• O fracasso da democracia ocidental explicado pelo antigo membro do parlamento inglês, Tony Benn:

    "The idea of choice depends on the freedom to choose, and if you're struggling with debt, you don't have freedom to choose. People in debt become hopeless and hopeless people don't vote. If the poor turned out and voted for the people who represent their interests, it would be a real democratic revolution. They (the established governments) don't want it to happen, so they keep people hopeless and pessimistic.
    (...) There are two ways in which people are controlled. First of all, frightening people and second, demoralizing them. An educated, healthy and confident nation is harder to govern. The top 1% of world's population earns 80% of the world's wealth. It's incredible that people put up with that. But they're poor, they're demoralized and they're frightened, and therefore, they think, perhaps, the safest thing to do is to take orders and hope for the best."

    No caso português, acrescentaria que, aliado a este estilo de governo (infelizmente replicado nas empresas), sofremos de uma falta de civismo e excesso de inveja crónicos. Continuamos a preferir falar da vida dos outros, invejar os sucessos alheios e  votar nos bem-vestidos, nos bem-falantes, nos que nos dizem que está tudo bem, que estamos no primeiro mundo e que a Europa nos salvará, por obra e graça dos espírito Santo. Por isso, é bem feito. Temos o país que merecemos.
    Quanto aos que, como eu, continuam a resistir, a refilar, a enfrentar, espera-nos uma vida de olhares de soslaio, de carreiras estagnadas e de amizades esquecidas. Um preço muito, mas muito pequeno a pagar pela verdadeira liberdade intelectual.



  •     Há coisas que são muito difíceis de explicar e um concerto dos U2 é uma delas. Primeiro, porque é uma banda com mais de 30 anos, ou seja, já andavam a dar concertos quando a maioria das pessoas que vão a concertos não era nascida. Depois, porque, ao contrário de outras bandas com muitos anos de estrada, não ficaram parados no tempo, inovando e criando novas sonoridades a cada álbum. Ora estes dois factores em si fazem com que consigam dar espectáculos únicos, vibrantes e sempre inovadores, mesmo quando a média de idades da banda já vai nos 50 anos.

        É-me impossível ser imparcial quando falo nos U2 porque, para mim, vão ser sempre a maior banda da história da música. Sim, também há os Beatles e os Stones e tantas outras bandas que inovaram e enriqueceram o panorama musical, mas nenhuma vai alguma vez conseguir fazer o que eles fazem. E não tem apenas a ver com a música, nem tem apenas a ver com o palco ou os efeitos visuais, nem mesmo com o seu activismo político. Tem a ver com algo mais profundo. Quem gosta dos U2 não gosta só um bocadinho. É quase como ser de um clube. Não se pode ser só um bocadinho, nem se deixa de gostar só porque não apresenta resultados. É um sentimento mais religioso.

         Ainda assim, às vezes interrogo-me se estarei a exagerar na minha devoção, arriscando andar a leste do que se passa na música actual (interrogação essa que surge mais frequentemente quando saem os cartazes dos festivais de Verão e desconheço metade dos artistas). Faço um esforço para ouvir o que os miúdos ouvem, sem preconceitos, e confesso que há coisas mesmo muito boas. Só que no final deparo-me sempre com o mesmo problema: já fui a quatro concertos dos U2 e, depois de vê-los em palco, todas as outras bandas são entediantes. (O que me leva a um aparte em relação aos pais das crianças que vi no concerto: acabaram de hipotecar o futuro festivaleiro dos vossos filhos.)

         Podem dizer que é delírio meu, que o concerto só vale pela produção megalómana, que eles só foram bons até ao “Joshua Tree” ou que hoje em dia ninguém os ouve. Se calhar a geração anterior à minha dizia o mesmo em 1990. Não sei se os miúdos que estão a conhecer os U2 hoje vibram com o “Get on your boots” como eu vibrei com o “Even better then the real thing”. Mas os estádios não estão esgotados em todo o mundo só por causa dos cotas que vão para ouvir os clássicos e relembrar os velhos tempos. Também não são os cotas que dormem à porta da bilheteira para garantir entrada. Por isso, só posso concluir que a música continua actual, os devotos continuam a crescer e eles são de facto a melhor banda de sempre. A quem tem dúvidas dou apenas um conselho: tentem ir a um concerto e ouçam o “Where the streets have no name”. Se não sentirem nada, é porque não são humanos.