• No outro dia ouvi uma colega de trabalho queixar-se de que não tem tempo para ir ao ginásio. Que trabalha muito, que anda numa pós-graduação, que chega a casa tarde e muito cansada, que o dia mal para as coisas dela, etc, etc, etc. A conversa não era comigo, por isso, contive-me de rir na cara dela, mas ainda assim não consegui abafar uma pequena gargalhada. É que a dita colega de trabalho tem 26 anos, vive em casa dos pais e naquele minuto fez-me lembrar de uma versão mais nova de mim própria.

    Ora se bem me lembro dos tempos longínquos em que era igual a ela, e partindo da certeza de que trabalha numa agência de publicidade, e não num hospital, exército ou consultora, por exemplo, ter 26 anos e viver em casa dos pais significa:

    - não cozinhar
    - não tratar da roupa
    - não andar sempre a caminho do supermercado
    - não acordar durante a noite para assistir um qualquer dependente
    - não ter grandes contas para pagar (bons velhos tempos em que gastava o meu ordenado em sapatos e viagens...)
    - não ter de pensar nos outros elementos da família quando programamos o nosso dia/noite/ fim-de-semana.

    Assim sendo, e sabendo hoje que, tal como eu, há milhares de  mulheres que têm de fazer todas as coisas acima mencionadas e ainda conseguem ir ao cabeleireiro (de vez em quando, vá), ao ginásio (eu vou três vezes por semana), ao cinema (não consigo, mas sei que há quem o faça), jantar com os amigos (mesmo que seja só uma vez de dois em dois meses), ler um livro (duas páginas por mês, mas não interessa), só posso constatar que as mulheres, depois de serem mães, transformam-se em autênticas mestres na gestão do tempo.

    Como por magia, no dia-a-dia passam a caber todas as actividades pessoais, domésticas, profissionais, sociais e familiares. Sim, sai-nos do corpo, sim, passamos a depender do corrector de olheiras para manter um ar minimamente saudável, sim, quando finalmente nos sentamos no sofá (lá para as dez da noite) parece que estamos em coma, mas uma coisa é certa, ficamos com a certeza absoluta de que todas as desculpas que as pessoas arranjam para não fazer alguma coisa, não passam disso mesmo: desculpas.

    Por isso meus amigos e conhecidos que não têm filhos, deixem-se de tretas e ponham-se a mexer. E quando estiverem comigo ou com alguma outra mãe que trabalha todo o dia, por favor não digam que não têm tempo para nada. A sério. É quase ofensivo.


  • Odeio o Inverno, confesso. Não suporto frio, chuva, vento, roupões, meias, collants, luvas, cachecóis e, depois de ser mãe, o raio das viroses. Para mim, depois do Natal, que é sempre aquela altura em que é agradável estar à lareira e sentir o fresco na rua,  devíamos passar logo para os 30ºC. Ou seja, entre Janeiro e Maio o meu humor ressente-se naturalmente e muitas são as vezes em que abro a gaveta dos bikinis para chorar com eles a clausura que o calendário do hemisfério norte impõe. Só que este ano parece que o mês de Janeiro resolveu vingar-se de todo o ódio que lhe tenho e tornar a minha vida num daqueles filmes cómicos dos anos 80 em que tudo acontece aos protagonistas. 

    Tudo começou nos primeiros dias de 2016, os primeiros em que veio frio a sério. O meu marido tenta acender a lareira e eis que a casa parece o dia em que D. Sebastião regressa, isto é, nevoeiro cerrado. Enquanto as crianças dormem a sesta, o marido sobe ao telhado qual limpa chaminés certificado e, após duas dolorosas horas, lá consegue resolver o problema e impedir que andássemos de fatos de neve dentro de casa.

    No dia seguinte a esta aventura, temos a notícia de uma doença muita chata num dos nossos familiares próximos. Boa. Obrigadinha 2016. Ainda bem que comi a porcaria das passas todas e que pedi insistentemente saúde para a família.

    Dias depois, inicia-se uma obra para eliminar o bolor do tecto das casas de banho, o que implica uma semana de obras, pinturas, cheiro a lixívia e banhos rápidos de chuveiro. Ou seja, dias de pó, tinta e chão espezinhado. Tudo bem. Tinha de ser. Está feito e despachado. A coisa começa a compor-se. Aparentemente. 

    Mas eis que, a meio do mês, chega nova virose. Mais febres, tosses, lenços de papel, brufen, ben-u-ron, soro, aerossol, tudo isto vezes dois, que é muito mais divertido. Obrigadinha 2016. Não sei se te lembras mas no meio das passas que engoli à meia-noite também pedi noites de sono. Não precisam de ser todas, mas vá, uma noite de oito horas de sono por semana já não era mau...

    Adiante. Quando a virose passa e temos o primeiro fim-de-semana aparentemente tranquilo, o termoacumulador morre. Sim, no passado Domingo de manhã, água quente nem vê-la. Tomei banho de regador, à antiga. (Para os mais curiosos: ferve-se uma panela grande de água, mistura-se a água quente com a  água gelada que sai das torneiras num regador e toma-se banho como há cem anos. Não é tão mau como parece. Os miúdos acham o máximo, até que começam à chapada a disputar a porcaria do regador, pelo que ao terceiro dia passaram a ir tomar banho a casa da avó.) Quarta-feira tivemos a notícia de que o novo termoacumulador só chega hoje, pelo que, na melhor das hipóteses só amanhã teremos água quente. Tudo bem, tomo banho no ginásio OUTRA VEZ. Quem não adora um balneário húmido com o chão molhado e desconhecidas a entrarem e a saírem?

    Só que essa não foi a única má notícia de quarta-feira. Durante a tarde descobrimos que o lava-loiças entupiu (último andar, tubo de queda mal feito, situação recorrente), o que dá sempre jeito quando temos visitas a jantar. Loiça toda na máquina, o resto lava-se amanhã, pensei eu. Só que quando volto à cozinha para ir buscar o biberão de leite da miúda, está água a sair debaixo da máquina também. Sim. Entupimento a sério. Marido e irmão a tentarem resolver. Nada acontece. Dez e meia da noite. Chama-se o canalizador para a manhã seguinte. Vamos dormir, que amanhã está tudo resolvido.

    Ah espera, não vamos dormir nada, porque o miúdo está outra vez doente e grita e chora e tem de ir para a nossa cama e passa a noite a choramingar e a dar-nos pontapés nas costas. E quando finalmente acalma, a pequenina chama-me. São 5 da amanhã. Quer mais leite, que desde que começou o inverno (precisamente!), acorda toda as noites para o beber. Aposto que quando as noites forem menos frias isto passa-lhe. Sai à mãe.

    A história repetiu-se esta noite, mas está tudo bem. O ser humano adapta-se a tudo, mesmo a enormes temporadas sem descanso. Além disso, o mês está quase a acabar. Faltam dois dias. Eu sobrevivo. Parabéns Janeiro. Ganhaste. Por K.O.




  • Sempre adorei pintar as unhas. Aliás, os anos de prática fazem com que as pinte melhor que muitas manicures e num abrir e fechar de olhos. Gosto de experimentar cores, texturas e tempos houve em que me dava ao luxo de trocar de cor a cada dois dias, só porque sim. Até ao dia em que fui mãe.
    Depois de ser mãe descobri que não vale a pena perder o meu tempo. A não ser que opte por unhas de gel (e não, não é a minha cena). Horas depois de pintar as unhas já o verniz está riscado. Na manhã seguinte já está lascado. E em menos de 48h, com banhos, vestir e despir crianças, mudar fraldas, brincar com Legos, fazer uma sopa e outras refeições, uma ida ao ginásio, este é o resultado:

    Vou voltar ao verniz transparente até eles terem uns dez anos...

  • Ontem terminei o livro que andava a ler desde o ano passado. "Clarabóia" de José Saramago. O livro é óptimo, mas dois bebés em casa com viroses desde o início de Dezembro, não deixam muita margem para leituras, pelo que os livros, mesmo os bons, acabam por se arrastar tempo demais nas minhas mãos.
    Também por essa razão, a escolha do próximo livro a ler é-me sempre difícil. Nos meus tempos áureos de leitora voraz, lia o primeiro que agarrasse. Tinha uma pilha de livros "a ler" e qualquer um servia, porque sabia que ia acabar por ler todos. Agora, com o tempo contado, tenho muito mais cuidado antes de saltar para uma primeira página. Quero ter a certeza de que não vou perder as poucas horas que tenho para me dedicar a este prazer. Num mundo com tantos livros maravilhosos não me posso dar ao luxo de ler os "mais ou menos".
    Felizmente, este Natal recebi quatro livros que tenho a certeza de que são bons, pelo que desta vez não há como errar. Acho que vou fazer um-dó-li-tá. O que acham?

    Um - Vai e Põe uam Sentinela, Harper Lee
    Dó - Uma Rapariga Endiabrada, Nick Hornby
    Li - Contos, Hans Christian Andersen
    Tá - A Estrada Do Esquecimento E Outros Contos. Fernando Pessoa



  • Hoje assinala-se o nascimento de Charles Perrault, o criador do conto de fadas enquanto género literário e de personagens incríveis que ainda hoje marcam o nosso imaginário: Cinderela, Bela Adormecida, Gato das Botas, Capuchinho Vermelho, O barba Azul entre outros. 
    Obrigada, mestre, por nos fazeres sonhar. Eu, pelo menos, continuo a inspirar-me nas tuas histórias.









  • Acabei de descobrir o movimento "Mulher Não Entra", curiosamente criado por homens, que serve apenas para denunciar a NÃO presença feminina no espaço público, mediático e académico.

    Qual a relevância disto? TODA.
    É urgente que todos percebam que estes movimentos não são coisa de feministas. É urgente que todos percebam que não é uma questão de supremacia de um género.  É simplesmente uma questão de dar as mesmas oportunidades a homens e mulheres. Oportunidades não só para chegarem a lugares de topo, mas sobretudo para serem ouvidas.

    Parabéns aos autores desta ideia. Que sirva para que os portugueses aprendam a ver-se ao espelho e todos aqueles que acham que o feminismo é coisa do século passado percebam o quão longe ainda estamos da igualdade.








  • Queridos leitores,

    Sendo esta a minha época do ano ano preferida, não podia deixar de vos deixar algumas palavras.

    Palavras de gratidão por me lerem, por me comentarem, por me partilharem e, sobretudo, por me incentivarem a continuar a escrever neste blog. São vocês que me fazem sair da preguiça e correr atrás das palavras quando elas parecem esconder-se. São vocês que me fazem perder o medo quando começo a achar que não tenho nada de interessante para dizer. São vocês que me guiam quando me perco em devaneios, fazendo com que me concentre e dê sempre o meu melhor.

    Espero continuar a conseguir trazer-vos alguns momentos de reflexão ou de entretenimento (conforme o caso e o tom dos textos), aqui no blog e nos novos livros que já se desenham na minha cabeça.

    Boas festas e que 2016 seja um ano cheio de oportunidades para serem felizes.

    Beijinhos de flocos de neve,

    Filipa




  • As restruturações a que estão a ser sujeitas várias redacções deste país são tristes, mas são sobretudo o reflexo de um país que despreza a escrita e o pensamento. É um mal que grassa há várias décadas e que agora, na era digital, vem acentuar-se dramaticamente. E foi preciso haver despedimentos em massa para se começar a falar do assunto.

    Para mim há três razões fundamentais para que as coisas tenham chegado a este ponto.

    1) Os jornais começaram a ser geridos como empresas

    Não é uma novidade do século XXI (aliás os grandes grupos mediáticos começaram a surgir no século XIX), mas parece que foi neste século que se perdeu a vergonha. É que as empresas são criadas e geridas para darem lucro aos seus accionistas dê lá por onde der.

    Ora eu não tenho nada contra os accionistas seja do que for e até sou fã de um certo capitalismo. Mas na minha opinião, os lucros devem ser partilhados entre os accionistas depois de se pagarem salários justos, dignos e que deixem os profissionais motivados e empenhados em dar sempre o seu melhor. São esses profissionais que fazem do jornal um bom ou mau periódico. São esses profissionais que fazem conteúdos, que é precisamente o que as pessoas compram. Ou pensavam que as pessoas compravam o jornal para verem anúncios bonitos de página dupla?

    Assim, a mesma empresa que quer vender as suas páginas aos anunciantes por preços exorbitantes, afirmando que os números de circulação são fantásticos e toda a gente adora aquele jornal, são as mesmas que deixam de investir nos produtores de conteúdos, que acham que um estagiário faz o mesmo que um jornalista com quinze anos de experiência ou que dar uma notícia é apenas copiar o texto que lhe chega das agências noticiosas. Pois não é. E com o passar do tempo isso nota-se.

    A partir do momento em que os conteúdos deixam de ser interessantes, relevantes e sobretudo originais, a partir do momento em que os artigos de opinião deixam de ser estimulantes, agitadores e sobretudo bem escritos, não vale a pena comprar. Lá se vai o valor da página dupla para metade e mais uns jornalistas para o desemprego.

    2) Os jornalistas começaram a trabalhar por tuta e meia

    Para vingarem num mercado em crise, numa profissão saturada, num sonho de criança, os aspirantes a jornalistas aceitam qualquer coisa para conseguirem o primeiro emprego. O que interessa é começar, entrar na redacção, mesmo se for um estágio não remunerado, depois logo se vê, se eles gostarem de mim convidam-me para ficar, certo? ERRADO! Quando acabar o estágio, quando começarem as reivindicações salariais, as empresas só fazem uma coisa: substituem o estagiário/precário/jornalista-que-não-ganha-para-pagar-a-renda por outro que aceite ficar com o seu lugar, caladinho e agradecido, como deve ser.

    Por outro lado, os jornalistas desempregados começam a aceitar um preço simbólico pelas suas peças feitas em regime de freelancer, até ao ponto em que trabalham de borla. Sim, muita gente (jornalistas mas sobretudo cronistas) escreve de borla só para aparecer, só para poderem dizer que tiveram um texto seu publicado aqui ou ali, só para não estarem parados. Ora os donos dos jornais, podendo ter quem escreva de borla, não vão pagar para ter conteúdos. E passado o entusiasmo das primeiras peças publicadas, quem é que escreve com a mesma motivação a troco de (quase) nada? Que qualidade se pode esperar dali? Mais um entrevista feita por telefone, mais uma investigação feita na Net, que não há dinheiro para gastar em viagens nem tempo para falar com as pessoas cara a cara. Mais uma plataforma online onde se aceita publicar seja o que for, desde que não se pague nada, sobre o pretexto de estar a dar voz a novas vozes.

    3) O público acha que tem o direito a ter tudo de graça

    Notícias, música, espectáculos, livros e até os quadros com que decora a parede, tudo tem de ser baratinho ou grátis. Para quê comprar o jornal, se está lá tudo na versão online? E se não estiver, está noutro jornal qualquer ou no Google ou no Youtube ou no mural de um amigo. Ou seja, o hábito de ler as notícias de manhã ou ver o jornal à noite ainda existe. Falta é o hábito de pagar por esses produtos. Falta acabar com a mania de que qualquer um pode fazer um textozito, uma cronicazinha, uma reportagenzeca. Falta educar o público no sentido de acarinhar as pessoas que escrevem, que pensam, que investigam, que criam. Porque quando estas pessoas deixarem de fazer o que fazem tão bem, teremos de nos alimentar dos plagiadores, dos pseudo-intelectuais, dos acacianos na acepção queirosiana da palavra.

    Agora podemos substituir a palavra jornais por editora de livros, editora discográfica, produtora de espectáculos, e a palavra jornalista por escritor, músico ou artista e perceber porque é que o valor da criação intelectual e artística continua em queda. E assim continuará.


    ilustração de Mac &Ninny

  • Sim, estamos a chegar ao Natal.
    Bem sei que parece que foi ontem que estávamos a fazer as malas para as férias de Verão e, de repente, já o ano está acabar, a árvore de Natal precisa de ser desempoeirada, a casa ornamentada e, pensando bem, ainda não comprámos um único presente para ninguém. Pânico, suores frios, centros comercias cheios de gente, aquele sensação de gastar dinheiro em coisas que quem recebe pode não gostar, a falta de tempo, a falta de paciência e a falta de ideias para encontrar algo realmente diferente.
    Não desespereis, meus amigos, estou aqui para vos ajudar com 7 sugestões espetaculares, de marcas 100% portuguesas e que normalmente não constam nas listas típicas que vemos por aí. Vejam lá se não são o máximo:


    Botas Labuta

    Nascidas das mãos de três leirienses empreendedores, estas botas são uma homenagem às profissões e à arte do calçado tão típica do nosso país. Nacionais e muito ecológicas, as peles destas botas têm origem no desperdício da indústria alimentar e as lãs dos forros são 100% naturais. Mas a aposta da marca não descura o conforto e a ergonomia. Por exemplo, as palmilhas foram desenvolvidas em parceria com um Osteopata, para não só proporcionarem um conforto inegável, como também introduzirem diversos pontos de reflexologia que conferem um maior descanso ao pé, mesmo após longas caminhadas. A partir de €185


    Acessórios Carla M.


    As peças de Carla Matos são tudo menos convencionais. Para começar, são feitas a partir da reciclagem de material industrial, desde tubos a aço e borracha. Pode parecer um conceito estranho, mas aparentemente está a conquistar o mundo, e há quem as considere peças de arte. Pelo menos alguns pontos de venda são mesmo as lojas de conceituados museus de arte moderna.




    Óculos de madeira (sim, esta lista é mesmo muito ecológica), com lentes polarizadas e 100% UVA/B, de uma marca portuguesa que está a mudar o mercado óptico. Para começar, têm preços nunca vistos num produto desta qualidade e em segundo lugar vendem quase exclusivamente online, num site muito funcional onde até há um simulador 3D para vermos como cada modelo nos pode ficar. A partir de €54,90 com entrega em mão incluída.

    Cestas Toino Abel


    O recuperar de uma arte quase perdida, com um look muito contemporâneo, as cestas Toino Abel fazem as delícias quer das fashionistas, quer das saudosistas. Feitas à mão em Portugal, por duas tecedeiras e um fazedor de asas. A partir de €49. A-D-O-R-O!




    O beija-flor dedica-se à encadernação manual e a experiências com papel (reciclado!), com ênfase nos padrões e ilustração portugueses. Para o calendário de 2016, foi feito o convite a 12 ilustradores ( Mariana a Miserável / Heymikel / Ana Seixas / Marta Torrão / Catarina Sobral / Maria Helena / Carolina Celas / André da Loba / Júlio Dolbeth / Yara Kono / Sara Pazos / Madalena Matoso) para darem a sua visão de cada mês do ano, ilustrações essas que podem depois ser destacadas e guardadas. Tudo isto por cerca de 25 euros. Gostava tanto de um destes para a minha parede...


    Para aqueles que gostam de cozinhar, este é um presente muito apreciado. Flor de Sal das salinas algarvias aromatizado com condimentos tão típicos portugueses, com azeitona, pimentão, oregãos e limão, em bonitas embalagens e recomendado pelos melhores chefs portugueses. À venda em lojas gourmet e n'A Vida Portuguesa. P.V.P €6.50, pack de 5 por €29.90.

    Guia das Tascas de Lisboa

    E por falar em quem gosta de cozinhar, também há quem prefira mesmo é comer. Para esses, fica este maravilhoso guia onde, além dos nomes e moradas dos sítios onde se vendem os melhores petiscos da cidade (conheço o autor e sei que nisto de comer, ele não se engana), podem ficar a saber onde comer cozido, sardinhas e caracóis, quem é o tasqueiro que despacha clientes a soco e a tiro, onde beber vinho da pipa em pleno séc. XXI, onde se trinca o melhor piano grelhado do mundo e até onde é que se esperam nove horas pelo melhor bacalhau da cidade. Tudo isto por apenas €9.90! 
    À venda nas livrarias. Edição Oficina do Livro.




    Para mim não há presente como um livro e é das coisas que mais ofereço nesta época e fora dela, sobretudo às crianças. Recentemente descobri os livros da Cláudia Pinto Praça, que são histórias muito giras criadas em torno de posições de Yoga para crianças. Ou seja, para ler e fazer. O meu filho adora "O Leão que perdeu a Juba" e agora mal posso esperar para ler "A lagartinha que tinha um sonho". Aproveitem a promoção de Natal de 4 livros por 40 euros.


    E se depois disto ainda vos faltar um ou outro presente, não se esqueçam de incentivar a cultura e oferecer bilhetes para teatro, dança e concertos de artistas e companhias portugueses. É só ir a uma bilheteira e escolher: o que não falta por aí são bons espectáculos e centenas de artistas que merecem casas cheias.

    Feliz Natal!

  • Que Humanidade esta, em que o medo e o ódio se propagam mas o amor não.

    Hoje sou Paris, mas sou também Líbano e Síria e todos os outros países e cidades que são vítimas deste tipo de barbárie. Não há palavras de consolo que cheguem para o que se passa neste mundo.

  • Este é um dos principais mandamentos da maternidade. Esqueçam, por mais que neguem, por mais que achem que convosco isto não acontece nem vai acontecer, é uma evidência da vida e o número crescente de divórcios de casais com crianças pequenas só prova a sua veracidade.

    Já referi noutras crónicas que as mães estão frequentemente cansadas, irritadas, frustradas e a sentir-se culpadas. Cansadas por causa das noites mal dormidas e das tarefas extra que ter filhos implica. Irritadas porque os miúdos conseguem levar-nos frequentemente ao limite da paciência. Frustradas porque queremos fazer mil e uma coisas e ser mães, mulheres e trabalhadoras perfeitas, mas, inevitavelmente, alguma coisa fica para trás. Culpadas por sentirmos muitas vezes vontade de fugir ou de voltar aos tempos em que não tínhamos de nos preocupar com mais ninguém para além de nós próprias.

    Como a maioria das mães até são pessoas equilibradas, não despejam todos estes pesos no trabalho (embora muitas vezes nos apeteça arrancar a cabeça a certos colegas), nem nas crianças (que embora sejam muitas vezes causa da irritação, com as suas birras e manias, não pediram para nascer), nem nos amigos (que já vemos tão poucas vezes). Quem é que sobra, para descarregar toda esta energia negativa que se acumula ao longo do dia ou da semana? O desgraçado do marido.

    Pronto, até parece que já estou a ouvir aplausos de todos os homens que se têm sentido injustiçados ao longo de anos e anos. “Finalmente alguém que nos compreende” dirão uns, “eu sempre soube isso, mas nunca disse a ninguém” dirão outros, “vá lá, afinal não é só comigo” dirão outros ainda. Mas calma, senhores, não pensem que se esquivam assim tão facilmente.

    Eu assumo, em nome das mulheres, mesmo daquelas que não admitem que isto é verdade, que nós inevitavelmente vos trataremos mal em alguma altura da vida (ou do dia, para sermos honestos). Sim, vocês são o nosso saco de pancada. Sim, vocês são quem está ali ao lado no sofá no preciso momento em que nos está a dar um acesso de fúria. Sim, é errado descarregar toda a nossa raiva em vocês e, muitas vezes, até acabamos por nos arrepender, percebendo que fomos umas cabras, embora raramente o admitamos perante vós. Mas há muitas alturas em que vocês merecem cada decibel mais alto, cada copo atirado à parede, cada “não fazes nada de jeito” proferido.

    A verdade é que os homens, por mais participativos que sejam, não conseguem pensar muito para lá do seu umbigo e não conseguem antecipar as mil e uma coisas que precisam de ser feitas em relação às crianças e às tarefas domésticas e é isso que nos tira do sério. Senão vejamos estes cenários típicos.

    1. A ida de férias

    Enquanto a mãe tenta fazer as malas dela e dos pequenos, com uma lista de três páginas na mão para garantir que não se esquece de nada, entre medicamentos, brinquedos preferidos, chapéus, toalhas, casacos, carregadores disto e daquilo, escovas de dentes, lanches para o caminho, saco das fraldas, etc., etc., etc., o pai faz a sua malinha e vai para o computador estudar o itinerário ou verificar o tempo para a região ou qualquer outra coisa pouco importante perante o peso da responsabilidade de não deixar nada para trás. No meio das três páginas da lista, a mãe ainda consegue escolher a roupa para a viagem, separar os irmãos que se estão a pegar por causa do telecomando e tirar a côdea das torradas do mais novo, porque “o pai não tirou” apesar de saber (se não sabe devia!) que o miúdo é um esquisitinho e não come as torradas de outra maneira. É claramente uma questão de minutos até a mãe rebentar e proferir um “ importas-te de largar a #$%?! do computador e ajudar-me????”. O pai, desorientado, responde com espanto “já podias ter dito que precisavas de ajuda”. A sério? É mesmo preciso dizer?

    2. O final do dia

    Quando o pai chega a casa, já os miúdos estão na sala a brincar pacificamente, de banho tomado, enquanto a mãe faz o jantar. O pai entra, acaba de pôr a mesa e senta-se no sofá. Dois minutos depois a mãe aparece aos gritos com mil e uma perguntas e exigências. “Olha lá, porque é que não levantas o rabo do sofá e não tiras a roupa da corda? Ao menos, guarda a tua roupa, que já está dobrada em cima da cama. Trouxeste leite? Não? Não me digas que não reparaste que bebemos o último pacote de manhã? Tenho de ser eu a pensar em tudo, bolas, até parece que não vives cá em casa!”. E o leitor questiona-se “será que a mãe não está a exagerar? Pobre homem que chegou da labuta, que só tirou um minuto para relaxar no sofá depois de um longo dia de trabalho...”. Talvez, caro leitor, talvez. Mas o que o leitor não sabe é que antes do pai chegar ao lar aparentemente harmonioso, já a mãe trocou de roupa três vezes: a primeira depois de tentar dar banho a um terrorista que aprendeu a mexer no chuveiro, a segunda depois do outro bolsar o leite todo e a terceira quando um deles atirou o prato da sopa pelo ar. Também teve de limpar a casa de banho alagada e recomeçar a fazer o arroz, que entretanto se pegou ao tacho. Se o cavalheiro, em vez de se sentar no sofá, tivesse ido ter com ela com um doce “o que é que posso fazer para te ajudar?” teria ganho um sorriso e a harmonia familiar.

    3. O passeio de Domingo

    Quando o pai calmamente se levanta, à terceira vez que a mãe o tenta acordar, repara que o seu “Bom dia, dormiste bem?” não tem resposta. Acordou maldisposta, pensa ele. Não caro amigo. Não acordou maldisposta. A má-disposição veio de mais uma noite mal dormida, que incluiu mudar a cama à criança e sossegar um pesadelo, seguida de um despertar madrugador, porque “mamã já não tenho sono e quero papar mas tens de ser tu a fazer o pequeno-almoço porque o papá não sabe como é que eu gosto dos cereais”, seguida de um estender a roupa que lavou durante a noite para ver se está seca logo à noite e poder ser passada a ferro enquanto o senhor vê os resumos da jornada desportiva sentadinho no sofá, seguida de um escolher a roupa de toda a gente e verificar se o saco das fraldas tem uma muda de roupa porque vamos estar todo o dia fora e já agora é melhor levar bolachas, e o chapéu, e a bola caso vamos ao jardim, e um boião de fruta caso o almoço se atrase.

    Ou seja, as mulheres maltratam os maridos depois de serem mães. Sim, é indiscutível. São menos doces, menos disponíveis para o amor, menos preocupadas com o dia dos maridos, menos atentas às suas necessidades. Sim, devemos fazer um exame de consciência de vez em quando e pedir desculpa, ser mais tolerantes e perceber que os homens não têm o mesmo jeito natural que nós com os miúdos e, lá diz o ditado, “mãe há só uma”. Mas senhores, cresçam um bocadinho e parem de se fazer de vítimas. Abram os olhos e vejam para lá do vosso umbigo. E se não têm o poder de antecipar as necessidades dos filhos ou das tarefas domésticas, mesmo as mais básicas como a necessidade de lhes vestir as calças do pijama porque se destapam todos de noite ou a necessidade de fazer a cama todos os dias, então perguntem e, acima de tudo, antes de se espojarem no sofá ou começarem a brincar com o iCoiso, ofereçam a vossa ajuda. Ela será muito apreciada e contribuirá para cada vez menos momentos de maus tratos.


    ilustração por Sofia Silva mademoisellesilva.blogspot.pt

  • A sério que estavam à espera que o presidente nomeasse um governo formado à má-fila, baseado num acordo que ninguém conhece, que é acordo mas ninguém se compromete para 4 anos, cujo o único objectivo é tirar do poder PSD-CDS, a qualquer custo?
    Acham que isso é que traria estabilidade? Quanto tempo duraria a fachada?
    Se o PS realmente quisesse a estabilidade para o país, tentava negociar honestamente com aqueles que ganharam as eleições e que estão mais próximos da sua posição na Europa (ou agora também já são contra a Europa?). Seriam uma oposição séria e credível, que obrigasse a coligação a recuar em tudo aquilo que realmente pode e DEVE recuar (e há muito espaço para isso, oh se há!)

    Este desabafo nada tem a ver com a minha preferência partidária, até porque não tenho nenhuma. Tanto defendo um mercado de trabalho mais liberal, como defendo a legalização do aborto ou a adopção por casais gay. Aliás, o que eu gostava mesmo era de ter um sistema eleitoral que me permitisse votar em pessoas e nas suas ideias, e não em partidos e jotinhas que vão parar ao poleiro. Mas isso seria tema para outra crónica.

    Não me incomoda a hipótese de ter um governo de esquerda. Até gostava de ver se realmente conseguiriam mais humanismo, mais justiça e mais solidariedade sem perder a competitividade e o crescimento económico sem o qual nenhum de nós quereria viver.  Adorava acordar perante um programa de governo realmente inovador, responsável e que acabasse rapidamente com coisas ultrajantes como o número de crianças que vai para a escola sem comer ou as pessoas que morrem nas listas de espera, por exemplo.

    O que me incomoda  e muito é o chico-espertismo, a sede de poder e um PS que continua a agir como se não tivesse nada a ver com o buraco em que nos enfiou durante os governos de Sócrates, como aliás se viu durante toda a campanha eleitoral Tenham paciência!

  • Confesso que não sou a pessoa mais viajada do mundo. Aliás, só há uns meses, quando estava a arrumar uma gaveta, reparei que o meu passaporte caducou em 2012 e eu nem dei por isso. No entanto, já levo algumas cidades emblemáticas no meu álbum de viagens e, tirando o Oriente, já pude visitar sítios como Nova Iorque, Marrakesh ou Rio de Janeiro, bem como muitas capitais europeias. O que me dá a capacidade de chegar a algumas conclusões e fazer afirmações como a do título desta crónica.

    Vem isto a propósito de ter acabado de chegar de Barcelona onde passei quatro dias de descontracção (isto é, sem filhos!). Não foi a primeira vez que visitei esta famosa cidade catalã, pelo que desta vez o plano era mais deambular pelas ruas, e não andar a saltar de monumento em monumento a tirar fotografias. Assim, sem o deslumbramento de estar nos locais que ilustram o nosso imaginário, pude sentir a cidade verdadeira.  E o que descobri foi uma cidade escura (talvez porque os passeios são cinzentos e os prédios da cidade velha sejam daquela cor-de-burro quando foge provocada pelo tempo e pela poluição), onde as pessoas não são particularmente simpáticas, onde o barulho em qualquer parte é ensurdecedor, onde a poluição faz comichão nas narinas e onde as ruas mais conhecidas parecem a saída do metro em hora de ponta. É uma cidade bela e cheia de vida, mas ao final de cada dia ia para o hotel a interrogar-me porque será que toda a gente quer visitar Barcelona quando existe um sítio como Lisboa.

    Passei quatro dias a pensar no Miradouro da Graça, no Cais das Colunas ou na Rua Garrett, que mesmo num sábado à tarde em vésperas de Natal é mais calmo que o mais calmo dos dias nas Ramblas. Por cada rua apinhada do Bairro Gótico, lembrava-me de Alfama, que mesmo com turistas, guarda sempre recantos genuínos por descobrir. Na zona da marina e do porto só me apeteceu fugir para um qualquer ponto da nossa zona ribeirinha, do Parque da Nações a Belém, linda, "rosa e limão sobre o Tejo" como a descreveu Eugénio de Andrade, emoldurada pelo Cristo Rei e pelas pontes.

    Lisboa pode ser pequena e pode ter ruas esburacadas e pode ter bairros tristes e outros parolos e outros armados em finos e prédios que são autênticas aberrações, mas o conjunto de todas essas coisas, aliado aos monumentos, à história, às pessoas, ao "cheiro de flores e de mar",  no qual só se repara quando não o temos, faz de Lisboa uma cidade sem igual. Mesmo inundada de tuk-tuks e turistas, que para mim serão sempre bem-vindos e só trazem mais cor (e dinheiro) às nossas ruas.

    Em conclusão, isto não é uma carta de amor à cidade do meu coração, até porque há centenas de fados e poemas que já enalteceram a beleza e autenticidade de Lisboa, muito melhor do que eu alguma vez poderia fazer. É apenas uma constatação feliz de que tenho a sorte de viver na cidade mais bonita.

  • Este Domingo não posso ir votar.

    Esta pode parecer uma frase banal e que milhares de portugueses estão a pensar verbalizar nos próximos dias, uns porque estão a viver demasiado longe do seu círculo eleitoral, outros porque estão doentes, outros ainda porque vão estar a trabalhar. Enfim, existem inúmeros motivos para alguém não poder votar. Mas para mim, defensora da liberdade, lutadora pelos direitos humanos, activista ambiental e feminista de coração, é algo que me pesa toneladas na consciência.

    Sei que não devia estar tão pesarosa. Não posso fazer nada. Vou numa viagem que está marcada desde o ano passado, e não podia imaginar que entre tantos fins-de-semana possíveis o nosso querido Presidente fosse logo escolher este para marcar as eleições. Ainda contactei a comissão nacional de eleições para fazer o voto antecipado, que é possível para quem está em trabalho, preso, doente ou em representação do país, mas não é possível para quem vai de férias, por muito que deseje tanto ou mais que os outros exercer o seu direito. Mas não consigo deixar de estar.

    Assim, não podendo eu votar, peço a todos os que podem que não deixem de o fazer. Porque não poder é diferente de não querer e quem não quer é porque está completamente alienado ou desinteressado do que se passa à sua volta e da importância deste pequeno direito, que só há cerca de 40 anos se tornou universal.

    Votem à esquerda, à direita, ao centro (há 15 opções em muitos distritos), votem em branco se quiserem mostrar o vosso desagrado ou se não encontrarem nenhum partido que vos represente, mas votem. Porque a abstenção só favorece os partidos, e não os cidadãos. Na abstenção vão estar as pessoas que, como eu, não podem ir votar, mas também as pessoas que estão completamente desinteressadas do rumo do país. E eu gostava de acreditar que, seja à esquerda ou à direita ou ao centro, os portugueses ainda têm algum interesse em Portugal. E se não tiverem, que tenham pelo menos algum interesse em poder continuar a gozar de um direito pelo qual milhões de pessoas em todo o mundo lutam e milhões de outras deram a vida ao longo da história.

  • Que a sociedade está cada vez mais alienada e pouco civilizada já eu sabia. Basta por um pé na rua para continuar a ver pessoas a deitar lixo para o chão, a cuspir sem cerimónia quer muco quer asneiras, a não segurar as portas quando alguém vai passar, já para não falar do cada vez mais raro que é ouvir as palavras bom dia ou obrigada. Cada um vive no seu casulo (caverna talvez seja o termo apropriado) e não é de estranhar que não haja qualquer interacção ou simpatia para com um estranho, quando muitas vezes também não a há para com elementos da sua própria família (tribo talvez seja, mais uma vez, o termo apropriado).
    Ainda assim (chamem-me ingénua!), gosto de acreditar que é possível construir um mundo melhor, que é possível educar os grunhos, que o ser humano tem capacidade para ser solidário, amável ou simplesmente cordial. Sim, gosto de acreditar, embora seja cada vez mais difícil manter esta crença e o último mês, com a crise dos refugiados, tenha sido fértil em momentos que aniquilam a esperança de qualquer um na espécie humana. E se já é difícil conviver com a indiferença ou com a falta de ... humanidade? entreajuda? nem sei qual a palavra certa, quando os problemas são dos outros, é ainda mais complicado lidar com isso quando os problemas são nossos.
    Então, prestem atenção a este ilustrativo episódio que se passou comigo ontem:
    Fim de tarde, saio com as crias para um passeio no parque. Cria mais velha (três anos e meio) vai na sua bicicleta e cria mais nova (18 meses) vai no seu triciclo. Estão várias pessoas à porta de cada estabelecimento comercial da rua onde vivemos e algumas até sorriem para as crianças. Dobramos a esquina e eis que a cria mais nova se estatela no meio da calçada, batendo com a cara em cheio no chão. O meu coração pára e a primeira coisa que me passa pela cabeça é que partiu o nariz ou a abriu um lenho na testa. Levanto-a do chão e vejo que não foi isso. Cria chora e tem a boca cheia de sangue. Penso que partiu os dentes, mas com o dedo percebo que estão todos lá. Temos de voltar já para casa, lavar-lhe a boca, estancar o sangue, pôr gelo. Pego na cria mais nova ao colo com um braço, enquanto carrego o triciclo no outro e imploro à cria mais velha para vir atrás de mim.
    Quando dobro novamente a esquina, para a rua onde várias pessoas, homens e mulheres, novos e velhos, continuam a conversar ou a fumar à porta dos estabelecimentos comerciais, a cria mais nova chora desalmadamente com a boca e as mãos cobertas de sangue, enquanto que a cria mais velha chora porque não percebe porque é que já não vamos ao parque. Eu tento correr até à minha porta, cria num braço, triciclo no outro, mancha vermelha no meu casaco, "a mana tem sangue" grita a cria mais velha, toda a gente a olhar para nós mas... ninguém, absolutamente ninguém se mexeu. Repito: cria de 18 meses com a boca cheia de sangue, cria de três anos a chorar atrás de mim, eu a pedir "por favor Tiago, vem atrás da mamã, a mana magoou-se mesmo" e NINGUÉM ofereceu ajuda! Ninguém esboçou o mínimo gesto de auxílio, pegar no triciclo para que eu conseguisse carregar a miúda, oferecer uma garrafa de água, um lenço de papel, NADA!
    Conclusão: se ninguém se comove com uma mãe com um bebé ensanguentado nos braços e um menino de 3 anos atrás dela a chorar, então a humanidade está perdida e o fim do mundo está próximo.



    Nota: A cria mais nova está bem. Foi apenas o lábio superior que sangrou, mas parou logo assim que lavámos com água fria. Parece que pôs Botox, mas tirando isso, está maravilhosa.
  • Escrevo esta crónica para todas aquelas que estão a pensar, a gerar ou a pegar pela primeira vez num segundo filho. E escrevo, mais uma vez, para vos alertar sobre aquelas pequenas coisas de quem ninguém fala. Porque as há e não são poucas.
    Tal como antes de termos o primeiro toda a gente nos pergunta quando é que vamos ter um filho, quando este nasce a pergunta passa a ser “e para quando o segundo?”. Os argumentos de incentivo são infindáveis: é amor a dobrar, o melhor presente que podes dar a uma criança é um irmão, onde come um comem dois, à segunda já sabes tudo, era giro teres um casalinho, e por aí fora. Tudo muito bonito, tudo muito verdade, sim; mas cuidado, não se deixem enganar pela euforia dos adoradores de bebés, porque a verdade que ninguém vos conta é que, no toca a filhos, um mais um não é igual a dois.

    Cada filho é diferente do outro
    A primeira grande ilusão que nos faz querer ter um segundo filho é que este vai ser como o primeiro. Partindo do suposto que o primeiro foi um bebé fácil, claro. Mas mesmo para os que tiveram bebés difíceis, tipicamente, quando começam a pensar no segundo filho já o primeiro tem mais de um ano, isto é, já é um ser adorável, brincalhão, que anda, brinca, fala e até começa a comer sozinho. Mais: já se pode deixá-lo a brincar na sala enquanto vamos fazer o jantar ou folheamos uma revista no sofá.
    E porque nisto da maternidade quanto mais o tempo passa mais a memória se torna selectiva, o parto, os primeiros dias em casa, as cólicas quando as houve, os dentes, a canseira daquela fase em que nem andam nem querem estar sossegados numa espreguiçadeira, tudo começa a ser esquecido e já só nos lembramos do cheirinho a bebé, dos refegos, dos sorrisos e das emoções das primeiras vezes. Assim, quando damos por nós, já parámos de tomar a pílula, ignorando que a segunda gravidez, o segundo parto e o segundo filho podem ser literalmente o oposto do primeiro. Podem e geralmente são.

    O trabalho não duplica, multiplica
    Outra das ilusões é que o trabalho vai apenas duplicar. Supostamente seria assim, mas não é. A sensação que uma mãe de dois filhos tem é que eles se multiplicam, não em presença física, até porque não são Gremlins atingidos por água, mas em disparates. E em roupa suja... É dar o biberão a um enquanto fazemos um puzzle com o outro, é limpar o chocolate que um deixou cair no sofá com uma mão, enquanto agarramos o que acabou de tropeçar com a outra, é pedir uma pizza ao telefone enquanto um grita que quer o Canal Panda e o outro o Cartoon Network. Não há um minuto de tréguas. Para ajudar à festa, onde antes havia dois adultos para uma criança o que, bem ou mal, permitia dividir o trabalho pelos dois, agora há um empate técnico. Ou no caso de famílias monoparentais, uma clara desvantagem. A expressão “multitasking” foi definitivamente inventada por uma mãe.

    Cansada passa a ser o nosso estado natural
    Bom, agora que o primeiro filho já está grandinho e todas as rotinas estão implementadas, eis que chega um novo elemento à família para trocar as voltas todas. Parabéns. Vais descobrir que afinal é possível sobreviver longos meses sem dormir mais do que cinco horas seguidas, sem fazer uma refeição completa (e quente) e sem ter tido um momento a dois com o teu marido. E porquê? Porque os irmãos têm sensores e combinam um com o outro maneiras de nos torturar. Por exemplo, se o bebé dorme a noite toda é o mais velho que tem um pesadelo; se um se porta bem ao jantar, o outro não quer comer; se um está cooperante, o outro está do contra. Tudo isto aliado com o ponto acima faz com que haja dias em que vais acabar tão, mas tão cansada que desejas adormecer e só acordar daqui a três anos.

    O tempo para nós desaparece
    Demora mais ou menos um ano até que uma mãe de primeira viagem consiga voltar a fazer as suas coisas. Ir ao cinema, ao ginásio, tomar um longo banho de imersão, jantar fora com as amigas e esse tipo de programas. É uma questão de ganhar confiança no marido, na mãe/sogra ou na baby-sitter. Mas, de repente, começa tudo outra vez e, se já era complicado deixar um bebé com alguém, mais difícil se torna deixar dois. A minha mãe e a minha sogra até se oferecem para ficar com os dois ao mesmo tempo, mas eu não sou assim tão má. É muito giro durante uma hora ou duas, mas mais que isso, começa a ser verdadeiramente desafiante e fisicamente desgastante, pelo que acabamos por não ter coragem para repetir o pedido muitas vezes.
    Assim, se com um filho já não é fácil arranjarmos tempo para nós próprias, com dois ou mais filhos o desafio é avassalador. É chegarmos ao ponto de não termos tempo para tirar o verniz das unhas ou arrancar uns pêlos das sobrancelhas, quanto mais ter energia para beber um copo com os amigos à sexta-feira ou ir ao ginásio três vezes por semana. E quanto a longos banhos de imersão, não aconselho: o mais provável é adormecermos na banheira ao fim de dois minutos, com risco de afogamento.

    Eles não se entretêm uns aos outros
    Muitos pensam que é óptimo ter mais do que um filho porque os irmãos se entretêm uns com os outros, libertando assim os pais para os seus afazeres normais (se é que ainda se lembram do que eram os afazeres de uma vida sem filhos). Nada mais enganador. Enquanto são pequenos não podemos deixá-los a sós, por razões óbvias: as crianças esquecem-se que um bebé não é um boneco e os bebés querem fazer o que os mais velhos fazem, resultando em acidentes inevitáveis. Quando crescem, começam as brincadeiras a dois, mas também os disparates (mais de 10 minutos de silêncio e é melhor irmos espreitar o que se passa) e as famosas lutas fratricidas (“oh mãããããeeee!!!” passa a ser a expressão mais ouvida).

    A solidariedade entre irmãos é tramada
    Sim, é lindo vermos um irmão a defender, a ensinar ou a ajudar o outro, mas muitas vezes a solidariedade entre irmãos funciona contra nós. Quando um chora o outro chora porque o mano está a chorar; quando um faz um disparate que provoca o riso, o outro imita para também ser engraçado; quando um tem sede o outro também fica com sede. Unem-se ainda na hora de vestir (correndo um para cada lado), na hora do banho (transformando a casa de banho num lago) ou na hora de ir para a cama (saltando de cama em cama como macaquinhos). Por fim, e este ponto é inevitável e extremamente desgastante, quando um fica doente o outro fica logo a seguir, pelo que os típicos dois ou três dias em casa passam a ser cinco ou seis.

    Portanto, é um facto indiscutível que o amor, as alegrias, as gargalhadas de dois filhos são a dobrar. E é tão bom que, se os filhos chegassem já com um ano e eu tivesse condições financeiras, até tinha mais um ou dois. Não imagino um mundo em que um filho meu não tivesse pelo menos um irmão e em que eu não tivesse pelo menos dois filhos. É maravilhoso vê-los interagir, vê-los abraçarem-se, e é fascinante perceber como podem duas crianças nascidas dos mesmos pais ser tão diferentes e únicas e especiais. Mas que é uma canseira, é. Acreditem. E que há alturas em que vão desejar fechá-los num quarto até à manhã seguinte, também há. O caos faz parte do processo de ter uma família grande e um dia vamos morrer de saudades dele.

  • Eis um momento que não esperava ver acontecer. A personagem principal de um romance recém lançado passa quase um capitulo inteiro a falar do meu livro "Os 30 - Nada É como Sonhámos". Estou espantada e orgulhosa e grata ao autor, Paulo Caiado, por tal honra no seu livro de estreia. É isto então o que significa a nossa obra ganhar vida própria.

    Aqui fica o excerto:

    «12 

    Umas semanas depois, chega finalmente o dia. Começo a encher a mala de livros. Uma pequena pilha de livros de contos e pequenas crónicas de José Eduardo Agualusa e de Mia Couto, para mergulhar nos seus mundos oníricos, e um livro de contos de Lobo Antunes, para ver se não fico como um dos seus personagens ao envelhecer. Levo também o último livro de Rosa Lobato Faria, Vento Suão. A Diana chorou a sua morte como se de uma familiar próxima, de uma amiga e confidente, se tratasse. E, horas depois, desabafou comigo: 
    – E o pior de tudo é que nunca mais terei nada dela! 
    Este Vento Suão foi um agradável presente de despedida que a Rosa nos deixou. Um presente inesperado, um último adeus, para que não partisse assim de surpresa e nos deixasse a todos sem uma última lembrança. Levo-a comigo nesta viagem e sei que ela vai dar-me um daqueles momentos que são só meus. 
    O último livro que coloco no saco é um excelente romance sobre a crise dos trinta. Intitula-se mesmo Os Trinta – Nada É Como Sonhámos, de Filipa Fonseca Silva. Um romance levezinho, tão leve que se embrenha em nós até à alma. Soube da sua existência num final de tarde. O Fernando Alvim fazia uma das suas entrevistas na rádio e, desta vez, conversava com a autora desta obra. O tema parecia interessante, e fiquei cativado pelo pouco que ouvi, tanto mais que eu, já a caminho dos cinquenta, poderia fazer uma leitura mais imparcial e menos emotiva do livro. Não nego que o facto de o Alvim ter feito, em determinado momento da entrevista, um enorme elogio à beleza da autora me ajudou a memorizar o título. Os meus critérios para escolhas de leitura têm uma amplitude muito questionável! 
    Ainda não partira e já abria o livro para uma primeira espreitadela. Tenho o péssimo hábito de começar a ler muitos livros pelo fim e, pior ainda, de ler capítulos salteados para trás e para frente. Sou um pouco louco, eu sei! Desta vez contudo, comecei pelo princípio. 
    Os capítulos estão escritos na primeira pessoa e giram à volta de três personagens. Quando li o primeiro capítulo, fiquei em choque. O protagonista era eu! Quero dizer, era eu aos trinta anos! Meu Deus! Fui descoberto, entraram-me na alma! E, ao longo do livro, fui-me identificando cada vez mais com o personagem, embora tenhamos percursos de vida diferentes. É claro que há momentos que não são meus, como a parte em que a sua casa é uma permanente desarrumação! Eu sou Virgem, o que significa que sou bastante arrumado! Bem que gostaria de ser um outro personagem da história, (mas esse papel teria de ficar para o Marcos), um surfista na casa dos trinta, que namora todas as miúdas da praia e acaba com a cheerleader! Mas eu não sou assim, nem nunca fui. Não tenho aspecto físico para esse score e, tal como o «meu» personagem ganhou juízo em determinada altura, houve um dia na minha vida em que decidi crescer. E lembro-me perfeitamente do dia em que isso aconteceu. Foi o dia em que comecei a namorar com a Diana. 
    A história gira à volta da vida de cada um dos personagens principais, reunindo-os finalmente a uma mesa de jantar, numa roda mais ampla de amigos. E a certa altura, a protagonista conclui que tem muitos amigos, mas que já pouco tem para lhes dizer. Que as conversas fluem à sua volta, mas que não lhe apetece participar em nenhuma, e que já têm tão pouco para dizer que as conversas vão inevitavelmente parar a episódios do passado. Identifico-me tanto com este personagem! Tenho tantos e tão bons amigos. Mas chega uma altura em que, mesmo com eles, os segredos e confissões, as cumplicidades e longas dissertações sobre os absurdos da vida, deixam de ser partilhados. Sentimo-lo aos trinta (e continuamos a senti-lo pela vida fora!) e sentimo- -nos sós. Sós entre a multidão. Temos medo de desabafar. Temos medo deles! Da nossa vulnerabilidade. O personagem questiona-se sobre quando é que os amigos deixam de ser aqueles a quem contamos tudo, para se tornarem pessoas com quem temos medo de falar. É uma situação que surge entre os vinte e os trinta e que depois se mantém pela vida fora, a menos que conheçamos novas pessoas com quem consigamos recuperar essa intimidade. E quando nos separamos e ficamos sós, deixamos de fazer parte dos programas sociais dos casados. Dos jantares aos pares. Cada vez mais somos postos de lado como se tivéssemos chegado à idade adulta e tivéssemos de singrar pelos nossos pés. Temos de encontrar novas amizades entre os solteiros ou divorciados, temos de sair com mulheres que não conhecemos, nem de quem somos amigos. Temos até de encontrar novos locais onde ir para não nos cruzarmos com os amigos aos pares, que ficarão tão embaraçados como nós por não estarmos juntos. E depois cumprimentamo-los e respondemos com um «Está tudo bem!», quando nada está bem! Como poderia? Separámo-nos de alguém, mas parece que acabámos por nos separar de toda a gente que nos rodeava. E apetece-me escrever à autora para lhe dizer que, se é assim aos trinta, ela que se prepare para os quarenta! 
    A protagonista confessa a sua solidão, o silêncio que recebe em troca das suas lamentações. Ninguém quer ouvir-nos, a autocomiseração não está na moda! E já não há o apoio solidário, já não existe a ajuda dos amigos que falam com o Outro para o dissuadir, para o aconselhar, para o ouvir para depois nos contar. Estaremos nós assim? É isso que procuramos? Estaremos sempre a recomeçar para poder partilhar sem receios? Talvez. 
    Ao continuar a ler o livro, dois dias depois, deitado no deck do barco banhado pelo Sol, vivo um momento meu. Uma cena de reencontro de dois personagens. De dois seres que se amaram no passado, se separaram e viram que, afinal, nunca deixaram de se amar e que, nesse momento de reencontro, juram amizade eterna. Um capítulo que li com uma lágrima teimosa a marejar-me os olhos (Espuma das ondas, expliquei eu). O reencontro de dois seres que se amam e nunca deveriam ter- -se separado. Ela é linda e inteligente, ele também. Sabe-se a razão da separação: ela é heterossexual, ele é gay. E naquele encontro e naquela promessa de amor eterno, encontramos uma certeza tão absoluta, um amor tão puro que dei por mim a invejá-los. A invejar a amizade, a cumplicidade, a partilha que todos nós vamos deixando para trás, enquanto nos preocupamos em fazer a vida andar para a frente. 
    Depois de um dia em que não consigo pegar no livro, tenho finalmente um momento de tranquilidade e retomo a leitura. O protagonista lamenta-se de que os amigos insistem para que arranje uma namorada, mas ele, com o seu mau feitio, o que quer é ter novos amigos que o obriguem a pensar, que o levem a novas experiências e que o ouçam. Que o ouçam com olhos de ver, como eu costumo dizer. Escutando, aconselhando, compreendendo e criticando, se for caso disso. Acabo por sentir que tenho muita sorte com os meus três amigos. Que se esforçam verdadeiramente para chegar até mim. Para furar a minha carapaça. Mas acabo por me interrogar: se eles não estivessem disponíveis, solteiros como eu nesta fase da sua vida, teriam tempo para mim? Quem teria eu para me apoiar neste momento, senão meros conhecidos a quem eu, no desespero da solidão, entregaria a chave da minha amizade e dos meus momentos mais íntimos? 
    No final, um dos protagonistas reencontra uma paixão antiga, uma jovem do seu passado, um final de história lindo, não pelo reencontro com o seu primeiro e único amor, mas pelo reencontro com a sua alma gémea. E fecho o livro com os olhos marejados de água. O raio do barco que não pára quieto!»

    Um Momento Meu, por Paulo Caiado (Marcador 2015)



  • Parece que a dupla Dolce & Gabanna leu a minha crónica "É preciso readaptar o guarda-roupa" antes de criar a sua última colecção Outono Inverno, oferecendo uma visão super romântica e glamorosa de uma mãe.
    Não é a primeira vez que a dupla recorre ao imaginário da "grande família", à italiana, nas suas campanhas publicitárias. Aliás, tem sido algo recorrente nos últimos anos. Mas desta vez foi um bocadinho mais longe: criou uma colecção que faz o elogio à figura materna, com frases como "és a mamã mais bonita do mundo" ou "adoro-te mamã"; um desfile onde as modelos foram convidadas a levar os seus filhos, incluindo os que ainda estavam dentro da barriga; e uma campanha de imprensa onde as mães são as estrelas.
    O que posso dizer sobre isto? Uma só palavra. AMO!!!!!
    E agora vou ali babar mais um bocadinho para cima das imagens da colecção. Até já.
















  • A versão inglesa no meu novo livro já está disponível na Amazon. Ou seja, já podem falar dele aos vossos amigos estrangeiros (e devem ser muitos, já que metade das pessoas que conheço ou já emigraram ou vão emigrar).
    Para já só está disponível em eBook, mas estou a tratar da versão em papel para os próximos meses. No entanto, as fantásticas ilustrações da Sofia Silva estão lá, para serem apreciadas também num ecrã.

    E se, entretanto, algum dos meus queridos leitores tiver uma conta na Amazon e quiser deixar lá o seu comentário sobre o livro (de preferência em inglês), ficarei eternamente agradecida. Como já referi em várias ocasiões, os comentários de leitores são muito importantes para quem anda a pesquisar livros online e, no fundo, são a única hipótese de fazer passar a mensagem num mercado tão vasto como a Amazon. Mas lembrem-se: é importante que sejam opiniões sinceras.

    Desde já, muito obrigada!




  • Não gosto de falar de política. Os meus conhecimentos de História, de Economia, de Ciência Política são demasiado superficiais para me pôr aqui a analisar cenários e a tecer conclusões sobre o que se está a passar na Grécia e, consequentemente, na União Europeia. Sobretudo o como e o porquê. Toda a minha opinião sobre o assunto é baseada na informação que vejo e leio nos Media, que como todos sabemos, nem sempre são isentos e imparciais. No entanto, não consigo assistir calada a esta tragédia, uma tragédia que não é só grega.

    O que aconteceu este fim-de-semana vem apenas provar o que muitos, de esquerda, de direita, do centro, têm vindo a dizer nos últimos anos, mais precisamente desde que a crise de 2008 veio desfazer o mito da prosperidade continental: a União Europeia é uma anedota. É uma ditadura económica que se impõe a qualquer pretensão de soberania que tenhamos. E nós, os povos que elegem cada uma das pessoas que estão no poder, temo-nos deixado levar por esta história politicamente correcta do somos todos europeus, vamos todos cantar a uma só voz, nunca mais vamos ter uma guerra. Deixámo-nos embalar pela conversa de estarmos a criar uma União "fundada nos valores do respeito pela dignidade humana, liberdade, democracia, igualdade, Estado de direito e respeito pelos direitos humanos" quando, no fim, os únicos valores que contam são os da banca. Provavelmente não devíamos estar surpreendidos, até porque, na sua génese, os principais objectivos da Comunidade Económica Europeia eram simplesmente o desenvolvimento de um mercado comum e de uma união aduaneira entre os países membros. Mas não deixa de me chocar.


    Em 2012, a União Europeia foi laureada com o Nobel da Paz "por ter contribuído ao longo de mais de seis décadas para o avanço da paz e da reconciliação, democracia e direitos humanos na Europa" e agora é a primeira a impor a sua vontade arrogante,  pondo na gaveta todas as palavras bonitas que tão bem servem os discursos políticos. Não quero ser pessimista, mas vejo esta postura como o princípio do fim.


    Não acho que a Grécia esteja isenta de culpa do estado a que chegou, tal como nós portugueses não estamos com o que se passa por cá. Mas recorrer à chantagem, "ou assinas ou sais do euro", desrespeitando a vontade do povo grego, que elegeu aquele governo, e não os governos dos que agora ditam as regras, é um escândalo. Significa que em Outubro, mais uma vez, também nós vamos votar para nada, para eleger um Governo fantoche que mantenha o estado das coisas, bom aluno, cumpridor das imposições dos outros, mesmo quando isso significa o sacrifício absurdo de quem o elegeu. Por isso, esta crónica não é sobre a crise da Grécia. É sobre a crise da soberania que nos afecta a todos.



  • Depois de arrumar os carrinhos dentro da caixa dos brinquedos pela décima vez naquele dia, a mulher sentou-se na cadeira da cozinha a chorar. Não eram apenas lágrimas de saudade. Era raiva, era medo, era um aperto no coração, era não ter ninguém que a abraçasse e disse-se "pronto, já passou", como ela fazia ao filho quando ele se magoava.

    Ninguém lhe dissera que ia ser assim tão difícil. Ninguém a avisara de que era exactamente nas pequenas coisas do quotidiano, tão pequenas como arrumar os carrinhos numa caixa, que ia sentir mais a sua falta. Não no dia de Natal, não na festa da escola, não nas tardes de domingo no sofá, mas ali, naqueles pedaços de vida. Lavar a loiça, pôr a roupa na máquina, escolher um filme para ver ao serão, consertar a lâmpada do candeeiro do quarto, aquele que compraram na feira da ladra e que sempre fez mau contacto, a passagem pela mercearia antes de vir para casa porque não há cebolas, verificar o ar, a água , o óleo do carro, puxar o fecho do vestido, lembrar que o telemóvel ficou na mesinha de cabeceira, tomar o pequeno almoço juntos, passas-me o leite, se faz favor?, ajudar a enfiar o edredão dentro da capa, fazer a papa do miúdo, dar papa ao miúdo, mudar a fralda do miúdo, pedaços de vida.

    Porque o Natal é um momento que passa, o aniversário é um dia que acaba, mas as tarefas comuns não passam nem acabam. Estão lá todos os dias para nos lembrar que a vida continua. E a mulher chorava, porque não queria que a vida continuasse. Não desta maneira.

    O plano não era casar, ter um filho e ficar sozinha. Faltavam os outros filhos e as férias de Verão e vê-los crescer, juntos, e ensinar-lhes a serem boas pessoas, mas com ambição, que o mundo não se compadece com os bonzinhos, e ensinar-lhes a serem educados, mesmo perante a má-educação, e vê-los tornarem-se adultos, juntos, e envelhecer de mãos dadas, juntos. Era esse o plano. E agora? Quem é que ia ensinar o miúdo a andar de bicicleta? Quem é que ia levá-lo aos treinos de futebol? Quem é que ia construir pistas imaginárias para os malditos carrinhos? Quem é que ia explicar onde é que estava o papá? E a mulher chorava porque não queria ter de explicar.

    Os amigos, cada vez mais ausentes, porque ninguém gosta de ser confrontado com a tristeza, nem de sentir aquele tipo de pena que não se consegue disfarçar, sempre a perguntarem "como é que estás?". A mulher cada vez mais só, com vontade de responder, estou viva, a lutar para conseguir sair da cama todos os dias, porque tenho um filho que precisa de mim. E a mulher chorava porque não queria estar viva, embora também não quisesse estar morta. Queria apenas que tudo voltasse a ser como antes. E então chorava ainda mais porque sabia que nada seria como antes.

    O peito molhado, os dedos enrolados no pano da loiça e a memória de todas vezes que não lhe disse que o amava, de todas as vezes que não lhe disse que não sabia viver sem ele, de todas as vezes que o chateou por deixar a roupa espalhada no chão, quando tudo o queria agora era poder ter a roupa dele espalhada no chão, muita roupa, todos os dias. E a mulher chorava porque já não havia roupa, nem no chão, nem nas gavetas, nem nos armários.

    Até que o filho choramingou, lá ao longe, no quarto, a chucha caiu, está tudo bem, mais um pedaço da vida que continua, indiferente à sua dor. E a mulher chorava, em silêncio, noite após noite, na cadeira da cozinha, porque sabia que essa dor nunca iria passar.


    Conto originalmente publicado na plataforma Maria Capaz

  • Quando se pensa num Prémio Nobel, pensa-se em alguém com uma inteligência superior. Alguém que trabalhou durante anos ou décadas em prol de algo que contribuiu para o avanço da humanidade, seja na área da medicina, da economia ou da literatura. Dificilmente se pensa numa pessoa preconceituosa e machista ao ponto de fazer declarações do género "quando se tem miúdas num laboratório acontecem 3 coisas: apaixonamo-nos por elas, elas apaixonam-se por nós e, se as criticamos, elas choram". Mais, uma pessoa que defende abertamente que os laboratórios não deviam ser mistos.

    Pois, mas foi precisamente isto que um Prémio Nobel da Medicina e professor na prestigiada University College London fez. Tim Hunt, senhoras e senhores, mostrou ao mundo numa conferência na Coreia do Sul que uma besta é sempre uma besta, tenha um QI de 90 ou de 150, e que afinal o feminismo não pode passar de moda, porque há ainda um enorme caminho a percorrer (o número de mulheres em cargos de topo, seja em empresas, laboratórios, parlamentos ou nas próprias universidades é prova disso).

    Contudo, o melhor desta história não é esta evidência, nem o constatar de que há pessoas que nunca ouviram falar em tesouras para cortar os pêlos do nariz (ver com atenção a fotografia do laureado). O melhor é mesmo o movimento que imediatamente surgiu no Twitter por parte de mulheres cientistas de todo o mundo com a hashtag #distractinglysexy. A isto se chama combater a estupidez com humor.











  • Este sábado, dia 6 de Junho, vou estar na Feira do Livro de Lisboa para uma sessão de autógrafos.

    Será entre as 16 e as 17 horas no espaço do Grupo Porto Editora. 

    Quem ainda não tem os meus livros pode aproveitar para comprá-los a preço de feira; quem já tem pode levá-los para eu assinar ou simplesmente aparecer para trocarmos dois dedos de conversa.

    Quanto aos leitores mais tímidos, lembrem-se sempre de que eu é que estou lá sentada, sozinha, a uma mesa vazia, à espera que passe alguém que goste dos meus livros. Acreditem que é muito mais difícil para mim do que para vocês. Preciso de companhia! Apareçam! Mesmo que seja só para dizer "olá".

    Vemo-nos no sábado?

  • Anda por aí uma moda contagiosa que se chama cravar trabalhos de borla. Vá, eu sei que não é novidade no mundo e que sempre houve e haverá chico-espertos que acham que vão encontrar quem faça isto ou aquilo recebendo quase nada. Quem tem um negócio próprio sabe bem que aparece sempre um amigo a cravar uma imperial ou a achar que tem direito a um exemplar grátis ou a um desconto em nome da amizade. Só que o problema é que passámos do chico-esperto unipessoal para o chico-esperto corporativo.

    É que uma coisa é pedirmos ao nosso irmão para tirar umas fotografias para o nosso site ou à nossa amiga que nos ajude a criar um nome para uma loja, outra coisa é serem as empresas a fazer pedidos informais, sobretudo nas redes sociais, camuflados de passatempos ou de oportunidades fantásticas para fazer portefólio, com frases espantosas como "habilita-te a ver o teu trabalho na nossa próxima campanha" ou, para os que têm uma pontinha de vergonha na cara mas não muita, com um "a proposta vencedora será remunerada". Espere lá, senhor director da empresa que gostava de ter um novo logótipo de borla, o que é que é suposto alguém fazer com a fantástica oportunidade de ver as suas horas de trabalho escarrapachadas num cartaz? E no segundo caso, o que é que acontece aos outros novecentos concorrentes que gastaram horas ou dias a trabalhar para si? Ganham o quê? Juízo, certamente.

    Trabalhando há mais de 10 anos em publicidade, conheço um sem número de designers, directores de arte, ilustradores, fotógrafos, redactores, arquitectos, locutores que trabalham como freelancers. Ou seja, pessoas criativas que vivem exclusivamente das suas ideias. E, de facto, é mais difícil pôr um preço às ideias do que a um quilo de carne, mas daí a institucionalizar-se o discurso do "ele faz isso em meia-hora" ou "não lhe custa nada, é só uma frase", vai uma grande distância. É que nenhum trabalho, por mais simples que seja, se faz em meia hora, mas ainda que se fizesse, é meia hora que deverá ser paga.

    Além da desculpa nojenta do "não temos nada para te pagar, mas sempre ficas com mais um trabalho no portefólio", há outra ainda mais irritante que é a do "trabalhar para nós dá prestígio". Ai dá? Mas sabem o que é que não dá prestígio nenhum? Voltar para casa dos pais porque não se consegue pagar a renda. No meu caso trabalho a tempo inteiro e as coisas que faço ou escrevo, seja no blog, seja nos livros, são por minha conta e risco, isto é, o que vier dali é lucro e sempre dá para fazer mais umas comprinhas ou uns jantares fora. Mas se, de hoje para amanhã, tivesse de viver somente do que escrevo, como é que acham pagava as contas? Será que poderia dizer ao meu senhorio, olhe, este mês não lhe vou pagar a renda, mas está tudo bem, porque afinal é um grande prestígio ter uma escritora a viver na sua casa? Pode ser que a coisa até corra bem e um dia possa colocar uma placa na fachada a dizer "Aqui viveu Filipa Fonseca Silva". Não me parece.

    Mas o triste é que quando alguém tem a audácia de responder a um convite para um projecto/palestra/artigo com um "quanto é que estão a pensar pagar", surge o vazio. Literalmente. E depois do vazio, um vazio maior, isto é, acabam-se os convites. Porque há mais quem queira aparecer, ter o tal do prestígio, arruinar o mercado para os outros que se recusam a cair na escravidão. Porque é disso que se trata, não é? Ou o barulho das luzes é assim tão ofuscante que não conseguem perceber?

  • Estou agoniada, literalmente enjoada. Apetece-me chorar contigo e abraçar-te, Rita. Consigo sentir a tua dor, a tua incredulidade, o teu desespero. Sei que não há maior sofrimento do que perder um filho, seja de que maneira for, mas há maneiras bem piores do que outras.

    Quando ontem vi o teu apelo nas redes sociais, abafado pela "viralidade" do caso dos energúmenos que encurralaram o miúdo na Figueira da Foz, não prestei muita atenção. Confesso que nem sequer partilhei as fotografias, porque, tal como a polícia, ninguém se surpreende muito quando um adolescente desaparece, porque os adolescentes são criaturas estranhas e sabe-se lá o que lhes passa pela cabeça. De certeza que vai aparecer, tem de haver uma explicação. Quando hoje vi o título da notícia que o dava como morto, senti um enorme pesar, mas a primeira coisa que me passou pela cabeça foi que tivesse havido um acidente. Bebeu demais, foi atropelado, caiu ao rio, sei lá, tragédias que acontecem em noites de excessos. Porém, o pesar transformou-se em profundo choque ao ler que foi espancado até à morte.

    A minha angústia cresce à medida que te imagino a ti, Rita, neste três dias, desesperada à procura do teu filho, para depois receberes a notícia de que afinal, durante todas essas horas intermináveis, ele estava morto, fechado numa cave de um prédio pelos animais que o mataram. A minha angústia cresce pelo sofrimento dele, mas sobretudo pelo teu, que para sempre carregarás a culpa de não o teres protegido, de o teres deixado ir à festa, de não teres estado lá para acabar com aquilo ou nem deixar que começasse.  Quando alguém nos morre queremos que pelo menos nos deixe com o menor sofrimento possível. Que seja rápido e indolor, que seja durante o sono ou sob o efeito da anestesia. E a morte do Filipe foi tudo menos isso. E o peso, Rita, que vais carregar, por não teres estado lá para pegar no Filipe ao colo e levá-lo para casa, para o hospital, ou em última instância para o abraçar enquanto dava o último suspiro, tal como fizeste quando deu o primeiro.

    Mas, a par da minha angústia, cresce o meu terror por ter um filho e uma filha que também um dia vão querer ir a uma festa e por saber que vou ter de deixá-los ir, porque não os podemos manter numa redoma, porque eles têm de aprender a viver o mundo sem a nossa mão, porque também já tivemos 14 anos e sabemos bem como queríamos ter ido àquela festa a que toda a gente lá da escola foi. E esse terror, por sua vez, cresce ao assistir a tamanha violência entre adolescentes, no mesmo dia, em diferentes pontos do país, com diferentes histórias por trás, com diferentes desfechos (felizmente para o miúdo da Figueira da Foz) mas igualmente arrepiantes.

    Muito se tem falado de bullying nas últimas horas. Uns confessam que também foram vítimas e que isso não lhes pesou nada na vida adulta, outros relatam que foram vítimas e demoraram muito a recuperar, outros ainda defendem que sempre houve e haverá e que é assim a vida. (Curiosamente ninguém confessa que também chamava gorda à miúda do 3ºA e que também deu uns calduços ao "caixa de óculos" que lia livros no recreio, mas isso é tema para outra crónica). Só que o que se passou na Figueira e em Salvaterra não é bullying. É pura violência. É crime de agressão. É homicídio. É indesculpável.

    Eu sei da história de um outro Filipe que também foi espancado gratuitamente e sobreviveu por muito pouco, que esteve seis meses no hospital, que foi sujeito várias cirurgias e provavelmente vai ficar desfigurado na mesma. E há, com certeza, muitos outros Filipes que sobrevivem a ataques desferidos por este tipo de animais e ficam para sempre marcados, seja física seja psicologicamente. Mas o que é que acontece aos agressores? Se são menores, no máximo, vão para um centro de correcção conviver com delinquentes piores do que eles. Se são maiores de idade podem levar uns meses ou anos de prisão e fica a justiça feita. Menos para ti, Rita, que nunca terás o teu filho de volta e nunca esquecerás a maneira como te foi tirado.

    Não me interessa se estes trastes têm 12 ou 20 anos, nem me interessa se os pais lhes batem ou as mães se prostituem ou se foram violados ou se vivem nas ruas. Podem ser vítimas de algum tipo de crime, mas não deixam de ser também eles uns criminosos. Pior, uns cobardes. E agora que o mal está feito devem ser tratados e julgados como tal, independentemente de ter sido sem querer ou de estarem arrependidos. É preciso muito tempo para espancar alguém até à morte. Muito tempo para se arrependerem antes de darem mais um murro ou um pontapé. Que não haja desculpas, nem atenuantes, nem segundas oportunidades. Porque para o Filipe, também não vai haver.

    E aos defensores deste tipo de marginais, que os desculpam com a sua história de vida, não se insurjam agora contra as opiniões inflamadas de quem está indignado. Gastem antes o vosso discurso com a prevenção. Nas escolas, nos bairros onde eles vivem, entre educadores, psicólogos e autoridades. Ou então gastem o vosso discurso a consolar a Rita e todas as mães que já perderam um filho assim.

    A ti, Rita, apenas me resta deixar os meus mais profundos sentimentos e desejar que, de alguma forma e em algum lugar, encontres a força necessária para sobreviver.