• No outro dia, uma amiga mandou-me uma mensagem a dizer que ia levar o meu livro numa viagem até Bali. Fiquei muito feliz, claro, e respondi algo do género "já que não vou eu, vai a minha Vanessa contigo". Só então  me apercebi da dimensão destas palavras.
    As personagens que crio viajam realmente até sítios onde eu nunca irei. As personagens que crio vivem em lugares que nem sei bem onde ficam. A partir do momento em que publico as minhas histórias, elas deixam de ser minhas e passam a ser de uma outra estante, de uma outra mesa-de-cabeceira, de uma outra pessoa, com uma outra vivência, que ouve outro tipo de música e gosta de outro tipo de comidas.
    Eu, que na adolescência fiquei desolada quando percebi que não ia ter tempo nesta vida para visitar todos os lugares que gostava; eu, que sonhava viver em Nova Iorque, Rio de Janeiro ou em Paris, nem que fosse durante uma temporada; eu, que nos últimos três anos não consegui nem sequer passar a fronteira, apercebo-me, finalmente, que as minhas palavras andam soltas pelo mundo.
    É essa a magia da escrita: mesmo sem sair de Lisboa posso deixar um pouco de mim em todos os lugares para onde os meus leitores escolherem levar-me, e a partir de Lisboa posso levar os meus leitores para lugares que eles nunca tinham imaginado. Que bom!


  • O Verão não está a ser o que esperava em termos de tempo. Entre dias horrivelmente ventosos, águas geladas e pouco calor, parece que estamos no norte da Europa. Mas como nem tudo pode ser mau, este Verão trouxe consigo novos produtos e marcas 100% portugueses de fazer cair o queixo a muita multinacional. Tudo ideias de empreendedores com menos de 40 anos, a mostrar que, afinal, esta geração de rasca tem muito pouco.





    Muitos de vocês sabem que sou uma acérrima defensora do nosso ambiente. Infelizmente, são poucas as marcas giras e realmente sustentáveis, pelo que, ser ecológica e fashion ao mesmo tempo torna-se uma tarefa muito complicada. Por isso, fiquei rendida aos SKOG: óculos de madeira ou bambu, giros, leves, resistentes, com lentes polarizadas de alta qualidade e tudo isto por menos de €50. Aliás, fiquei tão rendida que aceitei de imediato o convite para ser uma das embaixadoras da marca. Não são o máximo?




    Sapatos lindos, de alta qualidade e em edições limitadas a quarenta pares: o sonho de qualquer fashion victim. A marca é portuguesa e o fabrico divide-se entre Portugal e o Brasil em infra-estruturas que oferecem condições dignas de trabalho e não utilizam mão-de-obra infantil. Mais dez pontos para a ROS!





    Quando um dos fundadores da marca é um dos nossos nadadores olímpicos, é caso para dizer que é alguém que sabe o que é preciso para fazer calções e fatos de banho confortáveis e super resistentes. Além disso, giros e com uma colecção personalizável. Para dar cor a qualquer piscina.




    Chapeús há muitos, mas destes já ninguém faz. Ou fazia. Sim, os tradicionais chapéus-de-sol de tecido voltaram pela mão de duas amigas que não vivem sem praia. Os tecidos são o máximo e há pouco stock de cada modelo para que sejam sempre originais. Quero!!!




    Uma toalha que vem com uns pauzinhos para fazer um encosto e que, ainda por cima, se dobra e guarda num saco giríssimo. Um pára-vento que se transforma em tenda. Toalhas XL e outras invenções práticas e originais. Irresistíveis.


    A ver se com estas ideias, o Verão vem dar um ar da sua graça. :)







  • Em 2012 o melhor designer da Dior desde o próprio Monsieur Christian, foi substituído por Raf Simons. A saída de Galliano, envolta numa polémica que incluiu excesso de álcool e piadas nazis, marcou o fim de um reinado romântico e elegante no pronto-a-vestir, onírico e exuberante nas colecções de alta-costura. Infelizmente, o novo rei quis fazer tábua rasa.
    É normal que Simons se queira demarcar da herança de Galliano, até porque jamais conseguiria igualar o seu estilo, mas daí a descaracterizar a própria Dior, é demais para os meus olhos. Na colecção de alta-costura  Outono Inverno 2014, recentemente exibida em Paris, vemos uma mulher de cabelos soltos, calças largas, camisolas por fora das calças, casacos “over sized” e vestidos cada vez mais longe da silhueta clássica da Dior.
    Quando recebi a newsletter da Dior, pensei que as fotografias estivessem trocadas. Parecia uma coleção Jil Sander (onde Raf esteve anteriormente), o que não quer dizer que seja má, apenas que está num universo paralelo em relação os códigos estilísticos da Maison. Os fãs da marca não querem ver uma colecção avant gard, nem uma mulher do dia-a-dia. Também não querem que a alta costura se torne tão informal que pareça pronto–a-vestir. Uma peça de alta-costura Dior tem de ser algo único, algo maravilhoso, algo que nos faz sonhar. Não pode ser uma versão cara de peças modernas e minimalistas, que podemos encontrar em dezenas de outras marcas.
    Os “entendidos” em moda podem defender Simons, podem aplaudi-lo de pé, podem fazer a apologia da modernidade e do questionar das regras da alta-costura. Mas os fãs, esses, continuam a indignar-se e a proferir frases como “O Sr. Raf Simons apunhala a Casa Dior a cada seis meses”. Deixo-vos algumas imagens do desastre belga. Volta Galliano, estás perdoado.









  • Por mais críticas efusivas ou prémios literários que se possa ganhar, o sucesso de um livro mede-se pelo número de vendas. É um facto incontornável. Mas como é que se consegue que um livro venda bem,  quando todas as semanas as livrarias se vêem a braços com cerca de trinta novos títulos a disputarem o pouco espaço das prateleiras? Como é que numa semana se consegue despertar a atenção dos leitores, antes que chegue nova remessa de novidades? Bom, é muito simples: com muita promoção e muito passa-palavra.

    É isso que explica porque é que livros fabulosos caem no esquecimento duas semanas após o lançamento e livros de qualidade muito duvidosa ficam durante meses nos Tops de todo o mundo. E é por isso que preciso da ajuda dos meus leitores. O meu novo livro está nas prateleiras de quase todas as livrarias e quem o leu tem gostado muito, pelo menos atendendo ao número de emails e mensagens de felicitações que tenho recebido. Mas não chega. É preciso que mais e mais pessoas saibam que ele existe, perguntem por ele se não o encontrarem na prateleira e falem dele aos amigos.

    Assim deixo aqui o link para o primeiro capítulo, para que possam ler e partilhar com todos os amigos que gostam de livros. Partilhem, falem, ofereçam a alguém que vai fazer anos nos próximos tempos.


    http://goo.gl/tNWiq8

    Deixo também um post do Facebook da Bertrand, que podem (e devem) partilhar e comentar. É só clicar na imagem. :)



    Muito obrigada!

  • Sou fã de séries, admito. Desde o MacGyver e do Justiceiro na minha infância, passando pelo Beverly Hills 90210 e o BayWatch na adolescência ou pela Ally McBeal e O Sexo e a Cidade no início da idade adulta, diversas séries fizeram parte dos meus serões ou tardes de sofá. Mas à excepção do Fawlty Towers e do Seinfeld, escritas pelos melhores comediantes da história da televisão, nunca tive inveja dos argumentistas das mesmas. Até começar a ver Uma Família Muito Moderna há uns anos.

    Não é por acaso que é uma das séries cómicas mais premiadas dos últimos tempos, incluindo 5 Writers Guild of America. É que é tão boa, tão boa que até chateia. As personagens, os diálogos, as peripécias de cada episódio... Mas para mim o segredo é mesmo o retratar de as situações, discussões e rituais familiares pelos quais todos nós já passámos. Há diálogos tão reais que por vezes parece que a minha casa tem microfones que transmitem directamente para os argumentistas em Hollywood.

    Acabei esta semana de ver a quinta temporada na Fox Life e já estou a contar os dias para a sexta. Diz que nos EUA estreia a 24 de Setembro. Por cá ainda não há data, mas acredito que passará ainda antes do fim do ano. Até lá, vale a pena ver as repetições. 




  • Depois das notícias da minha chegada ao Top 100 da Amazon com a versão inglesa de "Os 30 - Nada é como sonhámos", em Novembro do ano passado, fui contactada pelo Eduardo Boavida, da Bertrand para falar sobre o meu segundo livro. Como muitos devem saber, tinha decidido avançar com uma edição de autor desse segundo romance, que até estava a ter bastante sucesso, embora o facto de não estar disponível nas livrarias tradicionais afastasse muitos leitores que não gostam dos formatos ebook, nem de fazer compras online.

    Assim, a proposta de edição da Bertrand não foi difícil de aceitar. Mais do que controlar a 100% o meu trabalho e deter todos os direitos sobre as minhas obras, algo que só uma edição de autor permite, interessa-me que estas cheguem ao maior número de pessoas possível, com a qualidade e profissionalismo de uma editora tradicional. Porque quando escrevo, escrevo para os meus leitores, por achar que tenho uma história interessante para contar. Um história que lhes proporcionará umas boas horas de leitura e entretenimento.

    É por isso que hoje tenho o prazer de anunciar que "O Estranho Ano de Vanessa M." vai estar disponível em todas as livrarias a partir de 11 de Julho, pela mão da Bertrand Editora. Aproveito também para convidar todos os meus leitores e seguidores deste blog para a festa de lançamento, que será no dia 15 de Julho, às 18.30h, na livraria mais antiga do mundo, a Bertrand do Chiado. O livro vai ser apresentado pelo meu querido amigo André Henriques, que todas as manhãs acorda os portugueses com o seu Café da Manhã da RFM, e será uma oportunidade para conversar um bocadinho com todos vocês sobre o livro, esta edição e muito mais.

    Obrigada Eduardo por esta oportunidade :)





  • Uma das coisas mais bonitas numa fotografia é quando ela nos conta uma história. A captação de um momento que em si encerra muito mais do que o objecto fotografado. E quando esse objecto é uma pessoa, o resultado chega a ser comovente.

    Só que conseguir captar a essência de alguém num clique é algo que poucos conseguem fazer, porque à excepção dos modelos profissionais, a maioria das pessoas fica intimidada quando tem uma objectiva apontada a si. É muito difícil estar completamente à vontade, sermos completamente nós próprios. Há sempre a incerteza de onde pousar a mão, de como colocar o braço, do quanto se deve mostrar os dentes ou abrir os olhos ou cruzar a perna. Então, o fotógrafo tem de trabalhar a pessoa, fazê-la esquecer a máquina e os flashes e o corpo, até conseguir arrancar um sorriso natural ou um olhar sincero.

    Pois, isso é o que faz um fotógrafo. Mas quando o fotógrafo é mais do que um profissional, quando é realmente um artista, consegue arrancar os sorrisos, os olhares, o bom ou mau e acima de tudo a verdade.

    Adoro ser fotografada. Desde miúda que adoro que me tirem fotografias e, desde que lancei o meu primeiro livro, tenho sido fotografada por diversos profissionais, alguns deles premiados com galardões importantes no foto jornalismo. Mas raramente olhei para uma fotografia minha como sendo mesmo eu. Há sempre uma pose ou qualquer coisa que faz com que ali esteja retratada uma das minhas facetas, mas nunca eu inteira, eu como me vejo, eu com todo o meu ser. Até ontem.

    Ontem tive o privilégio de ser fotografada pela Vera Marmelo, uma fotógrafa auto-didacta que começou a dedicar-se ao retrato há cerca de sete anos. Tem fotografado essencialmente músicos e artistas e o seu trabalho fala por si. Infelizmente, como quase todos os grandes artistas portugueses, ainda não se pode dar ao luxo de se dedicar exclusivamente à fotografia. O que é uma pena, porque se o seu portfólio actual é fruto das horas vagas, nem imagino o que poderia fazer se se pudesse dedicar sem restrições à sua arte.

    E pelos vistos não sou a única a sentir que a Vera sabe como poucos captar a essência de alguém. A propósito do lançamento do livro da Vera,  caderno de posters, Samuel Úria disse "na música portuguesa, tal como a conheço, não é irónico, mas poético, que a grande retratista da verdade instantânea tenha um nome que significa verdade". E eu subscrevo.








    © Vera Marmelo








  • Nos dias que correm, um dos maiores desafios com que um ser humano se depara é conseguir desligar-se de toda a tecnologia e informação que o assalta assim que abre os olhos pela manhã. Começa logo com o despertador, que hoje em dia é invariavelmente o telemóvel. Ao desligarmos o dito cujo, aproveitamos para espreitar uma ou outra informação online, seja as capas dos jornais, seja o trânsito que nos aguarda, seja o tempo que vai fazer. Já agora, passamos os olhos por um ou dois emails e, quando damos por nós, estamos agarrados à tecnologia mesmo antes de dizer bom dia à pessoa que está deitada ao nosso lado.

    Quem consegue não sucumbir ao iCoiso e ir directo para o banho, não se livra de, mais cedo ou mais tarde, ligar o rádio ou televisão. Ou seja, antes de pormos um pé na rua, já enchemos o nosso cérebro de informação útil e inútil, ignorámos sem notar os outros seres vivos que habitam a casa e nem soubemos apreciar o chilrear dos passarinhos, que mesmo na cidade se fazem ouvir (se prestarmos atenção, claro).

    Durante o dia a coisa não melhora: painéis publicitários em sítios cada vez mais inusitados, o computador no trabalho, a música no elevador, os emails, as redes sociais, as mensagens escritas numa linguagem cada vez mais distante do português, mais uma passagem pela internet à hora de almoço e um regresso a casa arrastado de exaustão. Como é que não haveríamos de chegar a casa tão cansados depois de tudo o que fizemos ao nosso cérebro por horas a fio?

    É então que começam os problemas conjugais. Dois adultos cansados e com a cabeça cheia encontram-se para partilhar uns metros quadrados até irem para a cama (muitas vezes, preciosos metros quadrados que também são partilhados com outros seres, tais como filhos barulhentos e sedentos de atenção). Ainda falta fazer o jantar, despejar o lixo, estender a roupa e sei lá mais o quê. Quando finalmente, pelas dez da noite, se conseguem sentar no sofá a relaxar, ligam o iCoiso ou a televisão e ficam cada um para o seu lado até os olhos começarem a fechar-se. E assim se passam os dias e as semanas e os meses. Quando param para pensar, estes dois adultos afirmam que não tiveram tempo para ter uma única conversa de jeito. Isto é, uma conversa que não contenha as palavras miúdos, colegas, chefe, contas, roupa suja ou comida para o gato.

    Mas como evitar cair nesta espiral destruidora de relações? Teremos de abdicar de todas as comodidades do século XXI? Teremos de largar a vida urbana e abraçar uma vivência em lugares remotos onde não haja rede? Virar hippies? Calma, não é preciso chegar a tanto. Basta aprender a desligar.

    Tal como podemos ligar todos os aparelhos que proliferam nas nossas casas, também temos o poder de os desligar, nem que seja uma noite por semana. Sim, uma noite. Aquelas duas horas que perdemos no sofá à terça-feira, a fazer zapping ou a ver mais um episódio da série do momento, podem ser transformadas em duas horas de conversa com a pessoa com quem escolhemos viver. Não tem de ser uma conversa intelectual, nem sobre a actualidade. Pode começar por ser uma conversa banal sobre o buraco na estrada que foi finalmente tapado ou sobre a nova cor de cabelo da Dona Crismina do terceiro esquerdo, que oscila entre o lilás e o beringela. Podemos contar uma anedota ou falar do novo hit que está sempre a passar na rádio. Uma música calma no fundo, um copo de vinho ou uma chávena de chá e a conversa vai fluir para caminhos pouco óbvios até que, palavra a palavra, vamos reconstruindo (ou simplesmente reforçando) a nossa intimidade enquanto casal.

    Sim, haverá silêncios e alturas em que não sabemos o que dizer. Mas em pouco tempo aprenderemos que esses silêncios contêm cumplicidade, harmonia e amor. E o melhor de tudo é a manhã seguinte. É que já está cientificamente provado que os aparelhos electrónicos podem provocar distúrbios no sono e que as redes sociais em excesso nos tornam mais tristes, porque vemos a (falsa) felicidade e a (suposta) diversão dos outros e achamos que a nossa vida é uma seca. Assim, desligados das tecnologias e com tempo para dedicarmos a uma boa conversa, adormecemos de bem com a vida, connosco próprios, com os nossos parceiros e, consequentemente, acordamos muito mais felizes, livres daquela sensação de que as noites são todas iguais durante a semana. Porque o tempo é o que fazemos dele e há sempre um tempo em que temos de saber desligar.

  • Agora que estamos mais perto dos 40 do que dos 30 e que temos dois filhos, um deles com meses de vida, comprámos uma carrinha pão de forma. Sim, leram bem, uma daquelas clássicas, mais velha do que nós, sem air-bag, sem ar-condicionado, sem vidros eléctricos, sem uma data de siglas que todos os carros modernos têm. Com inevitáveis horas de oficina, com percursos sem hora para chegar e, acima de tudo, com muita história. Irresponsáveis dirão uns. Malucos dirão outros. “Granda” pinta, tem dito a maioria.

    A carrinha pão de forma sempre fez parte do meu imaginário. A minha primeira mochila era uma Pão de Forma cheia de personagens do Charlie Brown e, quando aos doze anos descobri a magia dos anos 60, sonhava com viagens numa destas carrinhas (ou no seu primo Carocha), a distribuir flores, paz e amor por esse mundo fora. Mais recentemente, eu e o meu marido, falávamos em alugar uma durante um fim-de-semana, para ir até às praias do sudoeste. Só não o fizemos porque o Hugo sempre achou que eu não seria capaz, já que nos primeiros meses de namoro, quando me propôs uma noite ao relento eu respondi que só acampava em hotéis. Mas se for só uma noite e houver uma casa de banho por perto, até alinho.

    A coragem para dar tão ousado passo nasceu ao assistirmos à incrível viagem que os nossos primos Inácio e Leninha fizeram pela América do Sul. Num projecto chamado Dar a Volta, que começou em 2010 com uma viagem de oito mil quilómetros pela Índia num side-car, os nossos primos aventuraram-se a percorrer trinta mil quilómetros e dez países num destes míticos veículos. Não vou revelar mais sobre o projecto, porque podem saber tudo pelas palavras dos próprios aventureiros no seu site, mas posso dizer que é no mínimo inspirador e nos faz querer largar tudo e partir à descoberta dos fantásticos lugares que compõem o nosso planeta.

    O bichinho foi crescendo, crescendo, até que a oportunidade de, efectivamente, comprar o mítico veículo, surgiu há pouco mais de um mês. Estávamos em casa, privados de sono devido ao nascimento da nossa filha, a quem eu estava a dar um biberão, quando o Hugo me perguntou qual o carro dos meus sonhos. Respondi que não ligo nenhuma a carros, que como ecologista prefiro andar de bicicleta, mas que, se tivesse mesmo de escolher, seria uma carrinha pão de forma. O Hugo sorriu e passou-me o seu portátil para o colo. No ecrã reluziam as fotografias do anúncio daquela que viria a ser a nossa carrinha. Bastou eu dizer que era linda, para ele ligar para o número que aparecia no anúncio, e ainda eu não tinha acabado de dar o biberão à miúda, já ele estava a combinar uma viagem até Paços de Ferreira, a discutir o preço e a terminar com um “então até 5ª!”.

    Confesso que entrei em pânico. Ele estava mesmo a falar a sério. Ele ia mesmo comprar a carrinha. E os miúdos, e onde estacionamos, e as cadeirinhas de bebé, e se o dinheiro nos fizer falta daqui a uns tempos?

    A resposta não se fez esperar e, no fundo, é a razão que me levou a escrever esta crónica: e se morrermos amanhã? Quantos dos nossos sonhos ficarão por realizar? Podemos esperar que os miúdos cresçam, que a conta bancária cresça, mas e se, nessa altura, for tarde de mais?

    E pronto, convenceu-me. Porque, de facto, entre tantos sonhos que vamos tendo ao longo da vida, uns impossíveis, como voar ou acabar com a fome no mundo, outros improváveis, como ir à lua ou ser uma estrela rock, não há muitos que se possam comprar. Este podia. Irresponsável seria deixá-lo escapar.

    Agora, de cada vez que entro na garagem e vejo a nossa pão de forma a reluzir, sinto-me grata por me ter deixado convencer por um marido que sonha ainda mais alto do que eu. Ainda não tivemos muitas oportunidades de passeá-la e tenho a certeza de que não vamos dar voltas de trinta mil quilómetros, como fizeram os nossos primos. Mas ainda que as nossas viagens se limitem a este pequeno país, a cada uma delas estaremos a percorrer pedaços do nosso sonho. E isso não tem preço.



    Se quiserem ajudar-nos a escolher o nome da nossa carrinha, a votação vai decorrer aqui no Facebook.

  • Sei que esta crónica não interessa a 65% dos leitores, mas ainda assim não deixarei de escrever. Estou a exercer a minha liberdade de expressão, um direito que, tal como o direito ao voto, só posso gozar por viver numa democracia. Mas sabem quem não o pode exercer? Quem vive em regimes totalitários, que normalmente surgem quando os extremistas, sejam da direita ou da esquerda, chegam ao poder. É por isso que tenho medo do resultado desta eleições europeias, que não interessam a 65% dos portugueses.
    Vivemos na Europa, gostamos da liberdade de circulação que isso nos dá e, sobretudo, dos subsídios que recebemos, mas não queremos saber de quem dá a cara por nós no Parlamento Europeu. Achamos que não faz qualquer diferença, que são todos iguais, que são todos meninos à procura de tachos e a obedecer às ordens das nações mais poderosas. Se calhar é verdade. Mas se calhar não é. E eu não quero ficar de braços cruzados, como 65% dos meus compatriotas, à espera de ver se os deputados da extrema direita que foram eleitos ontem, são iguais aos que lá estavam antes deles.
    A história mostra-nos que é exactamente em épocas de crise que os extremistas ganham força. As pessoas estão cansadas do desemprego e culpam os emigrantes, estão cansadas da falta de civismo e culpam a liberdade. Se calhar têm razão. Um Salazarzito a impor respeito, a vigiar os nossos passos, a calar as nossas vozes e isto andava para a frente. Ou se calhar não.
    Há quem defenda que não votar é uma maneira de mostrar aos políticos que não acreditam neles. Mas acham mesmo que eles vão fazer uma leitura consciente destes resultados eleitorais? Eles, que na campanha para as Europeias só falaram das Legislativas, eles, que em vez de elucidarem os eleitores acerca do que defendem para a Europa só fizeram política rasteira do insulto, eles que nos seus discursos de reação aos resultados dizem ser todos vencedores.
    No último dia de campanha fiz questão de ver todos os noticiários, porque ainda estava indecisa acerca de alguns pontos. De nenhum partido ouvi uma palavra sobre a Europa. O que significa que não estão interessados em defender os nossos interesses lá fora, mas sim em ganhar os seus milhares de euros como europedutados. O importante é porem lá alguém da sua cor, para depois dizerem que os portugueses gostam mais deles do que dos outros. Sim, é frustrante. Mas não votar não vai mudar nada disto.
    Lamento que 65% dos portugueses tenham preferido cruzar os braços, seja por birra, seja por desinteresse. Dos portugueses e dos outros europeus. E lamento ainda mais depois de saber que no Parlamento Europeu, algo que bem ou mal nasceu das cinzas da 2ª Guerra Mundial, se vão sentar  neonazis. Parece que finalmente tenho a resposta para a pergunta que fazia quando aprendia a história do século XX: " Como é que as pessoas deixaram que isto acontecesse?".



  • Tenho visto muita coisa no que toca a serviço a cliente, mas o que me aconteceu com a loja de decoração KARE Design é digno de registo. Sim, sou uma consumidora exigente. Não podia ser de outra forma. O dinheiro custa a ganhar a todos e, se me desloco a algum espaço para o gastar, espero que do outro lado, mesmo não havendo simpatia, haja pelo menos educação e profissionalismo. Claramente coisas que faltam aos funcionários e gerentes desta loja.

    Inspirada pelo fantástico blog (que já deu um livro) The Internet is a Playground, que aconselho vivamente a todos os que querem dar uma boa gargalhada, decidi responder por escrito aos senhores da dita loja.

    Deixo aqui o registo da troca de emails que tivemos desde Dezembro até ao mês passado. O último que enviei é o mais giro, mas parece que eles não gostaram, porque até hoje não tive resposta. Seria hilariante se não fosse tão triste...



    From: Filipa Fonseca Silva
    Date: 30 December 2013 11.04 am
    To: info@kare-lisboa.com
    Subject: Pedido de troca de bengaleiro

    Bom dia,

    Venho por este meio solicitar o favor de me trocarem um artigo que me foi oferecido neste Natal mas do qual não possuo o talão. Trata-se um Bengaleiro de parede REF:68512
    http://www.kare-design.com/pt/shop28055/products/catalog/product_detail/68512/303-107/

    Bem sei que vai contra a política da vossa loja mas, tal como conversado telefonicamente com uma das vossas funcionárias no passado sábado dia 28, envio em anexo o extracto do banco onde mostra o movimento, que foi efectuado no dia 3 de Dezembro. Se de alguma forma puderem ir ao vosso sistema e verificar a transacção desse artigo nesse dia, penso que será possível emitir uma segunda via do talão ou um comprovativo que vos permita ter o número da venda e efectuar a troca.

    Gostaria de trocar por outro artigo da vossa loja, que há muito procuro: http://www.kare-design.com/pt/shop28055/products/catalog/product_detail/77764/303-107/ E claro que, se o valor for inferior, comprarei outros artigos.

    Muito obrigada desde já pela atenção.

    Aguardo a vossa resposta,

    Filipa Fonseca Silva

    ________________________________________

    From: Filipa Fonseca Silva
    Date: 9 January 2014 11.36 am
    To: info@kare-lisboa.com
    Subject: Fwd: Pedido de troca de bengaleiro

    Boa tarde,

    Ainda aguardo resposta relativa ao email abaixo.

    Obrigada


    ___________________________________________

    From: Filipa Fonseca Silva
    Date: 15 January 2014 10.11am
    To: info@kare-lisboa.com
    Subject: Fwd: Pedido de troca de bengaleiro

    Continuo à espera de uma resposta ao fim de quase um mês? Há outro email para contacto?

    ____________________________________________

    From: info@kare-lisboa.com
    Date: 17 January 2014 3.23 pm
    To: Filipa Fonseca Silva
    Subject: Re: Fwd: Pedido de troca de bengaleiro

    Estimada Filipa, 

    Agradecemos desde já o seu contacto!
    Informamos que a situação que nos transmitiu já se encontra no nosso Departamento de Contabilidade para análise interna. Assim, será posteriormente contactada via email relativamente ao parecer dado pelo departamento em questão.

    Estamos disponíveis para qualquer esclarecimento adicional e aproveitamos para lhe desejar um excelente fim-de-semana!

    Atenciosamente,

    Daniela Madeira
    Equipa KARE Design

    KARE
    __________________________________________

    From: Filipa Fonseca Silva
    Date: 17 January 2014 5.29 pm
    To: info@kare-lisboa.com
    Subject: Re: Fwd: Pedido de troca de bengaleiro

    Muito obrigada.
    Fico a aguardar.
    __________________________________________

    From: Filipa Fonseca Silva
    Date: 20 February 2014 11.18 am
    To: info@kare-lisboa.com
    Subject: Re: Fwd: Pedido de troca de bengaleiro

    Bom dia,

    Já têm alguma resposta?
    É que estou a poucas semanas de ter um bebé e além do cabide me fazer realmente muita falta, vou deixar de ter disponibilidade para me deslocar até à vossa loja para eventualmente efectuar a troca.

    Muito obrigada

    _______________________________________________

    From: Filipa Fonseca Silva
    Date: 14 March 2014 9.48 am
    To: info@kare-lisboa.com
    Subject: Re: Fwd: Pedido de troca de bengaleiro

    Bom, mais um mês passou e continuo à espera de uma simples resposta.
    Relembro que o primeiro contacto que fiz em relação a este assunto foi presencialmente a 28 de Dezembro de 2013...

    Obrigada

    _______________________________________________

    From: Filipa Fonseca Silva
    Date: 24 March 2014 2.13 pm
    To: info@kare-lisboa.com
    Subject: Re: Fwd: Pedido de troca de bengaleiro

    Caros funcionários da KARE Lisboa,

    Está tudo bem convosco? Precisam de ajuda?

    Estou deveras preocupada com o vosso bem estar e começo a achar que talvez seja melhor dar conhecimento do vosso desaparecimento à Polícia Judiciária. Talvez estejam reféns da célula terrorista “anti pessoas incompetentes e mal educadas que nem sequer se dignam a responder a um email de um cliente”. Não é primeira vez que esta célula actua no nosso país e parece que têm métodos de tortura avançadíssimos que vão do obrigar a atender a telefone e a dizer bom dia, até ao ensinar a carregar no botão de responder no email.

    Se não for o caso, só posso depreender que estão a tentar ganhar o prémio de “Pior Serviço A Cliente De Que Há Memória”. Eu bem me pareceu, quando no dia 28 de Dezembro me dirigi à vossa loja pessoalmente para tratar da troca deste produto e me deparei com duas gerentes sentadas a brincar no Facebook e a fingir que não estavam a ouvir o meu pedido, enquanto a desgraçada da funcionária temporária sem poder de decisão apenas dizia “são ordens da gerência”. É um prémio bastante cobiçado e que ganhou fama nos anos 90, no tempo das vacas gordas, quando as pessoas queriam e podiam gastar dinheiro em tudo e mais alguma coisa, sem se importarem com as trombas e indelicadeza dos funcionários que as atendiam. O estranho é, em anos de crise como os que atravessamos, ainda haver lojas como a vossa a tentar conquistar esse galardão. Mas imagino que haja milhões de portugueses a gastar dinheiro em objectos de decoração Made in China de uma marca alemã. Adoramos dar dinheiro aos alemães, como se pode ver pelos nossos governantes.

    Bom, nesta fase do campeonato a única coisa que me apetece fazer ao bengaleiro em questão é enfiá-lo... na arrecadação. Sim, porque entretanto já comprei outro naquela loja que toda a gente gosta de maldizer, afirmando que está a arruinar o comércio local, mas que, na verdade, tem um serviço a cliente 5 estrelas, cumpre sempre os prazos e ainda tem preços fantásticos: a Amazon. Ainda por cima tem funcionários que sabem responder aos emails enviados. E que o fazem no máximo em 48 horas, imaginem a loucura! Mas continuem a tentar. Mais de setenta dias para responder a um email é um começo. Ainda por cima numa loja em que, de todas as vezes que lá entrei, tinham para mais de dois clientes. Uma loucura de movimento, que certamente impede a visualização de emails.

    Se calhar devia ter mandado este por pombo correio...

    Poderia terminar com o clássico “Aguardo a vossa resposta”, mas como isso provavelmente só vai acontecer lá para 2038, e o mundo entretanto pode acabar, despeço-me apenas com um até nunca mais.

    Com os melhores cumprimentos,


    PS. Visto que tenho pensado muito em vocês nos últimos meses e sou publicitária, lembrei-me de uma nova assinatura para a vossa marca:
    “We don’t KARE”
    Não precisam de agradecer.

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  • Este fim-de-semana li um artigo do Pedro Bidarra no Dinheiro Vivo intitulado Os filhos do 25 de Abril. É um artigo, como sempre, bem escrito e acutilante, de um homem que admiro profissionalmente (não fosse eu publicitária). No entanto, termina de forma estranha e paternalista:

    “Eu não confio na minha geração nem para se governar a ela própria quanto mais para governar o país. O pior é que temo pela que se segue. Uma geração que tem mais gente formada, mais gente educada mas que tem como exemplos paternos Durão Barroso, Santana Lopes, José Sócrates, Passos Coelho, António J. Seguro, João Semedo e companhia. A geração que aí vem teve-nos como professores. Vai ser preciso um milagre.”

    Ora eu não sei a que geração o Pedro se refere. Talvez a dos que hoje têm vinte anos ou quinze? É que não pode ser a minha, a da faixa dos trinta. Sim, porque nós, os trintões, não pertencemos à sua geração. Aliás, não só não éramos adolescentes no 25 de Abril como nem sequer éramos nascidos.

    Fomos educados por pessoas que fizeram o 25 de Abril e, por isso mesmo, temos uma consciência política bastante vincada, como se pôde ver nos movimentos que criámos e cujo exemplo máximo foi o 12 de Março. E acredite que não temos “como exemplos paternos Durão Barroso, Santana Lopes, José Sócrates, Passos Coelho, António J. Seguro, João Semedo e companhia.” Isso até pode ser considerado um insulto!

    Fomos educados sem passagens administrativas e muitos foram os meus colegas que chumbaram de ano, mesmo na escola primária, o que, na altura, não era um drama.

    Fomos mimados, claro, por pais felizes por nos poderem criar com mais liberdade e por nos poderem proporcionar o que não tiveram, mas ainda fomos contrariados, o que nos ajuda hoje a encarar a realidade: empregos de 1000 euros, viver em casa dos pais, adiar os planos de filhos, de casa de férias e de carros descapotáveis.

    Quando saímos da universidade, ao contrário da sua geração, Pedro, não tivemos pleno emprego nem salários luxuosos. Também ao contrário da sua geração, emigramos muito, não pela aventura hedonista, mas por necessidade e por ambicionarmos uma vida melhor, como tantos portugueses fizeram no antigo regime. Porque não estamos à espera que os “amigos e conhecidos e compinchas e companheiros de copos e de praia” nos arranjem uma cunha, nos promovam apesar das nossas limitações, como hoje acontece nas empresas (e olhe que eu já passei por várias).

    A minha geração pode ter muitos defeitos, mas só tem um problema: a sua. A que está hoje no poder e nas chefias e que é jovem demais para se retirar. Mas não tema, Pedro. Não será preciso um milagre. Havemos de arranjar uma forma inesperada de furar o esquema. Até porque crescemos a ver o MacGyver.

  • Porque hoje é Dia Mundial do Livro, aceitei o desafio da novíssima revista ESTANTE, para partilhar a minha. Ou melhor, parte da minha, porque a imagem não consegue captar a sua totalidade e, além do mais, tenho ainda muitos livros espalhados por outras estantes da minha casa e da casa da minha mãe, onde estão os clássicos e os livros que fui lendo enquanto crescia.

    Mas esta é a estante principal, onde guardo a minha colecção do Pessoa,  a minha colecção da Alice no País das Maravilhas e tantos outros livros infantis, os livros que estão em espera para ser lidos, os que gosto de revisitar de quando em vez, os dicionários e prontuários e mil objectos que fazem as minhas memórias.

    Pelo que vi ao folhear a nova revista, também ela passará a fazer parte da minha estante: gosto do grafismo, gosto do papel reciclado e gosto sobretudo que seja uma revista pouco elitista, o que é raro nas publicações que existem sobre livros. Desejo felicidades a este novo projecto da FNAC.




  • Porque todas as mães merecem um mimo, aproveitem esta promoção do livro "O Estranho Ano de Vanessa M." por apenas €10 com portes incluídos. Façam as vossas encomendas para filipafonsecasilva@gmail.com até dia 27 de Abril, mas apressem-se porque o stock é limitado a 30 exemplares. 

    E isto prende-se com A GRANDE NOVIDADE: "O Estranho Ano de Vanessa M." vai ser publicado pela editora Bertrand em Julho! Depois do sucesso na Amazon, a Bertrand não quis deixar de colocar o meu novo livro à disposição de todos. Assim, a edição de autor que fiz no ano passado já saiu de circulação na sua versão original (português), restando apenas umas dezenas de exemplares que só podem ser adquiridos directamente a mim.

    Esta é, por isso, uma excelente oportunidade de ficar com a versão original e rara deste meu segundo livro, com capa da ilustradora Sofia Silva, e cuja edição em papel foi inferior a 1000 exemplares. Quem sabe um dia se torne uma relíquia :)

  • Para os que se questionam sobre a ausência de posts das últimas semanas, devo anunciar que fui mãe há poucos dias. Assim, estarei imprópria para escrever nos próximos tempos e terei de trocar o teclado por fraldas e biberões :)

    Volto assim que a privação de sono abrandar (e com grandes novidades).

    Até lá, deixo-vos um grande beijinho.



  • Em 2005, Dino Casimiro tirou esta fotografia, acreditando poder tratar-se de uma das maiores ondas do mundo. Aqui, na vila da Nazaré, a apenas 100km de uma capital europeia, podia estar o próximo destino para os amantes de ondas gigantes. Garrett McNamara foi o único big wave rider contactado pela Nazaré que aceitou vir ver com os próprios olhos este fenómeno. Chegou em 2010 e deu início a um projecto que hoje corre o mundo, o ZON North Canyon.

    Este projecto resultou em três documentários (um por cada ano em que Garrett passou meses em Portugal a desafiar as ondas na Nazaré), que captam momentos magníficos, não apenas para quem gosta de surf, mas para todos os que gostam de uma boa história sobre homens que desafiam a Natureza. Além disso, foi este projecto que permitiu que Garrett quebrasse o recorde do Guinness da maior onda alguma vez surfada.

    Este mês foi finalmente lançado o site oficial do projecto, onde a história é contada através de imagens inéditas lindíssimas e vídeos surpreendentes. Eu tive a honra de escrever os textos para este site. Um trabalho um pouco ingrato, uma vez que neste caso cada imagem vale mesmo mais que mil palavras. De qualquer modo espero que gostem do site e gozem a viagem.





  • Uma das minhas citações preferidas é da escritora Doris Lessing, que, muito antes de atingir maior popularidade com o Nobel da Literatura, disse algo como "Algumas pessoas obtêm fama, outras merecem-na". É que isto da fama tem muito que se lhe diga, sobretudo na sociedade hipermediatizada em que vivemos. Na maioria dos casos, os famosos de hoje são-no por coisas banais e até estúpidas, que vão dos reality shows às festas da moda, passando  pelo trabalho de empresas de relações públicas pagas a peso de ouro, deixando no anonimato aqueles cujo nome não deveria ser esquecido. Nomes como Alberto Janes, poeta e compositor.

    As poucas pessoas que têm a sorte de conhecer a obra deste senhor estão ligadas ao fado, onde se mantém uma referência incontornável. É que Alberto Janes escreveu e compôs alguns dos fados mais conhecidos do repertório de Amália Rodrigues, como "Foi Deus", "Oiça lá ó Sr.Vinho", "É ou não é", "Vou dar de beber à dor", só para citar alguns. Só que, ao contrário de outros, que viveram na sombra da Diva em busca de protagonismo, este poeta não procurou mais do que alguém que desse vida às suas palavras, continuando a sua vida discreta de farmacêutico e, mais tarde, professor.

    Há uns anos tive o privilégio de poder ler e compilar a obra completa de Alberto Janes, que estava espalhada entre folhas e cadernos avulsos num apartamento no centro de Oeiras, depois da sua mulher morrer. Um privilégio apenas possível por ser casada com um dos seus netos. Quando conheci o Hugo, ele perguntou se eu gostava de fado e se conhecia o seu avô. Respondi com sinceridade: embora gostasse muito de fado, o nome Alberto Janes não me dizia nada. Com o tempo fui conhecendo a obra e ficando cada vez mais curiosa. Gosto de poetas e autores que escrevem de forma simples, sem floreados, sobre temas universais, sobre sentimentos comuns a todos a nós. Queria ler mais e mais e não descansei enquanto não pus as mãos naqueles cadernos antigos e cheios de versos verdadeiros. Bem dita a hora.

    Descobri uma obra de grande qualidade e que, quer queiramos, quer não, faz parte da história do Fado e da Poesia portuguesa. Uma obra que não faz sentido continuar escondida. É um projecto da família um dia editá-la, mas até lá, e porque hoje se celebra o Dia Mundial da Poesia, partilho convosco um dos meus poemas preferidos, na esperança de começar a tirar Alberto Janes do esquecimento. Não só pelo meu marido e pelos meus filhos, que já têm como legado o sangue deste poeta nas veias, mas por todos os que gostam de coisas bonitas.



    AOS MEUS

    Os meus versos, nem eu sei
    Porque os faço, na verdade,
    Quando a tristeza me invade
    Como se fosse um castigo,
    Sinto uma voz interior,
    Que me fala, que me anima,
    Numa conversa que rima,
    Talvez a brincar comigo.

    Às vezes, na hora triste
    Da tarde em que o Sol se esconde,
    Fecho os olhos, nem sei onde,
    Vai caminhando o meu ser,
    Que sinto ao morrer do dia,
    Rasgado dentro do peito,
    Um poema de dor feito,
    Que nunca soube escrever.

    E num dia igual a tantos,
    Em que parta, me vá embora,
    Deve ser àquela hora
    Tão sombria do sol pôr,
    Os amigos, os meus filhos
    E quem se lembrar de mim,
    Conhece lendo-me assim,
    A minha vida interior.

    Alberto Janes (1909-1971)




  • Um dos maiores desafios de uma gravidez é manter a sanidade mental perante as enormes transformações a que o nosso corpo está sujeito. Não me refiro apenas aos inevitáveis quilos a mais, alargamento das ancas, das costas, dos pés, inchaços e demais transtornos. O grande problema são mesmo as hormonas.

    Da puberdade à menopausa, o desequilíbrio hormonal é algo com que todas as mulheres aprendem a conviver, devido àquela coisa fantástica que se chama menstruação. Há sempre uns dias do mês em que nos sentimos mais irritadas ou cansadas ou vulneráveis ou tudo isso ao mesmo tempo. E se, por um lado, a gravidez nos dá vários meses de tréguas desse problema, por outro, altera a função de praticamente todas as glândulas do organismo resultando em estados psicológicos ainda mais difíceis de controlar e que duram não apenas uns dias por mês, mas toda uma gestação.

    É que a placenta produz várias hormonas necessárias à manutenção da gravidez. A principal hormona que a placenta produz, a gonadotropina coriónica humana, evita que os ovários libertem óvulos e estimula-os a produzir continuamente valores elevados de estrogénios e de progesterona, que são necessários para que a gestação prossiga. A placenta também produz uma hormona que estimula a actividade da tiróide. Uma tiróide mais activa muitas vezes acelera a frequência cardíaca e provoca palpitações, sudação excessiva e instabilidade emocional. Muitas vezes é uma maneira de dizer. A verdade é que, pela minha dupla experiência e observação de outras grávidas, é SEMPRE.

    Como resultado, as grávidas choram, as grávidas gritam, as grávidas perdem a cabeça com coisas tão parvas como partir um copo ou deixar queimar o arroz. Para mais, as grávidas sentem-se sozinhas e incompreendidas, pelo que o apoio das amigas é essencial e os telefonemas e visitas muito apreciados. As grávidas sentem-se assustadas e ansiosas, pelo que a compra compulsiva de tudo quanto é livro e revista da especialidade é perfeitamente normal, mesmo quando já ocupam uma prateleira inteira da sala. As grávidas sentem-se menos atraentes, pelo que é importante que os companheiros as acarinhem e elogiem, mesmo naqueles dias em que, à simples pergunta “Porque é que estás tão mal disposta?”, a resposta for “Porque é de manhã e tu estás a falar”.

    A má notícia é que pouco há a fazer para contrariar este estado. Quem convive com uma grávida tem de se munir de uma dose extra de paciência e compreensão. Respirem fundo e peçam desculpa, mesmo sem saber bem porquê. Não façam muitas perguntas, muito menos daquelas parvas tipo “o que é que tens?” ou “o que é que eu fiz?”. Não contem como se divertiram imenso na discoteca até às seis da manhã ou de como estava delicioso o jantar de bife tártaro acompanhado de vinho tinto. Acima de tudo, não se queixem a uma grávida. Nenhum problema, a não ser que seja uma doença grave ou um acidente quase letal, se compara às privações e provações a que uma mulher está sujeita durante a gravidez. O “hoje dói-me tanto a cabeça” ou “não preguei olho a noite passada” podem ser mesmo considerados insultos, sobretudo nas últimas semanas de gestação.

    A boa notícia é que é um estado temporário. Bom, na verdade, o início da amamentação também provoca desequilíbrios hormonais, desta vez devido à acção de outras duas queridas hormonas, a prolactina e da ocitocina, sendo por isso importante manter o stock de Kleneex em casa. Mas com o tempo, a coisa acalma e a mulher volta ao ritmo de desequilíbrio mensal a que todos estavam habituados. Depois de sobreviver às sevícias das hormonas da gravidez e puerpério, a TPM parecerá uma brincadeira de crianças.


    PS: deixem nos comentários as vossas experiências de desequilíbrio hormonal :D
    A minha mais grave foi quando atirei um balde de tinta amarela à porta de um café em obras, porque eles insistiam em começar a fazer barulho antes das 8 da manhã (ainda há vestígios de tinta no passeio...)