• "- Pois eu tenho estudado muito o nosso amigo Gonçalo Mendes. E sabem vocês, sabe o senhor padre Soeiro quem ele me lembra?

    - Quem?

    - Talvez se riam. Mas eu sustento a semelhança. Aquele todo de Gonçalo, a franqueza, a doçura, a bondade, que notou o senhor padre Soeiro... Os fogachos e entusiasmos, que acabam logo em fumo, e juntamente muita persistência, muito aferro quando se fila à sua ideia... A generosidade, o desleixo, a constante trapalhada nos negócios, e sentimentos de muita honra, uns escrúpulos, quase pueris, não é verdade?... A imaginação que o leva sempre a exagerar até à mentira, e ao mesmo tempo um espírito prático, sempre atento à realidade útil. A viveza, a facilidade em compreender, em apanhar... A esperança constante nalgum milagre, no velho milagre de Ourique, que sanará todas as dificuldades... A vaidade, o gosto de se arrebicar, de luzir, e uma simplicidade tão grande, que dá na rua o braço a um mendigo... Um fundo de melancolia, apesar de tão palrador, tão sociável. A desconfiança terrível de si mesmo, que o acobarda, o encolhe, até que um dia se decide, e aparece um herói, que tudo arrasa... Até aquela antiguidade de raça, aqui pegada à sua velha Torre, há mil anos... Até agora aquele arranque para África... Assim todo completo, com o bem, com o mal, sabem vocês quem ele me lembra?

    - Quem?...

    - Portugal."


    Eça de Queiroz in A Ilustre casa de Ramires


  • Lembro-me do dia em que me apaixonei por Saramago. Bom, talvez não o dia, mas o período. Foi na minha lua-de-mel e a obra o “Ensaio sobre a cegueira”. Livro estranho para levar numa viagem de núpcias, poderão achar. Mas Saramago era um daqueles autores que eu ia adiando, adiando, até ter “tempo”. E aqui tempo não é o físico, mas o mental. Pareceu-me que esta viagem, num período de extrema felicidade, percorrendo a Itália do “dolce fare niente”, seria o teste de fogo à minha capacidade de concentração na obra aclamada.

    É que a primeira vez que peguei num Saramago foi no liceu. “O Memorial do Convento”. Não era leitura obrigatória, mas fazia parte da bibliografia opcional e eu, como menina da 1ª fila, fazia questão de ler as obras opcionais. Só que não consegui. Lia e lia e ao fim de três parágrafos, nada. Não tinha assimilado uma palavra. Voltava atrás, relia devagar, mas a mente teimava em desconcentrar-se e a confusão instalava-se. Até que um dia, chegada ao quinto capítulo, após penosas noites de insistência, desisti.

    Nesse momento comecei a “detestar” Saramago. Porque foi o primeiro autor que me fez sentir realmente burra. Hoje acho que ele me pôs no lugar. Eu tinha 16 ou 17 anos, as notas diziam que era a melhor aluna de Português, achava que lia tudo e que escrevia belíssimamente. E toma. Põe-te no teu lugar. Ainda te falta muito traquejo para dominares a língua e ainda mais para dominares as palavras.

    Mais tarde, na Faculdade, uma das obras de leitura obrigatória era o livro de crónicas de Saramago (decerto porque os professores tomavam como dado adquirido que todos os presentes já tinham lido um dos livros do autor). Até gostei. Ou melhor, adorei. Mas não podia dizê-lo. Eu que já tinha contado a toda a gente a minha luta com o Memorial.

    Até que um dia tive de render-me à evidência. O senhor ganhou o Prémio Nobel! Está traduzido em dezenas de línguas, é aclamado em inúmeros países, escreve crónicas divinamente, como é que é possível, aos 28 anos, ainda não ter lido nem uma das suas obras?

    Assim, desfazendo-me dos últimos laivos de teimosia juvenil, aproximei-me humildemente da obra completa, que figura na belíssima biblioteca da minha mãe, e peguei no” Ensaio sobre a cegueira”, um dos livros mais brilhantes que tive a oportunidade de ler até hoje.

    No final, senti que fez todo o sentido levar aquele livro na lua-de-mel. A viagem que marcou um novo ciclo da minha vida, fica assim também a marcar o início da minha idade adulta literária e de um namoro com um novo autor. Agora Saramago está no altar dos mestres, logo a seguir a Eça e a Pessoa. E olhem que quando me apaixono é para sempre.



  • Hoje amanheceu depressa.

    Como com pressa parece o Verão passar. 

    É algo que me inquieta. Se os dias são mais longos no Verão, porque parece que este acaba quando está prestes a começar?

    Já estamos quase em Setembro outra vez. O bulício regressa à cidade. A leveza dos turistas vai em breve dar lugar aos rostos sombrios, aos quotidianos monótonos, aos horários a cumprir, aos suspiros profundos. 


    Hoje amanheceu depressa.

    Tão depressa que não acordei a tempo de o ouvir sair. Lembro-me vagamente do chuveiro, de cobrir a cabeça com a almofada e dizer “ainda não... Por favor Sol pára de nascer, volta para o teu vale, deixa-nos dormir só mais um bocadinho”. Quase que juro que ele veio beijar-me antes de sair, assim muito ao de leve. Ou então sorriu apenas, enternecido, e não quis desviar a almofada para não me acordar mais do que Sol.

    De repente apetecia-me ter 15 anos outra vez. Nessa altura o Verão passava mais devagar. A praia só acabava quando o Sol se punha, o sono só vinha quando não havia mais nada para fazer e a escola nunca mais recomeçava. Por finais do mês de Agosto a minha única preocupação era encomendar os livros para um novo ano lectivo, livros esses que folheava mal chegavam para saber que matérias me esperavam. Nas disciplinas de letras apetecia-me ficar a ler tudo. Nas de ciências, achava que nunca na vida teria a inteligência suficiente para dominar tais conteúdos. 

    Depois do banho, ao fim da tarde, parecia que ainda outro dia começava. Ainda tinha tempo para brincar com a Carol, jantar com a família e passar uma longa noite a ler, escrever, desenhar ou sonhar com príncipes encantados. Exactamente cinco anos depois, um príncipe encantado apareceu mesmo. E nessa noite de fim de Verão também amanheceu depressa, mas nós não nos ralámos. Permanecemos agarrados, a olhar-nos como se nos conhecêssemos desde sempre, desde o início do mundo. Como se os primeiros vinte anos da nossa vida tivessem sido apenas uma breve separação e agora nos tivéssemos reencontrado. Ficámos toda a noite acordados a compensar centenas de anos de distância. Para nós, só amanheceu quando quisemos. Eram seis da tarde.