3 de Junho de 2013

Entretanto, na Turquia

     Tenho amigos turcos, que me pediram ajuda para divulgar o que se passa no seu país. Amigos que têm amigos que foram hospitalizados devido a brutalidade policial, ainda mais inacreditável quando se sabe que o protesto começou para salvar um parque. Estudantes, famílias, velhos e crianças, que queriam evitar que num lugar cheio de árvores centenárias se construísse mais um centro comercial.
     A violência policial provocou outros protestos, ignorados pela imprensa turca, que em poucos dias se espalharam pelas principais cidades do país. O primeiro Ministro diz que são extremistas da oposição, a aproveitarem-se da situação. O mesmo Primeiro Ministro que, desde que está no poder, começou a impor leis de cariz pouco democrático, como proibir as hospedeiras da companhia aérea estatal de usar batôm vermelho, por exemplo.
     Mas ainda que não tivesse amigos turcos, há coisas que não podem deixar de ser partilhadas. Sobretudo porque um dia (e, por este andar, pode não estar assim tão longe) podemos ser nós a precisar que os outros nos ajudem a recuperar a nossa liberdade. A liberdade de expressão, a liberdade de protesto, a liberdade de escolha.
     Não fechem os olhos, por favor.






31 de Maio de 2013

O meu novo livro já está na rua!


Finalmente posso partilhar convosco o resultado de vinte meses de trabalho. Um livro diferente do anterior, mas que me deu igual prazer a criar. Espero que gostem e fico à espera das vossas opiniões.
Como expliquei no post anterior, não estará disponível nas livrarias tradicionais. Mas podem comprá-lo aqui:


Versão papel:
  • em mão, nos vários eventos de lançamento a anunciar 
  • por email (€12, portes incluídos)
  • na Amazon
Versão ebook:
  • na Amazon US 
  • na Amazon BR
  • na Apple Store (brevemente)
  • no Smashwords (menos taxas, pagamento por PayPal)

21 de Maio de 2013

Contagem Decrescente

     Pois é meu amigos, o meu segundo livro está quase a chegar, mas desta vez com uma pequena diferença: não vão encontrá-lo nas livrarias. Calma, ele vai existir em papel, para todos os leitores que, como eu, preferem a suavidade de uma folha à frieza de um ecrã. Só que a única livraria que o vai vender é a Amazon.
     Ao início pode parecer mais chato do que ir a uma livraria e pagar na caixa, mas se pensarem bem, tirando a parte de se registarem no site, tudo o resto é muito mais cómodo. Podem encomendar livros a qualquer hora do dia ou da noite, a partir da toalha de praia ou no banco do metro, e, ainda por cima, nunca correm o risco de chegar lá e ouvir um "Não temos, vai ter de encomendar e voltar cá outra vez".
     Mas voltando ao meu livro. A razão pela qual ele só vai estar disponível na Amazon é porque vai ser uma edição de autor. Ou seja, a Leya não quis publicá-lo. As razões apontadas foram várias, sendo que a mais óbvia é a crise no mercado livreiro. Cada vez se vendem menos livros e as editoras cada vez têm mais medo de investir em autores desconhecidos. Curiosamente as livrarias online, os ebooks e as publicações de autor nestas plataformas estão a crescer vertiginosamente, o que prova que, felizmente, não há menos leitores, mas sim mais variedade na oferta e preços mais apelativos.
     Resumindo, o livro está prestes a sair (com direito a festa de lançamento e sessões de apresentação), vai estar disponível em versão papel e em versão ebook na Amazon e espero que isso não seja motivo para vos impedir de comprá-lo.


PS: também vão poder comprá-lo directamente a mim, claro.

Fiquem a par de todas as novidades sobre este lançamento subscrevendo a newsletter:



7 de Maio de 2013

Somos aquilo que comemos


     Há quem diga que sou fundamentalista do orgânico porque insisto em comprar produtos de produção biológica, mesmo quando custam o dobro do preço. Há quem diga que sou idealista porque volta e meia faço donativos a ONGs ou recuso-me a comprar produtos que sejam fabricados em países que continuam a escravizar adultos e crianças. E há ainda quem diga que sou ingénua por acreditar que estas e outras opções de consumo fazem alguma diferença no plano geral. Pois digam o que disserem, eu sei que cada indivíduo tem poder e as suas escolhas de consumo reflectem-se na saúde e bem estar de outros seres humanos e animais.
     Este desabafo veio a propósito de uma pequena discussão doméstica à volta de ovos. A minha sogra sabe que lá em casa só entram ovos biológicos, mas como ia preparar uma refeição que eu não ia comer, utilizou dos comuns, deixando a caixa à vista. Como afinal ninguém jantou, lá ficaram os ditos para o almoço. Quando eu vi a caixa de ovos de categoria 3 comentei que não gostava de comer ovos de galinhas criadas em gaiolas e quer a minha sogra, quer o meu marido ficaram a olhar para mim com aquele ar de quem diz "lá está ela armada em salvadora do planeta e dos animais oprimidos. Come mas é os ovos, que isto sabe tudo ao mesmo, e deixa de ser parva".
     Ora o que eles não sabem e eu sei é que aqueles números e letras que estão na casca dos ovos não são apenas decorativos.  Um ovo da categoria 3 significa que vem de galinhas criadas em gaiolas, sem nunca pisarem o chão, e às quais cortam os bicos para que não se auto-mutilem ou ataquem as suas companheiras de cela. O que eles não sabem e eu sei é que são galinhas que nascem e morrem num ambiente artificial onde o dia é incomparavelmente maior do que a noite, para que elas não parem de produzir. O que eles não sabem e eu sei é que estas galinhas são alimentadas com cereais geneticamente modificados, cujas consequências para o organismo humano ainda não estão totalmente estudadas.  E o problema, infelizmente, não se fica pelas galinhas. A maioria dos produtos provenientes da agricultura e pecuária de massas, que enche as prateleiras dos nossos hipermercados, estão cheios de químicos e ingredientes geneticamente modificados para produzir maior quantidade em metade do tempo. Aliás, a alteração nas práticas agro-pecuárias nos últimos cinquenta anos são proporcionais à devastação dos solos e à diminuição da qualidade e sabor dos produtos.
      Assim, enquanto consumidores temos duas opções: ou viramos vegetarianos, algo que deve ser extremamente aborrecido e que pessoalmente não me imagino a fazer, ou começamos a ser consumidores mais conscientes, pela nossa saúde e pela saúde de outros seres humanos e animais. E não é preciso consumirmos apenas produtos amigos do ambiente. Basta fazer pequenas escolhas. Podemos não comprar ovos e carnes de produção biológica certificada, mas ao menos que compremos de animais criados ao ar livre. Podemos não comprar vegetais bio, mas ao menos que compremos aos produtores locais ou regionais. Podemos não andar por aí com t-shirts de cânhamo e sapatos de corda, mas ao menos que compremos produtos de marcas que cumpram as normas ambientais mais básicas.
     O resultado é a regra base da economia: a lei da oferta e da procura. Se cada vez mais pessoas procurarem produtos mais "verdes", mais o sector vai crescer para responder a essa procura. Simultaneamente, ao deixarmos de consumir produtos e marcas que assumidamente prejudicam o ambiente, os animais e até os seus trabalhadores, obrigamo-las a mudar as suas políticas e métodos de produção. Porque no fim, não é só o nosso corpo que reflecte aquilo que comemos. É também a nossa alma.

imagem retirada deste blog 


Para mais informação acerca do que andamos a comer, aconselho o documentário Food, Inc. Vejam aqui o trailer:

30 de Abril de 2013

A Puta da Vida É Super


      Para quem não sabe, enquanto não consigo viver apenas da escrita, trabalho como criativa numa agência de publicidade. Ou seja faço anúncios, aquelas coisas chatas que nos interrompem os programas ou as leituras. Confesso que, ao longo de dez anos de carreira, posso contar pelos dedos os anúncios de que me orgulho verdadeiramente. Já fiz muitas coisas giras, outras apenas engraçaditas e outras ainda que, embora correctas, comunicavam um produto que não me dizia nada (bancos, carros, computadores, seguros).
      Por isso, hoje é um momento emocionante na minha carreira publicitária. Consegui fazer um anúncio para um cliente que adoro (sou consumidora fiel há anos sem fim), sobre um escritor que também adoro (Miguel Esteves Cardoso) e para sair numa revista que costumo comprar. Mas acima de um anúncio daqueles que, se visse por aí, ia desejar ter sido eu a fazer.
      Claro que oportunidades destas não aparecem todos os dias, sobretudo por dois motivos. Primeiro, o contexto específico: a Time Out convidou o MEC para dirigir uma edição da revista, por sua vez o MEC lançou um livro que se chama “Como é linda a puta da vida” e por sua vez a Super Bock comprou o espaço para um anúncio nesta edição especial. Segundo, as pessoas certas: um cliente com uma enorme coragem para aprovar um título destes, um director criativo, o “meu” Pedro Magalhães, com uma enorme coragem para enviar uma proposta desta ao seu principal cliente e ainda uma dupla* que é como uma alma gémea criativa.
      Saiu isto. Eu adoro e estou muito orgulhosa.





 *em publicidade nós trabalhamos aos pares, em que um escreve (o redactor, neste caso eu) e outro desenha/Ilustra/compõe (o director de arte, neste caso a Sofia Silva que me acompanha há mais de 5 anos)

18 de Abril de 2013

Qual é a capa mais bonita?

Aqui estão duas opções de capa para o meu próximo livro, desenhadas pela talentosa Sofia Silva. Querem ajudar-me a escolher? Digam de vossa justiça. Deixem aqui um comentário ou então participem na votação que vai decorrer na minha página do Facebook https://www.facebook.com/pages/Filipa-Fonseca-Silva/495391463830180




E para estarem a par das novidades do lançamento, subscrevam esta newsletter













8 de Abril de 2013

Lição de maternidade nº9: férias com crianças não são férias


Não me interpretem mal. Adoro passar o meu tempo livre com o meu filho e mal posso esperar pelo Verão para vê-lo rebolar na areia e apanhar conchinhas à beira-mar. Só que a partir do momento em que se tem um pequeno ser, o conceito de férias muda radicalmente, pelo menos para quem as vê como dias para descansar. (E, a contar pelas vezes em que ouvi a frase «não foram bem férias, porque fui com os miúdos», são muitos.)
A primeira grande mudança é exactamente nas horas de descanso. É que uma criança não quer descansar: quer correr, saltar, brincar, cantar e sempre na companhia dos pais. O descanso faz-se à noite, com umas boas dez ou onze horas de sono. Deles, claro, porque os pais ainda têm de arrumar a casa/quarto, organizar as coisas para o dia seguinte e fazer um esforço para passarem uns momentos a dois, sem gritaria, até desmaiarem extenuados na cama. Assim sendo, com sorte, já só dormem umas oito horas, porque ainda há a hipótese dos filhos serem muito pequenos e acordarem a  meio da noite.
A segunda grande mudança é no planeamento. Aquelas férias idílicas a viajar ao sabor da aventura, a ir parando em sítios surpreendentes sem destino certo, sem quarto marcado, são extremamente difíceis de conseguir com uma prole. Para já, porque não se vai arriscar dormir no carro ou jantar numa tasca qualquer (sobretudo quem tem esquisitinhos com a comida). Mas essencialmente porque viajar com crianças requer muita bagagem e planos concretos. E digo planos porque convém mesmo de ter o A e o B. Exagero? Não me parece, senão imaginem planear umas férias à beira-mar e estar a chover ou um dos miúdos ficar doente ou partir um braço  ou apanhar um susto dentro de água e não querer ir mais à praia. O plano B é o que fará a diferença entre umas férias mais ou menos e um desastre absoluto.
A última grande mudança é nas noites, Férias com crianças são incompatíveis com o restaurante calmo com vista soberba ou com o novo bar que serve uns belíssimos cocktails. E enganem-se os que acham que podem continuar a frequentar esse tipo de locais depois dos pequenos terroristas aterrarem nas camas, exaustos de tanta brincadeira. A não ser que levem uma baby-sitter, que não só fique com os miúdos nessa noite, mas principalmente no dia seguinte, quando eles acordarem cheios de energia pelas oito da manhã.
Portanto, aquela coisa de aproveitar as férias para por o sono em dia, relaxar com um bom livro, ficar a comer caracóis e a beber imperiais pela noite dentro, terá de ser adiada até os filhotes terem todos idade para se entreterem sozinhos e já não haver grande risco de arruinar o momento com uma birra.
Até lá, fica a minha sugestão: aproveitar ao máximo os filhos, com umas férias bem planeadas, cheias de actividades e momentos divertidos, mas guardar uns dias para gozar sem eles. Uns dias onde podemos voltar a ser descomprometidos, irresponsáveis e sobretudo preguiçosos. Pelo menos até ao momento em que as saudades batem e só queremos que eles venham saltar para a nossa cama.

©shutterstock


5 de Abril de 2013

À espera do sol

     Quem me conhece sabe como detesto o frio. Não consigo achar piada a quase nada relacionado com temperaturas abaixo dos 25ºC, com excepção do Natal, de lareiras e de castanhas assadas. Para mim o Inverno devia começar no dia 1 de Dezembro e acabar no dia 1 de Março. Pronto. Três meses de frio para arejar os casacos compridos e as luvas da moda, imediatamente seguidos  dos tais 25ºC, que gradualmente caminhariam para os 30ºC, para aí ficarem durante pelo menos seis meses.
     Assim, não é de estranhar que ultimamente tenha andado de muito mau humor. É que não me lembro de um Inverno mais longo e rigoroso que este (talvez porque efectivamente não se via um Inverno assim há 40 anos e eu só tenho 33).  Já não consigo olhar para as mesmas camisolas de malha, para as mesmas botas de cano alto, para os mesmos cachecóis. Já não consigo ver o edredão, o aquecedor e a manta de flanela com que cubro as pernas no sofá. Já não consigo ter ideias pra mais um dia Domingo de chuva.
     Quando olho para as havaianas escondidas no fundo do armário apetece-me chorar. Juro. Ainda no outro dia, ao procurar de uma t-shirt, abri a gaveta onde guardo os biquinis e desatei a gritar «Porquê????», enquanto me espancava mentalmente por todas as vezes em que gozei com aqueles pacotes turísticos para as massas. Quem me dera poder enfiar-me agora num charter apinhado a caminho de um hotel impessoal, com crianças aos gritos e a fazerem chichi na piscina e um buffet exactamente igual a todas as refeições, só para sentir na pele uma aragem quente e poder dar um mergulho num mar azul turquesa.
     Se tivesse tendência para depressões este teria sido o ano para me internarem. A sério. Já não bastava a soturnidade em que o país mergulhou nos últimos meses, já não bastavam as notícias do mundo a colapsar, dos amigos que emigram, do regresso do Sócrates , agora também temos de levar com a fuga do sol, o nosso companheiro de sempre, aquele que nos fazia sentir superiores aos povos do norte da Europa, como quem diz, não temos o vosso dinheiro, mas temos este solinho pelo qual vocês pagam e bem nos resorts à beira-mar plantados.
     Haja paciência...








2 de Abril de 2013

YSL rocks

     A mais recente campanha de Saint Laurent é um hino ao rock dos anos 90.
     A ligação entre a marca e as vanguardas da cultura remonta aos anos sessenta, quando o próprio criador deambulava nos mesmos círculos que Nureyev, Warhol ou Catherine Deneuve. Aliás, um dos mais célebres casamentos dos anos setenta, entre Bianca e Mick Jagger, teve como protagonista o icónico smoking em branco. 
     Agora, depois de uns momentos à deriva, a marca ressuscita esse espírito irreverente, mostrando um lado dark chic, que contrasta com as paletas coloridas que todas as outras marcas nos oferecem nesta estação.
     Além de tudo isto, é um belíssimo trabalho fotográfico de Hedi Slimane, o próprio director criativo da casa francesa. Uau!






27 de Março de 2013

Concertos 2.0


     Quando eu era miúda ir a um concerto era algo muito especial. Primeiro, porque não havia assim tantos concertos em Portugal e segundo, porque tinha aquela sensação de estar a presenciar um acontecimento único.
     Quando eu era miúda as pessoas que iam aos concertos, mesmo que não fossem os maiores fãs daquela banda, aproveitavam a experiência. Ouviam, aplaudiam, respeitavam os artistas e as outras pessoas que estavam ali para ver o espectáculo.
     Quando eu era miúda havia chamas de isqueiros a encantar o recinto sempre que soavam os acordes de uma balada.
     Os anos passaram, eu deixei de ser uma miúda e cada concerto passou a ser apenas mais um concerto para colocar na agenda do mês. Deixou de ser algo único porque a mesma banda nos visita várias vezes, mas sobretudo porque se transformou num mero evento social. São poucos os que vão ver a banda pelo que ela é e cada vez mais os que vão porque é suposto ir; os que não respeitam os artistas ou quem quer realmente ver o concerto, agrupando-se como se estivessem numa rua do Bairro Alto a conversar animadamente com os amigos de cerveja na mão; os que vêem o concerto através do ecrã dos seus telemóveis, porque mais importante do que estar ali é mostrar aos outros onde se está e ganhar reconhecimento virtual.
     Isto entristece-me porque me coloca perante a evidência de que estamos a construir uma sociedade baseada em coisas que não existem para lá de um dispositivo electrónico. Uma sociedade que não sabe aproveitar o momento pelo que ele é, preferindo viver o momento pelo que este lhe pode fazer parecer perante uma audiência ilusória.
     Deixei de ir ao cinema por não estar para aturar barulho de pipocas e conversas de café durante o filme inteiro. Se calhar também terei de deixar de ir a concertos para não ter de assistir ao pobre espectáculo de milhares de pessoas a fazerem actualizações ao seu estado "internáutico", com fotografias e vídeos captados segundos antes, e onde já não consigo vislumbrar uma única chama a balouçar na escuridão, senão pelos breves instantes em que alguém está a acender um cigarro.



25 de Março de 2013

Um homem de tutu cor-de-rosa

Quem não acredita que rir é o melhor remédio, não conhece esta história.
Bob Carey começou a fotografar-se nos locais mais inesperados vestindo apenas um tutu cor-de-rosa por puro gozo. Até ao dia em a sua mulher descobriu que tinha cancro de mama. A sua luta com a doença por duas vezes num espaço de três anos ensinou-lhes que só com uma boa dose de humor se consegue ultrapassar tamanha provação e que muitas vezes um sorriso ajuda mais do que se julga.
Foi então que Bob decidiu publicar as fotografias e com elas ajudar a financiar diversa organizações que lutam contra o cancro de mama.
"The Tutu Project" já conta com várias exposições e eventos pelos Estados Unidos e um livro. O melhor: as fotografias estão à venda no site para quem quiser. Vai já para minha lista de desejos.







©Bob Carey

22 de Março de 2013

Depois da tempestade...

...chega a Primavera. Amanhã para mim.


And there will come a time, you'll see, with no more tears
And love will not break your heart, but dismiss your fears
Get over your hill and see what you find there,
With grace in your heart and flowers in your hair

Mumford & Sons



20 de Março de 2013

O meu país infeliz


     O meu país é cheio de sol e de mar e de paisagens bonitas. É cheio de poetas e atletas e artistas de renome. É cheio de história e de feitos e de tesouros em cada recanto. Mas também é cheio de pessoas. E a maioria das pessoas é desinteressada e muitas vezes iletrada também.
     Só num país de pessoas desinteressadas é que se chega ao que se chegou. Pessoas que não votam, que não se queixam,  que não se impõem, que deixam andar, que fecham os olhos, que acham tudo normal. Ou que se queixam apenas quando as ervas daninhas chegam ao seu quintal, assobiando entretanto para o ar, esquecendo-se que na verdade é mesmo a união que faz a força e que se tivessem ajudado o vizinho a combater as ervas daninhas quando elas o atingiram, talvez estas não se tivessem propagado pelo bairro inteiro.
     Só num país de pessoas iletradas é que se engolem todas as informações e desinformações que aparecem na comunicação social sem questionar. Sem sentido crítico. E se elegem corruptos atrás de corruptos, incompetentes atrás de incompetentes, divididos em dois partidos (ou quatro tanto faz, porque quando chegam a qualquer cargo de poder são todos iguais e as mesmas pessoas que criticavam os lobbies, os empregos para os amigos, a incoerência, passam a fazer exactamente a mesma coisa).
   Só num país de pessoas assim se deita por terra o futuro de pelo menos duas gerações.  Por ganância, incompetência e amor ao poder de uns e por desinteresse, passividade e alheamento dos outros.
     No dia em que se celebra a felicidade não posso, por isso, estar feliz com o meu país. Um país onde há outra vez crianças a ir para a escola de estômago vazio e velhos sem dinheiro para os medicamentos. Onde há reformados a sustentar os filhos e os netos com as suas cada vez mais magras reformas e pessoas a desligar os aquecedores não por opção ecológica, que tanto me alegraria, mas por necessidade . Um país onde, em vez de se sair, se regressa a casa dos pais e onde os grandes empresários acham que um ordenado mínimo de 400 euros ainda é demasiado alto para se ser competitivo.
     Não posso estar feliz quando nos últimos meses amigos atrás de amigos partiram para outros destinos e continentes, não pela aventura mas por não terem outra opção. Ou quando faço contas aos meus rendimentos depois de mais uma leva de cortes e constato que, se não fossem os meus pais e sogros, não podia ter mais filhos.  Ou quando vejo o negócio onde a minha família trabalhou durante mais de cinquenta anos aumentar a estatísticas das insolvências e engrossar as fileiras do desemprego.
     Sempre tive um espírito revolucionário, embora seja totalmente apartidária. Sou mais pelas causas do que pelas hierarquias. Sempre ergui a voz contra as injustiças e sempre questionei as ordens quando as achava injustas, não para ser do contra, mas para tentar compreender o seu porquê. (Talvez por isso, ao fim de dez anos de carreira, continue com quase tanto como quando comecei, o que também diz muito sobre a mentalidade das chefias deste país.) Quando vejo as notícias ou ouço as histórias da minha gente apetece-me ir para a rua gritar. Chega mesmo a apetecer-me incitar à violência, percebendo  que muitos movimentos terroristas surgem exactamente do desespero de gritar e gritar e ninguém nos ouvir. Mas claro que isso é apenas um devaneio e nunca uma ideia de solução. Até porque este meu país (e a Europa em geral!) precisa mais do que revolucionários. Precisa de um rumo. E esse não o consigo vislumbrar. 

©VHILS

19 de Março de 2013

O melhor pai do Mundo

Para os pais presentes e os ausentes, os heróis e os vilões, os carinhosos e os sérios, os que brincam e os que ralham, os que dão o exemplo e os que se esquecem que são a maior referência de uma criança. Para todos deixo o trabalho de fotógrafo Dave Engledow denominada "O melhor pai do Mundo"
(Que também tem a filha mais adorável do Mundo, Alice Bee.)
Adoro!






©Dave Engledow


Vejam a colecção toda aqui

13 de Março de 2013

Lição de maternidade nº8: é realmente possível andar com o coração nas mãos


No primeiro ano de vida de uma criança há mil e uma emoções que uma mãe (e um pai) experimentam pela primeira vez, seja nas grandes conquistas, seja nas grandes dores de cabeça. E são tantas e tão variadas que ao fim de um ano sentimos que estamos preparadas para tudo. Sobrevivemos à dor pré e pós parto e ao prazer de abraçar o nosso filho pela primeira vez; sobrevivemos às angústias da amamentação e à ternura dos primeiros sorrisos; às noites sem dormir e às tardes cheias de gargalhadas; às primeiras febres e às primeiras vezes que se pôs de pé. Ao fim de um ano sentimo-nos umas profissionais e olhamos para uma recém-mãe com alguma condescendência, como quem diz “eu já fui assim, inexperiente, apavorada, a achar que nada mais existia no mundo para além do meu bebé, mas agora estou preparada para tudo”.
ERRADO!
Nenhum primeiro ano, por mais exigente que tenha sido, inclusive para mães de gémeos e trigémeos, nos prepara para o próximo nível: o nível da independência. Nenhuma primeira vez é tão emocionante como a primeira vez em que o nosso bebé se levanta e começa a caminhar. A destreza e a segurança com que o faz provoca-nos um turbilhão de emoções que incluem pânico, orgulho, alegria e incredulidade. E quando finalmente conseguimos voltar a respirar e a controlar as pulsações, fica a evidência de que o nosso bebé, aquela coisinha frágil e indefesa que não fazia nada sem nós, já é um ser independente que vai para onde lhe apetece, brinca com o que alcançar, foge, corre e conquista uma fascinante liberdade, espelhada nos seus olhos bem abertos e num sorriso triunfal.
Resta-nos então perceber o que significa andar literalmente com o coração nas mãos, enquanto perseguimos cada um dos seus passos pedindo a todos os deuses que ele não caia, que ele não bata com a cabeça, que ele se lembre de por as mãos à frente quando inevitavelmente se espalhar ao comprido.
Sei que nunca mais vou conseguir recolocar o meu coração na respectiva caixa torácica. Porque hoje o meu bebé anda mas amanhã há-de querer correr, saltar num trampolim ou andar de bicicleta. Ou de patins ou de mota ou de carro ou de barco ou de boleia com amigos que eu não conheço. Sei que nunca mais vou descansar porque o meu bebé agora é do mundo e vai explorá-lo à sua maneira, sem ouvir os meus conselhos.  E sei que a partir de agora vou ouvir a voz da minha mãe na minha cabeça, aquela voz que me irritava quando era pequenina porque me considerava tão crescida: cuidado, não vás por aí, atenção ao degrau, não corras, olha que cais, ainda partes a cabeça, pára sossegada, eu bem te avisei, dá cá a mão.


7 de Março de 2013

Nova página de facebook

Para quem me quiser acompanhar nas redes sociais, criei uma página oficial onde vou colocando tudo o que tiver a ver com os meus livros (presentes e futuros). A página dos 30 vai continuar a funcionar, mas  as grandes novidades passarão por esta nova.
Espero que gostem. Literalmente.


5 de Março de 2013

Plátano

     É raro ficar presa a um poema. Presa no sentido de não o querer largar; de ler e reler só para confirmar que cada palavra está no lugar certo e contém tantas outras palavras dentro. Ler e reler só por prazer, como quem admira o mesmo quadro ou ouve a mesma música vezes sem conta. Acontece-me com "monstros" como O'Neill, Eugénio de Andrade, Pessoa, Cesário ou Chico Buarque. E aconteceu-me recentemente com um poema de um amigo escritor, Pedro Guilherme-Moreira, vencedor do concurso Textos de Amor do Museu Nacional da Imprensa. Podem ler outras coisas igualmente belas no seu blog.

Plátano

que nem o teu desespero
nas tardes frias de chuva
nem essas mãos a tremer
sobre as cartas que escrevi
nem os plátanos
que te deixam no outono
nem a vigília do inferno
nem a indolência do céu
nem a dor da madrugada
nem dúvidas
sobre o que nasce
certezas
sobre o que morre
nem memórias, por mais doces,
nem absolutamente nada

meu amor te dê a dúvida
de que te pertenço e fico
para lá do fim da noite
e que até no tempo infindo

só os teus lábios me abrandam
só os teus beijos me calam

PG-M 2012





28 de Fevereiro de 2013

Pipocas queimadas


     Não gosto de comentar polémicas que incendeiam redes sociais, mas fiquei realmente incomodada com a mais recente. Parece que a blogger Pipoca mais doce, ao comentar as vestimentas envergadas na noite dos Óscares, ridicularizou uma adolescente que posou na passadeira vermelha por esta não estar vestida à altura do acontecimento.
     "E pronto, não é preciso procurar mais, está escolhido o terror da noite. Esta pequena, de seu nome Sofia Alves (podia perfeitamente ser a nossa Sofia Alves, que também é uma bimbalhona do pior) teve um surto de febre e, em delírio, decidiu apresentar-se assim na passadeira vermelha. Collant opaco, saia da Pimkie, uma camisola básica da H&M e o gorro do irmão mais velho que assalta carros à noite. Estou de boca aberta" escreveu no seu famoso blog.
     A polémica estalou quando se soube que a Sofia Alves era afinal uma menina com cancro cujo sonho de ir aos Óscares foi realizado pela associação Make a Wish. Mas para mim seria igualmente grave se Sofia fosse uma menina perfeitamente saudável. “Saia da Pimkie, uma camisola básica da H&M”, escreve a Pipoca com desdém. Mas será que veste de Valentino da cabeça aos pés? Será que foi criada pela realeza da moda? Ou já se esqueceu de onde veio? E será que tem assim tanta graça insultar gratuitamente uma outra figura pública?
     É este o problema destes pseudo fashionistas cujos blogs proliferam no maravilhoso mundo da internet. Acham-se o máximo por saberem quem é o director criativo da Givenchy ou por terem um convite para a Moda Lisboa, escrevem sobre tendências em tom de especialista e sobre gaffes das estrelas com sarcasmo, mas na verdade, a única qualificação que têm no que toca a moda é a avidez com que devoram Vogues e copiam blogs internacionais. E iludidos pela arbitrariedade do sucesso que se pode atingir na internet, começam a acreditar que são melhores, mais sofisticados, mais informados, mais elegantes do que todos os outros mortais.
     Claro que um blog ou um artigo de opinião num jornal é sempre algo pessoal onde o autor escreve o que pensa, sem censura. Mas quando se começa a ter uma audiência de milhares de pessoas é preciso ter algum pudor. Não se pode, ou pelo menos não se deve, escrever absolutamente tudo o que nos passa pela cabeça e que até podia ser engraçado se partilhado numa conversa entre amigos.  Com uma audiência de milhares há muito espaço para más interpretações e ainda mais espaço para que uma pequena gaffe se transforme na piada do mês. A Pipoca deveria saber isto, ou não aprendeu nada com os seus amigos que colaboraram nos célebres vídeos da Samsung? Ou mesmo com o Sr.Galliano, já que gosta tanto de temas de moda. 



24 de Fevereiro de 2013

Lição de Maternidade nº7: cada fase é mais difícil do que a anterior

     A melhor analogia que me ocorre para descrever a tarefa de criar um filho é um videojogo. Começamos devagar com um pequeno ser que não faz outra coisa senão comer, dormir e sujar fraldas, e o trabalho vai aumentando, aumentando até gastarmos todas as nossas vidas e no ecrã surgir um Game Over, que é como quem diz, a hora da nossa morte. Mas não é esta a única semelhança entre a maternidade e o entretenimento virtual: cada nível é progressivamente mais difícil do que o anterior, de modo a manter a emoção e trocar-nos as voltas quando achamos que já estamos a controlar a situação. Senão vejamos.
     Primeiro nível - dos 0 aos 3 meses
     Neste primeiro nível o bebé em si não dá muito trabalho. Aliás, passa mais tempo a dormir do que acordado, é bastante portátil e a única coisa mesmo difícil para as mães é o não dormir mais de quatro horas seguidas. A não ser que o bebé sofra de cólicas, o que faz com que esta fase pareça um filme de terror.
     Segundo nível - dos 3 aos 6 meses
     Quando finalmente nos habituamos ao ritmo, às tarefas diárias, à ausência de vida social, o bebé começa a regular o sono da noite mas a revelar inúmeras outras maneiras de nos manter atarefadas durante o dia, até porque ainda não sabe fazer nada sozinho, incluindo sentar-se a brincar. Também pode dar luta na introdução dos alimentos sólidos.
     Terceiro nível - dos 6 aos 12 meses
     Começa o desassossego dos dentes (há bebés que sofrem com cada um deles) em simultâneo com a aventura de gatinhar, que nos leva a andar sempre atrás deles para ver se não trepam por um móvel acima. Esta fase corresponde também à entrada nos infantários, ou como os pediatras chamam, os infectários: viroses, constipações e noites horríveis para os pais. Mesmo a terminar o primeiro ano de vida vêm os primeiros passos, que é como quem diz os primeiros galos na testa, bibelôs partidos e umas enormes dores nas costas para quem tem de andar dobrado a agarrar nas mãozinhas do pequeno ser.
     Quarto nível - dos 12 aos 24 meses
     Quando eles já andam sozinhos inicia-se a maravilhosa descoberta do mundo: tomadas eléctricas à medida dos seus dedinhos, telemóveis e outros objectos de valor atirados para dentro da sanita, saltos, cambalhotas e uma enorme atração pelo abismo, seja ele uma estrada cheia de carros ou um vão de escadas. É neste nível que as mães descobrem que têm cinco pares de olhos e superpoderes para antecipar cada perigo.
     Quinto nível - dos 2 aos 3 anos
     Chega  o segundo ano de vida e com ele a emocionante aventura de largar as fraldas (incontáveis lençóis e resguardos serão lavados) e de comer sozinho (aconselho a removerem os tapetes debaixo da mesa de jantar). Mas a minha fase preferida neste nível é o desenvolvimento da arte da argumentação de uma mãe ou como convencer uma criança desta idade que não pode ir de calções de banho para a rua em Dezembro.
      Estão a ver a ideia?
      Pois muitos mais níveis existem, alguns com designações célebres como "idade dos porquês" ou "fase do armário", mas acho que com estes já dá para chegar ao âmago desta lição: tal como num videojogo, não desejem que «esta fase passe depressa» porque a seguinte é sempre mais difícil e lá diz o ditado «filhos criados, trabalhos dobrados». Entrem em cada nível com a determinação de aproveitar todas as coisas boas que tem, pois mesmo as mães mais pessimistas sabem que essas coisas boas suplantam por larga margem todas as coisas más.





8 de Fevereiro de 2013

Querida Apple...


Querida Apple,

Quero o meu marido de volta.

Não é nada pessoal, juro. Sou uma verdadeira fã dos teus produtos e o sonho do teu departamento de vendas. Senão repara: tenho um iPhone, um iPad, um MacBook, um iPod shuffle e até um Mini iPod dos primeiríssimos, que já não funciona, coitadinho, mas que fez maravilhas nos seus tempos áureos.  Uso-os diariamente, confesso, mas ainda assim consigo resistir à tentação de os ligar a cada minuto livre do dia. Por exemplo, sou daquelas pessoas que ainda consegue sentar-se no sofá e pegar num livro ou numa revista. Mais: sou daquelas pessoas que consegue não tirar o iPhone da mala quando chego a qualquer lado. E se ouvir lá ao longe, abafado pelo tecido e pela distância, um aviso de mensagem ou email novo, sou mesmo capaz de ignorá-lo, imagina só.

No entanto, o meu marido não. Até no carro, enquanto conduz, se o iPhone o alerta para nova mensagem, tem de espreitar imediatamente para o visor. Como se não houvesse outra opção. Como se fosse o responsável por uma central nuclear que tem de estar alerta 24h por dia. Em casa, à mesa de jantar, lá está o iPhone pausado ao lado do guardanapo como se fizesse parte do conjunto. À noite, quando volto para a sala depois de adormecer o nosso filho, lá está ele estendido no sofá com o seu iPad. E mesmo nos momentos de lazer, com amigos ou em família, lá vem o estúpido do aparelho intrometer-se na cena para mostrar um vídeo do YouTube ou uma imagem com mil likes no Facebook ou simplesmente para capturar esse instante, como se a memória já não servisse para nada.

E se fosse só o meu marido...

São também os meus irmãos, amigos e até o meu pai. Actualmente a sociedade ocidentalizada sofre de uma autêntica epidemia de agarrados ao "i". Nas salas de espera, nos transportes públicos, nos bancos de jardim, no intervalo do cinema ou de um jogo de futebol, à mesa, esteja quem estiver, ninguém tem pudor de sacar do seu aparelho e brincar. Mas sempre com um ar de que está a tratar de um assunto importantíssimo. Tão importante que se sobrepõe a todas as regras de educação e convivência com outros seres humanos.

Voltanto ao meu marido. O que me levou a escrever-te esta carta foi o facto de considerar que representas uma ameaça desleal. Não jogamos com as mesmas armas. Se fosses uma mulher, mesmo uma Giselle, eu saberia como agir. Em última instância, far-te-ia uma espera, uma peixeirada digna de um romance de cordel, que isto quando mexem com os meus acaba-se a diplomacia. Mas não és. És uma empresa. És uma máquina. És uma fábrica de objectos desejáveis e enfeitiçadores.

Assim sendo, querida Apple, para bem do meu e de milhares de casamentos resta-me pedir-te que tenhas piedade de nós. Que cries, por exemplo, uma App que envie um sinal para estes cérebros viciados de modo a que, em ocasiões sociais e familiares, o aparelho seja ignorado. Ficávamos todos a ganhar: tu continuavas a ser uma marca cool e inovadora, vendendo mais dos teus inúmeros produtos e suas novas versões anuais; nós, seres humanos outrora sociáveis, voltaríamos a aprender a conversar, a discutir, a fazer coisas arcaicas como jogar às cartas ou jogos de tabuleiro. Uns com os outros. Olhos nos olhos. E seriamos todos, os teus accionistas incluídos, felizes para sempre.

Pensa nisso... Mas lembra-te que, em todas as versões, a bruxa que oferece a maça envenenada, morre no fim.

Com os melhores cumprimentos,

Filipa Fonseca Silva


     © Filipa Silva