• A Dona Infância era muito pequenina e sorridente, como se quem lhe pôs o nome tivesse vislumbrado numa recém-nascida o tipo de mulher em que se iria tornar. No dia em que a conheci, não queria acreditar que tivesse mesmo aquele nome. Ninguém se chama Infância, dizia eu do alto dos meus seis anos, Infância não é um nome. É sim, respondia ela, é o meu nome. E eu ria-me muito, porque não sabia que as pessoas podiam ter nomes assim.

    A Dona Infância cirandava pela casa a uma velocidade estonteante. Admira-me que não tenha partido mais bibelôs, tal era a pressa com que passava de umas prateleiras para as outras com o pano cor-de-laranja. Pensando bem, partiu bastantes. A minha mãe ficava furiosa, não pelo acidente em si, mas porque a D. Infância nem sempre confessava o crime e deixava ficar lá o objecto arrumadinho, até ao dia em que alguém lhe tocava e reparava que estava partido. A mim dava-me jeito o desleixo, pois das poucas vezes que parti alguma coisa, fiz como ela, evitando um raspanete. 

    A Dona Infância andava sempre a correr, escada acima, escada abaixo, com as socas brancas a espancarem o chão, e nunca tinha tempo para brincar comigo. Assim, andava eu atrás dela a fazer perguntas e a contar histórias. Foge daí sua magana, dizia-me ela quando eu me sentava na cama que ela acabara de fazer. E eu ria-me muito, porque nunca tinha ouvido a palavra magana. 

    A Dona Infância chamava-nos meninos e levava-nos o lanche num tabuleiro. Pão com manteiga para um, pão com fiambre para outro, leite com chocolate para um, sem chocolate para o outro e ainda voltava para trás quando os meninos mimados diziam que afinal queriam bolachas. Eu não gostava que ela andasse para a frente e para trás, por isso, comia quase sempre o que ela trazia, mesmo que não me apetecesse.

    A Dona Infância nunca fazia queixinhas aos nossos pais, por mais disparates que fizéssemos, e eram muitos, sobretudo quando convidávamos os amigos ou os primos para brincarem lá em casa. Deixava-nos fazer cabaninhas com os lençóis acabados de passar, deixava-nos escorregar pela escada num colchão, a fingir que estávamos a descer rápidos, deixava-nos pôr a televisão aos berros e saltar em cima da cama e nunca nos pediu para tirar os sapatos para não sujarmos o chão. Quando eu e o meu irmão nos pegávamos, a Dona Infância era o meu esconderijo e dizia fique aqui ao pé de mim menina, deixe lá estar o seu irmão. E eu ficava e deixava que me fizesse festinhas com as mãos ásperas.

    A Dona Infância não sabia ler. Foi um choque para mim quando me apercebi disso. Um adulto que não sabia ler? Então nunca foi à escola? Não, menina. Porquê? Porque tive de ir ajudar os meus pais no campo. E lá não havia escolas? Não. E porque é que não aprendeu depois? Porque comecei a trabalhar e não tinha tempo. Então como é que sabe qual o autocarro para casa? Pelo número. E quando a sua filha leva recados no caderno como é que sabe o que é que está lá escrito? Ela lê para mim. E a sua filha nunca lhe ensinou? Não. Porquê? Porque ela tem mais do que fazer e tem de estudar muito. E como é que assina o seu nome nos testes? Com uma cruz. E eu ria-me, porque não sabia que era possível alguém não saber escrever o nome. 

    No dia seguinte, decidi ensinar a Dona Infância a ler. Tinha sete anos. Todos os dias, enquanto a minha mãe não chegava e a D. Infância não tinha outro remédio senão ficar comigo, ia buscar o meu livro da primeira classe e ensinava-lhe as letras. Primeiro as vogais, depois as consoantes, como eu tinha apreendido. A Dona Infância não tinha paciência nenhuma para aquilo. Já estava de casaco vestido e só olhava para o relógio a fazer contas de cabeça ao tempo que ia demorar a chegar a casa se perdesse o próximo autocarro. Meia hora de caminho, mais fazer o jantar para filha, mais arrumar a casa dela depois de horas a arrumar a nossa. E eu irritava-me porque era tão fácil ler e ela não queria aprender. Então, mandava-lhe trabalhos de casa, que ela levava na mala mas nunca fazia. Porém não desisti: só a larguei quando me certifiquei de que sabia escrever o seu nome. 

    A Dona Infância uma vez levou-me a casa dela. Fomos de autocarro, no catorze, e chegámos a um bairro com muito prédios e poucas árvores. O dela era verde seco. Não me lembro bem da casa, mas lembro-me da filha, a Luísa. Estava decidida a não gostar dela. Imaginava-a uma filha má, baixinha e carrancuda, que nunca tinha ensinado a própria mãe a ler. Deparei-me com uma mulher alta, ruiva, e sorridente. Tinha uma voz muito calma e um tom muito doce e piscou-me o olho antes de se fechar no quarto. Passei a gostar dela.

    A Dona Infância um dia foi-se embora e eu chorei muito. Fiquei mesmo zangada com a minha mãe por ter permitido tal coisa, longe de saber as razões de uma e de outra. Ao longo dos anos fui-me cruzando com ela na rua e dava-lhe sempre um grande beijinho. Trabalhava numa outra casa ali perto. Também tem meninos? Perguntei numa das primeiras vezes em que nos encontrámos. Não, menina, é a casa de uma senhora velhota. E eu fiquei aliviada porque não ia haver outra menina para roubar o meu lugar. 

    Os anos passaram, eu deixei de a ver, mas mesmo depois de vir morar para Lisboa, ia tendo notícias suas. Volta e meia a minha mãe lá me dizia, sabes quem encontrei hoje na rua? A Dona Infância. Perguntou por ti e mandou-te um beijinho. E eu ria-me, porque me lembrava sempre dos seus beijinhos apressados, como toda ela. Até que um dia a minha mãe me disse, sabes quem morreu? A Dona Infância. E eu não achei graça nenhuma. Não tem graça nenhuma não nos podermos despedir das pessoas por quem temos algum carinho. Não tem graça nenhuma perder alguém que, embora muito distante, faz parte da nossa vida. Mas logo depois comecei a recordar os inúmeros episódios que vivemos juntas e não pude deixar de sorrir. Dela só retenho memórias boas. As memórias da minha Infância.





  • Ouvi dizer  que a Apple e o Facebook anunciaram que vão financiar o congelamento de óvulos para que as suas funcionárias possam adiar a maternidade.
    (Pausa.
    Pausa de incredulidade, de indignação, de estupefacção.)
    É das coisas mais assustadoras e ignóbeis que li em toda a minha vida. Aliás, enquanto mãe e mulher, é tão revoltante, que me apetece deitar o Mac onde estou a escrever pela janela fora e apagar todas as minha contas do Facebook.
    Segundo os defensores desta nova modinha de Silicon Valley, a medida permite que as mulheres dediquem os melhores anos da sua vida às suas carreiras, alcançando cargos nunca antes imaginados, até agora dominados por homens, podendo mais tarde (provavelmente aos 50, porque não?) abrandar o ritmo e ter filhos. É um procedimento caro, que não está coberto por seguros de saúde e, no fundo, os "beneméritos" estão a fazer um favor e a incentivar a natalidade, ainda que geriática.
    Ora, eu sei que os produtos criados por estas empresas são (supostamente!) facilitadores da vida moderna. O telefone que é um computador, o relógio que dá música, o tablet que armazena bibliotecas inteiras, a rede social que nos faz estar a par de tudo o que os nossos  amigos andam a fazer, as aplicações e todas as distracções que nos estão a tornar cada vez menos humanos, cada vez menos sociais. Mas sabem de uma coisa caros senhores de Silicon Valley? Não precisamos que interfiram nos nossos ciclos reprodutivos.
    Se querem realmente contar com as mulheres nas vossas empresas podem começar por lhes pagar o mesmo que pagam aos homens. Com um salário melhor, as mães não têm de sacrificar a carreira para dar atenção aos filhos. Porque podem pagar a uma empregada para lhes orientar a casa, a roupa e a cozinha; podem contratar uma ama para tomar conta das crianças nos dias em que têm de ficar até mais tarde; podem escolher uma casa perto do local de trabalho, para poupar o tempo de deslocações e assim terem mais horas livres para o seu cargo e para as crianças. Depois podem usar o dinheiro dos óvulos e usá-los para pagar as licenças de maternidade prolongadas, ou os dias em que temos de faltar porque os miúdos estão doentes ou têm a festa da escola. Por último, podem mesmo criar creches e ATLs no edifício, para que as mães não tenham de sair a correr de uma reunião porque a escola vai fechar e ninguém foi buscar o miúdo. Tal como criam refeitórios, ginásios e, no caso da nova sede do Facebook, canil! Com todo o respeito e amor que tenho por animais, construir um canil e não construir uma creche é o mesmo que dizer "aqui só queremos solteirões sem vida, cujo único ser vivo com quem contactam para lá da porta do escritório tem quatro patas".
    Em pleno século XXI, o tipo de mentalidade por detrás desta medida é aterrorizador. O corpo humano não é software sujeito a actualizações. A seguir vão programar o sexo dos filhos conforme as necessidades demográficas? Ou financiar a eutanásia para quem tem a seu cargo familiares debilitados? Saiam mas é de trás dos vossos computadores e abram os olhos. Olhem-se ao espelho e vejam os monstros em que se tornaram. Autómatos. Vazios. Olhem pela janela e reparem em algo de expraordinário: há vida para lá do vale onde só a tecnologia se desenvolve. Há vida, há valores, há humanidade. Acima de tudo, há a melhor coisa do mundo: as crianças.


  • Malala nasceu no Paquistão em 1997. O seu pai, poeta e professor, ensinou-lhe a importância da educação, sobretudo para as meninas. Quando o região onde Malala vivia foi ocupada pelos talibãs, que começaram a proibir primeiro a televisão, depois a música e, por fim, o acesso das meninas à educação, Malala, de apenas 11 anos, criou um blog na BBC Urdu onde escrevia sobre os seus pontos de vista acerca da educação e da vida sob o domínio talibã.
    O blog chamou a atenção internacional e Malala foi história no New York Times, passando a receber ameaças de morte. O primeiro Prémio da Paz para a Juventude no Paquistão e a nomeação pelo Arcebispo Desmond Tutu para o International Children’s Peace Prize foram a gota de água: os talibãs decidiram que tinham de a calar. Assim, no dia 9 de Outubro de 2012, um talibã entrou no autocarro da escola, chamou pelo seu nome e deu-lhe um tiro na cabeça.
    Qual guerreira de um livro de aventuras, Malala sobreviveu. Os médicos dizem que foi quase milagre, eu acho que foi por vontade superior. Assim que recuperou, Malala continuou o seu trabalho, tornando-se o rosto e a voz de milhões de meninas a quem a educação é vedada por razões políticas, culturais ou religiosas. O seu discurso nas Nações Unidas, no dia em que fez 16 anos, é das coisas mais inspiradoras que já vi. Mas uma das frases que mais me marcou noutros dos seus famosos discursos foi quando disse que "milhões de crianças do mundo não querem um iPhone, ou uma playstation ou chocolates. Querem apenas um livros e uma caneta". Hoje ganhou o prémio Nobel da Paz. Mais do que merecido.

    Se quiserem seguir e apoiar o trabalho de Malala, podem fazê-lo aqui.



    PS: O prémio Nobel foi "dividido" com outro ser humano extraordinário, Kailash Satyarthi, pela sua luta pelos direitos das crianças na Índia, sobretudo o fim do trabalho infantil e direito à educação. Já salvou mais de 80 mil crianças da escravatura.


  • Quase todos os dias sou surpreendida por notícias de divórcios e separações. Amigos, conhecidos, celebridades, todos nos atiram à cara que o amor já não é o que era e que o melhor é deixarmos de sonhar com vestidos brancos e marchas nupciais. Mesmo os casais que resistem à prova do tempo não conseguem esconder desabafos do género “aproveita enquanto podes” ou “se soubesse o que sei hoje, tinha ficado para tia”, como se o dia mais feliz das suas vidas tivesse sido um engodo para uma vida de rotina e clausura.
    Há várias teorias sobre o falhanço dos casamentos. Uns dizem que é porque as pessoas são egoístas e não gostam de ceder, outros dizem que é porque as mulheres mudam depois de serem mães, outros ainda dizem que é porque se casam sem se conhecerem verdadeiramente. Se calhar estão todos certos, e até pode ser que seja um bocadinho de tudo isto. Mas para mim, o principal problema é que muitos casais vêem o casamento como uma corrida dos cem metros, quando deviam encará-lo como uma maratona.

    Nos cem metros o que interessa é a velocidade. Queremos casar depressa antes que a noiva fuja, queremos casar depressa para dormirmos juntos todos os dias, queremos casar depressa para fazer mais jantares românticos, mais viagens exóticas, mais filhos, queremos casar depressa porque já temos trinta anos e o tempo não espera por nós. Depois casamos e pronto, está feito. Já não é preciso oferecer flores, já não há conversas de meia hora ao telefone antes de adormecer, já não se gasta dinheiro em surpresas nem cartões de aniversário com juras de amor eterno. Somos casados, ponto final. Cumprimos um sonho antigo, fomos ao encontro das expectativas que a sociedade criou para nós, partilhamos uma casa e, por vezes, uma família, acabando por deixar que a rotina e o excesso de confiança nos transformem em “room-mates”, em vez de fogosos amantes dos tempos de namoro. O desfecho deste cenário é tão previsível quanto inevitável.

    Numa maratona o que interessa é a resistência. O grande dia é apenas a partida para anos e anos, décadas e décadas de uma vida a dois. Sim a dois, porque mesmo quem tem filhos deve estar ciente de que eles nascem e vão-se embora num espaço de vinte anos. É preciso guardar uma grande dose de energia para o que nos espera após a sua partida. E, tendo em conta que a esperança média de vida nos países ocidentais não pára de aumentar, espera-nos muito.

    Tal como numa maratona, não se deve dar tudo no início. É preciso guardar alguns segredos e truques para usar ao longo dos anos, sejam eles uma nova posição do Kamasutra ou um novo hobby para explorar a dois. Tal como numa maratona, é preciso alimentar o casamento com doses estratégicas de romance, não apenas em datas especiais, mas sobretudo nos momentos mais desgastantes. Acima de tudo, quando estamos prestes a dar o “Sim”, há que ter a certeza de que temos arcaboiço para aguentar uma prova que testa todos os nossos limites: os físicos mas sobretudo os psicológicos. Porque tal como numa maratona, mais do que alguém ganhar, o importante é podermos partilhar a enorme felicidade de chegarmos juntos ao fim.


    (texto originalmente escrito para A Farmácia de Serviço )

  • Em 1854 Louis Vuitton fundou a hoje aclamada Casa, mas foi só em 1896 que o seu filho George criou o Monograma, como homenagem ao falecido pai. Foi um dos primeiros exercícios de "branding" de que há registo e um sinal da cultura global que se avizinhava. Não é por isso de estranhar que depressa se tenha tornado um ícone.

    O projecto "Celebrating Monogram", lançado agora pela Louis Vuitton, mostra o lado distinto e pessoal do Monograma. A seis iconoclastas de renome, dos mundos da moda, arte, arquitectura e design, foi dada carta branca para usar o padrão do monograma como entendessem, criando peças únicas, e não necessariamente uma mala.

    Lembrando a colecção especial de centenário, que em 1996 contou com os designs de Azzedine Alaia, Manolo Blahnik, Romeo Gigli, Helmut Lang, Isaac Mizrahi, Sybilla and Vivienne Westwood, em 2014 os convidados deram um passo mais à frente, resultando numa colecção muito mais radical e absolutamente incomparável. Eis como um acessório de moda se torna uma obra de arte.














  • Nos dias que correm, é cada vez mais difícil estar a par de tudo o que se passa à nossa volta. As horas passam velozes, o trabalho não pára, a Internet bombardeia-nos com informação, nas redes sociais há inúmeras solicitações, enfim, na maior parte do tempo, no que toca a estar a par da actualidade, só temos tempo para "ler as gordas".
    Mas e se houvesse uma newsletter que chegasse todos os dias da semana ao conforto do nosso e-mail, e que nos mostrasse as principais notícias e novidades, num formato que pode ser lido em apenas 5 minutos?
    Agora há! Chama-se Gordas. Feito por mulher e destinado principalmente a mulheres, junta numa só newsletter as principais notícias do momento, bem como a dica do dia, o look do dia, o evento do dia e outras sugestões rápidas. A sério, podem ligar o cronómetro e verificar que em apenas 5 minutos conseguem ler tudo isto. Um mix de jornal, com revista feminina, com agenda, ou como dizem as Gordas, uma dose gourmet de actualidade.
    Podem subscrever aqui




  • Descobri recentemente que há cada vez mais estrangeiros a aprender a nossa língua, mesmo quem não tem qualquer ligação com Portugal. Talvez seja por causa da música (brasileira e fado, que cada vez se ouve mais) ou das celebridades como o nosso querido Ronaldo e outros, que colocam o nosso país em destaque, ou ainda do facto de haver cada vez mais turistas a visitar-nos. Independentemente das razões, são óptimas notícias para a nossa língua, uma língua que tem tanto de encantadora como de difícil e que, para mim, é a segunda mais bonita do mundo (não consigo deixar de achar o Italiano ainda mais bonito).
    A prová-lo estão dois emails que recebi nos últimos dias. O português destas leitoras ainda não é perfeito, mas fiquei muito bem impressionada pelo esforço. Acima de tudo, fiquei muito orgulhosa por terem escolhido os meus livros para praticar. Aqui ficam as palavras que me escreveram:

    "Adorei o livro e lí-o dum trago. Normalmente, prefiro ler traducoes para português, mas desta vez lí um original e foi uma revelacao. Gostei do assunto, da linguagem muito moderna e rítmica. Reflete muito bem a vida de hoje em dia em Portugal que nao é tao diferente da vida noutros países europeus, mas no entanto diferente. Costumo sublinhar partes dos livros de que gosto particularmente ou que contêm elementos com quais concordo (neste caso achei a descricao do chefe e como conseguiu fazer carreira muito bem retratada, também as refleccoes sobre a relacao entre homens e mulheres, os conflitos que vivemos num mundo onde nada está mais predefinido e o que, exactamente por isso, sobrecarga muita gente.(...) Acho também muito giro esta ideia de receber a oportunidade de lhe escrever sobre o livro. Muito obrigada por isso. Tem agora também fas em Viena/Austria :)"

    Anne-Marie, Viena

    "Sou Francesa e seu livro "O estranho ano de Vanessa M" foi meu primer livro que lei em português.
    Gostei muito da historia, da escritura e pasei momentos muito agradaveles em ler esse livro. Devorei-o em duas semanas ; o que não é mau para um primeiro livro em língua estrangeira ;-)
    Rei-me muito e estava sempre muito ansiosa em saber o qué que podia acontecer a Vanessa.
    Estava tão na historia (rindo muito, cada minuto disponível para ler umas páginas) que a pessoa que me acompanha queria conhecer a vida da Vanessa e tive que contar paso a paso a evolução dos seus pensamentos.
    Muito obrigada pelos momentos tão boms que passei a ler seu livro.
    Agora, comprei o seu primer livro para seguir meus melhoramentos em português."

    Emeline, Paris


    Obrigada às duas. Espero que continuem a explorar o Português e a conhecer outros fantásticos autores que temos por cá.




  • No outro dia, uma amiga mandou-me uma mensagem a dizer que ia levar o meu livro numa viagem até Bali. Fiquei muito feliz, claro, e respondi algo do género "já que não vou eu, vai a minha Vanessa contigo". Só então  me apercebi da dimensão destas palavras.
    As personagens que crio viajam realmente até sítios onde eu nunca irei. As personagens que crio vivem em lugares que nem sei bem onde ficam. A partir do momento em que publico as minhas histórias, elas deixam de ser minhas e passam a ser de uma outra estante, de uma outra mesa-de-cabeceira, de uma outra pessoa, com uma outra vivência, que ouve outro tipo de música e gosta de outro tipo de comidas.
    Eu, que na adolescência fiquei desolada quando percebi que não ia ter tempo nesta vida para visitar todos os lugares que gostava; eu, que sonhava viver em Nova Iorque, Rio de Janeiro ou em Paris, nem que fosse durante uma temporada; eu, que nos últimos três anos não consegui nem sequer passar a fronteira, apercebo-me, finalmente, que as minhas palavras andam soltas pelo mundo.
    É essa a magia da escrita: mesmo sem sair de Lisboa posso deixar um pouco de mim em todos os lugares para onde os meus leitores escolherem levar-me, e a partir de Lisboa posso levar os meus leitores para lugares que eles nunca tinham imaginado. Que bom!


  • O Verão não está a ser o que esperava em termos de tempo. Entre dias horrivelmente ventosos, águas geladas e pouco calor, parece que estamos no norte da Europa. Mas como nem tudo pode ser mau, este Verão trouxe consigo novos produtos e marcas 100% portugueses de fazer cair o queixo a muita multinacional. Tudo ideias de empreendedores com menos de 40 anos, a mostrar que, afinal, esta geração de rasca tem muito pouco.





    Muitos de vocês sabem que sou uma acérrima defensora do nosso ambiente. Infelizmente, são poucas as marcas giras e realmente sustentáveis, pelo que, ser ecológica e fashion ao mesmo tempo torna-se uma tarefa muito complicada. Por isso, fiquei rendida aos SKOG: óculos de madeira ou bambu, giros, leves, resistentes, com lentes polarizadas de alta qualidade e tudo isto por menos de €50. Aliás, fiquei tão rendida que aceitei de imediato o convite para ser uma das embaixadoras da marca. Não são o máximo?




    Sapatos lindos, de alta qualidade e em edições limitadas a quarenta pares: o sonho de qualquer fashion victim. A marca é portuguesa e o fabrico divide-se entre Portugal e o Brasil em infra-estruturas que oferecem condições dignas de trabalho e não utilizam mão-de-obra infantil. Mais dez pontos para a ROS!





    Quando um dos fundadores da marca é um dos nossos nadadores olímpicos, é caso para dizer que é alguém que sabe o que é preciso para fazer calções e fatos de banho confortáveis e super resistentes. Além disso, giros e com uma colecção personalizável. Para dar cor a qualquer piscina.




    Chapeús há muitos, mas destes já ninguém faz. Ou fazia. Sim, os tradicionais chapéus-de-sol de tecido voltaram pela mão de duas amigas que não vivem sem praia. Os tecidos são o máximo e há pouco stock de cada modelo para que sejam sempre originais. Quero!!!




    Uma toalha que vem com uns pauzinhos para fazer um encosto e que, ainda por cima, se dobra e guarda num saco giríssimo. Um pára-vento que se transforma em tenda. Toalhas XL e outras invenções práticas e originais. Irresistíveis.


    A ver se com estas ideias, o Verão vem dar um ar da sua graça. :)







  • Em 2012 o melhor designer da Dior desde o próprio Monsieur Christian, foi substituído por Raf Simons. A saída de Galliano, envolta numa polémica que incluiu excesso de álcool e piadas nazis, marcou o fim de um reinado romântico e elegante no pronto-a-vestir, onírico e exuberante nas colecções de alta-costura. Infelizmente, o novo rei quis fazer tábua rasa.
    É normal que Simons se queira demarcar da herança de Galliano, até porque jamais conseguiria igualar o seu estilo, mas daí a descaracterizar a própria Dior, é demais para os meus olhos. Na colecção de alta-costura  Outono Inverno 2014, recentemente exibida em Paris, vemos uma mulher de cabelos soltos, calças largas, camisolas por fora das calças, casacos “over sized” e vestidos cada vez mais longe da silhueta clássica da Dior.
    Quando recebi a newsletter da Dior, pensei que as fotografias estivessem trocadas. Parecia uma coleção Jil Sander (onde Raf esteve anteriormente), o que não quer dizer que seja má, apenas que está num universo paralelo em relação os códigos estilísticos da Maison. Os fãs da marca não querem ver uma colecção avant gard, nem uma mulher do dia-a-dia. Também não querem que a alta costura se torne tão informal que pareça pronto–a-vestir. Uma peça de alta-costura Dior tem de ser algo único, algo maravilhoso, algo que nos faz sonhar. Não pode ser uma versão cara de peças modernas e minimalistas, que podemos encontrar em dezenas de outras marcas.
    Os “entendidos” em moda podem defender Simons, podem aplaudi-lo de pé, podem fazer a apologia da modernidade e do questionar das regras da alta-costura. Mas os fãs, esses, continuam a indignar-se e a proferir frases como “O Sr. Raf Simons apunhala a Casa Dior a cada seis meses”. Deixo-vos algumas imagens do desastre belga. Volta Galliano, estás perdoado.









  • Por mais críticas efusivas ou prémios literários que se possa ganhar, o sucesso de um livro mede-se pelo número de vendas. É um facto incontornável. Mas como é que se consegue que um livro venda bem,  quando todas as semanas as livrarias se vêem a braços com cerca de trinta novos títulos a disputarem o pouco espaço das prateleiras? Como é que numa semana se consegue despertar a atenção dos leitores, antes que chegue nova remessa de novidades? Bom, é muito simples: com muita promoção e muito passa-palavra.

    É isso que explica porque é que livros fabulosos caem no esquecimento duas semanas após o lançamento e livros de qualidade muito duvidosa ficam durante meses nos Tops de todo o mundo. E é por isso que preciso da ajuda dos meus leitores. O meu novo livro está nas prateleiras de quase todas as livrarias e quem o leu tem gostado muito, pelo menos atendendo ao número de emails e mensagens de felicitações que tenho recebido. Mas não chega. É preciso que mais e mais pessoas saibam que ele existe, perguntem por ele se não o encontrarem na prateleira e falem dele aos amigos.

    Assim deixo aqui o link para o primeiro capítulo, para que possam ler e partilhar com todos os amigos que gostam de livros. Partilhem, falem, ofereçam a alguém que vai fazer anos nos próximos tempos.


    http://goo.gl/tNWiq8

    Deixo também um post do Facebook da Bertrand, que podem (e devem) partilhar e comentar. É só clicar na imagem. :)



    Muito obrigada!

  • Sou fã de séries, admito. Desde o MacGyver e do Justiceiro na minha infância, passando pelo Beverly Hills 90210 e o BayWatch na adolescência ou pela Ally McBeal e O Sexo e a Cidade no início da idade adulta, diversas séries fizeram parte dos meus serões ou tardes de sofá. Mas à excepção do Fawlty Towers e do Seinfeld, escritas pelos melhores comediantes da história da televisão, nunca tive inveja dos argumentistas das mesmas. Até começar a ver Uma Família Muito Moderna há uns anos.

    Não é por acaso que é uma das séries cómicas mais premiadas dos últimos tempos, incluindo 5 Writers Guild of America. É que é tão boa, tão boa que até chateia. As personagens, os diálogos, as peripécias de cada episódio... Mas para mim o segredo é mesmo o retratar de as situações, discussões e rituais familiares pelos quais todos nós já passámos. Há diálogos tão reais que por vezes parece que a minha casa tem microfones que transmitem directamente para os argumentistas em Hollywood.

    Acabei esta semana de ver a quinta temporada na Fox Life e já estou a contar os dias para a sexta. Diz que nos EUA estreia a 24 de Setembro. Por cá ainda não há data, mas acredito que passará ainda antes do fim do ano. Até lá, vale a pena ver as repetições. 




  • Depois das notícias da minha chegada ao Top 100 da Amazon com a versão inglesa de "Os 30 - Nada é como sonhámos", em Novembro do ano passado, fui contactada pelo Eduardo Boavida, da Bertrand para falar sobre o meu segundo livro. Como muitos devem saber, tinha decidido avançar com uma edição de autor desse segundo romance, que até estava a ter bastante sucesso, embora o facto de não estar disponível nas livrarias tradicionais afastasse muitos leitores que não gostam dos formatos ebook, nem de fazer compras online.

    Assim, a proposta de edição da Bertrand não foi difícil de aceitar. Mais do que controlar a 100% o meu trabalho e deter todos os direitos sobre as minhas obras, algo que só uma edição de autor permite, interessa-me que estas cheguem ao maior número de pessoas possível, com a qualidade e profissionalismo de uma editora tradicional. Porque quando escrevo, escrevo para os meus leitores, por achar que tenho uma história interessante para contar. Um história que lhes proporcionará umas boas horas de leitura e entretenimento.

    É por isso que hoje tenho o prazer de anunciar que "O Estranho Ano de Vanessa M." vai estar disponível em todas as livrarias a partir de 11 de Julho, pela mão da Bertrand Editora. Aproveito também para convidar todos os meus leitores e seguidores deste blog para a festa de lançamento, que será no dia 15 de Julho, às 18.30h, na livraria mais antiga do mundo, a Bertrand do Chiado. O livro vai ser apresentado pelo meu querido amigo André Henriques, que todas as manhãs acorda os portugueses com o seu Café da Manhã da RFM, e será uma oportunidade para conversar um bocadinho com todos vocês sobre o livro, esta edição e muito mais.

    Obrigada Eduardo por esta oportunidade :)





  • Uma das coisas mais bonitas numa fotografia é quando ela nos conta uma história. A captação de um momento que em si encerra muito mais do que o objecto fotografado. E quando esse objecto é uma pessoa, o resultado chega a ser comovente.

    Só que conseguir captar a essência de alguém num clique é algo que poucos conseguem fazer, porque à excepção dos modelos profissionais, a maioria das pessoas fica intimidada quando tem uma objectiva apontada a si. É muito difícil estar completamente à vontade, sermos completamente nós próprios. Há sempre a incerteza de onde pousar a mão, de como colocar o braço, do quanto se deve mostrar os dentes ou abrir os olhos ou cruzar a perna. Então, o fotógrafo tem de trabalhar a pessoa, fazê-la esquecer a máquina e os flashes e o corpo, até conseguir arrancar um sorriso natural ou um olhar sincero.

    Pois, isso é o que faz um fotógrafo. Mas quando o fotógrafo é mais do que um profissional, quando é realmente um artista, consegue arrancar os sorrisos, os olhares, o bom ou mau e acima de tudo a verdade.

    Adoro ser fotografada. Desde miúda que adoro que me tirem fotografias e, desde que lancei o meu primeiro livro, tenho sido fotografada por diversos profissionais, alguns deles premiados com galardões importantes no foto jornalismo. Mas raramente olhei para uma fotografia minha como sendo mesmo eu. Há sempre uma pose ou qualquer coisa que faz com que ali esteja retratada uma das minhas facetas, mas nunca eu inteira, eu como me vejo, eu com todo o meu ser. Até ontem.

    Ontem tive o privilégio de ser fotografada pela Vera Marmelo, uma fotógrafa auto-didacta que começou a dedicar-se ao retrato há cerca de sete anos. Tem fotografado essencialmente músicos e artistas e o seu trabalho fala por si. Infelizmente, como quase todos os grandes artistas portugueses, ainda não se pode dar ao luxo de se dedicar exclusivamente à fotografia. O que é uma pena, porque se o seu portfólio actual é fruto das horas vagas, nem imagino o que poderia fazer se se pudesse dedicar sem restrições à sua arte.

    E pelos vistos não sou a única a sentir que a Vera sabe como poucos captar a essência de alguém. A propósito do lançamento do livro da Vera,  caderno de posters, Samuel Úria disse "na música portuguesa, tal como a conheço, não é irónico, mas poético, que a grande retratista da verdade instantânea tenha um nome que significa verdade". E eu subscrevo.








    © Vera Marmelo








  • Nos dias que correm, um dos maiores desafios com que um ser humano se depara é conseguir desligar-se de toda a tecnologia e informação que o assalta assim que abre os olhos pela manhã. Começa logo com o despertador, que hoje em dia é invariavelmente o telemóvel. Ao desligarmos o dito cujo, aproveitamos para espreitar uma ou outra informação online, seja as capas dos jornais, seja o trânsito que nos aguarda, seja o tempo que vai fazer. Já agora, passamos os olhos por um ou dois emails e, quando damos por nós, estamos agarrados à tecnologia mesmo antes de dizer bom dia à pessoa que está deitada ao nosso lado.

    Quem consegue não sucumbir ao iCoiso e ir directo para o banho, não se livra de, mais cedo ou mais tarde, ligar o rádio ou televisão. Ou seja, antes de pormos um pé na rua, já enchemos o nosso cérebro de informação útil e inútil, ignorámos sem notar os outros seres vivos que habitam a casa e nem soubemos apreciar o chilrear dos passarinhos, que mesmo na cidade se fazem ouvir (se prestarmos atenção, claro).

    Durante o dia a coisa não melhora: painéis publicitários em sítios cada vez mais inusitados, o computador no trabalho, a música no elevador, os emails, as redes sociais, as mensagens escritas numa linguagem cada vez mais distante do português, mais uma passagem pela internet à hora de almoço e um regresso a casa arrastado de exaustão. Como é que não haveríamos de chegar a casa tão cansados depois de tudo o que fizemos ao nosso cérebro por horas a fio?

    É então que começam os problemas conjugais. Dois adultos cansados e com a cabeça cheia encontram-se para partilhar uns metros quadrados até irem para a cama (muitas vezes, preciosos metros quadrados que também são partilhados com outros seres, tais como filhos barulhentos e sedentos de atenção). Ainda falta fazer o jantar, despejar o lixo, estender a roupa e sei lá mais o quê. Quando finalmente, pelas dez da noite, se conseguem sentar no sofá a relaxar, ligam o iCoiso ou a televisão e ficam cada um para o seu lado até os olhos começarem a fechar-se. E assim se passam os dias e as semanas e os meses. Quando param para pensar, estes dois adultos afirmam que não tiveram tempo para ter uma única conversa de jeito. Isto é, uma conversa que não contenha as palavras miúdos, colegas, chefe, contas, roupa suja ou comida para o gato.

    Mas como evitar cair nesta espiral destruidora de relações? Teremos de abdicar de todas as comodidades do século XXI? Teremos de largar a vida urbana e abraçar uma vivência em lugares remotos onde não haja rede? Virar hippies? Calma, não é preciso chegar a tanto. Basta aprender a desligar.

    Tal como podemos ligar todos os aparelhos que proliferam nas nossas casas, também temos o poder de os desligar, nem que seja uma noite por semana. Sim, uma noite. Aquelas duas horas que perdemos no sofá à terça-feira, a fazer zapping ou a ver mais um episódio da série do momento, podem ser transformadas em duas horas de conversa com a pessoa com quem escolhemos viver. Não tem de ser uma conversa intelectual, nem sobre a actualidade. Pode começar por ser uma conversa banal sobre o buraco na estrada que foi finalmente tapado ou sobre a nova cor de cabelo da Dona Crismina do terceiro esquerdo, que oscila entre o lilás e o beringela. Podemos contar uma anedota ou falar do novo hit que está sempre a passar na rádio. Uma música calma no fundo, um copo de vinho ou uma chávena de chá e a conversa vai fluir para caminhos pouco óbvios até que, palavra a palavra, vamos reconstruindo (ou simplesmente reforçando) a nossa intimidade enquanto casal.

    Sim, haverá silêncios e alturas em que não sabemos o que dizer. Mas em pouco tempo aprenderemos que esses silêncios contêm cumplicidade, harmonia e amor. E o melhor de tudo é a manhã seguinte. É que já está cientificamente provado que os aparelhos electrónicos podem provocar distúrbios no sono e que as redes sociais em excesso nos tornam mais tristes, porque vemos a (falsa) felicidade e a (suposta) diversão dos outros e achamos que a nossa vida é uma seca. Assim, desligados das tecnologias e com tempo para dedicarmos a uma boa conversa, adormecemos de bem com a vida, connosco próprios, com os nossos parceiros e, consequentemente, acordamos muito mais felizes, livres daquela sensação de que as noites são todas iguais durante a semana. Porque o tempo é o que fazemos dele e há sempre um tempo em que temos de saber desligar.

  • Agora que estamos mais perto dos 40 do que dos 30 e que temos dois filhos, um deles com meses de vida, comprámos uma carrinha pão de forma. Sim, leram bem, uma daquelas clássicas, mais velha do que nós, sem air-bag, sem ar-condicionado, sem vidros eléctricos, sem uma data de siglas que todos os carros modernos têm. Com inevitáveis horas de oficina, com percursos sem hora para chegar e, acima de tudo, com muita história. Irresponsáveis dirão uns. Malucos dirão outros. “Granda” pinta, tem dito a maioria.

    A carrinha pão de forma sempre fez parte do meu imaginário. A minha primeira mochila era uma Pão de Forma cheia de personagens do Charlie Brown e, quando aos doze anos descobri a magia dos anos 60, sonhava com viagens numa destas carrinhas (ou no seu primo Carocha), a distribuir flores, paz e amor por esse mundo fora. Mais recentemente, eu e o meu marido, falávamos em alugar uma durante um fim-de-semana, para ir até às praias do sudoeste. Só não o fizemos porque o Hugo sempre achou que eu não seria capaz, já que nos primeiros meses de namoro, quando me propôs uma noite ao relento eu respondi que só acampava em hotéis. Mas se for só uma noite e houver uma casa de banho por perto, até alinho.

    A coragem para dar tão ousado passo nasceu ao assistirmos à incrível viagem que os nossos primos Inácio e Leninha fizeram pela América do Sul. Num projecto chamado Dar a Volta, que começou em 2010 com uma viagem de oito mil quilómetros pela Índia num side-car, os nossos primos aventuraram-se a percorrer trinta mil quilómetros e dez países num destes míticos veículos. Não vou revelar mais sobre o projecto, porque podem saber tudo pelas palavras dos próprios aventureiros no seu site, mas posso dizer que é no mínimo inspirador e nos faz querer largar tudo e partir à descoberta dos fantásticos lugares que compõem o nosso planeta.

    O bichinho foi crescendo, crescendo, até que a oportunidade de, efectivamente, comprar o mítico veículo, surgiu há pouco mais de um mês. Estávamos em casa, privados de sono devido ao nascimento da nossa filha, a quem eu estava a dar um biberão, quando o Hugo me perguntou qual o carro dos meus sonhos. Respondi que não ligo nenhuma a carros, que como ecologista prefiro andar de bicicleta, mas que, se tivesse mesmo de escolher, seria uma carrinha pão de forma. O Hugo sorriu e passou-me o seu portátil para o colo. No ecrã reluziam as fotografias do anúncio daquela que viria a ser a nossa carrinha. Bastou eu dizer que era linda, para ele ligar para o número que aparecia no anúncio, e ainda eu não tinha acabado de dar o biberão à miúda, já ele estava a combinar uma viagem até Paços de Ferreira, a discutir o preço e a terminar com um “então até 5ª!”.

    Confesso que entrei em pânico. Ele estava mesmo a falar a sério. Ele ia mesmo comprar a carrinha. E os miúdos, e onde estacionamos, e as cadeirinhas de bebé, e se o dinheiro nos fizer falta daqui a uns tempos?

    A resposta não se fez esperar e, no fundo, é a razão que me levou a escrever esta crónica: e se morrermos amanhã? Quantos dos nossos sonhos ficarão por realizar? Podemos esperar que os miúdos cresçam, que a conta bancária cresça, mas e se, nessa altura, for tarde de mais?

    E pronto, convenceu-me. Porque, de facto, entre tantos sonhos que vamos tendo ao longo da vida, uns impossíveis, como voar ou acabar com a fome no mundo, outros improváveis, como ir à lua ou ser uma estrela rock, não há muitos que se possam comprar. Este podia. Irresponsável seria deixá-lo escapar.

    Agora, de cada vez que entro na garagem e vejo a nossa pão de forma a reluzir, sinto-me grata por me ter deixado convencer por um marido que sonha ainda mais alto do que eu. Ainda não tivemos muitas oportunidades de passeá-la e tenho a certeza de que não vamos dar voltas de trinta mil quilómetros, como fizeram os nossos primos. Mas ainda que as nossas viagens se limitem a este pequeno país, a cada uma delas estaremos a percorrer pedaços do nosso sonho. E isso não tem preço.



    Se quiserem ajudar-nos a escolher o nome da nossa carrinha, a votação vai decorrer aqui no Facebook.

  • Sei que esta crónica não interessa a 65% dos leitores, mas ainda assim não deixarei de escrever. Estou a exercer a minha liberdade de expressão, um direito que, tal como o direito ao voto, só posso gozar por viver numa democracia. Mas sabem quem não o pode exercer? Quem vive em regimes totalitários, que normalmente surgem quando os extremistas, sejam da direita ou da esquerda, chegam ao poder. É por isso que tenho medo do resultado desta eleições europeias, que não interessam a 65% dos portugueses.
    Vivemos na Europa, gostamos da liberdade de circulação que isso nos dá e, sobretudo, dos subsídios que recebemos, mas não queremos saber de quem dá a cara por nós no Parlamento Europeu. Achamos que não faz qualquer diferença, que são todos iguais, que são todos meninos à procura de tachos e a obedecer às ordens das nações mais poderosas. Se calhar é verdade. Mas se calhar não é. E eu não quero ficar de braços cruzados, como 65% dos meus compatriotas, à espera de ver se os deputados da extrema direita que foram eleitos ontem, são iguais aos que lá estavam antes deles.
    A história mostra-nos que é exactamente em épocas de crise que os extremistas ganham força. As pessoas estão cansadas do desemprego e culpam os emigrantes, estão cansadas da falta de civismo e culpam a liberdade. Se calhar têm razão. Um Salazarzito a impor respeito, a vigiar os nossos passos, a calar as nossas vozes e isto andava para a frente. Ou se calhar não.
    Há quem defenda que não votar é uma maneira de mostrar aos políticos que não acreditam neles. Mas acham mesmo que eles vão fazer uma leitura consciente destes resultados eleitorais? Eles, que na campanha para as Europeias só falaram das Legislativas, eles, que em vez de elucidarem os eleitores acerca do que defendem para a Europa só fizeram política rasteira do insulto, eles que nos seus discursos de reação aos resultados dizem ser todos vencedores.
    No último dia de campanha fiz questão de ver todos os noticiários, porque ainda estava indecisa acerca de alguns pontos. De nenhum partido ouvi uma palavra sobre a Europa. O que significa que não estão interessados em defender os nossos interesses lá fora, mas sim em ganhar os seus milhares de euros como europedutados. O importante é porem lá alguém da sua cor, para depois dizerem que os portugueses gostam mais deles do que dos outros. Sim, é frustrante. Mas não votar não vai mudar nada disto.
    Lamento que 65% dos portugueses tenham preferido cruzar os braços, seja por birra, seja por desinteresse. Dos portugueses e dos outros europeus. E lamento ainda mais depois de saber que no Parlamento Europeu, algo que bem ou mal nasceu das cinzas da 2ª Guerra Mundial, se vão sentar  neonazis. Parece que finalmente tenho a resposta para a pergunta que fazia quando aprendia a história do século XX: " Como é que as pessoas deixaram que isto acontecesse?".



  • Tenho visto muita coisa no que toca a serviço a cliente, mas o que me aconteceu com a loja de decoração KARE Design é digno de registo. Sim, sou uma consumidora exigente. Não podia ser de outra forma. O dinheiro custa a ganhar a todos e, se me desloco a algum espaço para o gastar, espero que do outro lado, mesmo não havendo simpatia, haja pelo menos educação e profissionalismo. Claramente coisas que faltam aos funcionários e gerentes desta loja.

    Inspirada pelo fantástico blog (que já deu um livro) The Internet is a Playground, que aconselho vivamente a todos os que querem dar uma boa gargalhada, decidi responder por escrito aos senhores da dita loja.

    Deixo aqui o registo da troca de emails que tivemos desde Dezembro até ao mês passado. O último que enviei é o mais giro, mas parece que eles não gostaram, porque até hoje não tive resposta. Seria hilariante se não fosse tão triste...



    From: Filipa Fonseca Silva
    Date: 30 December 2013 11.04 am
    To: info@kare-lisboa.com
    Subject: Pedido de troca de bengaleiro

    Bom dia,

    Venho por este meio solicitar o favor de me trocarem um artigo que me foi oferecido neste Natal mas do qual não possuo o talão. Trata-se um Bengaleiro de parede REF:68512
    http://www.kare-design.com/pt/shop28055/products/catalog/product_detail/68512/303-107/

    Bem sei que vai contra a política da vossa loja mas, tal como conversado telefonicamente com uma das vossas funcionárias no passado sábado dia 28, envio em anexo o extracto do banco onde mostra o movimento, que foi efectuado no dia 3 de Dezembro. Se de alguma forma puderem ir ao vosso sistema e verificar a transacção desse artigo nesse dia, penso que será possível emitir uma segunda via do talão ou um comprovativo que vos permita ter o número da venda e efectuar a troca.

    Gostaria de trocar por outro artigo da vossa loja, que há muito procuro: http://www.kare-design.com/pt/shop28055/products/catalog/product_detail/77764/303-107/ E claro que, se o valor for inferior, comprarei outros artigos.

    Muito obrigada desde já pela atenção.

    Aguardo a vossa resposta,

    Filipa Fonseca Silva

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    From: Filipa Fonseca Silva
    Date: 9 January 2014 11.36 am
    To: info@kare-lisboa.com
    Subject: Fwd: Pedido de troca de bengaleiro

    Boa tarde,

    Ainda aguardo resposta relativa ao email abaixo.

    Obrigada


    ___________________________________________

    From: Filipa Fonseca Silva
    Date: 15 January 2014 10.11am
    To: info@kare-lisboa.com
    Subject: Fwd: Pedido de troca de bengaleiro

    Continuo à espera de uma resposta ao fim de quase um mês? Há outro email para contacto?

    ____________________________________________

    From: info@kare-lisboa.com
    Date: 17 January 2014 3.23 pm
    To: Filipa Fonseca Silva
    Subject: Re: Fwd: Pedido de troca de bengaleiro

    Estimada Filipa, 

    Agradecemos desde já o seu contacto!
    Informamos que a situação que nos transmitiu já se encontra no nosso Departamento de Contabilidade para análise interna. Assim, será posteriormente contactada via email relativamente ao parecer dado pelo departamento em questão.

    Estamos disponíveis para qualquer esclarecimento adicional e aproveitamos para lhe desejar um excelente fim-de-semana!

    Atenciosamente,

    Daniela Madeira
    Equipa KARE Design

    KARE
    __________________________________________

    From: Filipa Fonseca Silva
    Date: 17 January 2014 5.29 pm
    To: info@kare-lisboa.com
    Subject: Re: Fwd: Pedido de troca de bengaleiro

    Muito obrigada.
    Fico a aguardar.
    __________________________________________

    From: Filipa Fonseca Silva
    Date: 20 February 2014 11.18 am
    To: info@kare-lisboa.com
    Subject: Re: Fwd: Pedido de troca de bengaleiro

    Bom dia,

    Já têm alguma resposta?
    É que estou a poucas semanas de ter um bebé e além do cabide me fazer realmente muita falta, vou deixar de ter disponibilidade para me deslocar até à vossa loja para eventualmente efectuar a troca.

    Muito obrigada

    _______________________________________________

    From: Filipa Fonseca Silva
    Date: 14 March 2014 9.48 am
    To: info@kare-lisboa.com
    Subject: Re: Fwd: Pedido de troca de bengaleiro

    Bom, mais um mês passou e continuo à espera de uma simples resposta.
    Relembro que o primeiro contacto que fiz em relação a este assunto foi presencialmente a 28 de Dezembro de 2013...

    Obrigada

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    From: Filipa Fonseca Silva
    Date: 24 March 2014 2.13 pm
    To: info@kare-lisboa.com
    Subject: Re: Fwd: Pedido de troca de bengaleiro

    Caros funcionários da KARE Lisboa,

    Está tudo bem convosco? Precisam de ajuda?

    Estou deveras preocupada com o vosso bem estar e começo a achar que talvez seja melhor dar conhecimento do vosso desaparecimento à Polícia Judiciária. Talvez estejam reféns da célula terrorista “anti pessoas incompetentes e mal educadas que nem sequer se dignam a responder a um email de um cliente”. Não é primeira vez que esta célula actua no nosso país e parece que têm métodos de tortura avançadíssimos que vão do obrigar a atender a telefone e a dizer bom dia, até ao ensinar a carregar no botão de responder no email.

    Se não for o caso, só posso depreender que estão a tentar ganhar o prémio de “Pior Serviço A Cliente De Que Há Memória”. Eu bem me pareceu, quando no dia 28 de Dezembro me dirigi à vossa loja pessoalmente para tratar da troca deste produto e me deparei com duas gerentes sentadas a brincar no Facebook e a fingir que não estavam a ouvir o meu pedido, enquanto a desgraçada da funcionária temporária sem poder de decisão apenas dizia “são ordens da gerência”. É um prémio bastante cobiçado e que ganhou fama nos anos 90, no tempo das vacas gordas, quando as pessoas queriam e podiam gastar dinheiro em tudo e mais alguma coisa, sem se importarem com as trombas e indelicadeza dos funcionários que as atendiam. O estranho é, em anos de crise como os que atravessamos, ainda haver lojas como a vossa a tentar conquistar esse galardão. Mas imagino que haja milhões de portugueses a gastar dinheiro em objectos de decoração Made in China de uma marca alemã. Adoramos dar dinheiro aos alemães, como se pode ver pelos nossos governantes.

    Bom, nesta fase do campeonato a única coisa que me apetece fazer ao bengaleiro em questão é enfiá-lo... na arrecadação. Sim, porque entretanto já comprei outro naquela loja que toda a gente gosta de maldizer, afirmando que está a arruinar o comércio local, mas que, na verdade, tem um serviço a cliente 5 estrelas, cumpre sempre os prazos e ainda tem preços fantásticos: a Amazon. Ainda por cima tem funcionários que sabem responder aos emails enviados. E que o fazem no máximo em 48 horas, imaginem a loucura! Mas continuem a tentar. Mais de setenta dias para responder a um email é um começo. Ainda por cima numa loja em que, de todas as vezes que lá entrei, tinham para mais de dois clientes. Uma loucura de movimento, que certamente impede a visualização de emails.

    Se calhar devia ter mandado este por pombo correio...

    Poderia terminar com o clássico “Aguardo a vossa resposta”, mas como isso provavelmente só vai acontecer lá para 2038, e o mundo entretanto pode acabar, despeço-me apenas com um até nunca mais.

    Com os melhores cumprimentos,


    PS. Visto que tenho pensado muito em vocês nos últimos meses e sou publicitária, lembrei-me de uma nova assinatura para a vossa marca:
    “We don’t KARE”
    Não precisam de agradecer.

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