• Sou uma pessoa do Sol. 

    Gosto daqueles dias em que os termómetros ultrapassam os 30ºC, daquelas noites em que nos passeamos sem casacos, dos duches de água tépida ou dos mergulhos na água gelada. Gosto de sair de casa só com um vestido e ter as janelas sempre abertas. Por mim, podiamos mesmo ter um clima do hemisfério Sul, com sol e praia todo o ano.

    No entanto, ao Verão falta a "cozyness" dos dias frios. O estar em casa a ver a chuva cair enquanto o vento faz estremecer as janelas. O céu coberto por um manto de nuvens negras. As folhas esvoaçantes a colarem-se aos vidros dos carros. E nós enrolados no sofá, com uma chavená de chá e um bom livro, inundados pelo aroma de uma tarte de maçã e canela acabada de fazer ou pelo conforto de uma canja de galinha. Talvez seja por isso que a palavra que, para mim, melhor define esse estado seja inglesa. Só um povo que passa mais de dois terços do ano entre o cinzento e o antracite, envolto em lã e impermeáveis, podia ter inventado a palavra "cozy".

    Nós ficamo-nos com a "saudade", que é o que eu vou sentir pelo Verão daqui a mais ou menos dois meses.




  • A tirania dos números está a levar a que se perca a verdadeira essência das coisas. Não interessa se um produto é bom ou mau. O que interessa é como está destacado no linear, quanto dinheiro se tem para a divulgação e que técnicas de marketing podemos usar para manipular os consumidores. Aliás, os consumidores não têm tempo de conhecer os produtos, tal é a fugacidade com que saem das prateleiras.

    O pior é que esta realidade se vive em todas as áreas, desde os produtos de grande consumo, à cultura. E se um detergente para a roupa é um detergente para a roupa, e mal ao bem todos fazem o mesmo, quando toca à cultura, não é bem assim. As pessoas não precisam de um livro, de um quadro, de uma ida ao teatro como precisam de um pacote de leite. Por isso, quando consomem um produto cultural acabam por estar mais sujeitas ao que está mais acessível, visível, destacado.Se possível gratuito.

    Não é, por isso, de estranhar que a maioria considere os meios culturais portugueses pouco dinâmicos e só para os amiguinhos. É que, de facto, são sempre os mesmos a aparecer. Na imprensa, na rádio, na televisão, nos eventos culturais. De quem será, então, a culpa? 

    Dos senhores do marketing, que se regem apenas pelo número de vendas, desprezando que o principal objectivo da cultura não é a rentabilidade?

    Dos senhores da comunicação social, cada vez mais generalista, que se copiam uns aos outros em vez de procurarem por si as novidades (sim, procurar novos talentos, ir a concertos a meio da semana ou a exposições atrás do sol posto dá trabalho, sendo muito mais fácil falar do que os outros falam, do que se passa em Lisboa, mesmo ali ao lado da redacção, para não ter de pegar no carro)?

    Dos portugueses, que têm medo de dizer que gostam de algo que mais ninguém gosta, que preferem frequentar os mesmos sítios de sempre, ir onde toda a gente vai, jogar pelo seguro?

    Não sei. Talvez seja um pouco dos três. A única coisa que sei é que me custa ver actores soberbos em salas de teatro vazias, artistas fantásticos que não conseguem expor uma única peça, músicos virtuosos a tocarem em bares de hotéis, escritores fascinantes esquecidos nas prateleiras, sobretudo se não forem estrangeiros. Custa-me ver talentos escondidos atrás da secretárias de um escritório cinzento, porque há que pagar as contas e a arte alimenta a alma mas não o corpo.

    Entretanto ligo a televisão e lá está o mesmo indivíduo que esteve na véspera no canal da concorrência.