sofia Silva!
  • Quando era pequenina a minha mãe levava-me à Feira do Livro. Era uma emoção sem igual, não só porque implicava uma ida a Lisboa e eu adorava passar na ponte, mas também porque no meio de tantos e tantos livros acabava por trazer sempre um para mim.

    Enquanto o meu pai e o meu irmão, pouco dados à leitura, olhavam impacientes para o relógio, eu andava literalmente agarrada à saia da minha mãe a espreitar todas as bancadas à espera de encontrar os infantis. E ainda nem sabia ler. Mas o que importava? Eu gostava tanto de livros que os folheava lentamente e percorria as linhas de texto como se soubesse o que estava lá escrito. Ajudada pelas ilustrações, inventava eu própria as histórias que imaginava estarem ali contadas, frustrada por nunca mais chegar a hora de ir para a escola primária aprender a juntar as letras. 

    Quase trinta anos depois, vou voltar à mesma feira e calcorrear os mesmos caminhos numa tarde de Primavera. Só que desta vez não é apenas para deambular de bancada em bancada à procura de mais uns calhamaços para a minha colecção. É para dar uma sessão de autógrafos do meu próprio livro. O livro que eu escrevi. E mesmo que não apareça ninguém interessado em ter o meu rabisco, estarei, entre livros, imensamente feliz.




  • Até há sete semanas, ficava de mau humor se dormisse menos de oito horas por noite ou saltasse uma refeição. Ficava doente por ver a sala desarrumada, com almofadas caídas no chão e copos espalhados na mesa, ou sempre que o cesto da roupa suja começava a transbordar. Era impensável não ter as unhas impecáveis, salpicadas por vernizes da cor mais fashion da estação, ou passar um dia sem calçar um dos quarenta pares de saltos altos que habitam no meu armário.

    Mas depois surgiu um pequeno ser a trocar-me as voltas todas e dou por mim a dormir nunca mais de três horas seguidas, a olhar para o relógio e reparar que passou-se meio dia desde a última vez que comi, a encontrar várias peças de roupa espalhadas pela casa, bem como copos, pacotes de leite, babetes e chuchas e simplesmente ignorá-los, a ter as unhas numa lástima, porque cada vez que vou pintá-las lembro-me que o tempo de secagem vai coincidir com a hora de mudar a fralda e, agarrem-se que esta é mesmo grave, a deparar-me com pó nos meus stilletos, tal é o tempo que passou desde a última vez que viram a luz do dia (ou da noite).

    O "amanhã é que vou cortar o cabelo" ou o "hoje à noite vou finalmente ver aquele filme" começam a soar a promessas eleitorais de final de campanha. Por isso, a primeira grande lição que o pequeno ser que se mudou cá para casa me ensinou é que não vale a pena fazer grandes planos. É viver um dia de cada vez e aproveitar horas como esta, em que calhou eu estar a passear pelo meu blog e dar-me uma enorme vontade de escrever no exacto momento em que ele dorme profundamente. Se tivesse planeado, decerto não iria conseguir.



  • Ficarei feliz no dia em que não se celebrar este dia.

    Em pleno século XXI haver a necessidade de dedicar um dia às mulheres é, para mim, um insulto e uma tristeza. Um insulto porque nos coloca no patamar dos desprotegidos, tal com as crianças, os famintos, os doentes ou as árvores. Uma tristeza porque, na verdade, continuamos a precisar de relembrar ao mundo que ainda estamos a anos luz da igualdade perante os homens.

    Ainda ganhamos menos e trabalhamos mais, ainda somos prejudicadas na carreira por querer ter filhos, ainda somos o maior grupo vítima de violência, ainda temos a maioria das tarefas domésticas por nossa conta, ainda somos olhadas de lado por enveredar por certas profissões ou por ter comportamentos típicos dos homens, ainda somos descriminadas nas mais pequenas coisas. 

    Por isso, não consigo ver o 8 de Março como uma celebração e ai de quem me oferecer nem que seja uma flor. Quanto muito posso vê-lo como uma homenagem a todas as mulheres que lutaram pela igualdade ao longo da história. E àquelas que ainda hoje lutam para que um dia este dia seja um dia igual aos outros.



  • Nos dias que correm é cada vez mais comum deixarmos cair as tradições. Sobretudo as do foro privado. Há quem dispense o anel de noivado, o copo-de-àgua e até a magia de dormir a última noite de solteiros separados. Também são já muitos os que substituem o bacalhau da consoada por refeições congeladas, os que não sabem o que é um folar ou os que acham normal desejar um feliz aniversário a um amigo chegado via Facebook.

    Pois eu, que até me considero uma mulher bastante moderna e entusiasta da evolução social, compreendo que os tempos mudam as vontades e que cada um deve fazer o que faz sentido para si, mas há alguns limites.Isto a propósito de uma tradição que eu conheço desde miúda e que aparentemente o meu marido, com quem partilho a minha existência há quase 13 anos, não: que o marido deve oferecer um presente à mulher quando ela dá à luz.

    Ora para mim esta é uma daquelas tradições que pensava que toda a gente conhecia, talvez porque me lembro de ter uns cinco ou seis anos, quando a minha mãe me mostrou a pequena jóia que o meu pai lhe ofereceu quando eu nasci. Mais tarde, quando a minha irmã nasceu, também me lembro que houve uma jóia a coroar o momento. Por isso, para mim era óbvio que um dia que tivesse um filho, receberia um presente.

    Pois. Para mim. Porque para o meu marido esta foi uma notícia chocante, chegando mesmo a insinuar que eu estava a inventar a história. Na altura, expliquei-lhe que não tinha inventado nada, que pensava que era uma prática comum e até comecei por aceitar os argumentos lógicos dele, que defendiam que este é um ano difícil, uma criança dá uma enorme despesa, estamos a lançar um projecto on-line que requer financiamento, enfim. Quase lhe pedi desculpa por estar a sugerir que ele gastasse dinheiro em algo tão prescindível como uma jóia. 

    Até ao dia em que ele anunciou que ia comprar um iPhone4 xpto. Então comprar um telefone cujo preço equivale a um ordenado médio e que daqui a um ano já está desactualizado é ser moderno, enquanto que sonhar com uma jóia que simboliza o nascimento de um filho e que fica para a posterioridade é ser antiquada? Não me parece. Por isso, e estando eu na eminência de ser mãe, venho ao mundo anunciar que para mim a tradição ainda é o que era e que tanto gosto de brincos como de anéis.



  • Li recentemente que há quem queira tornar proibido fumar dentro do carro, quando estão presentes crianças. Ora eu até estou grávida e muito sensibilizada para tudo o que diga respeito aos pequenos seres, mas não deixo de ficar espantada com notícias destas. Acho óptimo que se sensibilizem os pais para os malefícios do tabaco, para os perigos das piscinas não vigiadas, para a importância de usar o cinto de segurança ou trancar o armário dos medicamentos. No entanto, tentarem criar uma lei que proíba alguém de fazer o que lhe apetece dentro do seu próprio carro é simplesmente ridículo.

    Eu sou da geração que cresceu sem telemóveis, vídeo-vigilância ou segurança rodoviária (aliás, o lugar mais apetecível do banco de trás era exactamente no meio, sem cinto, entre os dois bancos da frente). Que brincava na rua, mesmo de noite, andava de bicicleta sem protecções e que se sentava no colo dos pais quando estes estavam a fumar. Vendo bem, praticamente todos os amigos dos meus pais fumavam lá em casa, com inúmeras crianças na mesma sala e nenhuma delas tem problemas associados à exposição ao tabaco. 

    Não quero de maneira alguma fazer a apologia do fumo. Acho bem que as coisas tenham mudado e que se respeitem os não fumadores, sobretudo aqueles que não tem idade para se defender. Mesmo quando fumava (há oito meses atrás!), concordava com a proibição de fumar dentro de restaurantes, edifícios, centros comerciais, etc. Mas tudo tem limites. Há que garantir que os fumadores têm espaços dignos para continuarem a fumar e, sobretudo, não continuar esta caça às bruxas.

    É que talvez muita gente se esqueça que esta obsessão de proibir é uma bola de neve. Primeiro foram os espaços públicos, agora já se fala do carro e qualquer dia entram-nos pela casa adentro. Mais, agora são os fumadores, a seguir são os mascadores de pastilhas elásticas ou os viciados em consolas. É que há tanta coisa que faz mal à saúde, desde as batatas fritas ao ouvir música a mais x decibéis, que se começamos com estas palhaçadas extremistas, o melhor é mudarmo-nos todos para a Coreia do Norte. 

    Tenho uma ideia para esses senhores que gostam de inventar leis proibitivas: que tal ser proibido abandonar os idosos ao ponto destes morrem em casa sem que ninguém dê por isso? Se calhar era uma causa um bocadinho mais importante. Digo eu.



  • First pages of my book, now in english :) 

    "Filipe

    My earliest memory is of a Christmas tree. I know now it was a Christmas tree, that is: but all I saw at the time was this thing full of colours and shapes, bathed in a yellowish light. I think I was sitting in a pushchair, strapped in. And although I can remember exactly what I wanted to say (‘Look, mummy, how lovely’), I couldn't speak yet. It was the same feeling as being in a dream and wanting to shout and not being able to. All I could manage, therefore, was a few unintelligible noises. That was the day I learned what it means to be misunderstood.
    All the rest ended up being more of the same. My drawings at nursery school of a homeless man sleeping in the garden that the teachers insisted was the Baby Jesus in his manger; or the times I'd carry Patrícia's satchel for three full blocks, not because I liked her but just to see her Mother, who was waiting for her at the entrance to the building and plumped my cheeks with her smooth hands with their red fingernails and vanilla scent.
    Poor Patrícia... In eighth grade, after five years of a kind of Platonic love affair that had lasted through our childhood and puberty, she said ‘All right, you can kiss me, but no tongues’ and I rejected her. Obviously I didn’t tell her why I’d rejected her: I had to make up a story about having a sore throat and maybe she’d catch it and then I ran off home, to masturbate thinking about Mother. In the following weeks I played football every day after classes, and when winter started and there were no more games I began to go out with Rita, a girl who was far from pretty but had well developed breasts for a thirteen-year-old. Patrícia was heartbroken. Now I could no longer see Mother and was stuck with an ugly girlfriend who gave kisses with her stiff, rasping tongue that lasted five painful minutes. Worse still, when I wanted to end it for the good of my neck she let me move up to level two – feel her tits, in other words. This made me keep the romance going for another few months and learned what it was like to have a permanently numb neck. I should have understood there and then that 1) no matter how small they are, lies only lead to trouble and 2) my future with women was hardly going to be brilliant.
    Now I’d destroyed my reputation with the girls at school, I had to take refuge in grunge music and literature to survive my adolescence. Naturally I went to parties, and pretended to enjoy myself as we smoked in matinées or played footsie under tables. I had friends, and I even considered myself to be fairly outgoing, but it was in my room that I felt best. I read, wrote, composed dumb melodies on my guitar and fantasised about Liv Tyler in the Aerosmith video, or Vanessa Paradis, or – in a filthier way – Pamela Anderson. While the other kids smoked hashish and drank shots of absinthe in their pursuit of ‘different experiences’, I preferred to question the version of reality they presented us with every day in the classroom. Political systems riven by corruption, Catholicism’s subjugation of the intellect, the economic interests that lay behind wars. Unfortunately I didn’t have many people to discuss these questions with. Some teachers actually liked the issues I’d raise, but most just wanted to get things out of the way without bothering to question them. Which is what nearly everyone I know still does.

    The only important thing that happened in my adolescence was Bé. I met her on a night in August, during a meteor shower. I was in my family’s holiday villa with my grandparents and cousins, who were younger than me. I decided to go and sleep on the beach to get a good view of the meteor shower far from the lights of town. I grabbed my sleeping bag, took enough food for three days, a torch, my notebook and my Walkman. I was lying on my back listening to Polly when Bé appeared above me and said something I couldn’t make out. She could have been shouting for all I cared: at that moment the world had stopped for me and all I saw was her pink lips, moving slowly."