• Porque hoje é Dia Mundial do Livro, aceitei o desafio da novíssima revista ESTANTE, para partilhar a minha. Ou melhor, parte da minha, porque a imagem não consegue captar a sua totalidade e, além do mais, tenho ainda muitos livros espalhados por outras estantes da minha casa e da casa da minha mãe, onde estão os clássicos e os livros que fui lendo enquanto crescia.

    Mas esta é a estante principal, onde guardo a minha colecção do Pessoa,  a minha colecção da Alice no País das Maravilhas e tantos outros livros infantis, os livros que estão em espera para ser lidos, os que gosto de revisitar de quando em vez, os dicionários e prontuários e mil objectos que fazem as minhas memórias.

    Pelo que vi ao folhear a nova revista, também ela passará a fazer parte da minha estante: gosto do grafismo, gosto do papel reciclado e gosto sobretudo que seja uma revista pouco elitista, o que é raro nas publicações que existem sobre livros. Desejo felicidades a este novo projecto da FNAC.




  • Porque todas as mães merecem um mimo, aproveitem esta promoção do livro "O Estranho Ano de Vanessa M." por apenas €10 com portes incluídos. Façam as vossas encomendas para filipafonsecasilva@gmail.com até dia 27 de Abril, mas apressem-se porque o stock é limitado a 30 exemplares. 

    E isto prende-se com A GRANDE NOVIDADE: "O Estranho Ano de Vanessa M." vai ser publicado pela editora Bertrand em Julho! Depois do sucesso na Amazon, a Bertrand não quis deixar de colocar o meu novo livro à disposição de todos. Assim, a edição de autor que fiz no ano passado já saiu de circulação na sua versão original (português), restando apenas umas dezenas de exemplares que só podem ser adquiridos directamente a mim.

    Esta é, por isso, uma excelente oportunidade de ficar com a versão original e rara deste meu segundo livro, com capa da ilustradora Sofia Silva, e cuja edição em papel foi inferior a 1000 exemplares. Quem sabe um dia se torne uma relíquia :)

  • Para os que se questionam sobre a ausência de posts das últimas semanas, devo anunciar que fui mãe há poucos dias. Assim, estarei imprópria para escrever nos próximos tempos e terei de trocar o teclado por fraldas e biberões :)

    Volto assim que a privação de sono abrandar (e com grandes novidades).

    Até lá, deixo-vos um grande beijinho.



  • Em 2005, Dino Casimiro tirou esta fotografia, acreditando poder tratar-se de uma das maiores ondas do mundo. Aqui, na vila da Nazaré, a apenas 100km de uma capital europeia, podia estar o próximo destino para os amantes de ondas gigantes. Garrett McNamara foi o único big wave rider contactado pela Nazaré que aceitou vir ver com os próprios olhos este fenómeno. Chegou em 2010 e deu início a um projecto que hoje corre o mundo, o ZON North Canyon.

    Este projecto resultou em três documentários (um por cada ano em que Garrett passou meses em Portugal a desafiar as ondas na Nazaré), que captam momentos magníficos, não apenas para quem gosta de surf, mas para todos os que gostam de uma boa história sobre homens que desafiam a Natureza. Além disso, foi este projecto que permitiu que Garrett quebrasse o recorde do Guinness da maior onda alguma vez surfada.

    Este mês foi finalmente lançado o site oficial do projecto, onde a história é contada através de imagens inéditas lindíssimas e vídeos surpreendentes. Eu tive a honra de escrever os textos para este site. Um trabalho um pouco ingrato, uma vez que neste caso cada imagem vale mesmo mais que mil palavras. De qualquer modo espero que gostem do site e gozem a viagem.





  • Uma das minhas citações preferidas é da escritora Doris Lessing, que, muito antes de atingir maior popularidade com o Nobel da Literatura, disse algo como "Algumas pessoas obtêm fama, outras merecem-na". É que isto da fama tem muito que se lhe diga, sobretudo na sociedade hipermediatizada em que vivemos. Na maioria dos casos, os famosos de hoje são-no por coisas banais e até estúpidas, que vão dos reality shows às festas da moda, passando  pelo trabalho de empresas de relações públicas pagas a peso de ouro, deixando no anonimato aqueles cujo nome não deveria ser esquecido. Nomes como Alberto Janes, poeta e compositor.

    As poucas pessoas que têm a sorte de conhecer a obra deste senhor estão ligadas ao fado, onde se mantém uma referência incontornável. É que Alberto Janes escreveu e compôs alguns dos fados mais conhecidos do repertório de Amália Rodrigues, como "Foi Deus", "Oiça lá ó Sr.Vinho", "É ou não é", "Vou dar de beber à dor", só para citar alguns. Só que, ao contrário de outros, que viveram na sombra da Diva em busca de protagonismo, este poeta não procurou mais do que alguém que desse vida às suas palavras, continuando a sua vida discreta de farmacêutico e, mais tarde, professor.

    Há uns anos tive o privilégio de poder ler e compilar a obra completa de Alberto Janes, que estava espalhada entre folhas e cadernos avulsos num apartamento no centro de Oeiras, depois da sua mulher morrer. Um privilégio apenas possível por ser casada com um dos seus netos. Quando conheci o Hugo, ele perguntou se eu gostava de fado e se conhecia o seu avô. Respondi com sinceridade: embora gostasse muito de fado, o nome Alberto Janes não me dizia nada. Com o tempo fui conhecendo a obra e ficando cada vez mais curiosa. Gosto de poetas e autores que escrevem de forma simples, sem floreados, sobre temas universais, sobre sentimentos comuns a todos a nós. Queria ler mais e mais e não descansei enquanto não pus as mãos naqueles cadernos antigos e cheios de versos verdadeiros. Bem dita a hora.

    Descobri uma obra de grande qualidade e que, quer queiramos, quer não, faz parte da história do Fado e da Poesia portuguesa. Uma obra que não faz sentido continuar escondida. É um projecto da família um dia editá-la, mas até lá, e porque hoje se celebra o Dia Mundial da Poesia, partilho convosco um dos meus poemas preferidos, na esperança de começar a tirar Alberto Janes do esquecimento. Não só pelo meu marido e pelos meus filhos, que já têm como legado o sangue deste poeta nas veias, mas por todos os que gostam de coisas bonitas.



    AOS MEUS

    Os meus versos, nem eu sei
    Porque os faço, na verdade,
    Quando a tristeza me invade
    Como se fosse um castigo,
    Sinto uma voz interior,
    Que me fala, que me anima,
    Numa conversa que rima,
    Talvez a brincar comigo.

    Às vezes, na hora triste
    Da tarde em que o Sol se esconde,
    Fecho os olhos, nem sei onde,
    Vai caminhando o meu ser,
    Que sinto ao morrer do dia,
    Rasgado dentro do peito,
    Um poema de dor feito,
    Que nunca soube escrever.

    E num dia igual a tantos,
    Em que parta, me vá embora,
    Deve ser àquela hora
    Tão sombria do sol pôr,
    Os amigos, os meus filhos
    E quem se lembrar de mim,
    Conhece lendo-me assim,
    A minha vida interior.

    Alberto Janes (1909-1971)




  • Um dos maiores desafios de uma gravidez é manter a sanidade mental perante as enormes transformações a que o nosso corpo está sujeito. Não me refiro apenas aos inevitáveis quilos a mais, alargamento das ancas, das costas, dos pés, inchaços e demais transtornos. O grande problema são mesmo as hormonas.

    Da puberdade à menopausa, o desequilíbrio hormonal é algo com que todas as mulheres aprendem a conviver, devido àquela coisa fantástica que se chama menstruação. Há sempre uns dias do mês em que nos sentimos mais irritadas ou cansadas ou vulneráveis ou tudo isso ao mesmo tempo. E se, por um lado, a gravidez nos dá vários meses de tréguas desse problema, por outro, altera a função de praticamente todas as glândulas do organismo resultando em estados psicológicos ainda mais difíceis de controlar e que duram não apenas uns dias por mês, mas toda uma gestação.

    É que a placenta produz várias hormonas necessárias à manutenção da gravidez. A principal hormona que a placenta produz, a gonadotropina coriónica humana, evita que os ovários libertem óvulos e estimula-os a produzir continuamente valores elevados de estrogénios e de progesterona, que são necessários para que a gestação prossiga. A placenta também produz uma hormona que estimula a actividade da tiróide. Uma tiróide mais activa muitas vezes acelera a frequência cardíaca e provoca palpitações, sudação excessiva e instabilidade emocional. Muitas vezes é uma maneira de dizer. A verdade é que, pela minha dupla experiência e observação de outras grávidas, é SEMPRE.

    Como resultado, as grávidas choram, as grávidas gritam, as grávidas perdem a cabeça com coisas tão parvas como partir um copo ou deixar queimar o arroz. Para mais, as grávidas sentem-se sozinhas e incompreendidas, pelo que o apoio das amigas é essencial e os telefonemas e visitas muito apreciados. As grávidas sentem-se assustadas e ansiosas, pelo que a compra compulsiva de tudo quanto é livro e revista da especialidade é perfeitamente normal, mesmo quando já ocupam uma prateleira inteira da sala. As grávidas sentem-se menos atraentes, pelo que é importante que os companheiros as acarinhem e elogiem, mesmo naqueles dias em que, à simples pergunta “Porque é que estás tão mal disposta?”, a resposta for “Porque é de manhã e tu estás a falar”.

    A má notícia é que pouco há a fazer para contrariar este estado. Quem convive com uma grávida tem de se munir de uma dose extra de paciência e compreensão. Respirem fundo e peçam desculpa, mesmo sem saber bem porquê. Não façam muitas perguntas, muito menos daquelas parvas tipo “o que é que tens?” ou “o que é que eu fiz?”. Não contem como se divertiram imenso na discoteca até às seis da manhã ou de como estava delicioso o jantar de bife tártaro acompanhado de vinho tinto. Acima de tudo, não se queixem a uma grávida. Nenhum problema, a não ser que seja uma doença grave ou um acidente quase letal, se compara às privações e provações a que uma mulher está sujeita durante a gravidez. O “hoje dói-me tanto a cabeça” ou “não preguei olho a noite passada” podem ser mesmo considerados insultos, sobretudo nas últimas semanas de gestação.

    A boa notícia é que é um estado temporário. Bom, na verdade, o início da amamentação também provoca desequilíbrios hormonais, desta vez devido à acção de outras duas queridas hormonas, a prolactina e da ocitocina, sendo por isso importante manter o stock de Kleneex em casa. Mas com o tempo, a coisa acalma e a mulher volta ao ritmo de desequilíbrio mensal a que todos estavam habituados. Depois de sobreviver às sevícias das hormonas da gravidez e puerpério, a TPM parecerá uma brincadeira de crianças.


    PS: deixem nos comentários as vossas experiências de desequilíbrio hormonal :D
    A minha mais grave foi quando atirei um balde de tinta amarela à porta de um café em obras, porque eles insistiam em começar a fazer barulho antes das 8 da manhã (ainda há vestígios de tinta no passeio...)


  • Não é segredo para ninguém que anda por aí muita gente estúpida. Faz parte da vida e do equilíbrio do Universo. Aliás, a Humanidade não existiria se todos os seres humanos fossem brilhantes, inteligentes e dedicados ao pensamento. Seríamos ingovernáveis, viveríamos na anarquia, morreríamos de fome e de frio, porque as tarefas intelectuais alimentam a alma, mas não o corpo.

    O problema surge quando as pessoas estúpidas chegam a posições de poder. E são tantas... Não apenas no poder que nos governa, mas sobretudo nas actividades que fazem parte do nosso dia-a-dia. O chamado poderzinho. O poderzinho não mata mas mói. Encosta-nos à parede, tenta humilhar-nos sem necessidade, sem motivo aparente, apenas porque sim, apenas para se sentir momentaneamente superior.

    Um exemplo de poderzinho é o exercido por certos elementos das forças de autoridade. Sabem aquele polícia antipático que gosta de se fazer de mau e ameaçar-nos com uma multa quando paramos o carro em segunda fila por dois minutos, mas que depois estaciona o seu veículo em cima do passeio ou em frente à garagem? Aquele que nem diz bom dia, passando logo para o “os seus documentos por favor”? Tenho um desses na minha rua. Está sempre a saltitar de café em café, a desfilar a sua enorme barriga flácida, e só se mexe para chatear quem pára mal o carro. Faria melhor figura se multasse quem passa a mais de 60km/h numa zona residencial, ou chamasse a atenção de quem deixa o cãozinho fazer necessidades no passeio. Mas não. Isso seria fazer algo útil pela sociedade, algo que os estúpidos não conseguem alcançar.

    Outro exemplo de estúpidos que gostam de exercer o seu poderzinho são os chefes autoritários. Lá está, se não fossem estúpidos não tinham necessidade de serem desagradáveis com os colegas. Normalmente dividem-se em dois tipos: os que gritam, exigem, dão ordens, mas nunca põem a mão na massa, não se coibindo, no entanto, de ficar com os louros do trabalho dos outros; e os que são tão inseguros que querem fazer tudo sozinhos, para mostrarem trabalho e se sentirem imprescindíveis, em vez de delegar, ensinar e trazer o melhor da sua equipa ao de cima. Qualquer um dos tipos tem duas caras: a cara de mau para os subordinados e a cara de animal amestrado para os superiores hierárquicos. E qualquer um dos tipos tem também um desfecho de carreira: ou os seus superiores são igualmente medíocres e protegem-se uns aos outros nos seus cargos de chefia, perpetuando a estupidez corporativa; ou os seus superiores não são estúpidos e acabam por colocá-lo numa posição aparentemente privilegiada, mas que é apenas uma maneira de limitar os estragos que a sua estupidez poderia provocar na organização. (Agora já sabem porque é que o estúpido que não dá uma para a caixa tem o título de director e um gabinete só para ele.)

    Depois temos o funcionário público estúpido: aquele que nos deixa ficar na fila durante duas horas para depois nos dizer que tínhamos de ter o papel, o carimbo, o impresso, o documento ou o raio que o parta, mas agora só amanhã. Aquele que nos olha com um ar superior e um sorriso maléfico enquanto nos entope com burocracias e exigências, sabendo que não temos outro remédio senão obedecer e esperar o tempo que for preciso. E ainda há o professor estúpido, que descarrega as suas frustrações nos miúdos, o segurança estúpido que nunca pode fazer nada, o porteiro de discoteca, enfim, os exemplos são incontáveis, infelizmente.

    Bem sei que os estúpidos também têm direito à vida e a uma carreira profissional, mas não deviam ter direito a estar em posições em que possam deliberadamente prejudicar ou dificultar a vida dos outros. Como se infernizar quem lhes aparece pela frente com a sua boçalidade fosse a maneira de se vingarem de uma vida chata e sem perspectiva de melhoras.

    Devia haver uma lei universal, tão definitiva como a lei da gravidade, que proibisse o acesso de pessoas estúpidas a qualquer tipo de poder. Por exemplo, numa candidatura a uma função ou promoção, havia um teste ao nível de estupidez do candidato e quem se revelasse uma besta, simplesmente não poderia ser admitido (por mais cunhas que tivesse ou favores que fizesse). “Muito obrigado pelo seu tempo e pela sua candidatura, mas o teste revelou que você é demasiado estúpido para este lugar. Boa tarde e boa sorte”. E pronto, o estúpido ia à sua vida e o mundo era um lugar melhor. Porque a estupidez humana não tem limites, mas devia ter.

  • De tempos a tempos surge um verdadeiro ícone da moda. Não estou a falar das "it-girls" que os fashionistas adoram e que normalmente são modelos ou musas dos designers. Estou a falar daquelas mulheres que não sendo modelos profissionais, seja em que aparição pública for, estão sempre deslumbrantes.

    Não é nada fácil alcançar esse estatuto, até porque as revistas e bloggers de moda não dão hipóteses a qualquer erro. Basta um vestido mal escolhido para determinada celebridade ser ridicularizada, com a mesma facilidade com que, na semana anterior, fora idolatrada. E a época dos prémios, que vai dos Gotham Awards aos Óscares é, por excelência, a altura em que todos os holofotes estão apontados para as passadeiras vermelhas, à espera do desfile das estrelas e dos seus erros de guarda-roupa. Mas para a queniana Lupita Nyong'o parece fácil.

    A actriz, que começou a dar nas vistas no Outono passado, quando o filme "12 anos escravo" começou a ser apontado como um favorito para os Óscares, a cada aparição pública dá uma lição de estilo. De Outubro até à noite de ontem, conseguiu estar irrepreensível em todas as passadeiras vermelhas. De tal forma que depressa se tornou a estrela de vários editoriais de moda, Vogue incluída, e foi escolhida como cara da nova campanha da Miu Miu. E se hoje não é segredo que todas as estrelas têm o seu "personal stylist" para ajudar na escolha da indumentária de cada ocasião, também é verdade que,  no que toca a estilo, ou se tem ou não. No caso de Lupita, cuja "stylist" é a não tão conhecida Michaela Erlanger, o estilo emana para lá dos vestidos e é difícil encontrar uma fotografia em que não esteja linda de morrer. De sorriso doce e pele de chocolate, talento nato e sentido de estilo, acredito que Lupita se vai tornar num ícone da moda (e não só!) para várias gerações. O Óscar para Melhor Actriz Secundária que ganhou ontem à noite será apenas o começo.








  • A preparação das refeições é, para mim, uma das tarefas domésticas mais desgastantes. Sim, é verdade que não sou grande fã de cozinhar, só que não é o acto em si que me chateia, mas antes todo o planeamento que envolve. Da compra dos ingredientes à escolha do menú, há sempre alguma coisa em que pensar, sobretudo quando se fazem praticamente todas as refeições em casa, pois não há nada mais irritante do que planear um prato e, quando abrimos a despensa, não termos lá os ingredientes necessários.

    E se antes de ter filhos a coisa se resolvia com uma tosta mista, uma tijela de cereais ou um telefonema à última da hora do tipo “querido, antes de vires para casa passa no chinês”, hoje em dia é impossível não ter sempre algo fresco e nutritivo na manga. Além disso, como defensora da comida saudável e de preferência biológica, não me contento com congelados do hipermercado, cheios de aditivos, conservantes e carnes de origem duvidosa.

    Pois este constante planear e pensar em comida estava a causar demasiadas discussões entre mim e o meu marido. Discussões que começam com frases como “outra vez bifes?” ou “o que é que tiraste para o jantar?” e acabavam com “tenho de ser eu a pensar em tudo!” ou “se estás mal, contrata uma cozinheira”.

    A primeira epifania que tivemos foi fazer um menú quinzenal onde definimos vinte pratos (dez almoços e dez jantares para os dias de semana) simples de preparar e que fossem do agrado quer dos pais, quer de uma criança menor de dois anos. Foi uma enorme ajuda, até porque facilitava a própria tarefa de ir às compras. Só que, ao fim de uns meses, o que era um facilitador tornou-se um problema, ora porque começámos a enjoar o menu, ora porque não tínhamos ido ao supermercado naquela semana e não tínhamos peitos de frango suficientes para fazer o “strogonoff” do almoço de segunda e a salada de frango do jantar de quinta. Em breve voltámos ao mesmo: “que raio vou fazer hoje para o jantar????”.

    A segunda epifania surgiu muito recentemente quando descobrimos um serviço de entregas ao domicílio simplesmente fantástico, o Oh Maria!. Comida muito bem confeccionada, pratos variados e um preço inacreditável (duas doses que dão para nós e para o bebé por menos de €8). Fizemos contas à vida e decidimos que mais valia pagar um bocadinho mais para ter dois ou três jantares por semana literalmente prontos a comer, do que os custos de um terapeuta conjugal.

    Nos restantes dias, cozinhamos em quantidades maiores que dêem para congelar para uma segunda refeição ou fazemos pratos básicos e rápidos como o clássico hambúrguer com esparguete ou o incontornável ovos mexidos com salsichas, os quais, acompanhados de uma boa salada e de um sumo natural, não deixam de ser saborosos e nutritivos. (E agora percebo a minha querida mãe e o porquê de comer estes pratos tantas vezes em criança, aos quais se juntava o fantástico frango no churrasco do Sr.António.)

    Por isso, jovens casais recém-casados ou recém-pais ou simplesmente preguiçosos da cozinha: não substimem o poder afrodisíaco de uma refeição pronta (bem mais afrodisíaco de que um parceiro a resmungar e com o cabelo a cheirar a refogado). Guardem na agenda telefónica o contacto de um bom take-away ou serviço de entregas ao domicílio para aqueles dias em que estiverem fartinhos de dar voltas à cabeça sobre o que vai ser o jantar. Um pequeno investimento que poderá evitar um “separei-me porque às quartas era sempre bacalhau com natas”.

  • Hoje é dia dos namorados. Um dia em que se oferecem flores, bombons e palavras ternurentas. Um dia em que os casais aproveitam para fazer um programa especial ou para dizer o que se esquecem de dizer nos outros dias do ano. Um dia em que as mulheres, mais dadas a este tipo de romantismo, esperam ser mimadas pelos seus companheiros.

    No entanto, para muitas delas, é apenas mais um dia em que serão vítimas de diversos tipos violência. Espancamento, violação, mutilação genital, discriminação, escravidão, humilhação. E não, não estou a falar apenas de mulheres desprotegidas dos países do terceiro mundo, onde a tradição manda mais do que a humanidade. Estou a falar de mulheres de todos os países, culturas e estratos sociais.

    Em Portugal os dados oficiais apontam para 37 mulheres assassinadas pelos seus companheiros em 2013. E as que não morreram, quantas serão? E as que não são espancadas nem violadas, mas sofrem de violência psicológica, quantas serão?

    A coisa piora quando olhamos para as estatísticas globais: uma em cada três mulheres do planeta será violada ou espancada durante a vida. Em termos práticos, podemos colocar a coisa da seguinte maneira:
    a) se és homem e tens uma mãe, uma filha e uma mulher, significa que uma delas vai ser (ou já foi) espancada ou violada durante a vida
    b) se és mulher e tens uma mãe e uma irmã, significa que uma de vocês as três vai ser (ou já foi) vítima deste tipo de violência.

    Uma em cada três representa mil milhões de mulheres. Mil milhões. É difícil de imaginar, não é? Por isso foi criado o movimento One Billion Rising for Justice. Um movimento que pretende que, por cada mulher violentada, outra se levante e fale por ela. Um movimento que organiza exactamente hoje, 14 de Fevereiro, o V-Day, que não é mais do que o dia em que deveremos sair à rua e dar voz a todas estas vítimas. São diversos eventos públicos espalhados por cidades de mais de 200 países, e que contemplam concertos, vigílias, flashmobs ou teatro de rua. Em Lisboa também está agendado um destes eventos. É às 18h30 na Estação Ferroviária do Rossio.

    Quem não puder comparecer, tem várias outras maneiras de participar nesta causa e clamar por justiça. Denunciando estes crimes, falando sobre eles, escrevendo cartas às entidades competentes para mudar leis discriminatórias, apoiando financeiramente este ou outros movimentos e associações de protecção de vítimas de violência, de tráfico ou de discriminação, chamando a atenção para estes problemas com um simples post no Facebook, por exemplo. Acima de tudo, tratando as mulheres, de qualquer idade, de qualquer condição, com respeito e dignidade.

    Não nos podemos calar. Não podemos parar de lutar. Rise. Release. Dance!







  • Esta é uma história de amor e de catarse do artista plástico e designer Sebastian Errazuriz. A forma que ele encontrou de se libertar e, ao mesmo tempo, imortalizar doze mulheres que fizeram parte da sua vida amorosa.

    Só que em vez de as retratar, Sebastian transformou-as em sapatos para uma original exposição na "pop up store"da marca brasileira Melissa, em Miami. A exposição terminou no início do ano, mas podem vê-la no blog 12 shoes for 12 lovers. Os sapatos são deslumbrantes e a história que acompanha cada um deles não fica atrás. Ficamos a saber, por exemplo, que Sebastian foi apanhado pela polícia quando estava a fazer amor no carro com a GI Jane, filha de um coronel de quem ainda hoje anda escondido. Ou que The Virgin Anna poderá ter decidido ir para freira depois de perder a virgindade com ele.

    Aos jornais Sebastian confessou que a maioria destas mulheres acharam graça à brincadeira e muitas nem sonhavam que tinham tido tanto impacto na sua vida. Mas decerto que algumas estão a planear uma vingança, como a "Ice Queen Sophie" ou a "Gold Digger Alison"...







    ©Sebastian Errazuriz

    Vale a pena também acompanhar o trabalho deste artista, que eu até agora desconhecia, mas que já me conquistou. Ora espreitem lá o site: http://www.meetsebastian.com/



  • Desde que saiu a notícia da chegada do meu livro ao Top 100 da Amazon, muitos me têm perguntado como consegui tal feito. Não apenas os jornalistas que me entrevistaram na altura, mas sobretudo leitores, estudantes e pessoas que também têm coisas escritas e que gostavam de publicar.

    Pois bem, neste post vou tentar explicar como é que consegui chegar ao top da maior loja online do mundo e mostrar que se há coisa que não existe é o sucesso da noite para o dia.



    1º passo: escrever um livro

    Sim, é verdade. É preciso escrever um livro, processo esse que demora meses a fio, por vezes anos até. Mas depois de escrever, há que ler e reler, ter a capacidade de cortar aqui e rescrever ali, ter a humildade para ouvir as críticas e sugestões de terceiros a quem devemos dar o livro antes de sequer pensarmos em mostrá-lo a um editor, e por fim, se avançarmos para uma edição de autor, contratar um editor ou revisor profissional que faça mais uma leitura e garanta que o manuscrito cumpre os requisitos mínimos de qualidade. No meu caso concreto, uma vez que o livro «Os 30 - nada é como sonhámos» já tinha sido editado pela Oficina do Livro, pude passar mais rapidamente para o segundo passo.

    2º passo: traduzir

    O mercado português é bastante pequeno e, como todos sabemos, está em crise. Assim, uma das primeiras decisões que tomei foi traduzir o livro para inglês e auto-publicá-lo num mercado muito mais maduro e apetecível: o norte-americano. É um mercado bastante sofisticado, onde os ebooks já ultrapassaram a venda de livros em papel e onde os leitores não têm preconceitos em ler obras de autores independentes. Aliás, há inúmeros sites e blogs dedicados ao que eles chamam "Indie publishing". Para tal, paguei obviamente a um tradutor profissional e a um revisor, para reler a tradução e, mais uma vez, garantir um livro com qualidade.

    3º passo: auto-publicar

    Entre a plataforma da Amazon (KDP) e outras como a Lulu ou a Smashwords, auto-publicar um livro nunca foi tão fácil. O processo em si é simples e gratuito. As plataformas fornecem guias para ajudar a formatar o documento a enviar (que pode ser um simples Word) e ainda oferecem serviços ou listas de freelancers (esses sim, pagos) para ajudar na edição, paginação, ilustração da capa e até promoção da obra. Devo avisar que a capa é importantíssima - não achem que por saberem dar uns toques no Photoshop podem fazer a vossa própria capa. Se quiserem um bom contacto, apresento-vos a Sofia Silva (não, não é da minha família, é apenas uma ilustradora muito talentosa com quem trabalho há seis anos).

    4º passo: implorar por reviews

    Este é um dos passos mais importantes para dar credibilidade a um livro no mercado online, seja ou não auto-publicado. É que numa loja virtual não há posters na montra, nem vendedores a quem possamos pedir uma sugestão. A compra on-line é uma compra solitária e, por isso mesmo, o comprador procura ler alguma informação extra sobre o livro, nomeadamente, o número de estrelas atribuídas e a opinião de quem já leu. No meu caso, como lancei a versão inglesa um ano depois da portuguesa, numa primeira fase, comecei por pedir a todos os amigos e conhecidos que tinham lido Os 30 para deixarem a sua opinião sincera na Amazon. A seguir, pedi aos leitores anónimos que me escreviam a elogiar o livro e, por fim, comecei à procura de top reviewers (pessoas que, pelo elevado número de reviews que têm, são especialmente levados em conta pela comunidade online), já no mercado americano. O processo é o mesmo que qualquer editora tradicional leva a cabo quando envia as novidades para os meios de comunicação social da especialidade: enviamos um exemplar de oferta (no caso de um ebook não tem custos para o autor) e ficamos à espera que a pessoa goste e escreva uma boa review. Mas devemos ter a consciência de que podem não gostar e escrever coisas menos boas (tive um reviewer que me deu 2 estrelas e outros que só deram 3). Mas até isso é bom, porque dá aos potenciais compradores uma visão realista do livro e a prova de que as reviews que ali estão são honestas, e não "compradas" pelo autor ou feitas por perfis falsos (sim, há quem faça isso, embora a Amazon esteja sempre atenta a esse tipo de fraude). Um livro que só tem reviews de 4 e 5 estrelas é muito suspeito.

    (nota: aproveito para implorar descaradamente um review de todos os que estiverem a ler este post e tiverem uma conta na Amazon :) aqui ficam os links:




    5º passo: promover, promover, promover

    Mesmo depois de lançado o livro, mesmo depois de já termos umas dezenas de reviews, a promoção é um trabalho constante e que, no meu caso, me ocupou muitas horas ao longo de um ano e que continua a fazer parte dos meus dias. Há milhares de novos títulos a serem lançados diariamente nestas plataformas e, tal como numa livraria tradicional, não há espaço para todos na primeira página. É necessário usar publicidade tradicional, (um banner num site de livros, um Google ad, etc), mas também estar activo nas redes sociais para construir uma boa base de fãs e pôr o nosso nome ou o nome do livro a circular. Também é importante ir fazendo promoções, como oferecer o livro durante um dia ou baixar radicalmente o preço numa dada semana. Porque numa primeira fase o objectivo não é ganhar dinheiro com o livro que acabámos de publicar (acho que raramente um autor, mesmo que publicado por uma editora conceituada, ganha dinheiro com os primeiros livros), mas dar a conhecer o nosso trabalho ao maior número de pessoas possível. Se elas gostarem, encarregar-se-ão de passar a palavra e, quem sabe um dia, tornar-se-ão leitores fiéis.

    6º passo: repetir

    Depois de todo o esforço para lançar um livro não se deve parar. Há que lançar um segundo e repetir todos os passos. Porque ter mais do que um livro dá mais credibilidade ao autor e aumenta as hipóteses do seu nome aparecer nos motores de busca e nas sugestões que estas plataformas dão aos seus clientes. Além disso, quando um leitor gosta de um livro, tem tendência para procurar (e comprar) outras obras do mesmo autor.

    E pronto. Foi assim que aconteceu. Não da noite para o dia, não por sorte, mas fruto de um enorme investimento de tempo e de algum dinheiro ao longo de cerca de 14 meses. Tempo esse que eu e o meu marido, o meu agente e especialista em marketing, roubámos ao nosso filho, aos nossos amigos, aos nossos fins de semana e dias de férias. Sim, o livro é bom, sim eu até escrevo bem, mas como tanta gente já o disse e provou antes, o sucesso não depende apenas do talento. É algo que dá muito trabalho.









  • Na passada sexta-feira os deputados da nossa Assembleia mostraram, mais uma vez, que um país nunca avançará enquanto a política prevalecer sobre a humanidade. Depois de um importante passo rumo não só à igualdade entre cidadãos, mas sobretudo à defesa das crianças que crescem sem pais, deram trezentos passos atrás, propondo um referendo acerca de uma lei que já tinha sido aprovada, a lei da co-adopção.

    Sei que somos um país tipicamente conservador. Por muito que as leis mudem, a família tradicional para a maioria das pessoas, embora cada vez mais rara, continua a ser um pai e uma mãe, de preferência casados e, melhor ainda, casados pela Igreja. Também sei que, para muitos, a homossexualidade é uma moda, uma mania, uma doença, tudo menos aquilo que é: uma orientação sexual tão válida como a heterossexualidade. E ainda sei que somos um país de carneiros, de pessoas que acreditam em tudo o que vêm na televisão, sem reflectir, sem investigar por conta própria, e depois proferem afirmações boçais do tipo "as crianças ficam traumatizadas por terem dois pais ou duas mães". (Para essas, fica este vídeo)

    Ainda assim, considero a lei da co-adopção curta. Curta mas um primeiro passo rumo à defesa dos interesses de milhares de crianças. Permite que o companheiro de alguém que um dia teve uma relação heterossexual da qual nasceu uma criança, pudesse co-adoptar essa mesma criança. No fundo, formalizar perante a lei uma relação existente. Para uns por princípio, para outros por necessidade, como no caso de o progenitor morrer e a criança, que sempre viveu com aquele casal, ser retirada à outra pessoa que a criou por não ter laços de sangue. Não é o mesmo que autorizar a adopção plena, isso sim um feito grandioso, mas já é alguma coisa.

    Num país onde há 8142 crianças a viver em instituições, sem saberem o que é ser amadas por alguém, sem saberem o que é um colo, um adulto que lhes dê toda atenção, fico chocada que se proponha gastar dinheiro a referendar uma coisa que deveria ser indiscutível: todas as crianças têm o direito a crescer numa família. São 8142 crianças, 95% do total de crianças separadas dos seus pais biológicos, que crescem no limbo de instituições, sem serem adoptadas e, no caso em que a adopção não se justifica porque há esperança de se poderem um dia reunir à família biológica, sem sequer serem colocadas em famílias de acolhimento.

    Mas os nossos políticos não querem saber das crianças, nem destas famílias. Não querem saber da sua necessidade de atenção individualizada, dos laços afectivos que as prendem a determinadas pessoas, mesmo que não sejam de sangue. Será melhor uma criança crescer desamparada numa instituição do que com amor, só porque esse amor vem de alguém cujas preferências sexuais não são a norma? (E o que é a norma?) Crianças que, aos dezoito anos são deixadas a si próprias, porque já não podem estar nessas mesmas instituições, tornando-se muitas vezes adultos com vidas precárias. Ou acham que de uma instituição vão para a Universidade? E a que propósito se referenda este tipo de questões, quando há tantas outras muito mais relevantes para o país, que deviam ser discutidas?

    Não acredito que o referendo vá para a frente. Penso que foi um episódio estúpido que só serviu para desacreditar ainda mais a classe política e lançar o pânico entre todas as famílias afectadas directamente por esta lei. No entanto, e no ano em que se celebram os 25 anos da Convenção sobre os Direitos da Criança, que não é apenas uma declaração de princípios, mas sim um documento com vínculo jurídico, espero que tenha servido para que todos se (re)lembrem de que as crianças precisam de estabilidade e amor. Venham de onde vierem.



  • Numa das crónicas anteriores, terminei o texto a dizer que uma mãe cansada prefere sempre dormir a uma noite de sexo escaldante. Isto não só provocou um frenesim de mensagens a questionar a qualidade da vida sexual de todos os casais que têm filhos, como ainda pôs em questão a minha própria vida conjugal.

    Calma. Não entrem já em pânico, por favor, e não me liguem a perguntar se precisamos de terapia conjugal. Não é verdade que as mulheres percam o desejo sexual depois de serem mães, nem é verdade que se sintam menos sexy e atractivas. Passando aqueles primeiros meses pós-parto, em que o desequilíbrio hormonal se alia à flacidez pélvica e aos quilos extra que nunca mais se vão embora, o desejo regressa com tanta ou mais força do que antes. Só que, com filhos, surge a questão da disponibilidade.

    No fundo, é como ter uma tia a dormir lá em casa ou passar um fim-de-semana com amigos com quem ainda não temos total à vontade. Ninguém se vai pôr a andar nu pela casa e a fazer o amor onde quer que lhe apeteça, pois não? Então, com filhos é a mesma coisa, mas para sempre! Quer o casal seja mais virado para sexo matinal, quer seja mais virado para sexo nocturno, há sempre um (ou mais!) pequeno ser lá em casa. E se, no início, a falta de disponibilidade se prende com o cansaço das noites mal dormidas, depois passamos a ter o factor "criança que já consegue sair da cama sozinha e entrar pelo quarto dos pais adentro". A possibilidade de infligir esse tipo de trauma a uma criança e ser tema de conversa no recreio da escola (ou pior, no gabinete do director da escola), também não é algo que eleve a libido de uma mãe.

    Mas há muitas outras coisas que afectam gravemente a disponibilidade sexual e que são, basicamente, todas as novas tarefas que vêm com a criançada:

    - preparação de refeições nutritivas (não dá para jantar cereais e congelados todos os dias...);
    - aumento da lide doméstica em geral (roupa, mais roupa, mais lençóis e resguardos, mais babetes encardidos, mais banana colada ao chão, mais pastilha elástica presa no cabelo, mais uma nódoa de chocolate no sofá...);
    - idas e vindas dos colégios, escolas e actividades extracurriculares;
    - ajuda nos trabalhos de casa, no projecto de ciências, no trabalho de arte plástica que a professora pediu aos pais para fazerem...
    - tempo para efectivamente brincar com as crianças, porque foi para isso que as tivemos, não?

    Por isso, se achavam que antes de ter filhos tinham uma vida muito ocupada, entre o trabalho, o ginásio e a vida social, deixem-me só rir um bocadinho.
    Agora a sério: lamento ser eu a portadora de tais notícias, mas para todos os que ainda não são pais é bom que estejam conscientes que o sexo deixa mesmo de ser uma prioridade. Não por falta de desejo, não por monotonia, apenas e só porque, quando os miúdos estão finalmente na cama, os pais mal têm energia para lavar os dentes. A solução é uma enorme dose de criatividade para encontrar sítios e horários à prova de criança. Aqui ficam algumas sugestões:

    - aproveitar o período das sestas
    - pedir à baby-sitter para levá-los num loooongo passeio
    - pôr o despertador para 20 minutos mais cedo
    - um duche rápido, enquanto eles vêm um filme na sala
    - deixá-los ir brincar para a rua
    - aproveitar que as visitas estão lá em casa e ir "buscar umas cadeiras à arrecadação"
    - fugir para uma divisão recôndita durante um almoço de família
    - passar por um motel à hora de almoço.

    É uma lista em constante construção, por isso, não se deixem limitar por ela e lembrem-se que, embora deixe de ser uma prioridade para as mães, o sexo nunca deixa de ser uma prioridade para os pais. E é, sem dúvida, uma das coisas mais importantes para uma relação feliz.






  • Não era desta forma que queria começar o ano do blog. Tinha imaginado um post cheio de algodão doce e palavras divertidas. Mas a vida é assim mesmo: termina quando menos esperamos, mesmo para aqueles que tomamos por imortais.

    Só que no caso de Eusébio, a notícia é mais difícil de interiorizar, uma vez que, ainda em vida, ele já era imortal. É como alguém dizer que Deus deixou de existir. Como assim? É impossível. Os deuses não morrem, que disparate! E por isso não consigo verter qualquer lágrima. Por isso e porque o seu nome apenas me desperta sorrisos. Pelas imagens de glória que me vêm à memória e pela lembrança do seu rosto, sempre sorridente, dentro e fora do campo.

    Não sou da geração que teve o privilégio de vê-lo jogar, num tempo em que o futebol era apenas futebol, mas sou da geração que já nasceu com o seu nome tatuado na alma. Eusébio é Portugal, o rei plebeu da dinastia dos heróis. E como qualquer outro rei, não há como contornar a sua existência, passem os séculos que passarem.

    Não sou da geração que teve o privilégio de se encantar com o seu jogo a cada domingo, mas ainda o vi jogar durante 37 minutos e fazer um golo, num jogo em sua homenagem a 1 de Dezembro de 1992. Foi a comemoração do seu 50º aniversário e a condecoração com a medalha de bronze da Ordem do Infante D. Henrique pelo Presidente da República. Foi, aliás, a primeira vez que entrei no Estádio da Luz, pela mão do meu avô, e o dia em que fiquei irremediavelmente apaixonada pelo Benfica.

    Não sou dos que tiveram o privilégio de privar com Eusébio, de ouvir as suas histórias e tirar fotografias a seu lado, mas consegui dizer-lhe o que sentia na única vez em que estive ao seu lado. Eu, que não sou nada destas coisas e acho sempre que as figuras públicas, quando estão nos seus momentos privados, não querem ser incomodadas.

    Foi numa noite de Verão há dois ou três anos num restaurante em Sesimbra. Eu estava à espera de mesa junto à vitrina do peixe fresco e Eusébio veio escolher o seu jantar. Já o tinha visto sentado no fundo da esplanada, discreto como sempre foi, e dito a mim própria que gostava de ser mais extrovertida e ter coragem para ir cumprimentá-lo. O destino quis que Eusébio se levantasse e viesse até mim, como que me oferecendo a derradeira oportunidade de cumprir o meu desejo. Os meus joelhos começaram a tremer, a minha garganta secou e trezentas mil borboletas esvoaçaram na barriga. Enquanto Eusébio falava com o empregado, eu pedia ao meu cérebro para dominar o sistema nervoso e deixar-me falar. E assim foi. Antes que o Pantera Negra se voltasse a sentar, toquei-lhe no ombro e disse algo do género: «Senhor Eusébio, desculpe incomodá-lo, mas só queria dar-lhe um beijinho e agradecer-lhe por tudo o que fez pelo nosso Benfica e por Portugal. É um orgulho cumprimentá-lo». O Rei sorriu, agradeceu humildemente e voltou para a sua mesa, para a sua existência divina. Eu fiquei sem conseguir falar por mais dez minutos e só voltei à minha cor normal ao fim de vinte, o que é perfeitamente aceitável para quem acaba de falar com uma lenda.

    Hoje, ao ver as imagens da sua despedida, orgulho-me de ter conseguido dirigir-lhe tais palavras, ainda que não tenham sido as mais inspiradas. Porque é muito mais importante homenagear as pessoas em vida do que escrever coisas bonitas depois da sua morte. E até nisso Eusébio foi especial. Recebeu homenagens e estátuas e medalhas enquanto as pode apreciar. Soube que era querido, não só pela família e amigos, não só pelos benfiquistas, não só pelos portugueses, mas por várias gerações de pessoas de todo o mundo. Agora, de regresso ao Olimpo onde pertence, de certeza que vai a sorrir, com o coração cheio de boas memórias.

    Boa viagem.



  • Pronto. Chegou o dia dos balanços. O dia em que quase toda a gente é tomada por uma necessidade (por vezes masoquista) de rever o ano que está prestes a acabar. Há sempre uma série de arrependimentos, uma dose de autocomiseração e uma certa vaidade por eventuais conquistas.

    Há casamentos, nascimentos e promoções. Há divórcios, lutos e desemprego. Tudo isto misturado, tudo isto a acontecer com a mesma pessoa, com a mesma família ou comunidade. E depois, há ainda as já clássicas reportagens sobre o melhor e o pior do ano, que só nos fazem sentir mais insignificantes perante os grandiosos acontecimentos. Qual foi a minha contribuição para a Humanidade? Como posso queixar-me seja do que for perante as imagens da Síria? Como posso vangloriar-me de pequenos feitos perante tudo o que fez Mandela?

    Mas posso. Podemos todos. Porque somos humanos. Porque embora tenhamos a sorte de não ter nascido numa zona de guerra, também temos as nossas pequenas tragédias. Porque os nossos actos podem não mudar o mundo, mas mudam o mundo de alguém. Porque apesar de poucos ficarem na História, todos fazemos parte dela, com os nossos dias nada emocionantes, as nossas rotinas nada inspiradoras e os nossos desejos apenas mundanos. E se o melhor que fizemos no ano que acaba foi ajudar uma velhinha a atravessar a estrada, não nos sintamos menos dignos. Amanhã poderemos começar de novo. E depois de amanhã. E a qualquer momento da nossa vida.

    Álvaro de Campos escreveu que «O mundo é para quem nasce para o conquistar e não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.» Mas se não sonharmos, o que nos resta?

    Vamos então sonhar um 2014 como nos apetecer, em que sejamos heróis para quem nos é querido, geniais numa actividade qualquer (mesmo que seja a resolver palavras cruzadas) ou em que sejamos apenas nós próprios, com todas as nossas falhas. Para uns, serão sonhos altruístas como a paz no mundo, a saúde eterna e a cura do cancro. Para outros, um carro novo, um amante ou uma mala Chanel. Não importa a dimensão ou a futilidade dos mesmos, porque enquanto pudermos mandar nos nossos sonhos seremos livres. Mesmo nos dias mais escuros. Mesmo num país pequenino.

    ©Steve Simpson
  • Esta não é uma noite como as outras. Mais não seja por conter em si a esperança e as promessas de que vai ser especial. É tempo de perdão, de amor, de esquecer as diferenças. No entanto, todos os anos, década após década, observo as mesmas angústias, as mesmas mentiras, as mesmas histórias. Vejo os filhos repetirem os erros dos pais. Vejo os netos a rir com as mesmas brincadeiras que fizeram rir os seus avós. Só muda o tempo, esse que por mim passa tão devagar.


    Sete da tarde.

    O ar começa a cheirar a filhoses e lenha.

    A rapariga loura limpa as lágrimas e retoca a maquilhagem ao espelho do carro, enquanto o rapaz retira alguns sacos do porta-bagagens. Sem lhe dizer uma palavra, fica à espera que ela decida sair, pegue no bebé, que dorme no banco de trás, e o siga até à porta número sete. Não a via com uns olhos tão tristes desde que os seus cabelos estavam presos em tranças, os joelhos esfolados debaixo do vestido e o cão definitivamente imóvel no seu colo.

    À janela do quarto esquerdo, uma mulher espreita ansiosa entre as cortinas. Ainda faltam muitas horas, ela sabe. Mas não consegue evitar perder o olhar na rua, que agora já está escura, aguardando os faróis do Ford azul.

    No segundo andar da porta número nove, o homem continua no sofá. Já perdeu a conta à cerveja que a mulher lhe vai trazendo a cada grito. A cozinha envolta em vapor, porque o exaustor está avariado há três anos. E ainda tem de fazer as rabanadas.

    No quinto, está a família feliz. A árvore é a mais bonita, as crianças as mais bem comportadas, os presentes os mais valiosos. Os sorrisos espalham-se à medida que a família vai chegando. Quatro gerações.

    Um carro pára agora à minha frente, mas não é o Ford azul. Dois homens despedem-se com um beijo nos lábios. O condutor segue. O passageiro respira fundo e esconde a aliança no bolso do casaco, enquanto se dirige para casa dos pais, no prédio do lado.


    Nove da noite.

    Cai uma chuva miudinha que todos gostariam que fosse neve, menos eu, que ficaria com as folhas queimadas. Neve seria, contudo, muito mais romântico.
    A rapariga loura voltou a sorrir. O rapaz também, embora a raiva continue a jorrar dos seus olhos. O bebé passa de colo em colo, contagiando toda a gente com a sua inocência, como que a provar àqueles que eram contra a sua existência, o quão mágico é um pequeno ser. A encarnação da esperança. Todas as possibilidades pela frente.
    À janela do quarto esquerdo, a mulher volta a espreitar uma última vez antes de se sentar sozinha à mesa. Podia ter ido para a terra. É sempre a esta hora que se arrepende de não ter ido para a terra. Mas também, o que dizer àquela gente toda? Como suportar aquelas vidas provincianas, aquelas histórias sempre iguais, aquelas perguntas em tom de crítica?
    O homem continua a beber no segundo andar, embora tenha finalmente largado o sofá. Os filhos fingem que não se importam. Têm de sorrir pela mãe, que teve tanto trabalho. E ainda fez as rabanadas que sobram sempre, porque ninguém gosta de fritos.
    A família feliz está sorridente a partilhar uma luxuosa refeição. O pai das crianças não pára de mandar SMS por baixo da mesa. A mulher finge não perceber. É Natal. É suposto sorrir. A cunhada invejosa não tira os olhos da mulher do irmão, que está sempre tão bem vestida, tão bem arranjada, enquanto ela não tem dinheiro nem para ir fazer as mãos. A matriarca abre os olhos ao marido sempre que ele volta a encher o copo. «Não devias beber tanto. E depois quem é que leva o carro até à Igreja?» Os adolescentes jogam uns com os outros via telemóvel. A bisavó finge-se de surda e aproveita apenas o lado bom da coisa: ver a família toda reunida, quem sabe se pela última vez. Aproveita também para esconder mais uns figos secos no bolso do casaco, que saboreará quando ninguém estiver a ver.
    Na casa ao lado, o homem continua a gabar-se das suas viagens fantásticas e a inventar histórias da namorada parisiense que se está a tornar um caso sério. Talvez para o ano, se tudo correr bem, a convença a vir a Portugal. Os olhos da mãe brilham de alegria. Queria tanto ter um netinho.


    Meia noite.

    A hora mágica.
    A rapariga loura finge gostar do presente que o rapaz lhe deu. Não quer deitar-se zangada mais uma vez. Ele, no fundo, é bom rapaz. A sério que é.
    A mulher do quarto esquerdo dormita no sofá, enquanto as velas derretem no candelabro.
    No segundo andar, o homem já foi a cambalear até ao quarto, ignorando a abertura dos presentes. A mulher contém as lágrimas. Nem tudo é assim tão mau. Tem os filhos e os netos. Tem de continuar por eles. Amanhã logo se vê.
    A família feliz foi quase toda à Missa do Galo. Menos os adolescentes, que ficaram a tomar conta dos primos mais novos. Fumam charros à janela enquanto as crianças pulam no sofá, ansiosas pelos presentes e excitadas pelo excesso de açúcar.
    O homem do prédio ao lado distribui embrulhos caros que trouxe das suas viagens exóticas. Mas a mãe só queria um netinho. Ai que ainda vai morrer sem ter um netinho.


    Madrugada.

    Cai a neblina.
    A rapariga loura pede desculpa ao rapaz assim que entram no carro. Vamos começar de novo. Vamos ter outro bebé. Um bebé resolve tudo, com a sua doçura. Prometo que tudo vai ser diferente.
    O Ford Azul chega finalmente. A mulher dá pulinhos à janela. Sabe que não tem muito tempo. Ele disse à outra que ia só dar uma volta para esmoer o jantar. Mas aquela hora chega-lhe. A hora em que finge que são um casal. A hora em que finge ter uma família. Recebe mais uma jóia, quando só queria um pouco mais de amor. Mas não faz mal. Uma hora chega para sonhar.
    No segundo andar da porta número nove, a mulher limpa a casa em silêncio. Não pode acordar o marido, senão já sabe o que lhe acontece. Limpa a casa como se limpasse as tristezas da sua vida. São muitas e estão incrustadas como a gordura no exaustor que não funciona há três anos. Engole as lágrimas e as imagens do que poderia ter sido. Haja saúde. O resto a gente aguenta.
    A família feliz despede-se. Amanhã o cinismo continuará. Agora, cada elemento recolhe, maldizendo os outros durante o caminho até casa. Menos os adolescentes que dormem mais profundamente que as crianças. Uns anjinhos.
    O homem do prédio ao lado chama um táxi. Está desejoso de chegar a casa e rir com o companheiro das mentiras que tiveram de contar às respectivas famílias. Riem para disfarçar o desgosto de não poderem passar aquela noite juntos. Talvez para o ano seja diferente. Talvez para o ano tenham coragem.
    Uma a uma as luzes apagam-se e os motores dos carros deixam de se ouvir. Passou mais uma noite de Natal. Nenhum milagre trouxe a felicidade instantânea ou a resolução de todos os problemas sobre os quais ninguém quer falar. Daqui a umas horas tudo será como antes. Como sempre.
    Aguardo que os primeiros raios de sol aqueçam os meus ramos. Parece que já não vai chover.





    (texto originalmente publicado neste blog em 2011)
  • Só as tragédias nos relembram o verdadeiro valor da nossa existência. Só as tragédias nos trazem a angústia de sermos mortais. Passamos a vida tão ao de leve, tão preocupados com coisas mundanas, com as contas, com os horários, com o que os outros pensam, com o que é que se tira para o jantar, com aquele berbicacho que temos de resolver até ao dia seguinte, que nos esquecemos do que realmente importa. De quem realmente importa.
    Só as tragédias nos espicaçam durante uns dias. Nesse período, prometemos a nós próprios que vamos ser pessoas melhores, que vamos preocupar-nos mais com os outros, que vamos telefonar mais vezes aos pais, aos avós, aos amigos, que vamos cumprir aquela promessa há tanto tempo adiada. Prometemos tudo isto, para logo a seguir sermos novamente engolidos pelo quotidiano e atirados a um mundo que não está feito para contemplações. Um mundo que não nos dá tempo para pensar, que não nos dá tempo para tudo o que um dia gostaríamos de fazer ou dizer. E, quando mais de 90% da população luta para sobreviver, é quase um insulto pedir que sejamos mais contemplativos e olhemos para as pequenas coisas poéticas que a vida nos oferece. A poesia não paga as contas, não cumpre os horários, não faz o jantar.
    Mas então acontece uma tragédia. Um acidente, uma doença, uma injustiça. Um segundo que nos rouba o chão, que nos traz o desejo doloroso de ter tido mais um dia, mais um abraço, mais uma palavra sussurrada ao ouvido. Nessa altura, o que nos resta senão as tais coisas poéticas? Quando não há um corpo, quando não há vida, matéria, substância, persistem as recordações e a culpa por todos os minutos que perdemos a pensar nas contas, nos horários e nos jantares. Porque, por muitas voltas que a vida dê, por muitas obrigações que o mundo nos imponha, são as pessoas que nos dão sentido. Pessoas que merecem ouvir todos os dias o quanto são importantes na nossa vida. Todos os dias. Não apenas nos dias das grandes alegrias. Ou das grandes tragédias.