• Há 30 anos e dois dias eu não poderia estar a escrever esta crónica (partindo do princípio de que nessa altura era uma jovem adulta, claro). Também não poderia estar a trabalhar e a lutar por uma carreira onde houvesse igualdade de direitos entre homens e mulheres (se bem que ainda hoje essa igualdade, na prática, não seja real). Aliás, se fosse casada teria de pedir autorização ao meu marido para trabalhar e até para viajar sem ele.

    Não poderia votar. Não poderia ler muitos dos livros que já li, nem ouvir muitas das músicas que já ouvi. Não poderia estar na conversa com um grupo de amigos num local público, sob o risco de uns senhores mandarem-nos dipersar por risco de estarmos a conspirar. Nem poderia ter acesso à MODA internacional(e isso para mim seria gravíssimo, como devem calcular). 

    No entanto, parece que já ninguém dá valor a essas coisas. Uns porque depressa se habituaram a viver numa democracia e recordam os tempos da ditadura como algo muito longínquo e quase irreal. Outros porque nem sequer tinham nascido ou eram muito pequenos para se aperceberem do tipo de regime que vigorava na sua primeira infância. 

    Aliás, a maioria das pessoas abomina esta data, não porque gostassem de viver numa ditadura, mas porque o 25 de Abril se politizou de tal maneira que qualquer pessoa que grite vivas à revolução é rotulado de comunista. E hoje em dia ninguém quer ser rotulado de comunista. 

    É uma pena. Não o facto de ninguém querer ser comunista (isso até se percebe para qulaquer pessoa que tenha conhecimentos de história e política internacional), mas sim o facto de se ter politizado a revolução. Durante meio dia, a 25 de Abril de 1974, todo o país se uniu e festejou numa só cor - a cor da liberdade. Mas horas depois essa cor foi-se esbatendo e foi sendo sobreposta pelas cores políticas, o que estragou tudo. Vieram os excessos, vieram as reivindicações, as paralizações, as ocupações, os devaneios de Otello, o Verão quente, a descolonização sem pés nem cabeça, as nacionalizações, as perseguições, as FP25. E o sonho acabou mesmo antes de ter começado. Mais grave ainda, nasceu o ódio ao 25 de Abril - não pela liberdade que se conquistou, mas pelas consequências do excesso de liberdade. 

    Ficou a democracia, com todos os seus defeitos e virtudes, "o pior de todos os sistemas, com excepção de todos os outros". Mas se de repente, por um só dia, nos fossem retirados os direitos e liberdades que hoje damos como garantidos e indiscutíveis, talvez nos apercebessemos da dimensão real do 25 de Abril de 1974... 

    Enfim, pode ser que daqui a uns anos (suficientes para que os revolucinários, ocupadores, descolonizadores, paralizadores e até alguns terroristas já cá não estejam), a distância histórica nos permita olhar para esta data sem preconceitos políticos. Apenas como o dia em que o regime caiu de podre e se abriu a porta da democracia, como já disse, com todos os seus defeitos e virtudes. 


    PS: Pronto. Admito que há algo que também me irrita solenemente no 25 de Abril (mais ainda do que os foguetes à meia-noite e as 38783765 vezes que passa o "Grândola Vila Morena" ). Aliás, é algo que me tira mesmo do sério:- o cravo! 

    É que já não se aguenta! Ainda por cima é uma flor abominável! Nem com um "facelift" andy-warholiano como o que o governo lhe fez nos seus cartazes comemorativos, aquilo se aproveita. Haja paciência...