• Esta não é uma noite como as outras. Mais não seja por conter em si a esperança e as promessas de que vai ser especial. É tempo de perdão, de amor, de esquecer as diferenças. No entanto, todos os anos, década após década, observo as mesmas angústias, as mesmas mentiras, as mesmas histórias. Vejo os filhos repetirem os erros dos pais. Vejo os netos a rir com as mesmas brincadeiras que fizeram rir os seus avós. Só muda o tempo, esse que por mim passa tão devagar.

    Sete da tarde. 

    O ar começa a cheirar a filhoses e lenha.

    A rapariga loura limpa as lágrimas e retoca a maquilhagem ao espelho do carro, enquanto o rapaz retira alguns sacos do porta-bagagens. Sem lhe dizer uma palavra fica à espera que ela decida sair, pegue no bebé que dorme no banco de trás e o siga até à porta número sete. Não a via com uns olhos tão tristes desde que os seus cabelos estavam presos em tranças, os joelhos esfolados debaixo do vestido e o cão definitivamente imóvel ao seu colo.

    À janela do quarto esquerdo, uma mulher espreita ansiosa entre as cortinas. Ainda faltam muitas horas, ela sabe. Mas não consegue evitar perder o olhar na rua que agora já está escura, ansiando pelos faróis do Ford azul. 

    No segundo andar da porta número nove o homem continua no sofá. Já perdeu a conta à cerveja que a mulher lhe vai trazendo a cada grito. A cozinha envolta em vapor, porque o exaustor está avariado há três anos. E ainda tem de fazer as rabanadas.

    No quinto está a família feliz. A árvore é a mais bonita, as crianças as mais bem comportadas, os presentes os mais valiosos. Os sorrisos espalham-se à medida que a família vai chegando. Quatro gerações. 

    Um carro pára agora à minha frente, mas não é o Ford azul. Dois homens despedem-se com um beijo nos lábios. O condutor segue. O passageiro respira fundo e esconde a aliança no bolso do casaco, enquanto se dirige para casa dos pais, no prédio do lado.

    Nove da noite. 

    Cai uma chuva miudinha que todos gostariam que fosse neve, menos eu que ficaria com as folhas queimadas. Neve seria, contudo, muito mais romântico.

    A rapariga loura voltou a sorrir. O rapaz também, embora a raiva continue a jorrar dos seus olhos. O bebé passa de colo em colo, contagiando toda a gente com a sua inocência, como que a provar àqueles que eram contra a sua existência, o quão mágico é um pequeno ser. A encarnação da esperança. Todas as possibilidades pela frente.

    À janela do quarto esquerdo a mulher volta a espreitar uma última vez antes de se sentar sozinha à mesa. Podia ter ido para a terra. É sempre a esta hora que se arrepende de não ter ido para a terra. Mas também, o que dizer àquela gente toda? Como suportar aquelas vidas provincianas, aquelas histórias sempre iguais, aquelas perguntas em tom de crítica.

    O homem continua a beber no segundo andar, embora tenha finalmente largado o sofá. Os filhos fingem que não se importam. Têm de sorrir pela mãe, que teve tanto trabalho. E ainda fez as rabanadas que sobram sempre, porque ninguém gosta de fritos.


    A família feliz está sorridente a partilhar uma luxuosa refeição. O pai das crianças não pára de mandar SMS por baixo da mesa. A mulher dele finge não perceber. É Natal. É suposto sorrir. A cunhada invejosa não tira os olhos da mulher do irmão, que está sempre tão bem vestida, tão bem arranjada, enquanto ela não tem dinheiro nem para ir fazer as mãos. A matriarca abre os olhos ao marido sempre que ele volta a encher o copo. «Não devias beber tanto. E depois quem é que leva o carro até à Igreja?» Os adolescentes jogam uns com os outros via telemóvel. A avó finge-se de surda e aproveita apenas o lado bom da coisa: ver a família toda reunida, quem sabe se pela última vez. Aproveita também para esconder mais uns figos secos no bolso do casaco, que saboreará quando ninguém estiver a ver.

    Na casa ao lado, o homem continua a gabar-se das suas viagens fantásticas e a inventar histórias da namorada parisiense que se está a tornar um caso sério. Talvez para o ano, se tudo correr bem, a convença a vir a Portugal. Os olhos da mãe brilham de alegria. Queria tanto ter um netinho.

    Meia noite. 

    A hora mágica.

    A rapariga loura finge gostar do presente que o rapaz lhe deu. Não quer deitar-se zangada mais uma vez. Ele no fundo é bom rapaz. A sério que é.

    A mulher do quarto esquerdo dormita no sofá, enquanto as velas derretem no candelabro. 

    No segundo andar, o homem já foi a cambalear até ao quarto, ignorando a abertura dos presentes. A mulher contém as lágrimas. Nem tudo é assim tão mau. Tem os filhos e os netos. Tem de continuar por eles. Amanhã logo se vê.

    A família feliz foi quase toda à Missa do Galo. Menos os adolescentes que ficaram a tomar conta dos primos mais novos. Fumam charros à janela enquanto as crianças pulam no sofá, ansiosas e excitadas pelo excesso de açúcar.

    O homem do prédio ao lado distribui presentes caros que trouxe das suas viagens exóticas. Mas a mãe só queria um netinho. Ai que ainda vai morrer sem ter um netinho.

    Madrugada. 

    Cai a neblina.

    A rapariga loura pede desculpa ao rapaz assim que entram no carro. Vamos começar de novo. Vamos ter outro bebé. Um bebé resolve tudo, com a sua doçura. Prometo que tudo vai ser diferente.

    O Ford Azul chega finalmente. A mulher dá pulinhos à janela. Sabe que não tem muito tempo. Ele disse à outra que ia só dar uma volta para esmoer o jantar. Mas aquela hora chega-lhe. A hora em que finge que são um casal. A hora em que finge ter uma família. Recebe mais uma jóia, quando só queria um pouco mais de amor. Mas não faz mal. Uma hora chega para sonhar. 

    No segundo andar da porta número nove a mulher limpa a casa em silêncio. Não pode acordar o marido, senão já sabe o que lhe acontece. Limpa a casa como se limpasse as tristezas da sua vida. São muitas e estão incrustadas como a gordura no exaustor que não funciona há três anos. Engole as lágrimas e as imagens do que poderia ter sido. Haja saúde. O resto a gente aguenta.

    A família feliz despede-se. Amanhã o cinismo continuará. Agora cada elemento recolhe, maldizendo os outros durante o caminho até casa. Menos os adolescentes que dormem mais profundamente que as crianças. Uns anjinhos.

    O homem do prédio ao lado chama um táxi. Está desejoso de chegar a casa e rir com o companheiro das mentiras que tiveram de contar às respectivas famílias. Riem para disfarçar o desgosto de não poderem passar aquela noite juntos. Talvez para o ano seja diferente. Talvez para o ano tenham coragem.

    Uma a uma as luzes apagam-se e os motores dos carros deixam de se ouvir. Passou mais uma noite de Natal. Nenhum milagre trouxe a felicidade instantânea ou a resolução de todos os problemas sobre os quais ninguém quer falar. Daqui a umas horas tudo será como antes. Como sempre.

    Aguardo que os primeiros raios de sol aqueçam os meus ramos. Parece que já não vai chover.


  • Porque adoro o Natal, porque adoro esta música e porque adoro ver um artista português a mostrar como se faz algo bonito :)

    http://www.youtube.com/watch?v=3a-fSUwfLBM



  • Quando toda a gente só fala do palíndromo numérico que ocorre hoje às 11h11m, para mim este dia é apenas mais um dia de São Martinho.

    Não sei porquê mas esta sempre foi uma das minhas datas preferidas. Pode ter a ver com o facto de adorar castanhas e conseguir comê-las até o estômago estar prestes a rebentar. Ou talvez seja simplesmente uma data que associo a momentos muito felizes. As festas da escola primária onde havia um assador e a tarde era passada a fazer desenhos e composições sobre o Magusto. Os jantares em casa dos avós, com direito a água pé e abertura oficial da época da lareira. As disputas com os meus irmãos sobre quem tinha comido mais castanhas.

    São estes momentos que me invadem quando sinto o aroma de erva doce e compota caseira; quando vejo a nebelina de fumo que paira nas ruas; quando ouço a madeira a crepitar; quando saboreio iguarias outonais; e, principalmente, quando uma castanha assada me queima a ponta dos dedos, enquanto desfaço a sua capa de cinza.

    Com palíndromo ou sem ele, este será sempre um dia especial. Um dia dos sentidos.

  • Sou uma pessoa do Sol. 

    Gosto daqueles dias em que os termómetros ultrapassam os 30ºC, daquelas noites em que nos passeamos sem casacos, dos duches de água tépida ou dos mergulhos na água gelada. Gosto de sair de casa só com um vestido e ter as janelas sempre abertas. Por mim, podiamos mesmo ter um clima do hemisfério Sul, com sol e praia todo o ano.

    No entanto, ao Verão falta a "cozyness" dos dias frios. O estar em casa a ver a chuva cair enquanto o vento faz estremecer as janelas. O céu coberto por um manto de nuvens negras. As folhas esvoaçantes a colarem-se aos vidros dos carros. E nós enrolados no sofá, com uma chavená de chá e um bom livro, inundados pelo aroma de uma tarte de maçã e canela acabada de fazer ou pelo conforto de uma canja de galinha. Talvez seja por isso que a palavra que, para mim, melhor define esse estado seja inglesa. Só um povo que passa mais de dois terços do ano entre o cinzento e o antracite, envolto em lã e impermeáveis, podia ter inventado a palavra "cozy".

    Nós ficamo-nos com a "saudade", que é o que eu vou sentir pelo Verão daqui a mais ou menos dois meses.




  • A tirania dos números está a levar a que se perca a verdadeira essência das coisas. Não interessa se um produto é bom ou mau. O que interessa é como está destacado no linear, quanto dinheiro se tem para a divulgação e que técnicas de marketing podemos usar para manipular os consumidores. Aliás, os consumidores não têm tempo de conhecer os produtos, tal é a fugacidade com que saem das prateleiras.

    O pior é que esta realidade se vive em todas as áreas, desde os produtos de grande consumo, à cultura. E se um detergente para a roupa é um detergente para a roupa, e mal ao bem todos fazem o mesmo, quando toca à cultura, não é bem assim. As pessoas não precisam de um livro, de um quadro, de uma ida ao teatro como precisam de um pacote de leite. Por isso, quando consomem um produto cultural acabam por estar mais sujeitas ao que está mais acessível, visível, destacado.Se possível gratuito.

    Não é, por isso, de estranhar que a maioria considere os meios culturais portugueses pouco dinâmicos e só para os amiguinhos. É que, de facto, são sempre os mesmos a aparecer. Na imprensa, na rádio, na televisão, nos eventos culturais. De quem será, então, a culpa? 

    Dos senhores do marketing, que se regem apenas pelo número de vendas, desprezando que o principal objectivo da cultura não é a rentabilidade?

    Dos senhores da comunicação social, cada vez mais generalista, que se copiam uns aos outros em vez de procurarem por si as novidades (sim, procurar novos talentos, ir a concertos a meio da semana ou a exposições atrás do sol posto dá trabalho, sendo muito mais fácil falar do que os outros falam, do que se passa em Lisboa, mesmo ali ao lado da redacção, para não ter de pegar no carro)?

    Dos portugueses, que têm medo de dizer que gostam de algo que mais ninguém gosta, que preferem frequentar os mesmos sítios de sempre, ir onde toda a gente vai, jogar pelo seguro?

    Não sei. Talvez seja um pouco dos três. A única coisa que sei é que me custa ver actores soberbos em salas de teatro vazias, artistas fantásticos que não conseguem expor uma única peça, músicos virtuosos a tocarem em bares de hotéis, escritores fascinantes esquecidos nas prateleiras, sobretudo se não forem estrangeiros. Custa-me ver talentos escondidos atrás da secretárias de um escritório cinzento, porque há que pagar as contas e a arte alimenta a alma mas não o corpo.

    Entretanto ligo a televisão e lá está o mesmo indivíduo que esteve na véspera no canal da concorrência.

  • Somos um povo cheio de qualidades. Somos criativos, corajosos, desenrascados, prestáveis e amistosos. Mas também somos pouco reivindicativos. Claro que no café, ao pé dos outros, mandamos bocas e protestamos contra tudo e mais alguma coisa. “Se fosse comigo ias ver”, “era só o que faltava”, “ o que eles mereciam era isto e aquilo”. Só que depois, na solidão da individualidade, pomos o rabinho entre as pernas e vamos para casa felizes por não ser nada connosco ou, se o for, apostando na atitude do “se ninguém faz nada, também não sou eu que vou fazer”.

    O problema é que isto está a levar a uma crescente falta de civismo. O sentimento de impunidade leva os prevaricadores a esticarem a corda e os outros a terem cada vez menos coragem de intervir. E isto passa-se a todos os níveis, seja na politica (mas nem vou entrar por aí), no nosso posto de trabalho ou no quotidiano social. 

    Isto vem a propósito de um episódio que aconteceu no meu prédio, onde está a haver obras que têm começado por volta das oito, oito e meia da manhã. Ora, nos primeiros dias dá-se um desconto, mas quando o despertador começa a ser diariamente substituído por marteladas (incluindo ao Sábado!), começa a ser demais. O cúmulo foi ontem, quando as marteladas começaram às sete e vinte. Quem é que tem a falta de senso de começar uma obra num prédio residencial a essa hora? Saltou-me a tampa. A mim e ao meu marido, que saiu da cama disparado, pronto a descobrir onde estavam os trabalhadores da madrugada. 

    Não os tendo vislumbrado, decidiu contactar o condomínio e os outros condóminos. Qual não foi o nosso espanto quando nos disseram que a obra estava a ser feita numa das lojas do piso térreo e que, até então, ninguém tinha protestado, embora o regulamento do condomínio diga que só se pode fazer ruído depois das nove. O mais engraçado é que nós moramos no último andar! Se, a nós, as marteladas soavam como vindas de debaixo da cama, imagino o que ouviam os vizinhos do primeiro ou segundo andar. Mas ninguém protestou durante uma semana inteira, o que me leva a levantar duas hipóteses: ou todos os meus vizinhos acordam antes das sete e vinte, ou estão tão incomodados como eu, mas preferem ficar sossegadinhos nas suas casinhas à espera que alguém faça alguma coisa. Não tenho dúvidas que ganha a segunda.

    Chamem-me refilona, mau feitio, o que quiserem, mas para viver em sociedade todos temos de contribuir para o bem comum. Todos temos de chamar a atenção da criancinha que está a pisar as flores do canteiro, ou do jovem casal que deixa a fralda suja do bebé no meio do jardim, ou do senhor que passeia o cãozinho e não apanha os seus dejectos. E não é postando um comentário no facebook para que os nossos amigos se riam muito e façam “like”. É confrontando a pessoa, cara a cara, com educação. Mesmo correndo o risco de, do doutro lado, ouvirmos uma resposta ordinária. É que se nos calarmos, em breve serão os ordinários a maioria.

  • Não querendo transformar este blogue num desfiar de histórias sobre gravidez e maternidade, não posso deixar de puxar o assunto, desta vez com o intuito de encerrá-lo (pelo menos até encontrar algo sobre o mesmo que interesse ao público em geral, e não apenas a mães). Eu já sabia que as grávidas têm um estatuto especial, que as pessoas sorriem e tratam a gestante com desmesurada simpatia. Aliás, já escrevi aqui uma crónica sobre isso. O que eu não sabia é que a maioria das pessoas não consegue falar sobre outra coisa com uma grávida que não seja a gravidez. É como se, de repente, aquela mulher deixasse de ter qualquer interesse intelectual, seja advogada, artista ou prémio Nobel da Física.

    Claro que, para uma futura mãe, sabe bem receber uns mimos e ver que as pessoas se interessam por esta fase fabulosa que estamos a viver. Tenho todo o gosto em responder às perguntas "normais" e frequentes que toda a gente faz: tens passado bem? é menino ou menina? e como se vai chamar? é para quando? já estás a preparar o enxoval? Também é agradável receber uma ou outra dica de pessoas que já passaram pela experiência e que até se disponibilizam para emprestar coisas que os bebés só usam durante uns meses. Até aqui tudo bem. Só que a maioria das pessoas não fica por aqui, sobretudo as outras grávidas e as mães recentes.

    Para estas mulheres o tema é interminável. Além de tudo o que os outros perguntam, estes seres para quem a maternidade é a única razão de viver, gostam de saber todos os detalhes, desde o percentil do bebé, às decisões sobre o parto. Também não se coíbem de partilhar as suas histórias pessoais, como se fossem doutoradas no tema, apesar de só terem tido um filho. E muitas dessas histórias são de verdadeiro horror. Desde trabalhos de parto de dezoito horas, a recuperações pós-parto lentas e dolorosas e, por fim, à descrição de como vai ser a minha vida depois do bebé nascer, que normalmente inclui frases como "vais deixar de sair à noite", "vais deixar de ter tempo para ler" ou "vais deixar de comprar coisas para ti". Ora , obrigadinho, mas eu não quero saber disso para nada. "Too much information". O parto é uma inevitabilidade e vai acontecer dê lá para onde der, como tem acontecido a toda a humanidade há milhões de anos. E a vida muda, claro, até porque um bebé não é um Nenuco, mas só até ao ponto que deixarmos.

    Sim vou ser mãe, algo que queria muito e que tenho a certeza que vou adorar. Sim, é extraordinário saber que estou a criar um ser humano dentro de mim. Sim, a coisa mais bonita do mundo são as crianças (embora haja uns certos e determinados sapatos que lhes fazem frente, com a vantagem de que não nos acordam durante a noite). Mas acima de tudo vou continuar a ser a Filipa, filha, irmã, mullher, amiga, escritora, futura empresária, fã dos U2 e tantas coisas mais. Não quero que a minha personalidade se dilua num outro ser. Não quero substituir as minhas fotografias de perfil nas redes sociais por fotografias de outra pessoa (pois, meninas, lamento informar-vos mas o vosso bebé é uma pessoa, independente e com personalidade própria). Não quero que o meu bebé sirva para compensar quaisquer vazios sentimentias, profissionais ou socias que eu eventualmente sinta. E penso que não permitir que uma conversa sobre bebés se prolongue por mais de dez minutos, é um bom princípio.

    Por isso, meus caros amigos e amigas, quando me virem por aí, por favor, falem-me de política, de livros, de cinema, das novas colecções, das férias fantásticas que estão a planear, do Benfica. Estimulem-me os neurónios, que dizem que vão ficar mais lentos com a gestação. Já há privações suficientes na gravidez. Não me privem também da minha individualidade e de conversas interessantes. Obrigada.



  • Amor é receber este link a meio da manhã.

    http://www.youtube.com/watch?v=hAQhrD6ek4k





  • Apesar das milhares de pessoas e famílias a quem a crise que agora enfrentamos vai afectar e empobrecer, algo de positivo dela surgirá. Uma mudança de paradigma, que lentamente vai acabar com a sociedade descartável e o novo riquismo dos últimos vinte anos.

    Vamos voltar às coisas básicas como poupar água e energia, andar menos de carro, levar a geleira para a praia ou plantar salsa na varanda. Vamos voltar aos hábitos sustentáveis como levar o carrinho das compras para poupar os dois cêntimos por saco que nos cobram no supermercado, fazer compotas caseiras ou mandar arranjar os objectos que se estragam em vez de deitá-los fora. Contudo, ainda há um longo caminho a percorrer. O caminho do comodismo e do egoísmo.

    Por exemplo, agora que vou ser mãe e tenho inúmeros amigos na mesma situação, tenho perguntado a todos eles quem vai aderir às fraldas reutilizáveis. Não são como as do nosso tempo, que apertavam com alfinetes de ama e tinham de ser dobradas a preceito. Estas são tão fáceis de utilizar como as descartáveis, mas em vez de se colocarem no lixo, colocam-se na máquina de lavar roupa e voltam a usar-se dezenas de vezes. Mais, por cada bebé que use fraldas até aos dois anos e meio poupa-se cerca de €1400 (sim, mil e quatrocentos euros), duas toneladas de lixo incinerável (sim, porque as fraldas descartáveis não podem ser recicladas) e milhões de árvores que todos os anos são abatidas para produzir a celulose necessária para os absorventes das fraldas. Ah, e ainda se acabam com as assaduras nos bebés, porque as fraldas reutilizáveis são de puro algodão, sem químicos. Resposta de todos os meus amigos: "por e tirar fraldas da máquina? Isso dá muito trabalho...". Pois dá. Tudo o que se constrói dá trabalho, sobretudo para quem cresceu na sociedade Chiclete. Mastigar e deitar fora é muito mais fácil.

    Não estava à espera que todos se convertessem instantaneamente às fraldas reutilizáveis, que no fundo são apenas um exemplo de um produto mais barato e ecológico a ponderar numa altura de poupança. Mas podiam ao menos mostrar alguma curiosidade em conhecer esta alternativa, em vez de lançarem o seu categórico e egoísta NÃO. Conto, por isso, com esta crise para mudar mentalidades e espero que um dia toda a gente comece a olhar para além do seu umbigo e adopte práticas mais sustentáveis, não por necessidade, mas por opção.




  • Já há algumas semanas que venho a alertar os meus amigos (pelo menos a comunidade facebookiana) para a tragédia que está a acontecer em África. Como os meus posts não consistem num jovem a atirar-se para as moitas num skate ou em frases como "a comer sushi ao pôr-do-sol", não tenho tido grandes comentários.

    Bem sei que estamos a falar de África, que são todos pretinhos, pobrezinhos e haverá sempre fome em algum sítio do mundo. Bem sei que as pouquíssimas imagens que nos chegam são iguais às que já vimos milhões de vezes desde a altura do Live Aid e da crise na Etiópia, o que nos torna quase imunes às mesmas.

    O que não aceito é que se passe duas semanas a dar cobertuda ao acto de um lunático que matou 77 pessoas ou que os governos estejam tão atentos ao que se passa no Médio Oriente (por razões políticas e petrolíferas óbvias) ao ponto da própria Hilary Clinton afirmar ser intolerável o que se passa na Síria, onde 2000 pessoas foram mortas pelo seu próprio governo, incluíndo um bebé de um ano, e ninguém esteja a falar das 2000, DUAS MIL PESSOAS POR DIA que estão a morrer de fome na Somália. E acredite Sr.ª Clinton, que muitas são crianças com um ano.

    ONZE MILHÕES. Mais do que toda a população portuguesa, é o número de seres humanos que estão a sofrer as consequências drásticas da maior seca dos últimos sessenta anos no Corno de África. Onze. 11 000 000. Prevê-se uma catástrofe maior do que a de 1984. Mas ninguém quer saber. Porque são pretinhos, pobrezinhos e é impossível acabar com a fome no mundo.

    Não quero com isto desvalorizar a morte das 77 pessoas na Noruega. Jovens de futuros promissores, filhos, netos e irmãos de alguém que está neste momento com a vida destroçada. Também não desvalorizo por um segundo as duas mil pessoas que estão a ser massacradas na Síria, ou no Afeganistão, ou na Coreia do Norte ou em qualquer ponto deste planeta irracional. Mas duas mil pessoas por dia? Duas mil pessoas por dia que podem ser salvas com cerca de mil milhões de euros, que é quanto custa enviar equipas, comida e água para o terreno?

    O que é que podemos fazer? Podemos falar com os nossos amigos e transformar isto num assunto de café, podemos comentar nos blogues, redes sociais ou nos espaços próprios dos jornais online, podemos contactar o Ministério dos Negócios Estrangeiros ou as embaixadas dos países com assento no Conselho de Segurança das Nações Unidas para que levem o assunto à próxima reunião, podemos obrigar a comunicação social a falar do assunto, podemos organizar marchas e vigílias. Se tudo isto der muito trabalho, podemos simplesmente fazer um telefonema de valor acrescentado ou assinar a petição de uma qualquer ONG que esteja no terreno. 


    http://www.unicef.pt/artigo.php?mid=18101112&m=3&sid=1810111239

    http://cruzvermelha.pt/ultimas-noticias/1191-corno-de-africa-seca-e-inseguranca-alimentar.html 

    http://act.one.org/sign/horn_of_africa/?source=horn-partner-post

    http://www.avaaz.org/en/somalia_stop_the_famine_unsc/?cl=1197160320&v=9810

    Há sempre alguma coisa que podemos fazer. O que não podemos mesmo é continuar indiferentes.



  • Hoje a MTV faz 30 anos. Sendo os 30 considerados os novos 20, estas deviam ser boas notícias para a MTV. Só que infelizmente, há quem envelheça mal.

    A minha primeira recordação a MTV é de cerca de 1985. O meu pai tinha um bar e esse bar tinha uma parabólica que passava a MTV quase todo o dia. Passei, portanto, muitas tardes da minha infância a ver videoclips que me deixavam colada à tela do retroprojector e que foram parte importante da minha educação musical e artística. Os que melhor recordo, ou pelo menos os que na altura tiveram maior impacto no olhar de uma criança de 6 anos, são o "Sledgehammer" do Peter Gabriel, o "Dancing in the Street" de Bowie e Jagger, o "Walk this Way" dos Run DMC e Aerosmith e, claro, o "Like a Virgin" da Madonna. Depois desse primeiro impacto, continuei viciada na MTV, sobretudo quando, por volta de 87 ou 88, tivemos uma parabólica em casa. Quando não estava a ver desenhos animados ou séries míticas como o MacGyver e o Justiceiro, mergulhava no maravilhoso mundo dos videoclips do Michael Jackson, dos sapos do Paul McCartney e, ainda e sempre, da Madonna. Claro que já na altura havia muita coisinha má a passar pela MTV (relembro que estamos a falar dos anos 80), mas ainda assim o canal era exactamente o que afirmava ser: Music Television.

    Nos início dos anos 90 a MTV continuou fiel a si própria: 90% da programação era música e boa. Posso agradecer-lhe a minha paixão pelos U2, que descobri em 1991 graças ao videoclip do "Even Better than the real thing" e depois do "Misterious Ways", e pelo grunge. Impossivel cansar-me do "Smells like Teen Spirit", do "Jeremy", do" Black Hole Sun". No meu quarto de adolescente a MTV estava sempre a dar e era aí que procurava novas bandas e sonoridades.

    Só que, de repente, chegámos ao século XXI e à era da Internet. Foi a morte do artista. Em vez de continuar com o espírito cool e rebelde da sua adolescência, a MTV transformou-se num jovem adulto à procura do primeiro emprego: muito certinho, arrumadinho e politicamente correcto, mas sem nada de interessante para dizer. Quando percebeu que também não era assim que ia lá, decidiu tornar-se um adulto histérico, comercial e desesperado. A lembrar aquelas mulheres de quase 30 anos que acham que vão ficar para tias e então decidem por umas mamas de silicone e atirar a tudo o que mexe. Vendeu-se às gandes editoras, que só promovem divas semi nuas e rappers indistintos, e tentou conquistar novos públicos com reality shows deprimentes que incluem títulos como "Grávida aos 16". Os seus públicos originais, esses, há muito que desistiram dela. E é assim que hoje, no seu trigésimo aniversário, o que eu desejo é que a MTV acabe e não nos envergonhe mais. Porque quando não se sabe envelhecer, mas vale sair de cena.

  • Tenho a sorte de ainda ter duas avós. Três, se contar com a Maria, uma avó por afinidade, mas cujo amor por nós é mais do que de sangue. De todas elas guardo lembranças doces. Apenas lembranças doces. 

    Não consigo recordar-me de um açoite ou de um castigo. Mesmo perante a maior traquinice, o máximo que ouvi foi um “Foge daqui sua malvada! Quando o teu pai chegar vais ver!”. E o pai chegava, mas as únicas palavras eram “Claro que se portou bem”. Por vezes, era eu própria quem cedia ao peso da consciência e confessava que tinha partido uma jarra ou andado à bulha com o meu irmão. Mas nem aí me traíam, mudando de assunto com um encolher de ombros.

    Dos meus avôs, que já não tenho, as recordações são igualmente doces. Sobretudo do Avô Domingos, que transformava o pinhal das traseiras numa selva onde fugíamos dos leões e a cama num autêntico palco onde encarnávamos mil personagens até o sono nos vencer. 

    Perante esta experiência, que sei que é semelhante à de muita gente, a única coisa que posso concluir é que os avós servem para adoçar a nossa existência. Não são eles que nos devem educar, nem disciplinar, nem aturar birras e rebeldias. Já tiveram a sua dose numa altura bem mais complicada da vida, em que não havia carros, nem máquinas de lavar roupa, nem aulas de puericultura, nem infantários, nem licenças de natalidade. Agora o seu único dever, que cumprem com um sorriso babado, é dar aos netos o que eles precisam: doçura, que não é mais do que uma mistura de amor, paciência e orgulho infinitos.

    Sim, ser avô é bem capaz de ser melhor do que ser pai. E eles merecem-no. Só espero um dia também ter a sorte de lá chegar e mimar os meus netos como o meus avós me mimaram. 

    Um bom dia para vocês todos, queridos avós.


  • Há livros que não são para todos. Ou porque requerem um conhecimento da História, da cultura do escritor ou da própria língua que não temos. Ou porque estão tão mal escritos que nem dá vontade de passar o primeiro parágrafo. Ou ainda porque o género não nos diz absolutamente nada. Até aqui tudo bem.

    Só que depois há os livros consagrados, considerados por todos os críticos como essenciais, obrigatórios, obras primas da Literatura, e que simplesmente não conseguimos ler. Pegamos neles cheios de expectativa, cheios de certeza de que vão são as horas mais bem passadas dos últimos tempos e acabamos por nos perder logo no início do primeiro capítulo. «Não pode ser. Mas se toda a gente diz que é tão bom, vou ter de ler até ao fim. Se calhar a culpa é minha. Tenho de ler em silêncio. Ou tenho de ler antes de ir para a cama, antes de estar com sono, antes que a família chegue a casa, antes que o gato acorde.» E tentamos lê-lo em diferentes situações e até em diferentes posições. Porém, sempre com o mesmo resultado: um nervoso miudinho, uma voz no cerébro a dizer «esse livro é uma seca! Nunca o vais acabar!», uma certeza de que somos demasiadamente burros para entender tão belas palavras.

    Ora eu, quando um livro me faz sentir assim, burra, não insisto. Simplesmente ponho-o de lado e pego noutro. Mal digo durante uns minutos todos os intelectuais que disseram bem dele e todos os amigos que mo aconselharam, mas não fico a achar que o problema é meu.

    Primeiro, porque penso que um livro realmente bom e realmente clássico deve ser para todos. Não é o leitor que tem de ter um curso de Literatura ou uma cultura geral enciclopédica. O escritor é que tem de conseguir contar uma história de um modo belo, mas inteligível, mesmo quando o tema é mais filosófico ou mais intelectual. E há centenas de autores que o fazem.

    Segundo, porque há tantos livros realmente interessantes a ler ainda nesta vida, que não vou perder o meu tempo com algo que me está a incomodar.

    Tudo isto para dizer que "As memórias de Adriano", de Marguerite Yourcenar, ao fim de setenta páginas foi para o lote dos "livros secantes que não vou sequer tentar voltar a ler". Mesmo ao lado do "Ulisses" do James Joyce (embora este ainda tenha tentado três vezes). Próxima tentativa: "Em busca do tempo perdido", de Marcel Proust. Wish me luck...


  • Paris is so overrated...

    Não consigo encontrar uma expressão portuguesa que traduza melhor o sentimento com que deixei a Cidade Luz. Não é que não tenha gostado. É sem dúvida uma cidade lindíssima, mas não tão mais bonita que outras grandes cidades que conheço.

    Escolhi este destino para celebrar o meu quarto aniversário de casamento por acreditar que seria do mais romântico que há. Já lá tinha estado em 1993 (sim, não estou a ficar mais nova) e então achei que era uma das cidades mais fascinantes do mundo. Os edifícios eram lindos, a Torre Eiffel deslumbrante, os jardins refrescantes, os museus grandiosos, Montmartre inesquecível. A questão que hoje coloco é: será que foram os meus olhos de adolescente deslumbrada que viram Paris com um filtro cor-de-rosa, ou a cidade mudou tanto em 18 anos que está irreconhecível? Pode ser um pouco de ambos, mas o que é facto é que, desta vez, Paris saiu do meu top 3.

    1) a poluição é assustadora. Entranha-se no nariz e aloja-se na garganta, como se tivéssemos fumado três cigarros de seguida

    2) os jardins refrescantes e os museus grandiosos não chegam para tantos visitantes, o que faz com que, perante um Monet ou um Gaugin, desejássemos estar a vê-los num livro, evitando dessa forma os encontrões e as pisadelas

    3) as inesquecíveis ruas de Monmartre parecem os corredores do Colombo em dia de jogo do Benfica, nomeadamente no que toca à “pirosada” por metro quadrado

    4) as Maisons estão invadidas por americanas histéricas, que querem imitar todos os passos da Carrie nos episódios finais do “Sex and the City”, ou por novos ricos chineses e russos que compram tudo o que podem. Só para terem uma ideia, a Chanel da Avenue Montagne parecia uma Zara e na Chistian Louboutain havia uma fila de espera de vinte minutos só para entrar na loja. Perguntei se era por ser fim-de-semana. Responderam que não.

    5) qualquer bistrô com bom ar e com uma esplanada simpática para descansar e trocar juras de amor, não tem nada que custe menos de três euros. É tudo bom e bem confeccionado, mas quando se cobra seis euros por uma coca-cola ( e não, não foi no Ritz) passamos do caro para o assalto à mão-armada

    Podem dizer-me que há outras cidades caras e invadidas por turistas até ao insuportável, mas nem por isso menos fascinantes Sim, é verdade. Mas em Nova Iorque posso fugir para o Central Park e comer um cachorro na rua por um dólar e meio. Em Florença posso evitar os encontrões no centro, deambulando por ruelas quase desertas onde me sento a beber um copo de vinho por um preço aceitável. No Rio posso dar uma escapadela até à Joatinga e saborear um picolé por 3 ou 4 reais. Em Paris não. Não se consegue evitar perder a paciência e todos os euros da carteira , seja qual for o bairro escolhido. Penso que a beleza da arquitectura e o peso da história não são suficientes para compensar tudo isto e ainda a antipatia dos parisienses (com a qual sou agora solidária, pois se vivesse lá também não mostrava os dentes a ninguém). Há lugares tão mais bonitos. A começar por Lisboa.

    Para mim, não há vista em Paris que se compare ao Miradouro da Graça, nem esplanada melhor do que o Pátio 13, nem bairro parisiense mais encantador que o Chiado. Mas fico muito feliz por tanta gente preferir Paris. Vão todos para lá, a sério. Não venham estragar a minha pequena, luminosa e incomparável Lisboa.




    Pôr-do-Sol em Lisboa e em Paris




    Quanto à celebração do 4º aniversário de casamento, não posso negar que jantar em Paris com a Torre Eiffel a cintilar como cenário é, de facto, uma das coisas mais românticas que se pode fazer. Pelo menos uma vez na vida.


    Feito.










  • O meu grande amigo Vasco Palmeirim descobriu 10 razões para convencer qualquer pessoa a comprar o meu livro. Foi um momento tão hilariante do lançamento d'Os 30, que seria uma pena se ficasse apenas na memória de quem o presenciou. É que ainda por cima, e apesar de vivermos na era das tecnologias, ninguém (incluindo eu) se lembrou de filmar. Foi por isso que lhe pedi que escrevesse as tais das razões para a posterioridade. Ei-las.


    5 razões para os homens comprarem "Os 30 - Nada é como Sonhámos"

    1ª - Este romance inclui lésbicas.

    2ª - Este romance inclui possíveis ménages à trois.

    3ª - Este romance inclui miúdas giras que gostam de ver futebol a beber cerveja. Sem copo.

    4ª - Este romance inclui uma adega mais estimulante que a voz do Barry White.

    5ª - Este romance inclui folhados de camarão.


    5 razões para as mulheres comprarem "Os 30 - Nada é como Sonhámos"

    1ª - Este romance inclui sapatos Prada

    2ª - Este romance inclui mulheres a dizer mal umas das outras.

    3ª - Este romance inclui um homem a chorar.

    4ª - Este romance inclui sexo carregadinho de pecado.

    5ª - Este romance é cor-de-rosinha e fica muito bem naquele móvel do IKEA que temos na sala.

    Muito obrigada queridoVasco!

    (para mais momentos de piada extrema, sintonizem as manhãs da Rádio Comercial ou vejam "A Rede" à quarta-feira no canal 15 do Meo. Acreditem que vale a pena)



  • Quando escolhi para usar no dia do lançamento do meu livro o mesmo corpete que vesti no dia do meu casamento, pensei que essa seria a única semelhança entre dois momentos especiais da minha vida. Mas não. Como pude comprovar, há muito mais em comum entre lançar um livro e casar. Senão vejamos:

    1) a noiva não consegue beber nem comer nada. A autora também não.

    2) a noiva não consegue dar atenção a toda a gente que teve a paciência de se deslocar ao evento. A autora também não.

    3) a noiva dá beijinhos cada vez que se vira para algum lado. A autora também.

    4) a noiva está nervosa e, quando chega a sua vez de falar, engasga-se de emoção. A autora também.

    5) nesse dia, a noiva recebe amor infinito das pessoas mais importantes da sua vida. A autora também.

    6) para a noiva, duas horas parecem dez minutos. Para a autora também. 

    7) no final da noite, a noiva está estafada mas não consegue adormecer, tal é o "excitex". A autora também.

    8) no dia seguinte, ao relembrar os momentos e as pessoas que estiveram ao seu lado, a noiva emociona-se. A autora também.

    Obrigada a todos os que partilharam este dia tão importante para mim. E obrigada a todos os que não puderam comparecer mas enviaram as suas boas energias.


  • É hoje!

  • Filipe

    A minha memória mais antiga é de uma árvore de Natal. Quer dizer, hoje sei que era uma árvore de Natal, mas na altura só me lembro da luz amarelada que envolvia aquele objecto cheio de cores e formas. Acho que estava sentado num carrinho de bebé, preso com o cinto. E, embora me lembre exactamente do que queria dizer, («Olha, mãe, que lindo»), ainda não sabia falar, porque a sensação era a mesma de quando num sonho queremos gritar e não conseguimos. Naquele caso, acho que só consegui emitir sons imperceptíveis. Foi nesse dia que aprendi o que era ser incompreendido. 
    Tudo o resto acabou por ser mais do mesmo. Os desenhos na pré-primária que representavam um sem-abrigo a dormir no jardim, e que as educadoras insistiam em dizer que era o menino Jesus nas palhotas; ou as vezes em que carregava a mochila da Patrícia ao longo de três quarteirões, não por gostar dela mas apenas para ver A Mãe, que a esperava à porta do prédio e me agarrava as bochechas com as mãos suaves de unhas encarnadas com aroma a baunilha. 
    Coitada da Patrícia... No oitavo ano, após cinco anos de uma espécie de namoro platónico que atravessou a nossa infância e puberdade, disse-me «está bem, podes beijar-me, mas sem língua» e levou uma tampa. Não foi uma tampa porque obviamente não lhe disse a verdade. Tive de inventar que estava com dores de garganta e que até lhe podia pegar e fui a correr para casa masturbar-me a pensar n’A Mãe. Nas semanas seguintes joguei à bola todos os dias depois das aulas e, quando o Inverno começou e não havia jogos, comecei a namorar com a Rita, uma miúda longe de ser bonita, mas com um peito bastante avançado para os seus treze anos. A Patrícia ficou com o coração partido, eu deixei de poder ver A Mãe e ainda fiquei com uma namorada feia, que dava beijos de cinco dolorosos minutos com a língua dura e áspera. Pior, quando quis acabar tudo para bem do meu pescoço, ela deixou-me passar para a fase dois, ou seja, tocar-lhe nas mamas, o que me fez manter o namoro mais uns meses e aprender o que é ter o pescoço dormente. Logo aí devia ter percebido que, 1) as mentiras, por mais pequenas que sejam, só nos arranjam problemas e, 2) o meu futuro com as mulheres não ia ser brilhante.
    Como destruí a minha reputação com as miúdas da escola, tive de me refugiar no grunge e na literatura para sobreviver à adolescência. Claro que ia às festas todas e fingia que me estava a divertir imenso nas matinées cheias de fumo e de pessoal a curtir debaixo das mesas. Tinha amigos e até me considerava bastante sociável, mas era no meu quarto que me sentia melhor. Lia, escrevia, compunha melodias estúpidas na guitarra e sonhava com a Liv Tyler do clip dos Aerosmith, com a Vanessa Paradis ou, num estilo mais porco, com a Pamela mesmo. Enquanto a malta fumava haxixe e bebia shots de absinto para ter «experiências diferentes», eu preferia questionar a realidade que nos apresentavam todos os dias nas aulas. Os sistemas políticos permeáveis à corrupção, a subjugação intelectual imposta pelo catolicismo, os interesses económicos que sustentam as guerras. Infelizmente, não tinha muita gente com quem debater esses assuntos. Alguns professores até gostavam dos temas que eu lançava, mas a maioria queria era despachar a matéria e manter-se inquestionável. Aliás, como ainda faz quase toda a gente que conheço.

    A única coisa relevante que me aconteceu na adolescência foi a Bé. Conheci-a numa noite de chuva de estrelas em Agosto. Eu estava na casa de férias da família com os meus avós e os meus primos, que eram ainda miúdos. Nessa noite decidi ir dormir na praia para poder ver bem o fenómeno, longe das luzes da vila. Peguei no saco-cama, levei comida para três dias, uma lanterna, o meu caderno e o walkman. Estava deitado de barriga para cima a ouvir a «Polly» quando a Bé se debruçou sobre mim e disse qualquer coisa que não percebi. Vendo bem, ela podia ter gritado, porque naquele momento o mundo parou e eu só via os seus lábios cor-de-rosa mexendo-se suavemente.
    – Fogo, pregaste-me cá um susto – exclamei, sentando-me o mais depressa que consegui.
    – Desculpa, só queria lume – respondeu numa voz rouca e tão sexy que hoje acredito nunca ter conseguido esquecê-la por causa disso.
    – Ah, lume não tenho... Quer dizer, espera, eu trouxe fósforos comigo para fazer uma fogueira.
    – Uma fogueira?!
    – Claro. Daqui a nada vai estar frio.
    – Então faz lá a fogueira para eu poder acender o meu charro.
    E assim ficámos, deitados na areia a ver a chuva de estrelas, ela a fumar charros e eu a fingir que não estava absolutamente nada fascinado pela sua sensualidade.
    – Porque é que fumas isso? É para fugires de uma realidade sufocante? – perguntei, armado em experiente.
    – Claro que não! – exclamou a rir às gargalhadas. – Que cena é essa de as pessoas pensarem que a erva provoca alucinações e nos leva para mundos paralelos e que a malta fuma para não encarar a realidade? A erva apenas me descontrai... O corpo fica leve, como se estivesse a andar nas nuvens, e a mente fica desperta para sensações que normalmente ignoramos: os sons da natureza, os aromas... Gosto de sentir o cérebro a andar a mil à hora e, um minuto depois, ficar em branco. No dia seguinte ponho-me a pensar no que senti e pinto. Não, não tenho uma infância sombria nem uma família disfuncional. Não sou depressiva nem tenho medo de enfrentar a realidade. Só gosto de apanhar umas mocas. Pode ser?
    – Acho que sim... Por mim, fuma o que quiseres... – respondi com indiferença. – Eu prefiro a vida a cru. Gosto de estar sóbrio para sentir tudo, sentir que é real; que a vida, o Universo, são reais. Às vezes não pensas que se calhar não estamos mesmo a viver? Que se calhar estamos dentro de um filme ou da cabeça de alguém? E como é que chegámos até aqui? Isto é, a este estádio de evolução. Como é que, por exemplo, Galileu, ao olhar o céu como nós estamos a fazer agora, conseguiu descobrir que a Terra é redonda e teve a audácia de o dizer a toda a gente. Claro que pensaram que era louco. Não pensas nessas coisas?
    – Penso! Claro que penso – respondeu entusiasmada. – E sabes uma coisa que me questiono montes de vezes? Como é que sabemos que estamos os dois a ver a mesma coisa? Tipo as cores e assim. Será que a minha camisola é mesmo vermelha ou é apenas o nome que alguém deu a uma cor que o meu cérebro vê a cinzento e o teu a verde? Quem é que decidiu que aquilo é vermelho? E como é que apareceram as palavras?
    Durante uns dez minutos o silêncio foi apenas pontuado pelos nossos sorrisos, enquanto pensávamos como é bom encontrar alguém com quem podemos ter estas conversas a roçar o absurdo sem sermos gozados ou olhados de lado. Depois, assim do nada, ela disse:

    – És virgem?
    – Que raio de pergunta é essa?
    – É uma pergunta super-simples. Eu sou virgem, e tu?
    – Também – confessei com alguma hesitação.
    – Oh, bolas.
    – Qual é o problema? Só tenho dezasseis anos, não é assim tão grave. Além disso, a maioria dos meus amigos também é, mas inventam histórias com amigas das primas que ninguém conhece só para parecerem muito experientes.
    – Não é isso – suspirou. – É que eu estou desejosa de saber o que é isso do sexo. E, como não tenho ilusões de encontrar um príncipe encantado nem acho que a virgindade seja algo assim tão importante como fazem parecer, gostava de experimentar o mais depressa possível e acabar com o mistério. Mas quero que seja com alguém que saiba o que está a fazer, estás a ver?
    – Ah... Bom, costumam dizer que eu aprendo depressa.
    – Sim, está bem. Deixa estar. Além disso, eu gosto de ti. Tipo, acho que podíamos ser amigos, ter conversas ao telefone, ir comer um gelado num dia de chuva, ver cinema francês num cineclube snob. Se houver sexo agora, vamos estragar todo o nosso futuro juntos.
    – Pior: até podíamos apaixonar-nos!
    – Isso, sim, seria trágico. Promete-me – pediu, agarrando-me os pulsos.
    – O quê?
    – Que nunca te vais apaixonar por mim e que vamos ser sempre os melhores amigos um do outro.
    – Combinado.
    – Tenho de ir, senão a minha mãe não me vê no quarto e entra em histeria a pensar que fui raptada.
    – Vais já? Espera! Como é que te chamas?
    – Chama-me o que quiseres – disse, enquanto sacudia a areia das pernas e calçava as sandálias de tiras.
    – Vá lá, diz-me. Eu sou o Filipe.
    – Até amanhã.
    Desapareceu na escuridão a correr como se voasse, os cabelos negros a ondularem ao ritmo dos seus passos.

    E pronto. Foi assim que conheci a Bé, a miúda mais fascinante à face da Terra. Passámos o resto do Verão em serões filosóficos, interrompidos apenas pela minha tentativa de a convencer a perder a virgindade comigo, coisa que ela não fez, para grande pena minha. Acabou nos braços de um surfista bem mais velho, que no dia seguinte a evitava, exactamente como ela queria, pois insistia em que o sexo é algo animal e que a ligação emocional que se teima em fazer com ele é apenas uma invenção da literatura. Eu morria de ciúmes, mas não podia mostrar, até porque tínhamos combinado nunca nos apaixonarmos um pelo outro. Também morria de inveja por ela já saber o que aquilo era e eu não. Ela gozava comigo e tentava impingir-me as amigas.
    No fim das férias, verificámos que morávamos longe demais para conseguirmos fazer os programas que tínhamos planeado. Decidimos que as cartas seriam a nossa única ligação. Ainda as guardo. Ela escrevia com a alma e mandava-me desenhos fabulosos que ilustravam os seus pensamentos. Quando havia algum acontecimento realmente importante, permitíamo-nos telefonar. Para mim qualquer coisa era um acontecimento importante e nunca conseguia estar mais de um mês sem ouvir a sua voz. Ela fingia que ficava chateada por eu estar a ligar sem motivo válido, mas acabava por me dar conversa durante duas horas. A cada carta e a cada telefonema, eu percebia que estava mais perto de quebrar a única promessa que lhe fizera. A nossa ligação emocional era tão forte que me impedia de me envolver com outras pessoas. Nenhuma delas tinha a voz da Bé, o cabelo da Bé, os lábios rosados da Bé, a inteligência e o humor da Bé.
    No Verão seguinte, eu, como sempre, estraguei tudo. Depois do último mergulho do dia deitámo-nos na areia a ver o pôr do Sol. A pele dela, intensamente dourada pela luz de fim da tarde, estava arrepiada. As gotas de água desciam alegremente por cada curva do seu corpo. Ela fechou os olhos para aproveitar o ténue calor dos últimos raios de sol e foi então que a beijei. O corpo dela respondeu e ficámos meia hora enrolados. Eu explodia de desejo, a cabeça andava à roda num turbilhão de emoções. Ela estava calma e etérea como sempre. No fim apenas disse:
    – Estás apaixonado por mim. – E antes que eu tivesse tempo de retorquir continuou: – Acho que é melhor ficarmos uns tempos sem nos falarmos para ver se isso te passa e me dás o meu amigo de volta.
    – Mas, Bé, porque é que não podemos namorar? Nós somos os melhores amigos, temos química, gostamos de estar um com o outro, é simples!
    – Um dia vais perceber que o amor não tem nada de simples – respondeu, levantando-se num ápice. – E quando eu tiver um acesso de mau feitio? E quando tu tiveres uma crise de ciúmes? E quando quisermos estar com outras pessoas? Vamos aguentar? E se um de nós for viver para fora? E se nos apaixonarmos por outra pessoa? O que é que vai ficar entre nós? Desilusão? Rancor? Saudade? Sabes o que é uma pessoa que amas desiludir-te? Não imaginas o que isso é, pois não? É o pior de tudo.
    – Então tu preferes passar ao lado do que podia ser o grande amor das nossas vidas só porque tens medo de que a coisa acabe mal e não sobre nada? – perguntei num tom irritado. – É melhor passar o resto da vida em relações falhadas, sempre a pensar no que teria sido, queres ver?
    – Quais relações falhadas?
    – Olha, do tipo da que tens agora com o Jorge. Ou isso também é uma experiência não emocional? O que é que queres provar a ti própria com essas cenas?
    – Nada. Nem a mim nem a ninguém – respondeu com um encolher de ombros. – Apenas adoro a minha liberdade, fazer o que me apetece, com quem me apetece, sem obrigações morais ou emocionais.
    – Mas são essas obrigações que nos fazem humanos, não percebes? – gritei, agarrando-lhe os braços. – As pessoas são feitas de sentimentos e, quando há sentimentos entre duas pessoas, sejam amor, ou amizade, ou compaixão, devemos aproveitar para os viver ao máximo em vez de fugir.
    – Olha, agora é que disseste a coisa certa: sentimentos de amizade. É isso que nós temos, Filipe. Não queiras perder isso, por favor. – Nessa altura lançou a arma que me retirava qualquer poder de argumentação: o beicinho. – Temos dezoito anos e a vida toda pela frente. Se começássemos uma relação agora, o mais provável seria acabarmos nos próximos cinco anos e nunca mais nos vermos. As pessoas mudam muito na nossa idade. Ficaríamos sem namoro e sem amizade, não percebes? Já viste tudo o que partilhámos desde aquela noite na praia? Tudo o que estaríamos a pôr em causa? Vá lá, deixa de ser infantil. – E com um enorme sorriso terminou a conversa, dizendo: – Se quiseres apresento-te umas amigas bem giras. E fáceis!
    – Pois, está bem... Tens cá uma graça... – murmurei, rendido à evidência de que, mais uma vez, não ia ter coragem para lutar pelo que mais queria.
    A primeira carta que me escreveu depois dessas férias era a continuação da nossa relação antes do episódio do beijo. Nunca falou do assunto e continuou a contar-me como estava a ser a faculdade de Direito para onde teve de ir para não entrar em ruptura com o pai, que não aceitava o curso de Belas Artes como um curso superior, e outras coisas banais da vida que não me interessavam rigorosamente nada. Até nisso se mostrou melhor do que eu. Para ela, a nossa amizade era tão preciosa que estava empenhada em fazer com que eu a esquecesse e voltássemos a ser «nós». Eu respondi-lhe com uma carta absolutamente patética, composta por uma sucessão de versos de letras de músicas, tipo you gave me nothing now it’s all I got ou I wish I was special, you’re so fucking special e cenas apaixonado-depressivas do género.
    Ela nunca mais me respondeu. E eu nunca mais soube nada dela.


    in Os 30 - nada é como sonhámos


  • Alguém me explica que mania é esta dos cupcakes?

    A sério. Eu até sou toda "Sexo e a Cidade" e acho os cupcakes amorosos numa mesa de festa, mas esta epidemia que agora se vive está para além da minha compreensão.

    Tudo começou há uns anos com as "cake designers", que nos seus blogs e sites mostravam estas preciosidades da pastelaria como alternativa aos bolos tradicionais. Depois, alguns cafés mais fashion decidiram ter também estes bolinhos nas suas vitrines, como símbolo de sofisticação. Daí a abrirem quisoques de cupcakes nos centros comerciais foi um passo. E ontem vi que até o café lá da rua tem a palavra escrita na montra, ao lado de "pão quente" e "comida para fora"!

    A questão é: porquê?

    É que para quem não sabe, o cupcake não passa de uma versão americana de um queque. Ou seja, não basta as calorias e gorduras que um singelo queque tem, vamos também enchê-lo de creme e corantes e pepitas de chocolate e açucar. Em resumo, vamos estragá-lo. "Mas é bom?" perguntam os leitores que ainda não tiveram a oportunidade de provar. Ora, vou por isto de uma maneira simples. Imaginem um queque com uma bomboca por cima e pepitas de massapão coloridas a enfeitar. É bom à primeira dentada. À segunda, começa a formar-se uma bola no estômago e à terceira, já só vai lá com Àgua das Pedras. Mas isso sou eu.

    A sério, deixem-se de americanices. Temos a melhor Cozinha e Doçaria do mundo. Façam quiosques de palmiers, de jesuítas, de bolo de arroz, de bolas de berlim. Aposto que se fizessem os docinhos de amêndoa do Algarve em forma de sapatos e malinhas e abrissem um quiosque em qualquer parte do mundo, nunca mais ninguém quereria saber dos cupcakes para nada. Muito menos o café da minha rua.

  • Queridos amigos e leitores deste blog,

    Serve este post para anunciar oficialmente que vou lançar o meu primeiro livro! Chama-se "Os Trinta - nada é como sonhámos" e vai ser editado em meados de maio pela Oficina do Livro. Façam like na página oficial do facebook e fiquem a par de todas as novidades (lançamento, sessões de autógrafos, entrevistas, etc).
    https://www.facebook.com/pages/Filipa-Fonseca-Silva/495391463830180

    Para qualquer assunto relacionado com o livro podem também escrever-me para filipafonsecasilva@gmail.com

    Estou ansiosa para que o leiam e me deêm a vossa opinião.


  • Doces, molhados, ternos, violentos, fugazes, escondidos, repenicados, os beijos são das melhores coisas do mundo, quer para quem os recebe, quer para quem os dá (a não ser que sejamos uma criança e nos estejam a obrigar a beijar as faces poeirentas de uma amiga da avó).

    O simples contrair dos músculos faciais tem o poder de nos despertar um sorriso, de nos arrancar uma lágrima, de nos provocar um arrepio. Sentir a pele de alguém na extremidade dos nossos lábios pode ser uma experiência tão casta quanto erótica, mas nunca é indiferente.

    Pensem nos melhores beijos que já deram na vida. Eu lembro-me de vários e a cada um deles associo uma memória feliz. Os beijos que dava no pescoço do meu avô quando ele me pegava ao colo num longo abraço. Sabiam a aftershave, mas eram tão bons.... Ou os beijos que dava na cabeça da minha irmã quando esta cabia na minha mão, tão pequenina. Ou claro, o primeiro beijo que dei a um certo e determinado rapaz, que trabalhava num certo e determinado bar de praia, num certo e determinado Verão. 

    É claro que também há beijos maus, sobretudo quando passamos dos beijos fofinhos para os beijos de língua. Ora a arte de movimentar a língua é algo que nem todos têm a sorte de dominar. É praticamente um talento e como tal, inato. Quem não tem jeito não se devia meter nisso, por mais horas de treino com copos e espelhos que tenha. É que uma má língua é o suficiente para transformar o que podia ter sido um simples e bonito beijo numa experiência traumática. Mas isso é tema para toda uma outra crónica.

    Voltando aos beijos. Pensem nos que deram hoje. Aposto que a maioria só deu beijos para o ar, ao cumprimentar alguém. E se é uma pessoa afectada, daquelas que só dá um beijinho, até esses foram metade do que é suposto. Quem vive acompanhado não tem razão alguma para não começar o dia a beijar todas as pessoas que vivem lá em casa. Não o beijo educado de bons dias, mas o beijo cheio de amor. E quem vive sozinho pode começar por beijar o próprio braço. Depois ganhar coragem para pespegar uns valentes beijos nos amigos e, se lhe der na telha, beijar um desconhecido na rua. Porque não?

    Se até a nossa língua nos relembra todos os dias deles! Mandamos beijinhos ao telefone, mandamos beijinhos no facebook, mandamos beijinhos quando nos despedimos de alguém. Mas DAR beijinhos, nisso somos tímidos. E é uma pena. Porque não há nada melhor. Não admira que as velhotas de faces poeirentas queiram sempre tantos. Elas é que sabem o que é bom!

     Alfred Eisenstaedt
  • Pronto, e com isto me rendo ao iPad...


    À venda em http://spinninghat.com/product/typescreen



  • Não tem sido surpresa para mim descobrir que, à medida que os anos passam, a minha fé na espécie humana diminui. Ainda assim, com 31 anos, considero-me uma sonhadora e acredito que posso salvar o mundo. Pelo menos pequenas partes dele. Acredito que as pessoas, por mais burras e manipuláveis que sejam, uma dia vão mandar os seus líderes e governos à fava. E acredito que os discursos autistas e demagógicos desses líderes e desses governos vão deixar de funcionar, obrigando-os a fazer politica de outra maneira. 

    Gostava que esse dia tivesse sido hoje, quando ouvi o presidente dos EUA a discursar sobre a intervenção militar na Líbia. “Blá, blá, blá, não tivemos alternativa”, “blá, blá, blá, pela democracia”, “blá, blá, blá, para proteger os civis”. E ninguém na assitência se riu! Para proteger os civis? Têm todo o meu apoio se começarem no norte de África e forem descendo por ali abaixo, país por país, ditadura, por ditadura, genocídio por genocídio, mostrando que se preocupam também com os civis do Sudão, do Chade, da Serra Leoa, da Costa do Marfim, do Congo... 

    Não se riam. É óbvio que não sou assim tão ingénua nem tenho qualquer ilusão acerca do papel das instituições. Bem sei que, a cada intervenção militar, o Ocidente e a NATO só protegem os seus interesses económicos e, no caso da Líbia, os interesses são mais que muitos. Estão-se perfeitamente a borrifar para os civis. Já aceitei que o mundo é assim mesmo e que vai sempre haver guerra e sofrimento e que precisamos destas instituições para nos protegerem de mil e um males, etc e tal. Compreendo isso tudo. Só não compreendo porque é que os nossos líderes não podem ser minimamente honestos. Porque é que insistem em falar ao povo como se fossemos uma cambada de atrasados mentais. Sobretudo quando são líderes que outrora nos inspiraram e prometeram fazer as coisas de maneira diferente.



  • Quando o Sol se põe a Lua nasce. Isto toda a gente sabe. O que poucos sabem é que nasce mesmo em frente à minha janela. E não há palavras suficientemente bonitas para descrever o que vi no Domingo. Uma lua cor-de-laranja a nascer atrás dos prédios do outro lado do rio. A subir lentamente, devagarinho, sem ninguém dar por ela. E à medida que ia subindo ficava mais brilhante e mais amarela, até o amarelo clarear e se tornar branco. Mas aí já ia alta e já passava das nove.
  • Amanhã talvez seja um dia histórico. Talvez porque o "tuga" continua a ser muito brando. Quer que as coisas mudem, mas sem ter de fazer nada por isso. Gosta de se queixar, mal-dizer a vida que tem, culpar os políticos, os patrões, os vizinhos, mas agir, está quieto. E as gerações mais novas ainda são piores. Os menores de 25 anos estão completamente alienados da política e do país que os rodeia. Vivem num mundo cada vez mais virtual e só se preocupam com o seu umbigo. Pois espero que a manifestação de amanhã sirva exactamente para acordá-los. Acordar-nos a todos!

    Já chega de queixas e lamúrias. Está na hora de agir. Está na hora de sairmos da nossa zona de conforto. De fazer valer os nossos direitos em vez de ficarmos no sofá porque o dia está chocho ou vai dar uma "cena" gira na televisão. É muito engraçado dizer mal do país e do estado das coisas, mas depois não ir votar com o argumento que o voto não muda nada. O voto que tanto nos custou a conquistar, sobretudo a nós, mulheres. É muito engraçado dizer que as condições de trabalho e os salários neste país são vergonhosos, mas depois não ir à manifestação porque não serve para nada. Sim, não é uma manifestação para derrubar o Governo ou impedir uma qualquer nova lei. É apartidária e pacífica. Mas, pelo menos, é uma forma de agitar as coisas e lembrar os nossos governantes de que foram lá postos por nós para fazerem o melhor para o País, e não o melhor para as suas reformas.

    Vou à manifestação de amanhã por solidariedade e por genuína preocupação com o futuro desta geração, que no fundo também é a minha. Sou licenciada e comecei a trabalhar em 2002. Até há três anos também passei pelos estágios não remunerados e pelos recibos verdes. Hoje tenho um contrato e passei aos quadros da agência onde trabalho, mas sou mal paga para as minhas funções, não tenho nenhuma regalia, nem aumento desde que entrei. Nesta agência, como em tantas empresas dos mais diversos sectores, só há regalias para os amigos e eu estou longe de o ser. Falo demais. Digo as verdades que não querem ser ouvidas. Azar. A minha liberdade de expressão não tem preço e, se tivesse, certamente seria muito mais do que 1000 euros por mês.

    Vou à manifestação de amanhã pela flexibilização das leis laborais e pela meritocracia. Pelo fim dos tachos e da exploração dos jovens. Por uma gestão empresarial humana e transparente, em vez da cultura do medo e dos prémios por baixo da mesa. Estas são as minhas razões. Espero que muita gente se lembre das suas e não tenha medo (nem vergonha) de ir para a rua.
  • Quando os génios mostram que são humanos não conseguimos perdoá-los. 

    As suas extravagâncias, a falta de humildade, o mau feitio são tolerados, mas nunca as pequenas coisas que nos lembram de que são pessoas como nós. A nossa sorte é que a Internet só apareceu nas últimas duas décadas, senão poucos seriam os homens e as mulheres por quem nutrir genuína admiração. Quem poderá garantir que DaVinci era um bom homem, ou Aristóteles, ou o nosso amado Camões?

    Por mais biografias que surjam a tentar fazer descer os nossos ídolos à condição humana, há sempre uma justificação, uma contextualização histórica para nos apaziguar a consciência. Ninguém quer admirar obras de arte criadas por um pedófilo ou um violador ou um bêbado agressivo que espancava a mulher. Só que hoje já não podemos fugir às evidências, mesmo que queiramos. Hoje temos um género de Big Brother, mais tenebroso do que aquele imaginado por Orson Welles, porque funciona a partir de qualquer telemóvel. A mesma arma que nos catapulta para a fama mundial, pode fazer-nos cair em trinta segundos, o que significa que poucos serão os ídolos do próximos milénio.

    E foi isso que aconteceu ao estilista mais brilhante dos últimos vinte anos. Foi apanhado num vídeo que nos mostra que é humano, agressivo e não sabe beber. Não acredito que ame Hitler, porque alguém que consegue criar tamanha beleza não pode ter um coração tão sujo. Estava bêbado e irritado com a companhia. Quis chocá-los, provocá-los e foi apanhado na gigantesca e incontrolável teia. Resultado: os Media deliciam-se e a Dior, que não teve alternativa, perde de forma triste o maior estilista que teve desde o seu fundador.

    Para mim será para sempre um génio e eu perdoo-lhe.

    Fotografia de Simon Procter, Galliano Royale


  • Hoje o Sol brilha deixando-nos a suspirar por havaianas e dias de praia.

    Toda a gente está mais sorridente, os cachecóis ficaram em casa e as esplanadas vão estar certamente cheias. Português que se preze não vive sem sol. Isso é lá para os nórdicos e para os britânicos. Ao fim de uma semana de chuva tornamo-nos carrancudos e depressivos e começamos as nossas conversas com um "nunca mais chega o tempo quente". Os turistas também apreciam bastante este clima, em que um dia de Fevereiro é igual ao pico dos seus verões. 

    É por esta razão que fico surpreendida, e até indignada, por começar a ver em tudo o que é blog e site de moda a apresentação das colecções de Outono/Inverno 2011! Ainda não deixámos de usar collants e já nos querem vender mais roupa de Inverno? As colecções de Verão nem chegaram às lojas! Só esta semana é que o termómetro subiu acima dos 15ºC! Está tudo doido?

    Bem sei que mundo da moda é um mundo à parte, mas está a tornar-se tão à parte que qualquer dia separa-se da nave-mãe e fica sozinho à deriva num gigante universo, sem ninguém para admirá-lo.



  • Podia começar o ano por dizer que temos um novo mandato presidencial, para o qual, felizmente, não pude votar. (Se tivesse estado cá até tinha ido votar, como faço questão de ir sempre, por princípio e por homenagem a todas as mulheres que lutaram pelo sufrágio, mas assim sempre poupei os senhores de contarem mais um voto em branco.)

    Podia divagar acerca da queda das tiranias no Médio Oriente, do grande dilúvio no Rio de Janeiro, do homícidio de um certo cronista social que inundou as páginas de todos os Media deste país ou até do novo tema favorito dos portugueses: a canção dos Deolinda sobre a geração recibos verdes, licenciada e desempregada.

    Podia ainda falar sobre a falta de valores e de solidariedade que se vive num país onde o cadáver de uma velhota foi encontrado em casa apenas e só porque a casa ia ser penhorada pelas Finanças por falta de pagamento das dívidas fiscais. A senhora tinha morrido há nove anos.

    No entanto, não me apetece falar sobre nada disso. Estou cansada das notícias tristes, das cusquices irrelevantes e da depressão colectiva. "The power of context", um fenómeno muito bem explicado por Malcolm Gladwell no seu livro "The tipping point". As pessoas reflectem aquilo que as rodeia. Se há papéis no chão, a probabilidade de alguém deitar outro papel para o chão aumenta. Se ninguém no nosso prédio recicla, sentimo-nos parvos por continuar a reciclar. Ora isto também funciona para as coisas boas e positivas. E é por isso que tento que o meu contexto seja muito cor-de-rosa. Até agora tem resultado. Tento rodear-me de notícias boas, pensamentos positivos, histórias que façam sorrir. Talvez se os Media começassem a fazer o mesmo, a mostar os bons exemplos, a antítese do chico-espertismo nacional, este país se tornasse menos trágico.

    E por falar em histórias que fazem sorrir, lembrei-me de uma muito boa. Era uma vez uma menina que começou a escrever contos assim que conseguiu juntar as letras. À medida que foi crescendo, foi elogiada e acarinhada pela família, pelos amigos e até pelos professores de português. Porém, por mais que a incentivassem, a menina nunca teve a confiança suficiente para escrever mais do que o seu diário e outros devaneios. Até que um dia escreveu um livro e encontrou uma editora muito conceituada que quis publicá-lo. 

    Vai ou não vai ser um ano bom?
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