• “Tudo a postos? Vamos!!!”

    Com a ordem dada pelo Pai Natal as renas começaram a correr pela neve fofa, enquanto os duendes acenavam à porta da fábrica de brinquedos. A Aldeia do Natal em peso vinha à rua ver o arranque do trenó na noite mais esperada do ano. Foi para isto que todos trabalharam tanto o ano inteiro. Os criativos a desenvolver brinquedos nunca antes vistos, os artesãos a construírem um a um os sucessos de sempre, desde os carrinhos aos ursos de peluche, as embrulhadeiras a fazerem os laços mais bonitos em cada presente.

    O Pai Natal estava muito feliz, refastelado no seu trenó confortável enquanto as renas levantavam voo elegantemente. Era um longo caminho e um trabalho duro, este de entregar os presentes a todos os meninos e meninas bem comportados. Mas era o dia que o Pai Natal mais gostava e já ia no trenó de sorriso estampado, só de imaginar a alegria de todas as crianças na manhã seguinte. Lá em cima no céu, o único som que se ouvia era o dos guizos das renas a tilintar sempre no mesmo compasso. O silêncio era tranquilizador e as estrelas brilhavam mais do que em qualquer outra noite para iluminar o caminho. Só quando o pai Natal decidia cantar, com o seu vozeirão imponente, é que este silencio se transformava em melodias natalícias que se ouviam por todo o universo. 

    Chegado ao primeiro destino, o Pai Natal desce do trenó e enfia-se na chaminé. Não é fácil. Tem de encolher bem a barriga para não ficar preso. Nesta primeira casa a chaminé vai dar à cozinha. É uma cozinha ampla, com azulejos azuis até meio da parede e uma grande mesa de madeira, onde felizmente alguém se esqueceu de um prato com uma fatia de bolo de chocolate. Ah, chocolate, o preferido do Pai Natal. Irresistível. Num ápice a fatia de bolo desaparece e os únicos vestígios dela, são as migalhas que ficaram presas nas barbas brancas do Pai Natal. Pé ante pé, ele dirige-se à grande árvore que se encontra iluminada no meio da sala. Deixa lá os presentes e sai a correr pela janela, onde as renas já o esperam.

    Mas debaixo da árvore de Natal não ficaram apenas os presentes. Ainda mal disposto da longa viagem e dos trambolhões dentro do saco, está um pequeno duende. Um dos ajudantes do Pai Natal que não conseguiu resistir à tentação de, pelo menos uma vez na vida, ver com os seus próprios olhos o que é que realmente acontece na noite mais mágica do ano. 

    Já mais bem disposto, o duende salta para o chão e fica a contemplar a enorme árvore. É tão diferente das árvores da Aldeia de Natal! Tem luzes com cores a acender e a apagar e bolas que reflectem o rosto do duende mais muito deformado. É como um espelho, mas em que o reflexo é muito mais cómico, como numa colher. É isso. Ao lado, está uma destas bolas que reflecte um monstrinho muito engraçado. Tem orelhas pontiagudas e olhos rasgados. Tem pelo como o das renas mas mais fofinho e às riscas. E tem uns enormes bigodes e... espera, ele está a abrir a boca... até parece que tem uns dentes pontiagudos! De repente, o duende sente que está alguma coisa atrás dele e volta-se devagar. “Socorrooooo! “, grita assustado, correndo para o meio dos presentes, “O monstrinho da bola de vidro está atrás de mim!”. O duende começa a trepar a árvore o mais depressa que pode, mas o monstrinho, que não era mais do que um simples gato, não tira os olhos dele e, num salto de predador, atira-se para o meio da árvore para o apanhar. “Pára! Pára!”, grita o duende ofegante, mas o gato já está embrenhado na árvore e tenta alcancá-lo com a sua garra. De repente, o gato pára e o duende começa a sentir que a árvore se está a mexer. “Oh não!” pensa o duende, “Vamos caiiiiiiiiiiiiiiiiiiiirrrrr”. PUM! A árvore de Natal caiu no meio do chão, o gato fugiu irritado e o duende aterrou dentro de uma bota de natal que estava pendurada na parede. 

    Com tanta algazarra, alguém na casa acordou. O duende sente que algumas luzes se acendem e ouve passos aproximarem-se da sala. “Oh não! Agora é que vou ser apanhado e logo por humanos! O Pai Natal vai matar-me! Isto é se os humanos não me comerem primeiro”, diz o duende para os seus botões. Espreitando com cuidado para não ser visto, o duende vê uma mulher. É LINDA! Tem uma camisa de dormir até aos pés, que estão descalços, e o cabelo desgrenhado a emoldurar-lhe a cara. O duende nunca vira criatura tão bela e tão diferente das duendes da Aldeia de Natal, que são todas gorduchas e de orelhas pontiagudas. Ela estava muito zangada e chamava por um tal de Tareco. Endireitou a árvore, varreu os cacos das bolas partidas e quando viu o gato, agarrou nele ao colo e falou-lhe com rispidez.”Ah, então este monstrinho é que é o Tareco” pensou o duende. A mulher pôs o gato na rua , apagou as luzes e voltou para o seu quarto. 

    O Duende estava agora sozinho e, pela primeira vez, percebeu que o Pai Natal não iria voltar àquela casa e que ninguém sabia sequer que ele tinha fugido no meio dos presentes. A sua família devia estar muito preocupada... “Que estupidez... não devia ter vindo... agora vou ficar aqui para sempre... buááááááá!” chorava o duende enquanto deambulava pela sala. Até que viu uma casinha que até parecia da aldeia de Natal. Dentro da casinha estavam umas pessoas do seu tamanho. Estava salvo! Coreu em direcção à casinha, mas quando lá chegou percebeu que aquilo não passava de um presépio de louça. Chegou o Menino Jesus para o lado e deitou-se nas palhinhas a pensar na parvoíce que tinha feito ao vir para a Terra clandestino e sem avisar ninguém.