• Parece que a dupla Dolce & Gabanna leu a minha crónica "É preciso readaptar o guarda-roupa" antes de criar a sua última colecção Outono Inverno. Finalmente alguém que fez uma colecção inspirada em mães e que, acima de tudo, não as retrata como santas tapadas até ao pescoço, ai, agora que és mãe não podes usar certas coisas". O que posso dizer sobre isto? Uma só palavra. AMO!!!!!
    E agora vou ali babar mais um bocadinho para cima das imagens da colecção. Até já.













  • A versão inglesa no meu novo livro já está disponível na Amazon. Ou seja, já podem falar dele aos vossos amigos estrangeiros (e devem ser muitos, já que metade das pessoas que conheço ou já emigraram ou vão emigrar).
    Para já só está disponível em eBook, mas estou a tratar da versão em papel para os próximos meses. No entanto, as fantásticas ilustrações da Sofia Silva estão lá, para serem apreciadas também num ecrã.

    E se, entretanto, algum dos meus queridos leitores tiver uma conta na Amazon e quiser deixar lá o seu comentário sobre o livro (de preferência em inglês), ficarei eternamente agradecida. Como já referi em várias ocasiões, os comentários de leitores são muito importantes para quem anda a pesquisar livros online e, no fundo, são a única hipótese de fazer passar a mensagem num mercado tão vasto como a Amazon. Mas lembrem-se: é importante que sejam opiniões sinceras.

    Desde já, muito obrigada!




  • Não gosto de falar de política. Os meus conhecimentos de História, de Economia, de Ciência Política são demasiado superficiais para me pôr aqui a analisar cenários e a tecer conclusões sobre o que se está a passar na Grécia e, consequentemente, na União Europeia. Sobretudo o como e o porquê. Toda a minha opinião sobre o assunto é baseada na informação que vejo e leio nos Media, que como todos sabemos, nem sempre são isentos e imparciais. No entanto, não consigo assistir calada a esta tragédia, uma tragédia que não é só grega.

    O que aconteceu este fim-de-semana vem apenas provar o que muitos, de esquerda, de direita, do centro, têm vindo a dizer nos últimos anos, mais precisamente desde que a crise de 2008 veio desfazer o mito da prosperidade continental: a União Europeia é uma anedota. É uma ditadura económica que se impõe a qualquer pretensão de soberania que tenhamos. E nós, os povos que elegem cada uma das pessoas que estão no poder, temo-nos deixado levar por esta história politicamente correcta do somos todos europeus, vamos todos cantar a uma só voz, nunca mais vamos ter uma guerra. Deixámo-nos embalar pela conversa de estarmos a criar uma União "fundada nos valores do respeito pela dignidade humana, liberdade, democracia, igualdade, Estado de direito e respeito pelos direitos humanos" quando, no fim, os únicos valores que contam são os da banca. Provavelmente não devíamos estar surpreendidos, até porque, na sua génese, os principais objectivos da Comunidade Económica Europeia eram simplesmente o desenvolvimento de um mercado comum e de uma união aduaneira entre os países membros. Mas não deixa de me chocar.


    Em 2012, a União Europeia foi laureada com o Nobel da Paz "por ter contribuído ao longo de mais de seis décadas para o avanço da paz e da reconciliação, democracia e direitos humanos na Europa" e agora é a primeira a impor a sua vontade arrogante,  pondo na gaveta todas as palavras bonitas que tão bem servem os discursos políticos. Não quero ser pessimista, mas vejo esta postura como o princípio do fim.


    Não acho que a Grécia esteja isenta de culpa do estado a que chegou, tal como nós portugueses não estamos com o que se passa por cá. Mas recorrer à chantagem, "ou assinas ou sais do euro", desrespeitando a vontade do povo grego, que elegeu aquele governo, e não os governos dos que agora ditam as regras, é um escândalo. Significa que em Outubro, mais uma vez, também nós vamos votar para nada, para eleger um Governo fantoche que mantenha o estado das coisas, bom aluno, cumpridor das imposições dos outros, mesmo quando isso significa o sacrifício absurdo de quem o elegeu. Por isso, esta crónica não é sobre a crise da Grécia. É sobre a crise da soberania que nos afecta a todos.



  • Depois de arrumar os carrinhos dentro da caixa dos brinquedos pela décima vez naquele dia, a mulher sentou-se na cadeira da cozinha a chorar. Não eram apenas lágrimas de saudade. Era raiva, era medo, era um aperto no coração, era não ter ninguém que a abraçasse e disse-se "pronto, já passou", como ela fazia ao filho quando ele se magoava.

    Ninguém lhe dissera que ia ser assim tão difícil. Ninguém a avisara de que era exactamente nas pequenas coisas do quotidiano, tão pequenas como arrumar os carrinhos numa caixa, que ia sentir mais a sua falta. Não no dia de Natal, não na festa da escola, não nas tardes de domingo no sofá, mas ali, naqueles pedaços de vida. Lavar a loiça, pôr a roupa na máquina, escolher um filme para ver ao serão, consertar a lâmpada do candeeiro do quarto, aquele que compraram na feira da ladra e que sempre fez mau contacto, a passagem pela mercearia antes de vir para casa porque não há cebolas, verificar o ar, a água , o óleo do carro, puxar o fecho do vestido, lembrar que o telemóvel ficou na mesinha de cabeceira, tomar o pequeno almoço juntos, passas-me o leite, se faz favor?, ajudar a enfiar o edredão dentro da capa, fazer a papa do miúdo, dar papa ao miúdo, mudar a fralda do miúdo, pedaços de vida.

    Porque o Natal é um momento que passa, o aniversário é um dia que acaba, mas as tarefas comuns não passam nem acabam. Estão lá todos os dias para nos lembrar que a vida continua. E a mulher chorava, porque não queria que a vida continuasse. Não desta maneira.

    O plano não era casar, ter um filho e ficar sozinha. Faltavam os outros filhos e as férias de Verão e vê-los crescer, juntos, e ensinar-lhes a serem boas pessoas, mas com ambição, que o mundo não se compadece com os bonzinhos, e ensinar-lhes a serem educados, mesmo perante a má-educação, e vê-los tornarem-se adultos, juntos, e envelhecer de mãos dadas, juntos. Era esse o plano. E agora? Quem é que ia ensinar o miúdo a andar de bicicleta? Quem é que ia levá-lo aos treinos de futebol? Quem é que ia construir pistas imaginárias para os malditos carrinhos? Quem é que ia explicar onde é que estava o papá? E a mulher chorava porque não queria ter de explicar.

    Os amigos, cada vez mais ausentes, porque ninguém gosta de ser confrontado com a tristeza, nem de sentir aquele tipo de pena que não se consegue disfarçar, sempre a perguntarem "como é que estás?". A mulher cada vez mais só, com vontade de responder, estou viva, a lutar para conseguir sair da cama todos os dias, porque tenho um filho que precisa de mim. E a mulher chorava porque não queria estar viva, embora também não quisesse estar morta. Queria apenas que tudo voltasse a ser como antes. E então chorava ainda mais porque sabia que nada seria como antes.

    O peito molhado, os dedos enrolados no pano da loiça e a memória de todas vezes que não lhe disse que o amava, de todas as vezes que não lhe disse que não sabia viver sem ele, de todas as vezes que o chateou por deixar a roupa espalhada no chão, quando tudo o queria agora era poder ter a roupa dele espalhada no chão, muita roupa, todos os dias. E a mulher chorava porque já não havia roupa, nem no chão, nem nas gavetas, nem nos armários.

    Até que o filho choramingou, lá ao longe, no quarto, a chucha caiu, está tudo bem, mais um pedaço da vida que continua, indiferente à sua dor. E a mulher chorava, em silêncio, noite após noite, na cadeira da cozinha, porque sabia que essa dor nunca iria passar.


    Conto originalmente publicado na plataforma Maria Capaz

  • Quando se pensa num Prémio Nobel, pensa-se em alguém com uma inteligência superior. Alguém que trabalhou durante anos ou décadas em prol de algo que contribuiu para o avanço da humanidade, seja na área da medicina, da economia ou da literatura. Dificilmente se pensa numa pessoa preconceituosa e machista ao ponto de fazer declarações do género "quando se tem miúdas num laboratório acontecem 3 coisas: apaixonamo-nos por elas, elas apaixonam-se por nós e, se as criticamos, elas choram". Mais, uma pessoa que defende abertamente que os laboratórios não deviam ser mistos.

    Pois, mas foi precisamente isto que um Prémio Nobel da Medicina e professor na prestigiada University College London fez. Tim Hunt, senhoras e senhores, mostrou ao mundo numa conferência na Coreia do Sul que uma besta é sempre uma besta, tenha um QI de 90 ou de 150, e que afinal o feminismo não pode passar de moda, porque há ainda um enorme caminho a percorrer (o número de mulheres em cargos de topo, seja em empresas, laboratórios, parlamentos ou nas próprias universidades é prova disso).

    Contudo, o melhor desta história não é esta evidência, nem o constatar de que há pessoas que nunca ouviram falar em tesouras para cortar os pêlos do nariz (ver com atenção a fotografia do laureado). O melhor é mesmo o movimento que imediatamente surgiu no Twitter por parte de mulheres cientistas de todo o mundo com a hashtag #distractinglysexy. A isto se chama combater a estupidez com humor.











  • Este sábado, dia 6 de Junho, vou estar na Feira do Livro de Lisboa para uma sessão de autógrafos.

    Será entre as 16 e as 17 horas no espaço do Grupo Porto Editora. 

    Quem ainda não tem os meus livros pode aproveitar para comprá-los a preço de feira; quem já tem pode levá-los para eu assinar ou simplesmente aparecer para trocarmos dois dedos de conversa.

    Quanto aos leitores mais tímidos, lembrem-se sempre de que eu é que estou lá sentada, sozinha, a uma mesa vazia, à espera que passe alguém que goste dos meus livros. Acreditem que é muito mais difícil para mim do que para vocês. Preciso de companhia! Apareçam! Mesmo que seja só para dizer "olá".

    Vemo-nos no sábado?

  • Anda por aí uma moda contagiosa que se chama cravar trabalhos de borla. Vá, eu sei que não é novidade no mundo e que sempre houve e haverá chico-espertos que acham que vão encontrar quem faça isto ou aquilo recebendo quase nada. Quem tem um negócio próprio sabe bem que aparece sempre um amigo a cravar uma imperial ou a achar que tem direito a um exemplar grátis ou a um desconto em nome da amizade. Só que o problema é que passámos do chico-esperto unipessoal para o chico-esperto corporativo.

    É que uma coisa é pedirmos ao nosso irmão para tirar umas fotografias para o nosso site ou à nossa amiga que nos ajude a criar um nome para uma loja, outra coisa é serem as empresas a fazer pedidos informais, sobretudo nas redes sociais, camuflados de passatempos ou de oportunidades fantásticas para fazer portefólio, com frases espantosas como "habilita-te a ver o teu trabalho na nossa próxima campanha" ou, para os que têm uma pontinha de vergonha na cara mas não muita, com um "a proposta vencedora será remunerada". Espere lá, senhor director da empresa que gostava de ter um novo logótipo de borla, o que é que é suposto alguém fazer com a fantástica oportunidade de ver as suas horas de trabalho escarrapachadas num cartaz? E no segundo caso, o que é que acontece aos outros novecentos concorrentes que gastaram horas ou dias a trabalhar para si? Ganham o quê? Juízo, certamente.

    Trabalhando há mais de 10 anos em publicidade, conheço um sem número de designers, directores de arte, ilustradores, fotógrafos, redactores, arquitectos, locutores que trabalham como freelancers. Ou seja, pessoas criativas que vivem exclusivamente das suas ideias. E, de facto, é mais difícil pôr um preço às ideias do que a um quilo de carne, mas daí a institucionalizar-se o discurso do "ele faz isso em meia-hora" ou "não lhe custa nada, é só uma frase", vai uma grande distância. É que nenhum trabalho, por mais simples que seja, se faz em meia hora, mas ainda que se fizesse, é meia hora que deverá ser paga.

    Além da desculpa nojenta do "não temos nada para te pagar, mas sempre ficas com mais um trabalho no portefólio", há outra ainda mais irritante que é a do "trabalhar para nós dá prestígio". Ai dá? Mas sabem o que é que não dá prestígio nenhum? Voltar para casa dos pais porque não se consegue pagar a renda. No meu caso trabalho a tempo inteiro e as coisas que faço ou escrevo, seja no blog, seja nos livros, são por minha conta e risco, isto é, o que vier dali é lucro e sempre dá para fazer mais umas comprinhas ou uns jantares fora. Mas se, de hoje para amanhã, tivesse de viver somente do que escrevo, como é que acham pagava as contas? Será que poderia dizer ao meu senhorio, olhe, este mês não lhe vou pagar a renda, mas está tudo bem, porque afinal é um grande prestígio ter uma escritora a viver na sua casa? Pode ser que a coisa até corra bem e um dia possa colocar uma placa na fachada a dizer "Aqui viveu Filipa Fonseca Silva". Não me parece.

    Mas o triste é que quando alguém tem a audácia de responder a um convite para um projecto/palestra/artigo com um "quanto é que estão a pensar pagar", surge o vazio. Literalmente. E depois do vazio, um vazio maior, isto é, acabam-se os convites. Porque há mais quem queira aparecer, ter o tal do prestígio, arruinar o mercado para os outros que se recusam a cair na escravidão. Porque é disso que se trata, não é? Ou o barulho das luzes é assim tão ofuscante que não conseguem perceber?

  • Estou agoniada, literalmente enjoada. Apetece-me chorar contigo e abraçar-te, Rita. Consigo sentir a tua dor, a tua incredulidade, o teu desespero. Sei que não há maior sofrimento do que perder um filho, seja de que maneira for, mas há maneiras bem piores do que outras.

    Quando ontem vi o teu apelo nas redes sociais, abafado pela "viralidade" do caso dos energúmenos que encurralaram o miúdo na Figueira da Foz, não prestei muita atenção. Confesso que nem sequer partilhei as fotografias, porque, tal como a polícia, ninguém se surpreende muito quando um adolescente desaparece, porque os adolescentes são criaturas estranhas e sabe-se lá o que lhes passa pela cabeça. De certeza que vai aparecer, tem de haver uma explicação. Quando hoje vi o título da notícia que o dava como morto, senti um enorme pesar, mas a primeira coisa que me passou pela cabeça foi que tivesse havido um acidente. Bebeu demais, foi atropelado, caiu ao rio, sei lá, tragédias que acontecem em noites de excessos. Porém, o pesar transformou-se em profundo choque ao ler que foi espancado até à morte.

    A minha angústia cresce à medida que te imagino a ti, Rita, neste três dias, desesperada à procura do teu filho, para depois receberes a notícia de que afinal, durante todas essas horas intermináveis, ele estava morto, fechado numa cave de um prédio pelos animais que o mataram. A minha angústia cresce pelo sofrimento dele, mas sobretudo pelo teu, que para sempre carregarás a culpa de não o teres protegido, de o teres deixado ir à festa, de não teres estado lá para acabar com aquilo ou nem deixar que começasse.  Quando alguém nos morre queremos que pelo menos nos deixe com o menor sofrimento possível. Que seja rápido e indolor, que seja durante o sono ou sob o efeito da anestesia. E a morte do Filipe foi tudo menos isso. E o peso, Rita, que vais carregar, por não teres estado lá para pegar no Filipe ao colo e levá-lo para casa, para o hospital, ou em última instância para o abraçar enquanto dava o último suspiro, tal como fizeste quando deu o primeiro.

    Mas, a par da minha angústia, cresce o meu terror por ter um filho e uma filha que também um dia vão querer ir a uma festa e por saber que vou ter de deixá-los ir, porque não os podemos manter numa redoma, porque eles têm de aprender a viver o mundo sem a nossa mão, porque também já tivemos 14 anos e sabemos bem como queríamos ter ido àquela festa a que toda a gente lá da escola foi. E esse terror, por sua vez, cresce ao assistir a tamanha violência entre adolescentes, no mesmo dia, em diferentes pontos do país, com diferentes histórias por trás, com diferentes desfechos (felizmente para o miúdo da Figueira da Foz) mas igualmente arrepiantes.

    Muito se tem falado de bullying nas últimas horas. Uns confessam que também foram vítimas e que isso não lhes pesou nada na vida adulta, outros relatam que foram vítimas e demoraram muito a recuperar, outros ainda defendem que sempre houve e haverá e que é assim a vida. (Curiosamente ninguém confessa que também chamava gorda à miúda do 3ºA e que também deu uns calduços ao "caixa de óculos" que lia livros no recreio, mas isso é tema para outra crónica). Só que o que se passou na Figueira e em Salvaterra não é bullying. É pura violência. É crime de agressão. É homicídio. É indesculpável.

    Eu sei da história de um outro Filipe que também foi espancado gratuitamente e sobreviveu por muito pouco, que esteve seis meses no hospital, que foi sujeito várias cirurgias e provavelmente vai ficar desfigurado na mesma. E há, com certeza, muitos outros Filipes que sobrevivem a ataques desferidos por este tipo de animais e ficam para sempre marcados, seja física seja psicologicamente. Mas o que é que acontece aos agressores? Se são menores, no máximo, vão para um centro de correcção conviver com delinquentes piores do que eles. Se são maiores de idade podem levar uns meses ou anos de prisão e fica a justiça feita. Menos para ti, Rita, que nunca terás o teu filho de volta e nunca esquecerás a maneira como te foi tirado.

    Não me interessa se estes trastes têm 12 ou 20 anos, nem me interessa se os pais lhes batem ou as mães se prostituem ou se foram violados ou se vivem nas ruas. Podem ser vítimas de algum tipo de crime, mas não deixam de ser também eles uns criminosos. Pior, uns cobardes. E agora que o mal está feito devem ser tratados e julgados como tal, independentemente de ter sido sem querer ou de estarem arrependidos. É preciso muito tempo para espancar alguém até à morte. Muito tempo para se arrependerem antes de darem mais um murro ou um pontapé. Que não haja desculpas, nem atenuantes, nem segundas oportunidades. Porque para o Filipe, também não vai haver.

    E aos defensores deste tipo de marginais, que os desculpam com a sua história de vida, não se insurjam agora contra as opiniões inflamadas de quem está indignado. Gastem antes o vosso discurso com a prevenção. Nas escolas, nos bairros onde eles vivem, entre educadores, psicólogos e autoridades. Ou então gastem o vosso discurso a consolar a Rita e todas as mães que já perderam um filho assim.

    A ti, Rita, apenas me resta deixar os meus mais profundos sentimentos e desejar que, de alguma forma e em algum lugar, encontres a força necessária para sobreviver.


  • Durante a investigação que estou a fazer para o meu próximo livro, dei de caras com este poema, guardado num dos meus inúmeros cadernos. Há muitos anos que não o lia, mas por mais anos que passem continua a ser das coisas mais bonitas que alguma vez alguém escreveu.
    Obrigada, Eugénio de Andrade, pelo legado incomparável que nos deixou.






    Adeus

    Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
    e o que nos ficou não chega
    para afastar o frio de quatro paredes.
    Gastámos tudo menos o silêncio.
    Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
    gastámos as mãos à força de as apertarmos,
    gastámos o relógio e as pedras das esquinas
    em esperas inúteis.

    Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
    Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
    era como se todas as coisas fossem minhas:
    quanto mais te dava mais tinha para te dar.

    Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
    E eu acreditava.
    Acreditava,
    porque ao teu lado
    todas as coisas eram possíveis.

    Mas isso era no tempo dos segredos,
    era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
    era no tempo em que os meus olhos
    eram realmente peixes verdes.
    Hoje são apenas os meus olhos.
    É pouco, mas é verdade,
    uns olhos como todos os outros.

    Já gastámos as palavras.
    Quando agora digo: meu amor,
    já se não passa absolutamente nada.
    E no entanto, antes das palavras gastas,
    tenho a certeza
    que todas as coisas estremeciam
    só de murmurar o teu nome
    no silêncio do meu coração.

    Não temos já nada para dar.
    Dentro de ti
    não há nada que me peça água.
    O passado é inútil como um trapo.
    E já te disse: as palavras estão gastas.

    Adeus.

    Eugénio de Andrade, in “Poesia e Prosa”

  • Esta sábado, 9 de Maio, às 17h na Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro, em Lisboa (Telheiras), estarei a apresentar o livro «Coisas Que Uma Mãe Descobre (e de que ninguém fala)» e à conversa com os leitores. 

    Um convite da Câmara Municipal De Lisboa.

    Apareçam para saberem mais sobre o livro, para saberem mais sobre mim, para fazerem perguntas ou simplesmente para levarem um livro autografado :)








  • Já falei algumas vezes da SKOG aqui no blog, uma marca portuguesa de óculos de sol feitos de madeira ou bambu, que tem no seu ADN tudo aquilo que eu mais gosto: por um lado, bom design e qualidade, por outro lado, um produto nacional e sustentável.
    Mas quando a coisa parecia não poder ficar melhor, eis que a SKOG lança uma edição especial e limitada a 50 exemplares desenhada por uma das minhas artistas portuguesas preferidas, a Vanessa Teodoro (aka The Super Van).

    Pegando num dos modelos do catálogo SKOG, a artista foi convidada a fazer uma intervenção, escolhendo o laser para cravar os seus desenhos originais na madeira. O resultado é simplesmente espectacular. Ora vejam:





    fotografias ©Lia Ramos



  • E se fosse por cá?
    E quando for por cá?
    Como será sair de casa de manhã para o trabalho e a última frase dita à pessoa que mais amamos ser qualquer coisa estúpida e banal como"não te esqueças de tirar os bifes para o jantar"? Ou deixar os miúdos na escola à pressa e não lhes ter dado aquele último beijinho que nos pediram à porta da sala, porque já estávamos atrasados?
    Como será sentir o chão fugir debaixo dos pés, sobreviver o terror e à devastidão e sair para a rua sem saber para onde ir? Sem um mísero telefone para saber se outros estão bem, sem possibilidade de avisar que estamos bem, sem saber o que aconteceu a todos aqueles que amamos?
    Como será chegar a casa e ela não existir, ouvir gritos e não conseguir socorrer, não ter como ajudar?
    Como será viver os dias seguintes, com a certeza de que perdemos tudo?
    Há tragédias que nos fazem pensar na mortalidade, na finitude, nas coisas que devem ser ditas e feitas antes de ser tarde de mais. E outras que estão tão longe que depressa se tornam notícia de rodapé, como se o sofrimento humano fosse diferente consoante o ponto geográfico onde nos encontramos.
    Mas não é.
    Lembremo-nos disso e ajudemos como gostaríamos que um dia nos ajudassem, tivéssemos a infelicidade de passar por algo semelhante.


    Como ajudar?

    Unicef
    A Unicef quer oferecer ao Nepal barras de purificação de água, kits de higiene ou suplementos nutritivos para as crianças e famílias .

    Cruz Vermelha
    As equipas da Cruz Vermelha no Nepal participam desde o primeiro dia em operações de resgate e ajuda médica.

    Programa Mundial de Alimentação
    Existe uma grave falta de água potável no Nepal, mas também falta alimentação para as populações afectadas. O Programa Mundial de Alimentação é financiado a 100% por doações.

    Handicap International
    Uma organização que se foca no apoio a pessoas com deficiência. Está no Nepal desde o ano 2000 e tem mais de quatro dezenas de voluntários que distribuem, por exemplo, kits para pessoas com deficiência, equipamentos de mobilidade e organizam programas de reabilitação.

    Oxfam
    Trata-se de uma coligação de organizações de apoio humanitário. Lançou uma missão de resgate de vítimas no Nepal e está em coordenação com a Unicef para distribuir água potável e cuidar dos feridos.

    Save the Children
    Tal como a Unicef, o seu principal objectivo no Nepal é prestar auxílio às crianças do país, mas também quer alcançar as famílias mais vulneráveis. Dez por cento da doação destina-se a operações futuras.

    Care
    A Care está no terreno no Nepal e pede doações. O seu plano é o de alcançar mais de 75 mil pessoas e oferecer abrigo temporário, alimentação e kits de purificação de água.

    Ajudar o Nepal
    Trata-se de uma rede nepalesa de apoio humanitário no Nepal. A sua acção, como explica a organização no seu espaço na Internet, concentra-se sobretudo no apoio educativo e médico.


  • O Dia da Mãe é sempre aquele dia que não gostamos de ignorar (afinal, mãe é mãe), mas que também não achamos necessário abrir o champanhe (afinal, é só um dia que alguém inventou). Ou seja, gostamos sempre de ter uma lembrancinha para as nossas mães queridas, mas não queremos gastar muito dinheiro, certo? Este dilema ganha proporções mais dramáticas para os jovens pais que querem dar algo especial às mulheres em nome dos filhos que ainda não têm idade para irem às compras sozinhos.
    Assim, para além de recomendar o meu novo livro, que, modéstia à parte, tenho a certeza que a maioria das mães ia gostar de receber, deixo aqui outra sugestão bem original e pouco dispendiosa:

    - um print personalizado da autoria da talentosa Sofia Silva



    Tal como todas as outras ilustrações que compõe as «Coisas Que Uma Mãe Descobre (e de que ninguém fala)», esta está à venda no blog da artista e pode ser personalizada com o nome ou nomes dos vossos filhotes. Agora imaginem numa moldura bonita pendurado na parede da sala ou do quarto. Digam lá que não é uma graça?

    E o melhor é o preço: apenas €10 para um print de 18x13cm. Apressem-se porque a Sofia só aceita encomendas até domingo (26/04) de modo a conseguir garantir que todas chegam a tempo. Ah, pois, para os mais distraídos, o Dia da Mãe é já a 3 de Maio.

  • O nome. Antropónimo. O nosso primeiro vínculo com o mundo. A confirmação da nossa existência. Parte inseparável da nossa identidade, tantas vezes influenciadora do carácter do denominado. Sim, o nome. Esse que deixa de existir a partir da concepção.

    Tudo começa nas consultas de obstetrícia. “Olá Mãe”, “sente-se aqui, Mãe”, “o seu livrinho, Mãe”, “está de quantas semanas, Mãe?”. Das enfermeiras às auxiliares, não há quem se lembre de usar o nosso nome. Também há amigos e familiares que, de forma carinhosa, começam a chamar-nos Mamã por tudo e por nada. Até aqui tudo bem. No meio de tanta felicidade, a antecipação dessa nova faceta na nossa vida acaba por nos enternecer. Só que o caso muda de figura quando as crianças nascem. A partir desse momento, quer se goste, quer não, do senhor do café, à dona da mercearia, todos ficam com amnésia e passam a referir-se a nós como “a Mãe de”, com a maior das naturalidades e sem que possamos ripostar. Pior: há maridos que começam a fazê-lo. Senhores, por favor, não façam isso. A sério, deixem esse tratamento para a vossa mãezinha, a bem de uma vida sexual saudável.

    Adiante! À medida que as crianças começam a socializar, seja no infantário, seja no parque lá do bairro, a coisa só piora. Dá um beijinho à Mãe do António, Diz adeus à mãe da Sofia, Boa tarde, daqui fala a Mãe do Nuno, Queres ir ao cinema com a Mãe da Rita?, até que, por fim, somos nós próprias que nos alheamos na nossa identidade, acabando por proferir a torto e a direito um “Olá, sou a Mãe do Tiago e da Carlota”.

    E se a coisa se passa assim quando estamos a conversar cara a cara, quando nos olham nos olhos e vêem efectivamente quem somos para lá do nosso papel de progenitora, nem queiram saber o suplício que se pode tornar uma simples conversa telefónica. Passo a transcrever o último telefonema com a costureira onde costumo por as roupas a arranjar:

    - Boa tarde dona Estefânia, daqui fala a Filipa.
    - Ah, que Filipa?
    - Filipa Silva
    - Não estou a ver...
    - A Filipa, da bicicleta
    (silêncio do outro lado)
    - A Filipa, estive aí no outro dia com um vestido branco para apertar, lembra-se?
    - Ah sim, loura, não é?
    - Não dona Estefânia, morena, baixinha... A Filipa, a mãe do Tiago e da Carlota!
    - Ah! Claro! Filipinha, como vai? E o Tiaguinho como está? Não o vejo há tanto tempo...e a menina? blá, blá, blá, blá, blá, blá...

    E pronto, andamos décadas a construir a nossa identidade, pelo estilo de vida, pelo aspecto físico, pela ocupação, pelos lugares que frequentamos, pelos livros que lemos, pela música que ouvimos, para num instante ficarmos reduzidas a isto. Ou aumentadas. Sim, deixamos de ter nome, mas ser “A Mãe” de alguém, no fundo, no fundo, compensa largamente a perda momentânea da nossa individualidade.

    Texto originalmente publicado no livro Coisas Que Uma Mãe Descobre (e de que ninguém fala)

  • Há uma história que se conta acerca das diferenças culturais entre americanos e portugueses. O americano vê o vizinho num carro novo e pensa: "Ena, tem um carro novo, deve ter trabalhado bem para isso". Já o tuga, pensa: "olha, olha aquele chico-esperto com um carro novo, deve andar a traficar droga ou a roubar alguém".

    Sim, o tuga é invejoso por natureza. Não sei de onde vem tamanha tacanhez, mas a verdade é que muitos portugueses não perdem a oportunidade de desdenhar quem tenha algum tipo de êxito, seja pessoal ou profissional. E pior, tenta relativizar sempre a dimensão do mesmo. "Não percebo porque é que lhe acham tanta graça", "não é assim tão gira", "foi promovido? grande coisa!", "qualquer pessoa faz aquilo", "melhor do mundo? Não acho nada".

    Podia ficar aqui um dia inteiro a citar exemplos de portugueses massacrados diariamente por este odioso sentimento, ainda por cima destilado dos seus compatriotas, mas prefiro apenas falar de mim, que nem sequer sou assim tão conhecida, nem bem sucedida.

    É incrível o número de hienas que estão lá em baixo, na base da árvore do meu sucesso, à espera que eu caia. São as hienas que andam sempre a vigiar, ansiando por um passo em falso. São as hienas que nunca me congratulam por um novo feito e que, confrontadas com o mesmo, se saem com um desdenhoso "ah, é verdade, lançaste um livro não foi?", como se fosse a coisa mais banal do mundo. Top 100 da Amazon? Grande coisa. Agora tem a mania que é escritora. Olha para ela, armada em boa, a partilhar fotografias dos programas onde esteve. Só programas foleiros, claro. De certeza que anda a escrever no trabalho. Só pode. Como é que ela tem tempo, com dois filhos? Ou então paga a alguém para escrever por ela. A vaca, que nem amamenta os filhos. E feia, ainda por cima.

    Pois, a inveja...
    Desde cedo que tive de lidar com ela. Primeiro porque a minha mãe me vestia bem demais (pindérica, vaidosa), depois porque os meus pais tinham lojas conhecidas (tem a mania que é rica) ou porque era uma aluna interessada e todos os professores gostavam de mim (graxista). Daí que também cedo tenha aprendido que o melhor a fazer é continuar a subir, sem olhar para baixo, mesmo correndo o risco de ver a minha determinação e auto-confiança confundida com altivez. Azar. Nunca fui indelicada, nunca pedi favores, nunca usufruí de qualquer vantagem. Tudo o que conquistei foi por mérito próprio, fruto do meu trabalho e das minhas horas sem dormir. Porque quando se faz o que se gosta, encontra-se tempo para tudo. Tempo, imaginação e vontade.

    A inveja...
    A inveja corrói e não é por acaso que é considerada um dos pecados mortais. Alimenta-se de todas as inseguranças e medos de falhar. Cega-nos até deixarmos de ver a mais clara evidência: o sucesso dá muito trabalho e há quem arregace as mangas e avance sem medo, procurando todos os dias fazer mais e melhor, e quem fique a ver a vida a passar.

    Por isso, aos invejosos, digo apenas isto: continuem a roer-se. Roam-se até não terem dedos, até não terem língua para espalhar o vosso veneno. Pretendo continuar a dar-vos bastantes motivos para o fazerem.
  • É já no Sábado o lançamento oficial do meu novo livro.
    Uma boa desculpa para um passeio de sábado pelo Chiado.
    Apareçam!



  • Diz-se que na sociedade há os que mandam e os que obedecem. Pois bem, num casamento também, sendo que quem manda geralmente é a mulher. Não digo isto de forma depreciativa para qualquer um dos géneros, e sou a primeira a defender a igualdade. Mas para que uma casa de família se mantenha um porto seguro, tem de haver alguém a pôr ordem nas coisas e, claramente, não são os homens, como nos mostra a história e a antropologia.

    O papel da mulher, em diversas culturas, sempre foi cuidar do lar. Nos tempos mais primitivos, faziam-no enquanto os homens iam caçar, mais tarde enquanto os homens iam para a guerra e, mais recentemente, enquanto os homens iam trabalhar. Mas ao contrário do que se pensa, excepto nas classes privilegiadas, as mulheres não se ficavam apenas pela casa: também trabalhavam fora, fosse no campo, a servir, numa fábrica ou no comércio. Ou seja, o cérebro feminino, que já por si trabalha com os dois hemisférios ao mesmo tempo, o que faz com que a mulher seja mais intuitiva e capaz de executar várias tarefas em simultâneo, foi-se aperfeiçoando ao longo dos séculos, tornando-se mais eficiente nesta coisa de gerir casa, trabalho e necessidades emocionais de toda a família. Já os homens... Bom, os homens são supereficientes em quase tudo a que se propõem, desde que seja uma coisa de cada vez.

    Não se deve esperar que um homem, depois de um dia de trabalho, chegue a casa e se aperceba imediatamente das infinitas tarefas que ainda há para fazer. Eles não percebem que o cesto da roupa está cheio, que a loiça tem de ser arrumada nos armários, que aquele quadro está para ser pendurado há três meses, que a saboneteira está vazia, que o leite está a acabar. Não é por mal, acreditem. Na maioria dos casos (pelo menos nas gerações mais novas, em que a divisão de tarefas é algo normal), nem é por acharem que não têm essa responsabilidade. É simplesmente porque precisam que alguém lhes diga o que fazer e, sobretudo, como fazer.

    É precisamente por isso que as mulheres têm de assumir o comando e dar instruções. E quanto mais específicas melhor. Não basta pedir que ponham a roupa na máquina. Há que dizer que é só a roupa branca, que o detergente se põe no compartimento da esquerda e o amaciador no do meio, que o programa é X e que a porta só está mesmo fechada se fizer clique. Não basta pedir que façam a cama. É preciso lembrar que uma cama bem feita implica os lençóis de baixo esticados, as almofadas de dormir sacudidas e as almofadas decorativas (sim, aquelas que eles pensam que foram compradas para enfeitar o chão) cuidadosamente colocadas (não atiradas!) por cima da colcha ou edredão. Clareza é a palavra de ordem. Não deve haver margem para interpretações livres.

    Há duas maneiras de fazer isto:

    1) dando essas pequenas ordens (ou orientações técnicas, para não ferir susceptibilidades) logo quando o marido chega a casa, devendo no entanto dar tempo para que o desgraçado ao menos tire o casaco e se ponha confortável. Deste modo garantimos que "não se esquecem".

    2) fazendo um quadro de tarefas, daqueles como algumas mães fazem para os filhos quando eles entram na idade de começar a ajudar lá em casa. Neste caso, a recompensa não é um chocolate mas sim a ausência de trombas e acusações, o que já é um enorme incentivo, não acham?


  • Relembro que no sábado dia 7 de Março estarei na EC.ON (escrita criativa online) no âmbito dos Cursos Ícone, para uma conversa e debate sobre estas coisas da escrita.
    Nesta terceira edição dos Cursos Ícone, que além de mim conta com autores como Maria Teresa Horta, Gonçalo M. Tavares, José Luís Peixoto, Sérgio Godinho ou Francisco José Viegas, cada autor foi convidado para, numa única sessão, fazer leituras de trechos da sua obra, conversar sobre as suas referências e falar sobre o seu processo de criação.

    Estou empenhada em fazer da minha sessão algo muito informal mas relevante, sendo que o meu grande objectivo é que todos os participantes levem daquela tarde dicas e inspiração para os seus processos criativos.

    Podem inscrever-se aqui, mas apressem-se, porque as vagas são limitadas.

    Vemo-nos por lá?