• Como hoje é Dia Mundial do Livro, decidi oferecer um presente aos meus leitores: uma pequena história escrita pelos meus filhos! Sim, o Tiago de seis anos e a Carlota de quatro, começaram a criar esta história espontaneamente durante o fim-de-semana. Eu limitei-me a passar as suas palavras para o papel. Com muito orgulho, devo dizer. Até porque, tirando a pontuação e uma ou outra correcção na construção das frases, as palavras são mesmo todas deles.

    E para que conste,  estou a partilhar a história deles a pedido dos autores, e não por vaidade maternal. Aliás, na sua inocência, eles queriam publicá-la em livro e rapidamente. A Carlota perguntava «e agora, mamã, a história vai sair do computador em papel?» e o Tiago, antecipando-se, respondeu logo «Não, Carlota, agora a mamã vai dar ao Eduardo (meu editor na Bertrand) e ele faz um livro e depois vai estar à venda para toda a gente comprar!». Óbvio, não acham? Agora vou sou ali limpar a baba.




    A sereia marreca 


    Era uma vez uma senhora que gostava de ser uma sereia. Um dia aproximou-se uma fada e ela disse:

    - Gostava tanto de ser uma sereia...

    - Está bem – respondeu a fada. - Posso transformar-te numa sereia. Mas, terás de ser uma sereia marreca.

    - Marreca? – perguntou a senhora. – Não, eu quero ser uma sereia como as outras, que têm o pescoço direito!

    - Está bem, eu vou tentar, mas se não conseguir terás mesmo de ser marreca.

    Esta fada madrinha, ainda estava a aprender a fazer magias, por isso, muitas vezes estas não saiam lá muito bem. Então, a fada, sem querer, pôs na varinha mágica um bocadinho de vinho tinto, o que fez com que a sereia saísse mesmo marreca. A senhora começou a chorar quando viu que tinha uma marreca e mergulhou no oceano profundo.

    Quando as outras sereias a viram começaram a gozar com ela.

    - Não gozem comigo! – disse a sereia marreca - Eu só sou marreca porque a fada madrinha não conseguiu fazer bem a magia.

    - És marreca! És marreca! – e gozavam cada vez mais.

    Aí a sereia marreca foi para dentro de uma rocha e nunca mais saiu de lá.

    A fada madrinha foi para o jardim das fadas muito preocupada e arrependida. Dirigiu-se à sua professora e confessou o que tinha feito.

    - Desculpa Professora, eu fiz uma magia que não correu nada bem... Transformei uma senhora numa sereia como ela me pediu. Mas saiu uma sereia marreca...

    - O quê? Vais ter de ficar de castigo. Um mês inteiro sem fazer magias!


    No outro dia a fada apareceu na escola e perguntou à professora:

    - O que posso aprender hoje?

    - Nada! – respondeu a professora ainda zangada com ela.

    - Porquê?

    - Porque o que fizeste é muito grave. Se não sabes fazer bem as magias, não as faças de todo.

    A professora da fada teve de ir resolver o problema. Não podia deixar a senhora naquele estado. Então, transformou-se a si própria numa sereia, mergulhou no oceano e foi procurar a sereia marreca. Nadou e nadou e nadou e não estava a conseguir encontrá-la. Até que espreitou para dentro de uma gruta e vi-a lá dentro a chorar.

    Nessa altura a fada perguntou:

    - Porque é que tens a cauda tão torta que nem consegues entrar para o mar?

    - Porque sou uma sereia marreca. Mal consigo nadar... – respondeu com tristeza.

    - Então, tens de ir para as aulas de natação – disse a fada.

    - Natação? Mas onde?

    - Estava a brincar. Eu consigo transformar-te numa sereia normal. Porque eu sou a professora das fadas madrinhas.

    A fada professora colocou na sua varinha um pouco de cheesecake de chocolate e abanou-a vigorosamente até que uma luz de arco-íris apareceu à volta da sereia marreca e transformou-a numa sereia lindíssima. Era uma sereia com uma saia e com os olhos pintados! Assim, realizou-se o desejo da senhora. Era finalmente uma verdadeira sereia.


    Fim 


    Carlota e Tiago Janes

  • Este Sábado, dia 21 de Abril, vou estar na Bertrand do Chiado para uma tertúlia literária inserida nas comemorações do Dia Mundial do Livro. Além de mim, estarão presentes as autoras Isabel Valadão e Cláudia C. Santos e vamos falar sobre o papel das mulheres na literatura.

    Na segunda-feira, dia 23 de Abril, estarei na FNAC do Colombo para uma maratona literária com vários autores e personalidades. 5 horas seguidas em que cada autor lê uma passagem de um livro durante 10 minutos! Preparados?



    Apareçam!

  • Às vezes penso que os meus leitores são um espécie de anjos da guarda. Daqueles que não se deixam ver, mas estão sempre lá, e que aparecem precisamente quando sobre nós se abate o desânimo.

    É que é sempre nos dias em que me sinto mais triste, frustrada e convencida de que não vale a pena roubar mais horas aos meus dias, às minhas noites e aos meus filhos, que eles surgem alegremente sob a forma de um email ou de um comentário nas redes sociais. Enchem-me de elogios, de palavras sinceras, de carinho. E acima de tudo enchem-me de vontade de continuar a inventar histórias. Para eles.

    Obrigada.


  • Chegam hoje à plataforma Kickstarter os óculos mais cool de sempre: uma edição especial e limitada que junta a SKOG Eyewear e a Lata 65, customizados por senhoras de mais de 65 anos.

    Hugo Janes, Co-Fundador da SKOG Eyewear afirma: “Na génese da nossa marca está a convicção de que se as empresa se envolverem com a comunidade, podemos ter um mundo melhor. Assim, quando conhecemos o projecto da Lata 65 quisemos imediatamente contribuir, mas com algo maior do que uma doação. Foi então que propusemos fazer esta edição especial, que dará a toda a gente a oportunidade de ter uma pequena peça de arte urbana.”

    A Lata 65 é uma iniciativa para idosos no âmbito da arte urbana, que pretende provar que os conceitos de envelhecimento activo e solidariedade intergeracional fazem cada vez mais sentido. Apresenta-se como um workshop ministrado em ambientes descontraídos, ideais para a aprendizagem de várias técnicas de intervenção nas ruas, em trabalho directo com alguns dos melhores artistas urbanos da actualidade. A LATA 65 já organizou 34 workshops, com mais de 400 participantes, entre os 65 e os 102 anos, em Portugal, Espanha, Brasil e Estados Unidos, procurando constantemente financiamento para chegar a cada vez mais idosos.

    São os participantes nos workshops da Lata 65 que irão pintar os óculos durante o verão de 2018. E o resultado será qualquer coisa como isto:







    Não são maravilhosos?

    Não percas a oportunidade de ter uns óculos absolutamente únicos. Apoia esta campanha aqui:
    http://kck.st/2EeNpRx 




  • Agora que trabalho a partir de casa, costumo ligar a televisão para ir dando uma olhada nas notícias enquanto tomo o pequeno almoço ou faço algumas tarefas domésticas. Por vezes as tarefas prolongam-se mais um bocado e o noticiário acaba, dando lugar a um qualquer programa da manhã, antes de eu ter tempo de desligar. Ontem, estava eu a acabar de estender a roupa quando ouvi os locutores nem sei de que canal a promoverem o programa do dia seguinte. 
    «- Já lhe aconteceu entrar no local de trabalho, dizer bom dia e ninguém lhe responder?
    - Não sabe se isso é normal?
    - Então não perca o programa da amanhã onde vamos falar de etiqueta no trabalho!»

    Pára tudo! Vamos falar de etiqueta no trabalho? Eu acho que devíamos era falar de civismo em geral. Dizer bom dia e ninguém responder não tem nada a ver com etiqueta no trabalho. É só má educação de último grau. Seja no trabalho, na sala de espera ou num elevador, quando se entra num lugar onde estejam outros seres vivos, diz-se bom dia. Sempre. 

    A minha surpresa não se deve às pessoas não responderem ao bom dia (já me aconteceu milhões de vezes) ou um canal decidir fazer parte do seu programa sobre o assunto. A minha surpresa surge de termos voltado a um ponto na nossa sociedade em que a falta de civismo é tal, que se têm de fazer programas a explicar isto às pessoas. Como se estas já não soubesse usar uma coisa básica chamada senso comum.

    Também no outro dia, no metro, vi um anúncio dentro da carruagem a explicar que se deve ceder o lugar a grávidas, idosos ou pessoas com crianças de colo. E que não há lugares específicos para essas pessoas, como as filas dos supermercados. Estejamos sentados onde estivermos, se chega um idoso, levantamo-nos e pronto. É triste ter de explicar isto. Parece que voltámos aos anos 80 em que se fazia propaganda a dizer "não deite lixo no chão" ou "poupe energia".


    E na estrada? Na estrada então, vive-se o verdadeiro faroeste. Já ninguém usa piscas, já ninguém pede desculpa por uma manobra desajeitada, já ninguém agradece se damos passagem. Isto para não falar no clássico estacionamento em segunda fila, em cima do passeio ou a bloquear a passagem. Cheguei a descrever isso num dos meus romances: «É curioso que não haja mais acidentes na estrada. O carro, pelo menos nas grandes cidades, está a transformar-se num catalisador de toda a raiva e angústias que acumulamos ao longo do dia. Aceleramos com os olhos vidrados no semáforo que teima em não mudar. Travamos com a mesma fúria com que gostaríamos de ter pisado aquela pessoa insuportável que nos fez perder a cabeça. Buzinamos como se o som que se espalha na rua fosse o grito que temos de guardar. Achamo-nos intocáveis, invencíveis, dentro da nossa fortaleza de metal.» (O Estranho Ano de Vanessa M., 2014). Intocáveis, invencíveis e profundamente malcriados, diria agora. 

    Numa era em que a informação, sobre seja o que for, está disponível instantaneamente, as pessoas estão cada vez mais burras e incivilizadas. Passam o dia com a cara enfiada em ecrãs, ligadas ao mundo, mas em vez de aprenderem alguma coisa só desaprendem. Temo que em breve surjam programas ou anúncios a explicar que não é suposto tirar macacos do nariz em público, que nunca se deve dispensar o «por favor» ou que não se come com as mãos. Aliás, não temo, porque seria realmente importante passar essa informação. Apenas me sinto profundamente desiludida por termos chegado ao ponto em que é necessário que sejam as instituições públicas a educarem as pessoas. Pura infantilização da sociedade.



  • Comunicado emitido hoje pela UNICEF para as redacções de todo o mundo.
    É este o mundo onde vivemos. É isto que se passa no ano de 2018. Não há, de facto, palavras.



  • Quando deixei a publicidade, em Agosto do ano passado, pensava que ia ter mais tempo para o blog. Já me estava a imaginar a escrever crónicas sobre os mais variados temas, contos dos mais variados géneros, artigos sobre os mais variados assuntos. Mas não. Lancei-me logo na escrita de mais um livro e, entre mil outros afazeres, uma cirurgia e a mudança para uma nova casa (com seis meses de obras pelo meio), o blog foi ficando para trás. Como sempre, coitado.
    Mas não desesperem! Em breve trarei novidades mais concretas sobre o novo projecto, cujo manuscrito será entregue à editora no final deste mês, e um post sobre remodelações, com direito a fotografias do antes e depois, planta do projecto de arquitectura e r. Fiquem atentos! ;)

    Já agora, e aproveitando o facto de estar a escrever este post no rescaldo do acontecimento, não posso deixar de dar os parabéns à nossa selecção de Futsal pela brilhante vitória. Grandes campeões!


  • Queridos Leitores,

    Não podia deixar passar a minha época preferida do ano sem vos desejar as Boas Festas.

    Este foi para mim um ano fantástico em termos literários, com o lançamento do Amanhece na Cidade, a presença nas feiras do livro (a de Lisboa e a do Palácio de Belém), a saída da empresa onde trabalhava, o que me vai permitir ter mais tempo para escrever, e a preparação do novo livro que sairá em Setembro de 2018.

    Mas não é tudo: dia 12 de janeiro Os Trinta vai ser reeditado, após dois anos fora de circulação. O livro que me levou ao Top100 da Amazon e que marcou a minha estreia literária, vai voltar a estar disponível, agora numa edição de bolso com uma capa giríssima (e menos cor de rosinha).



    Se isto não é um bom Natal, não sei o que será!

    Espero que o vosso seja também repleto de coisas boas e que venha aí um ano com muitos sonhos realizados.

    Beijinhos a todos e obrigada por continuarem desse lado. :)

    Filipa

  • No outro dia, fui jantar e beber um copo com uns amigos. Pelas duas da manhã, quando a malta começou a falar em discotecas, decidi retirar-me airosamente, pois, admito, já não tenho pedalada para noitadas e prefiro mil vezes uma noite bem dormida a dançar. Como amigo não empata amigo e o meu marido quis ficar mais um bocado, apanhei um táxi e fui para casa.

    Os primeiros dez minutos do percurso foram feitos em silêncio, que eu não sou muito faladora, especialmente quando o meu corpo está em antecipação do momento em que se enroscará no edredon. Mas ao pararmos num semáforo da chamada rotunda do Batista Russo, o taxista que me guiava disse qualquer coisa a que não prestei atenção e, logo depois, murmurou uma frase inesperada.

    - Se bem me lembro...
    - Desculpe, não percebi.
    - Se bem me lembro, era uma frase que o Vitorino Nemésio dizia no seu programa de televisão.
    - Ah, claro, Vitorino Nemésio, grande escritor.
    - A menina sabe quem é?
    - Então não havia de saber? Eu gosto muito de ler e, além disso, também sou escritora - confessei.
    - Ai, não me diga! Como é que se chama? - perguntou o taxista, acendendo a luz e olhando para o banco de trás.
    - Filipa Fonseca Silva.
    - Desculpe, não conheço, mas escreve romances?
    - Sim, e olhe, acabei de lançar há uns meses um livro precisamente sobre um táxi.
    - Sobre um táxi? Qual é o título?
    - Amanhece na Cidade e conta a história de um taxista e das várias pessoas que transporta. Só que a história é contada pelo próprio táxi, o veículo.
    - O táxi é que conta a história? Isso é muito original? Não tem um em casa para eu comprar?
    - Acho que sim...
    - Então eu espero cá em baixo e a menina vai lá buscar que eu quero comprar-lhe o livro. Eu adoro ler. Tenho sempre livros aqui no carro e ofereço alguns aos passageiros - disse entusiasmado, tateando com a mãe esquerda a bolsa lateral da porta, de onde retirou dois livros, um deles, um texto de Platão. - Olhe, este é A Mensagem, do Fernando Pessoa, uma edição baratinha, acho que custou um euro e sessenta. Comprei no outro dia porque o que tinha aqui no carro ofereci a uma senhora brasileira que não sabia quem era o nosso poeta. Assim, olhe, levou o Pessoa para o Brasil para ver se aprende alguma coisa. Levou-o foi todo rabiscado, que eu gosto de escrever nas margens dos livros e sublinhar passagens, sabe?

    Chegámos à porta da minha casa e o taxista insistiu para que eu fosse buscar o meu livro, pois queria muito lê-lo. Subi o elevador com um sorriso enorme e o coração acelerado. Estava deslumbrada com o senhor e com a possibilidade de um taxista ler sobre o meu taxista. Quando voltei, convidou-me a sentar no banco do pendura e contou-me histórias de passageiros que o marcaram, como um senhor que se disse descendente da dinastia de Avis e que o levou a ler sobre a nossa monarquia e as diversas casas reais. Ou um músico com quem ficou a conversar durante três horas à porta do hotel.

    - E este é o que estou a começar a ler agora - disse, mostrando-me mais uma edição de bolso. - É a obra poética de Camilo Castelo Branco. Eu nem sabia que ele também tinha escrito poemas. A seguir vou ler o seu.
    - Espero que goste. E depois gostava que me dissesse o que achou. No final do livro, na página dos agradecimentos, está o meu email. Se, puder escreva-me.
    - Escrevo sim, senhora - garantiu-me, enquanto escrevia com um lápis, na última página do livro, «enviar opinião pessoal para este email».

    Despedimo-nos como velhos conhecidos. Já eram quase três da manhã quando entrei em casa. O sono passou-me. Fiquei à janela um bocado, a contemplar a noite e a pensar na improbabilidade de encontrar um taxista que ama os livros e que me vai ler. Um taxista que poderia ser, ele próprio, a personagem principal de um livro.










  • Hoje saiu uma notícia com um alerta de 15 mil cientistas para a extinção da Humanidade, caso continuemos todos de braços cruzados a achar que o impacto das alterações climáticas é algo com que não nos devemos preocupar porque só vai acontecer quando já formos velhinhos. Eu ando há vários anos a falar nisto e a única coisa que recebo é palmadinhas nas costas e olhares de condescendência, como quem diz, "lá está ela armada em hippie, a achar que vai salvar o mundo por fazer a reciclagem".

    Pois, mas parece que agora as coisas começam a chegar ao nosso quintal, não é verdade? Já não são só notícias distantes de furacões nas Caraíbas ou cheias devastadoras no sudoeste asiático. O país está em seca extrema e para o ano, por exemplo, várias produções estarão em crise e não vamos ter as nossas queridas cerejas. Os incêndios propagam-se a uma velocidade estonteante porque a terra está seca e a floresta descaracterizada. É um facto que vão morrer milhares de animais e quem sabe, pessoas.

    Por isso, por favor, parem de revirar os olhos para quem fala das questões ambientais e prestem atenção! O mundo está em perigo! Dentro de 20 anos o sul de Portugal será uma extensão do deserto do Sahara. Não é demagogia. É ciência. E se não têm paciência para ler artigos de jornal ou para ver um dos documentários mais importantes da história (Before The Flood https://www.youtube.com/watch?v=IEqBduQIx-Q ), pelo menos interiorizem estes 3 simples passos:

    1) Parem de comer carne! Ou pelo menos, diminuam DRASTICAMENTE o seu consumo. A industria agropecuária está a destruir milhares de ecossistemas. Para além de ser desumano e imoral destruir florestas para semear cereais para alimentar gado enquanto milhões de crianças morrem à fome.

    2) Diminuam o consumo de plástico e derivados de petróleo. Roupa, brinquedos, electrodomésticos. A nossa vaidade, comodismo e consumismo  está a matar-nos. É só ridículo pensar que vamos morrer todos para que uma minoria de privilegiados do Ocidente possa andar de carro para todo o lado, ter novos telefones só porque o ecrã tem mais resolução ou mudar o guarda roupa porque agora se usa riscas em vez de quadrados.

    3) Pensem antes de comprar.  Perguntem-se se precisam mesmo, mesmo do objecto que vão comprar. E se precisam leiam os rótulos e as etiquetas para poderem escolher produtos de empresas com práticas sustentáveis. Há alternativas e nem sempre são mais caras. Também ajuda reciclar e reutilizar as coisas em vez de usar e deitar fora.

    E não achem que não vale a pena fazer nada porque os outros também não fazem. Isso é uma desculpa esfarrapada. É o mesmo que dizer que vão cuspir para o chão porque os outros também cospem. Ou que não vão apanhar o cocó do vosso cãozinho porque os outros também não apanham. Tomar medidas sérias e pressionar os governos para levarem o assunto a sério, é uma questão de civismo. Aliás, é uma questão de sobrevivência.

  • Muito se tem falado, quer nos Media, quer nas redes sociais, sobre os incêndios que destruiram o nosso país. Digo o nosso país porque, embora a quilómetros de distância, embora longe do imaginário de quem vive nas cidades, as consequências humanas e ambientais de um incêndio destas dimensões tocam-nos a todos. E não é preciso conhecer alguém que tenha sido atingido pela catástrofe para ficar com o coração partido perante tamanha devastação.

    Toda a gente tem uma teoria pessoal sobre o que correu mal. A resposta das autoridades, as terras abandonadas, o desordenamento do território, a falta de meios, o tempo anormalmente quente, o vento demasiado forte e errático, o fogo posto. Talvez todas estas coisas tenham contribuído para a desgraça, sim. No entanto, a causa principal desta catástrofe tem um nome: monocultura. E isto não é uma teoria minha.

    A monocultura, invenção diabólica, prejudica não apenas a floresta, mas todas as áreas rurais, incluíndo as planícies que não têm muito por onde arder. A monocultura, seja do que for, destrói os ecossistemas e põe em perigo todas as espécies, plantas e animais, incluindo o Homem. A monocultura, cá e em todo o planeta, é responsável pela extinção de centenas de espécies, pela danificação dos solos, pela poluição dos lençóis freáticos, pela desertificação de regiões inteiras.

    A Natureza tem sempre razão e há uma razão por detrás de tudo o que a Natureza cria. Basta observar uma floresta virgem para perceber que cada planta cresce num determinado lugar com um propósito. Umas para fazer sombra, outras para reter a humidade do solo, outras para alimentar animais, por exemplo.  Em contraste, se passearmos num zona de eucaliptal não se ouve nada. Nem um pássaro, nem um coelho, nem uma abelha. Apenas o silêncio. Apenas o nada.

    E se a Natureza tem sempre razão, a ganância nunca tem razão nenhuma. A busca pelo dinheiro fácil, o usa e deita fora, a exploração exaustiva de um recurso, o desprezo pelo que se deixa às gerações seguintes, o não olhar a meios para rentabilizar uma produção, mesmo quando isso põe em risco a saúde pública. O desrespeito. É isso e apenas isso que motiva a monocultura. E nós, que queremos viver nas nossas casas confortáveis, cheias de tecnologia, que queremos ter roupinhas novas a cada estação e a despensa cheia, tão cheia que às vezes até nos damos ao luxo de deixar coisas passarem de prazo, que queremos tudo a que temos direito e mais ainda, fechamos os olhos, desprezamos o mundo rural e, depois de chorarmos um bocadinho ao ver as notícias dos incêndios, lá voltamos ao nosso estilo de vida suicida e insustentável, como se não fosse nada connosco.

    É preciso fazer mais do que lamentar o que se passou. É preciso lutar para que haja mais terras como o Ermeiro, uma terra de nogueiras e amendoeiras, oliveiras e pinho que nunca ardeu. É preciso apoiar mais projectos de apoio à agricultura sustentável, cá e em todo o planeta. Podem ver como é possível fazê-lo, como não é retórica de ambientalistas, neste pequeno documentário. São apenas dezoito minutos. Dezoito minutos de esperança.












  • Porque tenho a honra de criar uma, para que se torne uma mulher forte, determinada, que não se deixe ameaçar pelo sistema, que lute pelos seus direitos, contra o assédio e a discriminação, que não admita que lhe levantem a mão, que sejam condescendentes ou que a tratem como um objecto;

    porque milhões de meninas não têm quem lhes ensine isso, nem quem lhes mostre que têm valor e que podem alcançar os seus sonhos;

    porque as meninas são as maiores vítimas da pobreza, impedidas de estudar, obrigadas a casar, exploradas pela própria família;

    porque é responsabilidade de todos nós, homens e mulheres, lutar por estas meninas, as meninas que são o futuro deste planeta,

    não esqueçamos este dia, 11 de Outubro.

    Girl Power!


  • Tenho uma relação de amor-ódio com as tecnologias.

    Tanto maldigo o iCoiso ao perceber que perdi uma hora da minha vida a olhar para ele, como a seguir agradeço ao Santo Jobs poder estar uma hora a falar com a minha irmã pelo Facetime. Tanto me irrito com o meu marido por dar um mau exemplo às crianças, como lhes dou o meu próprio aparelho para se entreterem no youtube para que eu possa terminar alguma tarefa lá de casa. Tanto odeio a falsa proximidade que as redes sociais nos dão dos nossos amigos, como fico feliz por, através delas, ir acompanhando alguns acontecimentos importantes das suas vidas, que de outra forma não iria acompanhar.

    As tecnologias dão-nos tempo e tiram-nos tempo. Mostram-nos umas coisas e impedem-nos de ver outras. Espalham ideias fantásticas, mas também a estupidez ilimitada. Por isso, é normal que uns dias me apeteça beijar a maçã e logo a seguir tenha a tentação de atirá-la do quarto andar e carregar num botão que desligue a internet do planeta inteiro.

    Hoje estou num daqueles dias em que não podia estar mais agradecida por viver ligada. E tudo porque recebi um email de uma leitora. Um email que me comoveu bastante. Bom, vou ser honesta: um email que me levou às lágrimas.

    Era um agradecimento de alguém que gostou muito do meu novo livro e da minha forma de escrever, escrito com cuidado, com sinceridade, com o coração. Só isso seria suficiente para me comover, como aliás já aconteceu outras vezes. Mas parece que só desta vez é que realmente me apercebi do incrível que é poder receber a opinião de alguém que não conhecemos, que nunca vimos nem sabemos bem onde está, horas após a pessoa ter lido o nosso livro. Fez-me pensar em todas as vezes em que terminei um livro e tive vontade de falar com o seu autor. Como teria sido se eu pudesse ter enviado um email ou uma mensagem no facebook quando era uma jovem leitora? E se o autor me tivesse respondido horas depois?

    E fez-me também pensar que, sem tecnologias, talvez nunca tivesse recebido as palavras que tanto me tocaram. Dificilmente um leitor se daria ao trabalho de ir procurar a morada da editora, escrever uma carta, ir aos correios e tudo mais. Eu cheguei a faze-lo quando era miúda, ao Carlos Pinhão e à Alice Vieira. Ele respondeu-me, mas demorou tanto tempo que eu já me tinha esquecido que lhe escrevera quando recebi a resposta. Hoje está tudo ali, no nosso iCoiso ou no computador. É imediato. É directo. É fácil.

    Esta proximidade que se pode criar com as tecnologias é incrível para os leitores e abre espaço para diálogos que de outra forma dificilmente surgiriam. Mas para para mim, como autora, é ainda mais do que isso. É comovente, é inspirador e vale mais do que qualquer Top de vendas.

    Por isso, obrigada a todos os que já me escreveram emails, mensagens de facebook ou comentários no blog. E a todos os que, não escrevendo, deixam likes e corações nas coisas que partilho. São vocês que me fazem querer escrever mais e que me dão energia para criar histórias apesar do trabalho e de duas crianças pequenas. Podem continuar a escrever. Eu certamente continuarei. No meu computador. Ligada à internet.





  •  
    É já no final desta semana que arranca a segunda edição da Festa do Livro em Belém, uma iniciativa da Sua Excelência, o Presidente da República, consagrada à promoção dos autores de língua portuguesa.

    Segundo o comunicado de imprensa, «a Festa do Livro em Belém contará com a participação de cerca de 50 editores nacionais que brindarão os visitantes com as suas obras e a presença de alguns dos seus prestigiados autores.»

    É uma honra ser uma das autoras convidadas para este evento e lá estarei no sábado, dia 23 de Setembro, entre as 15h e as 17h com a Bertrand Editora. Apareçam para conhecer o meu novo livro, para levarem um autógrafo para casa ou simplesmente para conversarmos um bocadinho.

    Até sábado!




    Palácio Nacional de Belém
    Entrada livre
    21 a 24 de setembro (quinta-feira das 18h00 às 22h00; sexta e sábado das 11h00 às 24h00; domingo das 11h00 às 22h00)
  • O primeiro dia de aulas é um dia que nos marca para sempre. Eu, após mais de trinta anos, ainda me lembro do meu, incluindo do cheiro da sala, a madeira e lápis de cera, da cor da minha mochila, vermelha em forma de autocarro com personagens do Charlie Brown, e da mão da minha mãe. 

    Estava muito ansiosa e com enormes expectativas. Como os adultos me diziam que eu iria aprender imensas coisas novas e como tinha um irmão que já estava na quarta classe e sabia ler, escrever e fazer contas dificílimas, achava que, no final do primeiro dia, ia sair de lá muito mais sábia. Confesso que fiquei bastante desiludida, porque, afinal, no primeiro dia de aulas, a professora não ensinou nada para além do seu nome e das regras da sala. Mas, com o passar dos dias ,comecei a perceber que não ia aprender tudo de uma só vez, e ainda bem.

    Hoje, esta recordação voltou com uma nitidez estonteante ao deixar o meu filho na sua nova escola, para o seu primeiro dia. Ele andou na creche e no jardim de infância, pelo que, o aperto no coração que senti, não foi provocado pelo facto de o deixar num sítio novo com pessoas que ele nunca tinha visto. Foi por vê-lo entrar numa nova etapa, muito mais emocionante. Um mundo cheio de novidades e conhecimento, desafios e frustrações. Onde fará os amigos que ficarão para sempre no seu coração (e com sorte, alguns, no resto da sua vida), onde criará memórias únicas, que mais tarde farão o coração sorrir.
    Hoje, pela primeira vez, verti uma lágrima ao deixar o meu filho. Não por deixá-lo sozinho num local desconhecido, pois sei que será acarinhado por todos com quem se cruzar e, daqui a uns dias, já terá amigos e histórias emocionantes para partilhar, mas por saber que deixei naquele recinto o meu bebé e, logo à tarde, quando o for buscar, já será um menino.




  • Nas últimas semanas não têm parado de sair notícias sobre os gémeos do Ronaldo, nomeadamente artigos de opinião de todas as virgens ofendidas, maioritariamente conservadores e hipócritas, com teorias sobre o direito de alguém fazer filhos por encomenda e sei lá mais o quê. Tenho-me abstido de tecer comentários sobre o assunto porque 1) não gosto de falar sobre os filhos dos outros, e 2) a minha admiração pelo Cristiano Ronaldo, como pessoa e como jogador, levar-me-ia sempre a defendê-lo como se fosse a própria da Dona Dolores.

    No entanto, quando vi esta fotografia que o próprio publicou nas redes sociais, não consegui deixar de falar no assunto. E o motivo é muito simples: esta fotografia retrata o mais puro amor, que como tal, deve ser sempre defendido. Não o faço pelo Ronaldo que, não precisa de mim para o defender e está-se pouco barimbando para o que os outros têm a dizer acerca das suas decisões de paternidade. Mas faço-o pelas crianças. Todas as crianças do mundo.

    Um dos argumentos dos críticos é que as crianças têm o direito a ter uma mãe. Pois têm. Mas não vejo as virgens ofendidas lutarem pelas crianças cujas mães proíbem o contacto com os pais (conheço tantos…), ou que são abandonadas à nascença, vendidas, negligenciadas, espancadas, violadas por padrastos porque as mães não querem ver, entre tantos outros casos revoltantes e sobre os quais ninguém gosta de falar. Ser mãe é muito mais do que parir. E crescer sem mãe deve ser de facto muito triste, que o digam todos os orfãos, mas mais triste do que isso é crescer sem amor.

    Outro argumento prende-se com o facto de não ser justo alguém ter um filho só porque quer, sem estar casado ou a construir uma família estável. Sim, claro, porque todos os casais casados dão óptimos pais e não há registo de maus tratos a crianças no seio de uma família tradicional. E é muito mais giro ter filhos quando Deus nosso senhor quer do que quando estão reunidas as condições financeiras e emocionais para o fazer. Ai, tantos anos a lutar pela emancipação feminina, pelo direito à contracepção, ao aborto, ao planeamento familiar e ainda há mentes que acham que os filhos devem nascer apenas por vontade divina… E já agora, onde fica a revolta para com as mulheres que engravidam à revelia, só porque querem muito ter um filho, sabendo de antemão que não vão ter uma relação com o homem que as engravidou? Aí não faz mal a criança crescer sem pai, sem saber as suas origens, não é?

    Há ainda quem defenda que as barrigas de aluguer não deviam servir para comprar filhos. Pois. Mas é exactamente para isso que servem. Quem não consegue ter filhos, paga a uma senhora para os carregar no seu útero. Porque ninguém se submete aos riscos de uma gravidez e de um parto só porque lhe apetece muito e é muita giro. Há quem recorra a barrigas de aluguer em casal, há quem o faça sozinho. Por exemplo, mulheres sem útero que querem muito ser mães. Nesse caso toda a gente se comove. Coitadinha, não podia ter filhos e agora já pode, que maravilha, vai realizar o seu sonho de ser mãe. Ah, mas se for um homem a ter esse sonho, já não pode. Deixem-se de hipocrisia. Quem quer muito ter um filho e se submete a um processo destes, que nem sempre tem desfechos felizes, não o faz por capricho. Faz de coração.

    Por último, há o meu argumento preferido: o que é que ele vai dizer às crianças quando elas perguntarem quem é a mãe? Eh pá, esta é mesmo complicada… As crianças vão odiá-lo e ficar traumatizadas por saberem que o pai queria tanto tê-los, sonhava tanto com eles, que não conseguiu esperar até encontrar uma mulher com quem quisesse constituir família e recorreu a uma barriga de aluguer. Deve ser horrível saber que fomos mesmo muito desejados e planeados. Que não fomos fruto de uma pinada de uma noite com uma desconhecida. Que não fomos fruto de uma tentativa desesperada de salvar uma relação. Que não fomos fruto de um acidente. E vão ser as primeiras crianças na história a serem criadas com a ajuda de uma avó. Que coisa horrível! As avós são péssimas, não percebem nada de afeto. Coitadas das crianças, que vão crescer no seio de uma família unida, com um super pai que lhes pode dar tudo, mas principalmente, que pode e quer dar-lhes a única coisa de que todas as crianças do mundo precisam: AMOR.







  • Foi na adolescência que decidi que queria ser jornalista. Em primeiro lugar, porque, à data, era a única carreira que eu conhecia que me permitiria passar o dia a escrever e depois, porque sempre quis lutar contra as injustiças e desigualdades do mundo e achava que o jornalismo me permitiria expô-las publicamente, tornando o mundo um bocadinho melhor. Sim, eu ia ser como o Bob Woodward, a Diane Sawyer, a Lois Lane! Ah, a ingenuidade da adolescência…

    Não foi preciso avançar muito no curso de Comunicação Social e Cultural para perceber que a minha visão romântica do jornalismo era irrealista e que o que se esperava de uma redacção no século XXI era a criação conteúdos. Porque conteúdos interessantes vendem e se vendem há mais publicidade e se há mais publicidade há mais dinheiro. Para os accionistas. A verdade é um detalhe, ouvir todas as partes só se der tempo e há temas demasiado deprimentes e sobre os quais ninguém quer ouvir falar. Quem é que quer saber da mutilação genital feminina que acontece em solo português, quando o Cristiano Ronaldo acabou de ser pai recorrendo a uma barriga de aluguer?

    Ainda assim, entre colegas de curso que enveredaram pelo jornalismo, jornalistas que vi trabalhar durante o estágio que fiz na SIC e outros que fui conhecendo ao longo da minha vida profissional, sei que muitos há que continuam a lutar para noticiar factos, longe do circo mediático, ouvindo todas as partes e em cumprimento com o Código Deontológico. Muitos, mas não os suficientes para manter a qualidade e idoneidade dos meios de comunicação social portugueses.

    Há muitas razões para haver mau jornalismo, a começar, como já referi, na pressão para criar conteúdos relevantes a uma velocidade cada vez mais estonteante. Já não há tempo nem dinheiro para fazer jornalismo de investigação e, muitas vezes, os jornalistas acabam por não fazer o seu trabalho como gostariam porque há que fechar o jornal ou entrar em directo para a televisão. A isso aliam-se as linhas editoriais duvidosas, a substituição de jornalistas experientes por estagiários acabadinhos de sair da escola e ainda a extinção dos revisores, como se os correctores automáticos do computador pudessem tomar o seu lugar.

    Mas ainda assim, com todos estes motivos que podem desculpabilizar algumas gaffes, incoerências ou notícias mal explicadas, não há desculpa para tudo.

    Não há desculpa para os erros ortográficos e gramaticais. Isto deveria ser ponto assente em qualquer profissão, mas é muito mais grave em qualquer área da comunicação.

    Não há desculpa para confundir um anúncio com uma notícia. Como não devia haver desculpa para transformar em notícias publicidade disfarçada de nota de imprensa.

    Não há desculpa para trocar o nome a um convidado (já me aconteceu mais do que uma vez). Revela falta de atenção e algum desrespeito. A maioria dos convidados de programas de informação e mesmo de entretenimento fazem-no de graça. Roubam horas às suas actividades profissionais ou pessoais para responderem a um convite, para irem falar sobre um assunto que os editores do meio em questão consideram importante para o seu público.

    Não há desculpa para dar tempo de antena a curiosos que iam a passar no local e não têm absolutamente nada de relevante para acrescentar. Isso não são testemunhas, nem fontes, nem coisa nenhuma.

    Não há desculpa para dizer primeiro e confirmar depois. As notícias são protagonizadas por pessoas. As pessoas têm vidas, famílias e não vale tudo para ter um furo.

    Não há desculpa para entrevistar pessoas que acabaram de perder alguém e nem sabem o que estão a fazer.

    Não há desculpa para ser enviado para um país estrangeiro em reportagem ou tentar entrevistar alguém de outra nacionalidade sem falar uma outra língua. É constrangedor assistir a cenas dessas. Eu, pelo menos, sinto uma enorme vergonha alheia.

    Não há desculpa para fazer copy/paste das notas de imprensa recebidas ou, pior, dos textos dos colegas de profissão. Isso não é falta de tempo: é falta de brio.

    Não há desculpa para não se tirar o rabo da cadeira e preferir fazer entrevistas por email. Ao menos não lhes chamem entrevistas.

    Não há desculpa para muito do que se vê publicado ou que é divulgado pelos órgãos de comunicação deste país. E o problema não é só deste país.

    Cada dia tenho mais dificuldade em encontrar um meio no qual confie. Leio tudo com um pé atrás. Porque lá está, os bons jornalistas que trabalham em cada um desses meios, não compensam os maus. O que é pena, porque ainda há, de facto, alguns jornalistas muito bons. E cada dia fico mais agradecida por ter acabado por enveredar por outra profissão, uma que também anda pelas ruas da amargura, uma que também tem a sua dose de colegas que envergonham a classe, mas isso seria assunto para uma outra crónica.

    E a questão que se coloca é, precisamente, a que dá título a este desabafo. Neste mundo instantâneo, descartável, onde se socializa mais por detrás de um teclado do que cara a cara, onde o que interessa são os números e os lucros, haverá salvação para o jornalismo?

  • Quando tenho falta de tempo, o blog é que paga. Bem que me tento disciplinar para escrever pelo menos uma ou duas vezes por semana, bem que aponto no meu caderninho ideias para crónicas que gostava de escrever e assuntos que gostava de explorar, mas no final do dia, entre trabalho, filhos e livros, é impossível ter energia para andar por aqui. E agora com o lançamento do meu novo romance, ainda pior. Pior no sentido de negligenciar o blog.

    Porém, não podia deixar de fazer o convite oficial aos seguidores deste blog para esse lançamento! Vai ser na quarta-feira, dia 7 de junho, pelas 18.30 no espaço do Grupo Porto Editora na Feira do Livro de Lisboa.

    Espero que apareçam. Mesmo que não comprem o livro, que eu como leitora bem sei que a Feira é uma perdição e não dá para comprar todos os livros que gostaríamos, apareçam para dizer olá, boa?

    Até lá!




  • «Amanhece na cidade.

    É outro dia.

    O asfalto, ainda frio das horas soturnas, começa a reluzir assim que tocado pelos primeiros raios de sol. Folhas de árvores rodopiam pelos passeios, embaladas pelo sopro que a passagem do primeiro autocarro da manhã provoca. Um copo de plástico, que toda a noite balouçou junto ao lancil, aninha-se na curva da estrada, junto a um novelo de cabelos e cotão, vestígios de um dia anterior.


    Amanhece na cidade.

    É outro dia.

    Aos poucos, os sons de diferentes acordares começam a misturar-se até se tornarem uma espécie de melodia. Primeiro os murmúrios: “bom dia”, “acorda”, “olá, amor”, “dormiste bem?”, “já são horas”. Depois os gritos: “desliga o despertador”, “ainda estás deitado?”, “vamos chegar atrasados”, “Levanta-te!”. Primeiro os pézinhos-de-lã, depois as passadas barulhentas. Primeiro a máquina do café, a chaleira, o chuveiro, a persiana. Depois as televisões, os elevadores, os motores, as portas que batem abafando  com o seu estrondo um “até logo”. Primeiro os objectos, depois as pessoas, que chegam e partem desta praceta onde me encontro, indistintas de todas as outras pessoas que chegam e partem de cada uma das ruas de Lisboa ou de qualquer outra cidade. Pessoas com pressa, pessoas com tempo, pessoas que tomam o café à janela, pessoas que refilam, pessoas que bocejam, pessoas cujos gestos são sempre os mesmos, levantar a grade, varrer o chão, correr, entrar no carro, acenar, voltar atrás, passear o cão, respirar fundo, recomeçar. Como se cada novo dia não fosse mais do que a continuação do dia anterior. Como se cada dia não encerrasse em si o potencial de ser totalmente diferente. Tal como os prédios onde vivem, que não se desviam um milímetro do espaço onde estão alicerçados, também as pessoas não se desviam muito das suas rotinas. Acomodadas. Expectantes. Passivas.

    Gosto de pessoas. São o meu passatempo preferido. Aliás, gosto tanto de pessoas que chego a afeiçoar-me até às que não merecem que se goste delas. E fico especialmente fascinado com esta coisa de encararem a vida como algo que corre independentemente delas próprias, como se não fosse preciso fazer nada senão deixá-la avançar ao seu ritmo imperturbável, como se fossem viver para sempre. Divirto-me com o modo egocêntrico com que ignoram completamente o seu verdadeiro lugar na ordem das coisas. Alegro-me com o facto de acharem-se importantes e especiais, quando na verdade não passam de meras partículas na história do Tempo. São ínfimas as que apreciam verdadeiramente aquilo que têm ou aquilo que são; e mais ínfimas ainda as que têm consciência da sua verdadeira insignificância na vida do planeta, este pequeníssimo ponto que gravita em torno de uma de cem mil milhões de estrelas, que compõem uma de duzentos mil milhões de galáxias de um dos vários universos possíveis.

    Ainda assim, como seria o mundo sem elas? Sem os seus pecados e virtudes? Sem aquelas frases feitas que repetem para se sentirem melhor com a sua mortalidade e com a ignorância acerca dos mistérios do Universo, “tudo tem uma razão", “nada acontece por acaso”, “foi a vontade de Deus”, “oxalá”, “é o destino”? Sem a sua busca pela perfeição e pelo sentido da vida? E se nada fizer sentido? Por que raio havia de fazer?

    Ah, as pessoas... O que mais aprecio neste meu jogo de observá-las e adivinhar a vida de quem se cruza comigo é não precisar que me contem o que quer que seja. Gosto de deduzir, desvendar, apreender as suas histórias pelo simples estudo dos seus trejeitos. Por exemplo, para a maioria dos transeuntes que atravessam a praceta, a mulher que acabou de sair do 12 A não é mais do que uma miúda de aparência vulgar, adjectivo que até seria adequado se apenas tivéssemos em conta a indumentária pouco provável para uma manhã de um dia de trabalho: camisa de cetim demasiado decotada e sapatos com saltos demasiado altos. Está afogueada, tem o cabelo molhado e divide o olhar entre o interior da mala, para verificar se tem todos os seus pertences, e o telemóvel, que manuseia a uma velocidade estonteante. Dirige-se para o metro. Ainda terá de caminhar um bocado.

    Porém, se reparassem melhor, depressa notariam que não está assim vestida por ser vulgar. Aquela foi a indumentária que escolheu para uma saída à noite que, inesperadamente, terminou numa casa que não era a sua. Reparem agora no modo apreensivo com que franze o sobrolho, não só por saber que vai chegar atrasada ao local de trabalho, mas sobretudo por não ter tempo para ir a casa mudar de roupa. Para evitar olhares de desdém, os mesmos que já começa a sentir dos tais transeuntes que a julgam vulgar, certamente irá comprar uma camisa ou blusa mais discreta na primeira loja que encontrar a caminho do escritório. Os pés, esses, terão de aguentar os saltos excessivamente altos todo o dia. Está irritada consigo própria por ter adormecido naquele lugar e mais irritada ainda por ter gastado todo o dinheiro que tinha em copos e agora ter de ir de metro, quando lhe teria dado muito mais jeito apanhar um táxi. E todo este transtorno por uma noite de sexo banal. Como sei que foi banal? Porque se tivesse sido bom, nada disto importaria. Estaria de sorriso nos lábios e até se esqueceria das dores nos pés. Dificilmente tornarei a vê-la entrar ou sair daquele prédio que não lhe pertence. É apenas mais uma das mulheres que por lá passam.

    Não, não sou adivinho, nem um ser omnipresente. Não, não sou detective, nem espião. Só que ando nestas ruas há tantos anos que em poucos segundos consigo perceber o que escondem os gestos de cada pessoa que se cruza no meu caminho. E se entrarem e repousarem na minha napa preta, consigo desvendar todos os seus mistérios pelo simples sentir da pulsação. Também há o cheiro que emanam, o tipo de perfume que usam, o género de roupas que envergam, os acessórios com que se adornam, os sotaque e as expressões que utilizam, mas o coração é o mais fiável. Tum-tum. A ansiedade. Tum-tum. A paixão. Tum-tum. O medo. Todas as emoções têm o seu ritmo e, por mais que o tentem ocultar mudando o semblante, afinando a voz, escolhendo as mentiras que vão dizer, o bater do coração nunca mente. E mesmo quando tenho de recorrer à imaginação para colmatar alguma falha na história, não é nada que mude a essência das coisas, porque essa está lá, dentro destes seres que tanto me fascinam.

    De qualquer modo, pouco importa desvendar como sei o que sei. O que realmente importa é partilhá-lo convosco, não é verdade? Porque, quer queiram admitir quer não, todos vocês têm curiosidade em saber mais sobre a vida dos outros. Não conseguem deixar de espreitar por uma porta entreaberta, ignorar a conversa da mesa do lado, questionar por que razão fulano deixou a mulher ou sicrano ficou rico. A curiosidade está-vos no sangue. Daí o sucesso das telenovelas, dos jornais sensacionalistas e dos reality shows. Não é a mera busca de entretenimento fácil, muito menos um interesse antropológico. É puro voyeurismo. O prazer secreto de saber mais sobre os outros do que eles sabem sobre vós. De ver sem ser visto. De conhecer as suas histórias mirabolantes, aventureiras, pecaminosas, ou simplesmente banais. A vossa existência ganha significado pelas histórias de todos os dias. Por comparação. Por oposição. Por confrontação.

    Então, deixem-me começar pelo mais simples: a história por trás das mãos que me guiam.»


    in Amanhece na Cidade, de Filipa Fonseca Silva, Bertrand Editora 2017

    NAS LIVRARIAS A 9 DE JUNHO!