• A última vez que estive com os meus amigos mais chegados foi há dois meses. A última vez que estive com outros amigos menos chegados mas de quem gosto muito, foi há um ano ou mais. Sim, é uma vergonha e sim, a culpa é toda minha que não lhes ligo, que não os convido para passarem lá em casa, que não combino um jantar. No meio de dois bebés pequenos, os livros, o trabalho na agência e em casa, os dias passam, o cansaço instala-se e aquele telefonema nunca chega a ser feito.

    Podia pôr a culpa nos meus amigos. A maioria deles não tem bebés, nem dois trabalhos como eu. Mas não. A culpa é só minha que não lhes ligo. Porque eles podem não ter bebés, mas têm outras coisas igualmente importantes a preencherem desenfreadamente os seus dias. A preencherem de tal forma que ninguém se lembra de contar há quanto tempo não nos vemos. E as saudades? Será que já ninguém tem saudades? Das conversas, dos abraços, das gargalhadas? Não, ninguém tem saudades e a razão é simples: estamos mergulhados na ilusão de proximidade que as tecnologias nos dão.

    Com as tecnologias hoje disponíveis temos a sensação de estar sempre a par de tudo o que os nossos amigos fazem. Sabemos que o João foi passar o fim-de-semana a Paris com a namorada nova, que ainda não conhecemos mas deve ser um amor. Sabemos que o Rita foi jantar fora com os colegas do liceu, que aproveitaram para publicar umas fotografias desses tempos, mostrando (para grande surpresa nossa) que ela usou aparelho e óculos de fundo de garrafa. Sabemos que a Mafalda ficou outra vez presa no trânsito, coitada, mas no fundo não temos assim tanta pena, porque ela bem que podia andar de transportes. Sabemos que o Pedro está a alugar a casa dele, o que significa que, provavelmente, vai mudar-se para casa da Maria - já não era sem tempo. Sabemos que o Diogo e a Teresa vão ter uma menina, que o Augusto mudou de emprego, que a Joana comprou uns sapatos novos e que toda a gente vai ao concerto do ano, menos nós porque não estávamos atentos e agora já não há bilhetes. No fim do dia, desligamos os computadores e os telefones com um sorriso. Os nossos amigos estão bem, pensamos. Estão felizes e viajam e divertem-se imenso. Não nos convidaram porque isso já não se usa. Agora criam-se eventos e faz-se check-in para toda a gente saber onde estamos. Não telefonaram porque fizeram imensos likes nas nossas fotografias, logo, estão atentos ao que fazemos. Não apareceram porque isso é demasiado anos 90. Agora faz-se um Skype ou um Facetime ou um Snapchat ou um vídeo pelo WhatsApp.

    Ilusão.

    Nenhuma tecnologia substitui o toque, o som de voz e o abraço de um amigo. Nenhum comentário simpático num qualquer post substitui um sorriso cara a cara. E tudo o que achamos que sabemos sobre os nossos amigos através das redes sociais, vem editado pelo filtro da felicidade que todos nós colocámos nas nossas fotografias e palavras virtuais. Ninguém partilha os restos de lasanha que está a comer sozinho à frente da televisão, porque há semanas que não recebe um convite para jantar. Ninguém mostra os olhos inchados de angústia, porque não é suposto sermos fracos e duvidarmos de nós próprios. Ninguém fala das horas a olhar para o telefone que não toca. Estamos a criar uma versão cor-de-rosa das nossas vidas. Vidas falsas, cheias de amigos cada vez mais virtuais, que apenas partilham connosco as suas existências igualmente falsas.

    Antes do advento das tecnologias, as pessoas também tinham bebés e empregos e compromissos. Ainda assim, ligavam e apareciam, porque era a única maneira de saber como estavam aqueles de quem gostavam. Arranjavam tempo, provavelmente porque não o perdiam com a cabeça enfiada em aparelhos electrónicos, e apareciam nos cafés, nos restaurantes, nas casas uns dos outros. Apareciam de carne e osso, olhos nos olhos. E telefonavam. E os outros atendiam o telefone, mesmo que as emissões da televisão não pudessem ser paradas. E havia sempre novidades para contar e temas para debater e coisas reais para viver. Se calhar estou a ficar velha e nostálgica, mas a verdade é que tenho saudades dos tempos em que a campainha ou telefone tocavam e não se sabia quem estava do outro lado. Dos tempos em que a minha amiga Laura passava lá em casa depois da escola sem avisar. Dos tempos em que ia sozinha para o café do costume ou para o bar da faculdade porque sabia que ia encontrar lá alguém conhecido com quem falar. Agora tudo isso parece mal. Aparecer sem avisar, telefonar sem hora marcada. E criam-se fossos cada vez maiores, até que o outro lado fica tão inalcançável que deixa de valer a pena o esforço para lá chegar.

    Não sou contra as tecnologias. Aliás, até as uso com muito gosto. São elas que me permitem partilhar o que escrevo e falar com os meus leitores. Não acho estranho que nas salas de espera, autocarros ou bancos de jardim, os jornais e os livros tenham sido substituídos por smartphones. É assim mesmo que o mundo avança. Mas acho absurda a necessidade de estarmos sempre ligados, incluindo quando estamos cara-a-cara com os outros. E ainda mais absurdo acharmos que um like, um SMS, um comentário, um desejo de feliz aniversário virtual seja o mesmo que pegar num telefone ou aparecer e conversar. Aquilo que devia estar ao nosso serviço, para nos aproximar, para partilhar, para nos trazer novos mundos e experiências, está afinal a deixar-nos cada vez mais sós. E na verdade, como escrevi no final do meu mais recente livro, de que nos serve vivermos qualquer mundo que seja, se o tivermos de fazer sozinhos?





  • Quando nos apaixonamos verdadeiramente por alguém, não há nada que nos pare. Tudo é cor-de-rosa, tudo é maravilhoso, tudo é superável, até ao belo e inesquecível dia em que conhecemos a família do nosso amor.

    Ao contrário dos amigos, dos empregos, dos vícios, a família é daquelas coisas que não podemos mudar. Pior, nem sequer podemos escolher. E se, até certa idade, os nossos familiares directos são a nossa grande referência, com o passar dos anos começamos a aperceber-nos dos seus defeitos, das suas manias, de todas as coisas que nos tiram do sério. Mas lá está, mãe é mãe, pai é pai, irmão é irmão, e, no final, o amor é cego e ajuda-nos a perdoar todas as suas falhas.

    O mesmo pode não acontecer com os pais e irmãos da nossa alma gémea. Para estes, o nível de tolerância é sempre menor e o nível de crítica inversamente proporcional, porque entrar numa família nunca é a mesma coisa do que nascer nessa família. Há toda uma história por trás de cada piada, por trás de cada afecto e, sobretudo, por trás de cada boca foleira. São precisos anos e anos para conhecer todas as tradições, achar graça a todas aquelas pessoas e não levar a mal o tipo de humor (ou a total ausência dele, nalguns casos) que se pratica naquele lar. E se a coisa lá vai funcionando durante o namoro, tudo muda de figura quando há um compromisso mais sério e se começam a passar natais e fins-de-semana juntos.

    Quanto mais sério fica o relacionamento, mais os pais percebem que os seus bebés se foram embora para sempre. Ou seja, para os nossos sogros seremos sempre ladrões de bebés. Pior, ladrões de bebés que fazem lavagens cerebrais, porque todas as decisões que os filhos tomam contra as expectativas dos pais, passam a ser vistas como ideias do recém-chegado membro. Quem nunca ouviu um "Aquilo é ideia dela, que o meu filho nunca faria uma coisa dessas"? Ou um "desde que foi viver com ele, nunca mais foi a mesma"? Assim, por mais amorosos que os nossos sogros sejam, há alturas em que um certo nível de hostilidade acaba sempre por transparecer.

    Depois temos o tempo que passamos com a nova família. Se, por um lado, ajuda a que todos se conheçam melhor, por outro lado, cria uma falsa familiaridade cujo resultado nem sempre é bonito de ver. Gostamos que nos façam sentir parte da família, mas não gostamos que nos digam coisas como "já te chamei para a mesa três vezes". Podemos dizer à nossa mãe que ela está a ser uma grande chata, mas não o podemos dizer à nossa sogra. Queremos desabafar com o nosso mais-que-tudo acerca da idiotice que o nosso irmão fez, mas não toleramos que seja o outro a apontá-la. Porque, lá está, eu posso dizer mal dos meus, mas mais ninguém pode.

    E é aí que surgem os problemas entre o casal. Começa com o "pede lá à tua mãe que não implique com os meus piercings" e acaba com o "nem penses que volto a por os pés naquela casa!". Passa do "amor, pára de implicar com a minha irmã" para o "e a tua é uma cabra!", entre muitas outras coisas horríveis como o "és igualzinha à tua mãe", "parece que estou a ouvir o teu paizinho", "vocês estão bem uns para os outros".

    Espera aí! Vocês? Então não era suposto ser "nós"? Não é isso que significa uma família unida? É. Em teoria. Na prática, a verdade é só uma: a pessoa com quem escolheres viver nunca vai gostar tanto da tua família quanto tu. E o inverso também se aplica. Por isso, o melhor é guardares as tuas opiniões para ti, a não ser que sejam expressamente solicitadas. E, lembra-te, quando ouvires um "epá, o meu irmão é mesmo estúpido", não caias na tentação de concordar de imediato. Diz antes algo como "deixa lá, ele estava só a ter um dia mau", mesmo que seja a maior das mentiras e o dito seja, efectivamente, uma besta quadrada.


    texto originalmente escrito para A Farmácia de Serviço

  • A Dona Infância era muito pequenina e sorridente, como se quem lhe pôs o nome tivesse vislumbrado numa recém-nascida o tipo de mulher em que se iria tornar. No dia em que a conheci, não queria acreditar que tivesse mesmo aquele nome. Ninguém se chama Infância, dizia eu do alto dos meus seis anos, Infância não é um nome. É sim, respondia ela, é o meu nome. E eu ria-me muito, porque não sabia que as pessoas podiam ter nomes assim.

    A Dona Infância cirandava pela casa a uma velocidade estonteante. Admira-me que não tenha partido mais bibelôs, tal era a pressa com que passava de umas prateleiras para as outras com o pano cor-de-laranja. Pensando bem, partiu bastantes. A minha mãe ficava furiosa, não pelo acidente em si, mas porque a D. Infância nem sempre confessava o crime e deixava ficar lá o objecto arrumadinho, até ao dia em que alguém lhe tocava e reparava que estava partido. A mim dava-me jeito o desleixo, pois das poucas vezes que parti alguma coisa, fiz como ela, evitando um raspanete. 

    A Dona Infância andava sempre a correr, escada acima, escada abaixo, com as socas brancas a espancarem o chão, e nunca tinha tempo para brincar comigo. Assim, andava eu atrás dela a fazer perguntas e a contar histórias. Foge daí sua magana, dizia-me ela quando eu me sentava na cama que ela acabara de fazer. E eu ria-me muito, porque nunca tinha ouvido a palavra magana. 

    A Dona Infância chamava-nos meninos e levava-nos o lanche num tabuleiro. Pão com manteiga para um, pão com fiambre para outro, leite com chocolate para um, sem chocolate para o outro e ainda voltava para trás quando os meninos mimados diziam que afinal queriam bolachas. Eu não gostava que ela andasse para a frente e para trás, por isso, comia quase sempre o que ela trazia, mesmo que não me apetecesse.

    A Dona Infância nunca fazia queixinhas aos nossos pais, por mais disparates que fizéssemos, e eram muitos, sobretudo quando convidávamos os amigos ou os primos para brincarem lá em casa. Deixava-nos fazer cabaninhas com os lençóis acabados de passar, deixava-nos escorregar pela escada num colchão, a fingir que estávamos a descer rápidos, deixava-nos pôr a televisão aos berros e saltar em cima da cama e nunca nos pediu para tirar os sapatos para não sujarmos o chão. Quando eu e o meu irmão nos pegávamos, a Dona Infância era o meu esconderijo e dizia fique aqui ao pé de mim menina, deixe lá estar o seu irmão. E eu ficava e deixava que me fizesse festinhas com as mãos ásperas.

    A Dona Infância não sabia ler. Foi um choque para mim quando me apercebi disso. Um adulto que não sabia ler? Então nunca foi à escola? Não, menina. Porquê? Porque tive de ir ajudar os meus pais no campo. E lá não havia escolas? Não. E porque é que não aprendeu depois? Porque comecei a trabalhar e não tinha tempo. Então como é que sabe qual o autocarro para casa? Pelo número. E quando a sua filha leva recados no caderno como é que sabe o que é que está lá escrito? Ela lê para mim. E a sua filha nunca lhe ensinou? Não. Porquê? Porque ela tem mais do que fazer e tem de estudar muito. E como é que assina o seu nome nos testes? Com uma cruz. E eu ria-me, porque não sabia que era possível alguém não saber escrever o nome. 

    No dia seguinte, decidi ensinar a Dona Infância a ler. Tinha sete anos. Todos os dias, enquanto a minha mãe não chegava e a D. Infância não tinha outro remédio senão ficar comigo, ia buscar o meu livro da primeira classe e ensinava-lhe as letras. Primeiro as vogais, depois as consoantes, como eu tinha apreendido. A Dona Infância não tinha paciência nenhuma para aquilo. Já estava de casaco vestido e só olhava para o relógio a fazer contas de cabeça ao tempo que ia demorar a chegar a casa se perdesse o próximo autocarro. Meia hora de caminho, mais fazer o jantar para filha, mais arrumar a casa dela depois de horas a arrumar a nossa. E eu irritava-me porque era tão fácil ler e ela não queria aprender. Então, mandava-lhe trabalhos de casa, que ela levava na mala mas nunca fazia. Porém não desisti: só a larguei quando me certifiquei de que sabia escrever o seu nome. 

    A Dona Infância uma vez levou-me a casa dela. Fomos de autocarro, no catorze, e chegámos a um bairro com muito prédios e poucas árvores. O dela era verde seco. Não me lembro bem da casa, mas lembro-me da filha, a Luísa. Estava decidida a não gostar dela. Imaginava-a uma filha má, baixinha e carrancuda, que nunca tinha ensinado a própria mãe a ler. Deparei-me com uma mulher alta, ruiva, e sorridente. Tinha uma voz muito calma e um tom muito doce e piscou-me o olho antes de se fechar no quarto. Passei a gostar dela.

    A Dona Infância um dia foi-se embora e eu chorei muito. Fiquei mesmo zangada com a minha mãe por ter permitido tal coisa, longe de saber as razões de uma e de outra. Ao longo dos anos fui-me cruzando com ela na rua e dava-lhe sempre um grande beijinho. Trabalhava numa outra casa ali perto. Também tem meninos? Perguntei numa das primeiras vezes em que nos encontrámos. Não, menina, é a casa de uma senhora velhota. E eu fiquei aliviada porque não ia haver outra menina para roubar o meu lugar. 

    Os anos passaram, eu deixei de a ver, mas mesmo depois de vir morar para Lisboa, ia tendo notícias suas. Volta e meia a minha mãe lá me dizia, sabes quem encontrei hoje na rua? A Dona Infância. Perguntou por ti e mandou-te um beijinho. E eu ria-me, porque me lembrava sempre dos seus beijinhos apressados, como toda ela. Até que um dia a minha mãe me disse, sabes quem morreu? A Dona Infância. E eu não achei graça nenhuma. Não tem graça nenhuma não nos podermos despedir das pessoas por quem temos algum carinho. Não tem graça nenhuma perder alguém que, embora muito distante, faz parte da nossa vida. Mas logo depois comecei a recordar os inúmeros episódios que vivemos juntas e não pude deixar de sorrir. Dela só retenho memórias boas. As memórias da minha Infância.





  • Ouvi dizer  que a Apple e o Facebook anunciaram que vão financiar o congelamento de óvulos para que as suas funcionárias possam adiar a maternidade.
    (Pausa.
    Pausa de incredulidade, de indignação, de estupefacção.)
    É das coisas mais assustadoras e ignóbeis que li em toda a minha vida. Aliás, enquanto mãe e mulher, é tão revoltante, que me apetece deitar o Mac onde estou a escrever pela janela fora e apagar todas as minha contas do Facebook.
    Segundo os defensores desta nova modinha de Silicon Valley, a medida permite que as mulheres dediquem os melhores anos da sua vida às suas carreiras, alcançando cargos nunca antes imaginados, até agora dominados por homens, podendo mais tarde (provavelmente aos 50, porque não?) abrandar o ritmo e ter filhos. É um procedimento caro, que não está coberto por seguros de saúde e, no fundo, os "beneméritos" estão a fazer um favor e a incentivar a natalidade, ainda que geriática.
    Ora, eu sei que os produtos criados por estas empresas são (supostamente!) facilitadores da vida moderna. O telefone que é um computador, o relógio que dá música, o tablet que armazena bibliotecas inteiras, a rede social que nos faz estar a par de tudo o que os nossos  amigos andam a fazer, as aplicações e todas as distracções que nos estão a tornar cada vez menos humanos, cada vez menos sociais. Mas sabem de uma coisa caros senhores de Silicon Valley? Não precisamos que interfiram nos nossos ciclos reprodutivos.
    Se querem realmente contar com as mulheres nas vossas empresas podem começar por lhes pagar o mesmo que pagam aos homens. Com um salário melhor, as mães não têm de sacrificar a carreira para dar atenção aos filhos. Porque podem pagar a uma empregada para lhes orientar a casa, a roupa e a cozinha; podem contratar uma ama para tomar conta das crianças nos dias em que têm de ficar até mais tarde; podem escolher uma casa perto do local de trabalho, para poupar o tempo de deslocações e assim terem mais horas livres para o seu cargo e para as crianças. Depois podem usar o dinheiro dos óvulos e usá-los para pagar as licenças de maternidade prolongadas, ou os dias em que temos de faltar porque os miúdos estão doentes ou têm a festa da escola. Por último, podem mesmo criar creches e ATLs no edifício, para que as mães não tenham de sair a correr de uma reunião porque a escola vai fechar e ninguém foi buscar o miúdo. Tal como criam refeitórios, ginásios e, no caso da nova sede do Facebook, canil! Com todo o respeito e amor que tenho por animais, construir um canil e não construir uma creche é o mesmo que dizer "aqui só queremos solteirões sem vida, cujo único ser vivo com quem contactam para lá da porta do escritório tem quatro patas".
    Em pleno século XXI, o tipo de mentalidade por detrás desta medida é aterrorizador. O corpo humano não é software sujeito a actualizações. A seguir vão programar o sexo dos filhos conforme as necessidades demográficas? Ou financiar a eutanásia para quem tem a seu cargo familiares debilitados? Saiam mas é de trás dos vossos computadores e abram os olhos. Olhem-se ao espelho e vejam os monstros em que se tornaram. Autómatos. Vazios. Olhem pela janela e reparem em algo de expraordinário: há vida para lá do vale onde só a tecnologia se desenvolve. Há vida, há valores, há humanidade. Acima de tudo, há a melhor coisa do mundo: as crianças.


  • Malala nasceu no Paquistão em 1997. O seu pai, poeta e professor, ensinou-lhe a importância da educação, sobretudo para as meninas. Quando o região onde Malala vivia foi ocupada pelos talibãs, que começaram a proibir primeiro a televisão, depois a música e, por fim, o acesso das meninas à educação, Malala, de apenas 11 anos, criou um blog na BBC Urdu onde escrevia sobre os seus pontos de vista acerca da educação e da vida sob o domínio talibã.
    O blog chamou a atenção internacional e Malala foi história no New York Times, passando a receber ameaças de morte. O primeiro Prémio da Paz para a Juventude no Paquistão e a nomeação pelo Arcebispo Desmond Tutu para o International Children’s Peace Prize foram a gota de água: os talibãs decidiram que tinham de a calar. Assim, no dia 9 de Outubro de 2012, um talibã entrou no autocarro da escola, chamou pelo seu nome e deu-lhe um tiro na cabeça.
    Qual guerreira de um livro de aventuras, Malala sobreviveu. Os médicos dizem que foi quase milagre, eu acho que foi por vontade superior. Assim que recuperou, Malala continuou o seu trabalho, tornando-se o rosto e a voz de milhões de meninas a quem a educação é vedada por razões políticas, culturais ou religiosas. O seu discurso nas Nações Unidas, no dia em que fez 16 anos, é das coisas mais inspiradoras que já vi. Mas uma das frases que mais me marcou noutros dos seus famosos discursos foi quando disse que "milhões de crianças do mundo não querem um iPhone, ou uma playstation ou chocolates. Querem apenas um livros e uma caneta". Hoje ganhou o prémio Nobel da Paz. Mais do que merecido.

    Se quiserem seguir e apoiar o trabalho de Malala, podem fazê-lo aqui.



    PS: O prémio Nobel foi "dividido" com outro ser humano extraordinário, Kailash Satyarthi, pela sua luta pelos direitos das crianças na Índia, sobretudo o fim do trabalho infantil e direito à educação. Já salvou mais de 80 mil crianças da escravatura.


  • Quase todos os dias sou surpreendida por notícias de divórcios e separações. Amigos, conhecidos, celebridades, todos nos atiram à cara que o amor já não é o que era e que o melhor é deixarmos de sonhar com vestidos brancos e marchas nupciais. Mesmo os casais que resistem à prova do tempo não conseguem esconder desabafos do género “aproveita enquanto podes” ou “se soubesse o que sei hoje, tinha ficado para tia”, como se o dia mais feliz das suas vidas tivesse sido um engodo para uma vida de rotina e clausura.
    Há várias teorias sobre o falhanço dos casamentos. Uns dizem que é porque as pessoas são egoístas e não gostam de ceder, outros dizem que é porque as mulheres mudam depois de serem mães, outros ainda dizem que é porque se casam sem se conhecerem verdadeiramente. Se calhar estão todos certos, e até pode ser que seja um bocadinho de tudo isto. Mas para mim, o principal problema é que muitos casais vêem o casamento como uma corrida dos cem metros, quando deviam encará-lo como uma maratona.

    Nos cem metros o que interessa é a velocidade. Queremos casar depressa antes que a noiva fuja, queremos casar depressa para dormirmos juntos todos os dias, queremos casar depressa para fazer mais jantares românticos, mais viagens exóticas, mais filhos, queremos casar depressa porque já temos trinta anos e o tempo não espera por nós. Depois casamos e pronto, está feito. Já não é preciso oferecer flores, já não há conversas de meia hora ao telefone antes de adormecer, já não se gasta dinheiro em surpresas nem cartões de aniversário com juras de amor eterno. Somos casados, ponto final. Cumprimos um sonho antigo, fomos ao encontro das expectativas que a sociedade criou para nós, partilhamos uma casa e, por vezes, uma família, acabando por deixar que a rotina e o excesso de confiança nos transformem em “room-mates”, em vez de fogosos amantes dos tempos de namoro. O desfecho deste cenário é tão previsível quanto inevitável.

    Numa maratona o que interessa é a resistência. O grande dia é apenas a partida para anos e anos, décadas e décadas de uma vida a dois. Sim a dois, porque mesmo quem tem filhos deve estar ciente de que eles nascem e vão-se embora num espaço de vinte anos. É preciso guardar uma grande dose de energia para o que nos espera após a sua partida. E, tendo em conta que a esperança média de vida nos países ocidentais não pára de aumentar, espera-nos muito.

    Tal como numa maratona, não se deve dar tudo no início. É preciso guardar alguns segredos e truques para usar ao longo dos anos, sejam eles uma nova posição do Kamasutra ou um novo hobby para explorar a dois. Tal como numa maratona, é preciso alimentar o casamento com doses estratégicas de romance, não apenas em datas especiais, mas sobretudo nos momentos mais desgastantes. Acima de tudo, quando estamos prestes a dar o “Sim”, há que ter a certeza de que temos arcaboiço para aguentar uma prova que testa todos os nossos limites: os físicos mas sobretudo os psicológicos. Porque tal como numa maratona, mais do que alguém ganhar, o importante é podermos partilhar a enorme felicidade de chegarmos juntos ao fim.


    (texto originalmente escrito para A Farmácia de Serviço )

  • Em 1854 Louis Vuitton fundou a hoje aclamada Casa, mas foi só em 1896 que o seu filho George criou o Monograma, como homenagem ao falecido pai. Foi um dos primeiros exercícios de "branding" de que há registo e um sinal da cultura global que se avizinhava. Não é por isso de estranhar que depressa se tenha tornado um ícone.

    O projecto "Celebrating Monogram", lançado agora pela Louis Vuitton, mostra o lado distinto e pessoal do Monograma. A seis iconoclastas de renome, dos mundos da moda, arte, arquitectura e design, foi dada carta branca para usar o padrão do monograma como entendessem, criando peças únicas, e não necessariamente uma mala.

    Lembrando a colecção especial de centenário, que em 1996 contou com os designs de Azzedine Alaia, Manolo Blahnik, Romeo Gigli, Helmut Lang, Isaac Mizrahi, Sybilla and Vivienne Westwood, em 2014 os convidados deram um passo mais à frente, resultando numa colecção muito mais radical e absolutamente incomparável. Eis como um acessório de moda se torna uma obra de arte.














  • Nos dias que correm, é cada vez mais difícil estar a par de tudo o que se passa à nossa volta. As horas passam velozes, o trabalho não pára, a Internet bombardeia-nos com informação, nas redes sociais há inúmeras solicitações, enfim, na maior parte do tempo, no que toca a estar a par da actualidade, só temos tempo para "ler as gordas".
    Mas e se houvesse uma newsletter que chegasse todos os dias da semana ao conforto do nosso e-mail, e que nos mostrasse as principais notícias e novidades, num formato que pode ser lido em apenas 5 minutos?
    Agora há! Chama-se Gordas. Feito por mulher e destinado principalmente a mulheres, junta numa só newsletter as principais notícias do momento, bem como a dica do dia, o look do dia, o evento do dia e outras sugestões rápidas. A sério, podem ligar o cronómetro e verificar que em apenas 5 minutos conseguem ler tudo isto. Um mix de jornal, com revista feminina, com agenda, ou como dizem as Gordas, uma dose gourmet de actualidade.
    Podem subscrever aqui




  • Descobri recentemente que há cada vez mais estrangeiros a aprender a nossa língua, mesmo quem não tem qualquer ligação com Portugal. Talvez seja por causa da música (brasileira e fado, que cada vez se ouve mais) ou das celebridades como o nosso querido Ronaldo e outros, que colocam o nosso país em destaque, ou ainda do facto de haver cada vez mais turistas a visitar-nos. Independentemente das razões, são óptimas notícias para a nossa língua, uma língua que tem tanto de encantadora como de difícil e que, para mim, é a segunda mais bonita do mundo (não consigo deixar de achar o Italiano ainda mais bonito).
    A prová-lo estão dois emails que recebi nos últimos dias. O português destas leitoras ainda não é perfeito, mas fiquei muito bem impressionada pelo esforço. Acima de tudo, fiquei muito orgulhosa por terem escolhido os meus livros para praticar. Aqui ficam as palavras que me escreveram:

    "Adorei o livro e lí-o dum trago. Normalmente, prefiro ler traducoes para português, mas desta vez lí um original e foi uma revelacao. Gostei do assunto, da linguagem muito moderna e rítmica. Reflete muito bem a vida de hoje em dia em Portugal que nao é tao diferente da vida noutros países europeus, mas no entanto diferente. Costumo sublinhar partes dos livros de que gosto particularmente ou que contêm elementos com quais concordo (neste caso achei a descricao do chefe e como conseguiu fazer carreira muito bem retratada, também as refleccoes sobre a relacao entre homens e mulheres, os conflitos que vivemos num mundo onde nada está mais predefinido e o que, exactamente por isso, sobrecarga muita gente.(...) Acho também muito giro esta ideia de receber a oportunidade de lhe escrever sobre o livro. Muito obrigada por isso. Tem agora também fas em Viena/Austria :)"

    Anne-Marie, Viena

    "Sou Francesa e seu livro "O estranho ano de Vanessa M" foi meu primer livro que lei em português.
    Gostei muito da historia, da escritura e pasei momentos muito agradaveles em ler esse livro. Devorei-o em duas semanas ; o que não é mau para um primeiro livro em língua estrangeira ;-)
    Rei-me muito e estava sempre muito ansiosa em saber o qué que podia acontecer a Vanessa.
    Estava tão na historia (rindo muito, cada minuto disponível para ler umas páginas) que a pessoa que me acompanha queria conhecer a vida da Vanessa e tive que contar paso a paso a evolução dos seus pensamentos.
    Muito obrigada pelos momentos tão boms que passei a ler seu livro.
    Agora, comprei o seu primer livro para seguir meus melhoramentos em português."

    Emeline, Paris


    Obrigada às duas. Espero que continuem a explorar o Português e a conhecer outros fantásticos autores que temos por cá.




  • No outro dia, uma amiga mandou-me uma mensagem a dizer que ia levar o meu livro numa viagem até Bali. Fiquei muito feliz, claro, e respondi algo do género "já que não vou eu, vai a minha Vanessa contigo". Só então  me apercebi da dimensão destas palavras.
    As personagens que crio viajam realmente até sítios onde eu nunca irei. As personagens que crio vivem em lugares que nem sei bem onde ficam. A partir do momento em que publico as minhas histórias, elas deixam de ser minhas e passam a ser de uma outra estante, de uma outra mesa-de-cabeceira, de uma outra pessoa, com uma outra vivência, que ouve outro tipo de música e gosta de outro tipo de comidas.
    Eu, que na adolescência fiquei desolada quando percebi que não ia ter tempo nesta vida para visitar todos os lugares que gostava; eu, que sonhava viver em Nova Iorque, Rio de Janeiro ou em Paris, nem que fosse durante uma temporada; eu, que nos últimos três anos não consegui nem sequer passar a fronteira, apercebo-me, finalmente, que as minhas palavras andam soltas pelo mundo.
    É essa a magia da escrita: mesmo sem sair de Lisboa posso deixar um pouco de mim em todos os lugares para onde os meus leitores escolherem levar-me, e a partir de Lisboa posso levar os meus leitores para lugares que eles nunca tinham imaginado. Que bom!


  • O Verão não está a ser o que esperava em termos de tempo. Entre dias horrivelmente ventosos, águas geladas e pouco calor, parece que estamos no norte da Europa. Mas como nem tudo pode ser mau, este Verão trouxe consigo novos produtos e marcas 100% portugueses de fazer cair o queixo a muita multinacional. Tudo ideias de empreendedores com menos de 40 anos, a mostrar que, afinal, esta geração de rasca tem muito pouco.





    Muitos de vocês sabem que sou uma acérrima defensora do nosso ambiente. Infelizmente, são poucas as marcas giras e realmente sustentáveis, pelo que, ser ecológica e fashion ao mesmo tempo torna-se uma tarefa muito complicada. Por isso, fiquei rendida aos SKOG: óculos de madeira ou bambu, giros, leves, resistentes, com lentes polarizadas de alta qualidade e tudo isto por menos de €50. Aliás, fiquei tão rendida que aceitei de imediato o convite para ser uma das embaixadoras da marca. Não são o máximo?




    Sapatos lindos, de alta qualidade e em edições limitadas a quarenta pares: o sonho de qualquer fashion victim. A marca é portuguesa e o fabrico divide-se entre Portugal e o Brasil em infra-estruturas que oferecem condições dignas de trabalho e não utilizam mão-de-obra infantil. Mais dez pontos para a ROS!





    Quando um dos fundadores da marca é um dos nossos nadadores olímpicos, é caso para dizer que é alguém que sabe o que é preciso para fazer calções e fatos de banho confortáveis e super resistentes. Além disso, giros e com uma colecção personalizável. Para dar cor a qualquer piscina.




    Chapeús há muitos, mas destes já ninguém faz. Ou fazia. Sim, os tradicionais chapéus-de-sol de tecido voltaram pela mão de duas amigas que não vivem sem praia. Os tecidos são o máximo e há pouco stock de cada modelo para que sejam sempre originais. Quero!!!




    Uma toalha que vem com uns pauzinhos para fazer um encosto e que, ainda por cima, se dobra e guarda num saco giríssimo. Um pára-vento que se transforma em tenda. Toalhas XL e outras invenções práticas e originais. Irresistíveis.


    A ver se com estas ideias, o Verão vem dar um ar da sua graça. :)







  • Em 2012 o melhor designer da Dior desde o próprio Monsieur Christian, foi substituído por Raf Simons. A saída de Galliano, envolta numa polémica que incluiu excesso de álcool e piadas nazis, marcou o fim de um reinado romântico e elegante no pronto-a-vestir, onírico e exuberante nas colecções de alta-costura. Infelizmente, o novo rei quis fazer tábua rasa.
    É normal que Simons se queira demarcar da herança de Galliano, até porque jamais conseguiria igualar o seu estilo, mas daí a descaracterizar a própria Dior, é demais para os meus olhos. Na colecção de alta-costura  Outono Inverno 2014, recentemente exibida em Paris, vemos uma mulher de cabelos soltos, calças largas, camisolas por fora das calças, casacos “over sized” e vestidos cada vez mais longe da silhueta clássica da Dior.
    Quando recebi a newsletter da Dior, pensei que as fotografias estivessem trocadas. Parecia uma coleção Jil Sander (onde Raf esteve anteriormente), o que não quer dizer que seja má, apenas que está num universo paralelo em relação os códigos estilísticos da Maison. Os fãs da marca não querem ver uma colecção avant gard, nem uma mulher do dia-a-dia. Também não querem que a alta costura se torne tão informal que pareça pronto–a-vestir. Uma peça de alta-costura Dior tem de ser algo único, algo maravilhoso, algo que nos faz sonhar. Não pode ser uma versão cara de peças modernas e minimalistas, que podemos encontrar em dezenas de outras marcas.
    Os “entendidos” em moda podem defender Simons, podem aplaudi-lo de pé, podem fazer a apologia da modernidade e do questionar das regras da alta-costura. Mas os fãs, esses, continuam a indignar-se e a proferir frases como “O Sr. Raf Simons apunhala a Casa Dior a cada seis meses”. Deixo-vos algumas imagens do desastre belga. Volta Galliano, estás perdoado.









  • Por mais críticas efusivas ou prémios literários que se possa ganhar, o sucesso de um livro mede-se pelo número de vendas. É um facto incontornável. Mas como é que se consegue que um livro venda bem,  quando todas as semanas as livrarias se vêem a braços com cerca de trinta novos títulos a disputarem o pouco espaço das prateleiras? Como é que numa semana se consegue despertar a atenção dos leitores, antes que chegue nova remessa de novidades? Bom, é muito simples: com muita promoção e muito passa-palavra.

    É isso que explica porque é que livros fabulosos caem no esquecimento duas semanas após o lançamento e livros de qualidade muito duvidosa ficam durante meses nos Tops de todo o mundo. E é por isso que preciso da ajuda dos meus leitores. O meu novo livro está nas prateleiras de quase todas as livrarias e quem o leu tem gostado muito, pelo menos atendendo ao número de emails e mensagens de felicitações que tenho recebido. Mas não chega. É preciso que mais e mais pessoas saibam que ele existe, perguntem por ele se não o encontrarem na prateleira e falem dele aos amigos.

    Assim deixo aqui o link para o primeiro capítulo, para que possam ler e partilhar com todos os amigos que gostam de livros. Partilhem, falem, ofereçam a alguém que vai fazer anos nos próximos tempos.


    http://goo.gl/tNWiq8

    Deixo também um post do Facebook da Bertrand, que podem (e devem) partilhar e comentar. É só clicar na imagem. :)



    Muito obrigada!

  • Sou fã de séries, admito. Desde o MacGyver e do Justiceiro na minha infância, passando pelo Beverly Hills 90210 e o BayWatch na adolescência ou pela Ally McBeal e O Sexo e a Cidade no início da idade adulta, diversas séries fizeram parte dos meus serões ou tardes de sofá. Mas à excepção do Fawlty Towers e do Seinfeld, escritas pelos melhores comediantes da história da televisão, nunca tive inveja dos argumentistas das mesmas. Até começar a ver Uma Família Muito Moderna há uns anos.

    Não é por acaso que é uma das séries cómicas mais premiadas dos últimos tempos, incluindo 5 Writers Guild of America. É que é tão boa, tão boa que até chateia. As personagens, os diálogos, as peripécias de cada episódio... Mas para mim o segredo é mesmo o retratar de as situações, discussões e rituais familiares pelos quais todos nós já passámos. Há diálogos tão reais que por vezes parece que a minha casa tem microfones que transmitem directamente para os argumentistas em Hollywood.

    Acabei esta semana de ver a quinta temporada na Fox Life e já estou a contar os dias para a sexta. Diz que nos EUA estreia a 24 de Setembro. Por cá ainda não há data, mas acredito que passará ainda antes do fim do ano. Até lá, vale a pena ver as repetições. 




  • Depois das notícias da minha chegada ao Top 100 da Amazon com a versão inglesa de "Os 30 - Nada é como sonhámos", em Novembro do ano passado, fui contactada pelo Eduardo Boavida, da Bertrand para falar sobre o meu segundo livro. Como muitos devem saber, tinha decidido avançar com uma edição de autor desse segundo romance, que até estava a ter bastante sucesso, embora o facto de não estar disponível nas livrarias tradicionais afastasse muitos leitores que não gostam dos formatos ebook, nem de fazer compras online.

    Assim, a proposta de edição da Bertrand não foi difícil de aceitar. Mais do que controlar a 100% o meu trabalho e deter todos os direitos sobre as minhas obras, algo que só uma edição de autor permite, interessa-me que estas cheguem ao maior número de pessoas possível, com a qualidade e profissionalismo de uma editora tradicional. Porque quando escrevo, escrevo para os meus leitores, por achar que tenho uma história interessante para contar. Um história que lhes proporcionará umas boas horas de leitura e entretenimento.

    É por isso que hoje tenho o prazer de anunciar que "O Estranho Ano de Vanessa M." vai estar disponível em todas as livrarias a partir de 11 de Julho, pela mão da Bertrand Editora. Aproveito também para convidar todos os meus leitores e seguidores deste blog para a festa de lançamento, que será no dia 15 de Julho, às 18.30h, na livraria mais antiga do mundo, a Bertrand do Chiado. O livro vai ser apresentado pelo meu querido amigo André Henriques, que todas as manhãs acorda os portugueses com o seu Café da Manhã da RFM, e será uma oportunidade para conversar um bocadinho com todos vocês sobre o livro, esta edição e muito mais.

    Obrigada Eduardo por esta oportunidade :)





  • Uma das coisas mais bonitas numa fotografia é quando ela nos conta uma história. A captação de um momento que em si encerra muito mais do que o objecto fotografado. E quando esse objecto é uma pessoa, o resultado chega a ser comovente.

    Só que conseguir captar a essência de alguém num clique é algo que poucos conseguem fazer, porque à excepção dos modelos profissionais, a maioria das pessoas fica intimidada quando tem uma objectiva apontada a si. É muito difícil estar completamente à vontade, sermos completamente nós próprios. Há sempre a incerteza de onde pousar a mão, de como colocar o braço, do quanto se deve mostrar os dentes ou abrir os olhos ou cruzar a perna. Então, o fotógrafo tem de trabalhar a pessoa, fazê-la esquecer a máquina e os flashes e o corpo, até conseguir arrancar um sorriso natural ou um olhar sincero.

    Pois, isso é o que faz um fotógrafo. Mas quando o fotógrafo é mais do que um profissional, quando é realmente um artista, consegue arrancar os sorrisos, os olhares, o bom ou mau e acima de tudo a verdade.

    Adoro ser fotografada. Desde miúda que adoro que me tirem fotografias e, desde que lancei o meu primeiro livro, tenho sido fotografada por diversos profissionais, alguns deles premiados com galardões importantes no foto jornalismo. Mas raramente olhei para uma fotografia minha como sendo mesmo eu. Há sempre uma pose ou qualquer coisa que faz com que ali esteja retratada uma das minhas facetas, mas nunca eu inteira, eu como me vejo, eu com todo o meu ser. Até ontem.

    Ontem tive o privilégio de ser fotografada pela Vera Marmelo, uma fotógrafa auto-didacta que começou a dedicar-se ao retrato há cerca de sete anos. Tem fotografado essencialmente músicos e artistas e o seu trabalho fala por si. Infelizmente, como quase todos os grandes artistas portugueses, ainda não se pode dar ao luxo de se dedicar exclusivamente à fotografia. O que é uma pena, porque se o seu portfólio actual é fruto das horas vagas, nem imagino o que poderia fazer se se pudesse dedicar sem restrições à sua arte.

    E pelos vistos não sou a única a sentir que a Vera sabe como poucos captar a essência de alguém. A propósito do lançamento do livro da Vera,  caderno de posters, Samuel Úria disse "na música portuguesa, tal como a conheço, não é irónico, mas poético, que a grande retratista da verdade instantânea tenha um nome que significa verdade". E eu subscrevo.








    © Vera Marmelo








  • Nos dias que correm, um dos maiores desafios com que um ser humano se depara é conseguir desligar-se de toda a tecnologia e informação que o assalta assim que abre os olhos pela manhã. Começa logo com o despertador, que hoje em dia é invariavelmente o telemóvel. Ao desligarmos o dito cujo, aproveitamos para espreitar uma ou outra informação online, seja as capas dos jornais, seja o trânsito que nos aguarda, seja o tempo que vai fazer. Já agora, passamos os olhos por um ou dois emails e, quando damos por nós, estamos agarrados à tecnologia mesmo antes de dizer bom dia à pessoa que está deitada ao nosso lado.

    Quem consegue não sucumbir ao iCoiso e ir directo para o banho, não se livra de, mais cedo ou mais tarde, ligar o rádio ou televisão. Ou seja, antes de pormos um pé na rua, já enchemos o nosso cérebro de informação útil e inútil, ignorámos sem notar os outros seres vivos que habitam a casa e nem soubemos apreciar o chilrear dos passarinhos, que mesmo na cidade se fazem ouvir (se prestarmos atenção, claro).

    Durante o dia a coisa não melhora: painéis publicitários em sítios cada vez mais inusitados, o computador no trabalho, a música no elevador, os emails, as redes sociais, as mensagens escritas numa linguagem cada vez mais distante do português, mais uma passagem pela internet à hora de almoço e um regresso a casa arrastado de exaustão. Como é que não haveríamos de chegar a casa tão cansados depois de tudo o que fizemos ao nosso cérebro por horas a fio?

    É então que começam os problemas conjugais. Dois adultos cansados e com a cabeça cheia encontram-se para partilhar uns metros quadrados até irem para a cama (muitas vezes, preciosos metros quadrados que também são partilhados com outros seres, tais como filhos barulhentos e sedentos de atenção). Ainda falta fazer o jantar, despejar o lixo, estender a roupa e sei lá mais o quê. Quando finalmente, pelas dez da noite, se conseguem sentar no sofá a relaxar, ligam o iCoiso ou a televisão e ficam cada um para o seu lado até os olhos começarem a fechar-se. E assim se passam os dias e as semanas e os meses. Quando param para pensar, estes dois adultos afirmam que não tiveram tempo para ter uma única conversa de jeito. Isto é, uma conversa que não contenha as palavras miúdos, colegas, chefe, contas, roupa suja ou comida para o gato.

    Mas como evitar cair nesta espiral destruidora de relações? Teremos de abdicar de todas as comodidades do século XXI? Teremos de largar a vida urbana e abraçar uma vivência em lugares remotos onde não haja rede? Virar hippies? Calma, não é preciso chegar a tanto. Basta aprender a desligar.

    Tal como podemos ligar todos os aparelhos que proliferam nas nossas casas, também temos o poder de os desligar, nem que seja uma noite por semana. Sim, uma noite. Aquelas duas horas que perdemos no sofá à terça-feira, a fazer zapping ou a ver mais um episódio da série do momento, podem ser transformadas em duas horas de conversa com a pessoa com quem escolhemos viver. Não tem de ser uma conversa intelectual, nem sobre a actualidade. Pode começar por ser uma conversa banal sobre o buraco na estrada que foi finalmente tapado ou sobre a nova cor de cabelo da Dona Crismina do terceiro esquerdo, que oscila entre o lilás e o beringela. Podemos contar uma anedota ou falar do novo hit que está sempre a passar na rádio. Uma música calma no fundo, um copo de vinho ou uma chávena de chá e a conversa vai fluir para caminhos pouco óbvios até que, palavra a palavra, vamos reconstruindo (ou simplesmente reforçando) a nossa intimidade enquanto casal.

    Sim, haverá silêncios e alturas em que não sabemos o que dizer. Mas em pouco tempo aprenderemos que esses silêncios contêm cumplicidade, harmonia e amor. E o melhor de tudo é a manhã seguinte. É que já está cientificamente provado que os aparelhos electrónicos podem provocar distúrbios no sono e que as redes sociais em excesso nos tornam mais tristes, porque vemos a (falsa) felicidade e a (suposta) diversão dos outros e achamos que a nossa vida é uma seca. Assim, desligados das tecnologias e com tempo para dedicarmos a uma boa conversa, adormecemos de bem com a vida, connosco próprios, com os nossos parceiros e, consequentemente, acordamos muito mais felizes, livres daquela sensação de que as noites são todas iguais durante a semana. Porque o tempo é o que fazemos dele e há sempre um tempo em que temos de saber desligar.

  • Agora que estamos mais perto dos 40 do que dos 30 e que temos dois filhos, um deles com meses de vida, comprámos uma carrinha pão de forma. Sim, leram bem, uma daquelas clássicas, mais velha do que nós, sem air-bag, sem ar-condicionado, sem vidros eléctricos, sem uma data de siglas que todos os carros modernos têm. Com inevitáveis horas de oficina, com percursos sem hora para chegar e, acima de tudo, com muita história. Irresponsáveis dirão uns. Malucos dirão outros. “Granda” pinta, tem dito a maioria.

    A carrinha pão de forma sempre fez parte do meu imaginário. A minha primeira mochila era uma Pão de Forma cheia de personagens do Charlie Brown e, quando aos doze anos descobri a magia dos anos 60, sonhava com viagens numa destas carrinhas (ou no seu primo Carocha), a distribuir flores, paz e amor por esse mundo fora. Mais recentemente, eu e o meu marido, falávamos em alugar uma durante um fim-de-semana, para ir até às praias do sudoeste. Só não o fizemos porque o Hugo sempre achou que eu não seria capaz, já que nos primeiros meses de namoro, quando me propôs uma noite ao relento eu respondi que só acampava em hotéis. Mas se for só uma noite e houver uma casa de banho por perto, até alinho.

    A coragem para dar tão ousado passo nasceu ao assistirmos à incrível viagem que os nossos primos Inácio e Leninha fizeram pela América do Sul. Num projecto chamado Dar a Volta, que começou em 2010 com uma viagem de oito mil quilómetros pela Índia num side-car, os nossos primos aventuraram-se a percorrer trinta mil quilómetros e dez países num destes míticos veículos. Não vou revelar mais sobre o projecto, porque podem saber tudo pelas palavras dos próprios aventureiros no seu site, mas posso dizer que é no mínimo inspirador e nos faz querer largar tudo e partir à descoberta dos fantásticos lugares que compõem o nosso planeta.

    O bichinho foi crescendo, crescendo, até que a oportunidade de, efectivamente, comprar o mítico veículo, surgiu há pouco mais de um mês. Estávamos em casa, privados de sono devido ao nascimento da nossa filha, a quem eu estava a dar um biberão, quando o Hugo me perguntou qual o carro dos meus sonhos. Respondi que não ligo nenhuma a carros, que como ecologista prefiro andar de bicicleta, mas que, se tivesse mesmo de escolher, seria uma carrinha pão de forma. O Hugo sorriu e passou-me o seu portátil para o colo. No ecrã reluziam as fotografias do anúncio daquela que viria a ser a nossa carrinha. Bastou eu dizer que era linda, para ele ligar para o número que aparecia no anúncio, e ainda eu não tinha acabado de dar o biberão à miúda, já ele estava a combinar uma viagem até Paços de Ferreira, a discutir o preço e a terminar com um “então até 5ª!”.

    Confesso que entrei em pânico. Ele estava mesmo a falar a sério. Ele ia mesmo comprar a carrinha. E os miúdos, e onde estacionamos, e as cadeirinhas de bebé, e se o dinheiro nos fizer falta daqui a uns tempos?

    A resposta não se fez esperar e, no fundo, é a razão que me levou a escrever esta crónica: e se morrermos amanhã? Quantos dos nossos sonhos ficarão por realizar? Podemos esperar que os miúdos cresçam, que a conta bancária cresça, mas e se, nessa altura, for tarde de mais?

    E pronto, convenceu-me. Porque, de facto, entre tantos sonhos que vamos tendo ao longo da vida, uns impossíveis, como voar ou acabar com a fome no mundo, outros improváveis, como ir à lua ou ser uma estrela rock, não há muitos que se possam comprar. Este podia. Irresponsável seria deixá-lo escapar.

    Agora, de cada vez que entro na garagem e vejo a nossa pão de forma a reluzir, sinto-me grata por me ter deixado convencer por um marido que sonha ainda mais alto do que eu. Ainda não tivemos muitas oportunidades de passeá-la e tenho a certeza de que não vamos dar voltas de trinta mil quilómetros, como fizeram os nossos primos. Mas ainda que as nossas viagens se limitem a este pequeno país, a cada uma delas estaremos a percorrer pedaços do nosso sonho. E isso não tem preço.



    Se quiserem ajudar-nos a escolher o nome da nossa carrinha, a votação vai decorrer aqui no Facebook.