• Relembro que no sábado dia 7 de Março estarei na EC.ON (escrita criativa online) no âmbito dos Cursos Ícone, para uma conversa e debate sobre estas coisas da escrita.
    Nesta terceira edição dos Cursos Ícone, que além de mim conta com autores como Maria Teresa Horta, Gonçalo M. Tavares, José Luís Peixoto, Sérgio Godinho ou Francisco José Viegas, cada autor foi convidado para, numa única sessão, fazer leituras de trechos da sua obra, conversar sobre as suas referências e falar sobre o seu processo de criação.

    Estou empenhada em fazer da minha sessão algo muito informal mas relevante, sendo que o meu grande objectivo é que todos os participantes levem daquela tarde dicas e inspiração para os seus processos criativos.

    Podem inscrever-se aqui, mas apressem-se, porque as vagas são limitadas.

    Vemo-nos por lá?



  • Coisas Que Uma Mãe Descobre (e de que ninguém fala)
    é uma compilação de crónicas, algumas das quais publicadas aqui no blog, onde partilho a minha experiência na grande aventura da gravidez e maternidade. Mas é mais do que um livro, pois graças às ilustrações da talentosa Sofia Silva, pode ser completado com fotografias e notas de quem lê, tornando-se, no final, um divertido álbum de recordações para as mães.


    Cheio de humor e algum sarcasmo, é um livro indispensável para pais recentes, que descobrem algumas dicas de como lidar com as situações mais inesperadas, para pais experientes, que se vão rever em muitas das peripécias descritas, para pais grávidos, que vão poder preparar-se para o que os espera, e ainda para todos aqueles que nunca quiseram ser pais e que precisavam de novas razões para continuarem a não querer. 

    Dia 20 de Março nas livrarias
    Dia 28 de Março, lançamento na FNAC do Chiado!




  • O amor desperta a poesia em nós.
    Ficamos embevecidos com as coisas mais simples, como um pôr-do-sol ou uma música que está a passar na rádio e que nos transporta para um determinado momento a dois. Queremos desesperadamente pôr por palavras o que sentimos, numa mensagem enviada a meio do dia ou, nos dias que correm, num post do facebook. Cometemos loucuras, andamos aluados e a única coisa que importa é a pessoa que nos consegue despertar todas essas emoções.
    Por isso, neste mês que o consumismo transformou no mês do amor, a minha sugestão de leitura (e que certamente dará um belo presente de S.Valentim, para quem gosta de celebrar o dia) terá de ser um livro de poesia. Aliás, dois.


    O primeiro é "Vinte poemas de amor e uma canção desesperada" de Pablo Neruda, uma celebração ao amor, ao erotismo e à mulher, que o Prémio Nobel escreveu quando tinha pouco mais de vinte anos. Ainda assim, reúne alguns dos poemas mais celebrados da sua obra.




    O segundo é "No reino da Dinamarca" de Alexandre O'Neil, um livro incontornável na história da poesia portuguesa e que contém um dos meus poemas de amor preferidos, "Um Adeus Português".
    (Infelizmente este livro já não está editado, mas todos os poemas se podem encontrar na compilação "Poesia Completa" da Assírio e Alvim)



    Vá, admitam, existe coisa mais romântica do que alguém no sussurrar ao ouvido "torpeço de ternura por ti"?



  • Desde a adolescência que me considero ecologista e, sem cair em fanatismos, assim que comecei a viver na minha própria casa e a tomar todas as decisões de consumo, tornei-me rigorosa na adopção de um estilo de vida o mais sustentável possível. Compro maioritariamente produtos orgânicos, dos detergentes aos iogurtes, tento estar informada sobre as inovações científicas que possam  reduzir a minha pegada de carbono, ando de bicicleta, reciclo, reaproveito, reduzo, enfim, faço todos os pequenos gestos que contribuem para um mundo melhor. Mais, compro carne biológica para garantir que os animais são criados ao ar livre, e peixe pescado à cana para não destruir a fauna marinha que é arrastada pelas redes, para desespero do meu marido, que fica lívido cada vez que compara o preço do quilo dos mantimentos biológicos com os tradicionais (sim, já comprei perú da Serra-não-sei-do-quê ao preço de marisco). Pensava eu que assim, além de uma vida mais saudável, estava a promover a protecção da natureza e que todas essas minhas acções, pela lei do Karma, compensavam o facto de não ser vegetariana e ter diversas peças de vestuário e calçado de pele. Pensava e até já tinha escrito sobre o assunto aqui no blog.
    Foi preciso ver o documentário Cowspiracy para perceber que não podia estar mais enganada. Fiquei em estado de choque. Foi como descobrir que a Terra afinal não é redonda e que todas as associações ambientalistas que sigo e para as quais já fiz alguns donativos, andaram a omitir um problema de dimensões épicas. E se não andaram a omitir, pelo menos não lhe deram o destaque e prioridade que ele merece. Acima de tudo senti que todo o esforço e dinheiro gasto ao longo de tantos anos foram em vão.  Andei armada em ecologista, quando no fundo nunca deixei de contribuir massivamente para o buraco do Ozono e demais desastres ambientais. E qual é esse problema do qual ninguém quer falar? É que a coisa mais poluente e devastadora que existe para o nosso planeta não é o petróleo, mas sim a produção agro-pecuária.
    Senão, vejam o que descobri em apenas hora e meia:

    -  51% dos gases de efeitos de estufa são emitidos por gado e produtos derivados que produzimos para nosso consumo (http://www.worldwatch.org/node/6294)
    - a indústria da carne e lacticínios consome quase 1/3 da água potável de todo o mundo (http://www.forksoverknives.com/freshwater-abuse-and-loss-where-is-it-all-go)
    - a agro-pecuária é a principal causa de extinção de espécies, zonas oceânicas mortas, poluição aquática e destruição de habitats (http://www.epa.gov/region9/animalwaste/problem.html)
    - 100 milhões de toneladas de peixes são capturados todos os anos e 40% não são consumidos (inclui espécies como baleias, golfinhos, tartarugas e tubarões)  (http://ocean.nationalgeographic.com/ocean/global-fish-crisis-article/)
    - a agro-pecuária é responsável pela destruição de 91% da floresta Amazónica (https://openknowledge.worldbank.org/handle/10986/15060)
    - só no Brasil, 1100 activistas ambientais já foram assassinados por denunciarem estes e outros factos (http://www.theguardian.com/world/2009/apr/08/brazilian-murder-dorothy-stang)

    Isto e muito mais é relatado neste documentário que, no final, nos faz querer ir despejar o frigorífico e virar vegan. Como é possível as Greenpeaces da vida andarem há décadas a impingirem-nos o poupe água, poupe energia, largue o carro, diga não ao plástico, salve as focas, quando a coisa mais importante que poderiam dizer era, simplesmente, deixe de comer carne? Não que as outras coisas não sejam importantes, mas quando os dados mostram a peso gritante que agro-pecuária tem na poluição do planeta, não se compreende porque é que não é esse o foco de todos aqueles que dizem querer salvá-lo.
    Honestamente, não sei se algum dia vou conseguir ser vegan, mas estou empenhada em, gradualmente, até porque tenho duas crianças muito pequenas em casa, abraçar o vegetarianismo. Numa primeira fase, vou adoptar receitas vegetarianas ao jantar (as crianças podem comer carne e peixe na escola ou em casa de amigos, sem problema), mais tarde também ao almoço, mantendo o consumo de carne e peixe em locais que não tenham opções vegetarianas. Ou, seguindo conselho de Graham Hill nesta sua conferência no TED, tornar-me uma weekday vegetarian. É que depois de saber o que sei agora, não conseguirei viver comigo própria se não reduzir drasticamente o consumo de carne, peixe e derivados no meu lar.


    PS: Agradeço, do fundo do coração, a todos os vegetarianos e vegans que me quiserem enviar sugestões de receitas, dicas de nutrição, restaurantes e alternativas saudáveis para crianças. Pode ser que um dia consiga substituir o drasticamente, pelo totalmente.






  • As palavras e personagens de Colleen McCullough‬ preencheram a minha adolescência e início de vida adulta. Histórias românticas de mulheres fortes, determinadas, aventureiras. Dos Pássaros Feridos, ao Tim, do Toque de Midas à Canção de Tróia, guardo memórias de uma leitura empolgante e diversas viagem no tempo. 
    Obrigada Colleen por tantas horas de prazer e de inspiração. 

    1 Junho 1937 – 29 Janeiro 2015

  • Agora que os ânimos estão menos exaltados e que as atenções mediáticas já se viraram para outras tragédias, posso concluir que:

    - não se pode limitar a liberdade de expressão, a não ser que essa liberdade vá contra algo que defendemos

    - não se pode fazer humor com muçulmanos, judeus ou radicais de qualquer religião em geral, pessoas de qualquer raça ou etnia minoritária no país em que vivemos, anões, deficientes físicos, deficientes mentais, crianças, lendas vivas, lendas mortas

    - não se pode dizer "eu sou Charlie" sem dizermos que somos também sírios, iraquianos, nigerianos, palestinianos, ucranianos, presos políticos, mulheres mutiladas, crianças raptadas, florestas dizimadas, sob risco de nos chamarem hipócritas

    - não se pode ter uma conversa sobre o assunto sem alguém reproduzir as ideias de qualquer comentador ou opinador dos Media tradicionais

    - não se pode dizer o que se pensa em 90% das interacções sociais que temos durante o dia, sob o risco de nos mandarem internar

    - não se pode voltar a não saber quem é o Gustavo Santos.

    Resta-nos, portanto, falar do tempo. Parece que vai chover até ao final da semana e depois volta o frio, algo realmente surpreendente num mês de Janeiro no hemisfério norte.




  • نحن لا يمكن إسكاته. We can't be silenced. No podemos ser silenciados. Ons kan nie stilgemaak word nie. Ne nuk mund të heshtin. մենք չենք կարող լռել. Biz susdurulub bilməz. мы не можам маўчаць. Ne možemo da se utišaju. Ne možemo biti ušutkani ние не може да бъде спрян. nemůžeme být umlčen. Vi kan ikke bringes til tavshed. 我们不能沉默. We kan niet worden uitgezet. Me ei saa vaikima. Emme voi vaientaa. Nous ne pouvons pas rester silencieux. Wir können nicht schweigen. Nem tudjuk, hogy hallgasson. Við getum ekki að vera þögul. 私たちは沈黙することはできません. Mes negalime būti tyli. Tsy afaka ny ho mangina. Aħna ma tistax tkun siekta. Vi kan ikke være stille. ما نمی توانیم ساکت. Nie możemy milczeć. Nu putem fi tăcut. Vi kan inte vara tyst. Biz sessiz olamaz. Ми не можемо мовчати.





  • Já escrevi em vários lugares que devo à minha mãe a paixão pela leitura e à minha professora primária a paixão pela escrita. Mas houve alguém na minha vida de quem nunca falei e que também contribuiu significativamente para o meu desejo de me tornar uma escritora: o meu avô.

    O meu avô foi das pessoas que mais gargalhadas me arrancou durante a infância. Para ele, os netos eram uma festa e tudo valia: pô-los a rir, pô-los a chorar, virá-los de cabeça para baixo ou molhá-los com a mangueira, mesmo que fosse Inverno. Mas mais importante que tudo, foi ele quem me ensinou a usar a imaginação.

    É que um passeio com o meu avô pela Mata da Machada, não era um simples passeio: era uma corrida no meio de uma floresta cheia de perigos. "Cuidado! Está ali um leão!", gritava de repente. "Pára! Isso são areias movediças!", alertava, obrigando-nos a saltar por cima de uma poça de lama. "Sem rir, sem chorar!" e lá íamos nós atrás dele, esfolados, enlameados e profundamente felizes.

    E os Domingos de manhã, quando dormíamos lá em casa? O edredon transformava-se num café e nós os empregados que servíamos o pequeno almoço. "Ai, que porcaria! O café está frio!" e lá íamos nós, para baixo do edredon, preparar outro. "Mas o que é isto? O café tem sal!" e lá pedíamos desculpas, voltando para o fundo da cama às gargalhadas.

    Na praia, íamos caçar gambozinos e voltávamos com o balde cheio de caranguejos, o barquinho de borracha era um navio no meio da tempestade e as pernas dele uma ponte para passarmos por baixo e aprendermos a dar mergulhos (sem a mão no nariz!).

    Até foi o meu avô quem baptizou o meu amigo imaginário! Sim, Perana não é um nome que uma menina de cinco anos inventasse. Mas ao contrário dos outros adultos, que se riam das minhas conversas com o meu amigo invisível, o meu avô fazia-me perguntas sobre ele e obrigava-me a inventar histórias atrás de histórias acerca do que ele me dizia. Vendo bem, foi o meu avô que me ajudou a construir a minha primeira personagem, antes mesmo de saber ler ou escrever.

    Tenho pena de muitas coisas que não vivi nos últimos vinte anos ao lado do meu avô. Tenho pena que não tenha conhecido o meu marido e os meus filhos. Que não tenha estado no meu casamento, no meu final de curso e em tantos outros momentos marcantes da vida. Tenho pena de não poder abraçá-lo nem deitar-me na sua cama a conversar, como fizemos tantas vezes. Mas a coisa de que tenho mais pena é que ele não tenha assistido ao momento em que as minhas histórias, aquelas que ele ajudou a escrever por tanto ter exercitado o músculo da minha criatividade, se tornaram livros de verdade.

    Pode ser que aquela ideia reconfortante de que os nossos mortos estão a assistir às nossas vidas, lá onde se movem os espectros, seja real. Mesmo que não seja, uma coisa é certa: o meu avô vive dentro de mim há precisamente vinte anos e, enquanto assim for, continuarei a inventar histórias para lhe contar.

  • Há uma verdade universal que quanto mais cedo for interiorizada pelas mulheres de todo o mundo, menos desilusões causará nos momentos de celebração: os homens não têm jeitinho nenhum para escolher prendas. Claro que há excepções, mas estas, como em tudo, só confirmam a regra.

    Não é por mal, nem é por não terem orçamento, é simplesmente porque ficam intimidados com tudo o que tenha a ver com o mundo das mulheres e acham, do fundo do coração, que se dizemos que precisamos de uma máquina de café nova ficaremos felizes por receber uma como presente de Natal. Pobres diabos... Fazem ideia do que significa para uma mulher receber um electrodoméstico? Anos e anos de luta pelos direitos femininos e pela anulação do nosso papel doméstico a serem desprezados por um simples objecto de uso quotidiano.

    Eu sei que o meu marido não vai achar graça nenhuma a esta confissão, mas há dois episódios em concreto que exemplificam bem como a melhor das intenções pode acabar por arruinar um momento especial.

    A primeira aconteceu ainda nos tempos de namoro. Eu andava a queixar-me que estava fora de forma, que precisava de fazer alguma coisa mas não sabia o quê porque não gosto de fazer desporto em ginásios, etc. e tal, enfim, desculpas de uma menina de vinte e poucos anos preguiçosa. Vai daí, o meu querido namorado, com o melhor dos propósitos, no dia de Natal aparece-me com quatro embrulhos. De início fiquei extasiada. Quatro presentes para mim? Que amor, pensei, enternecida. Até que abri o primeiro: um jogo para a Playstion de exercícios para fazer em casa. Ok. Até pode ser engraçado. Segundo presente: um colchão de ginástica. Mau... Terceiro presente: pesos. Aí já não consegui disfarçar a profunda desilusão. Mas restava um presente, cuja forma me pareceu ser a de um livro. Menos mau, um livro nunca falha. A não ser que seja um livro de... dicas para emagrecer!!!!!!!! Não vou contar o que aconteceu a seguir, mas foi algo entre o esgotamento nervoso e a histeria.

    A segunda vez que o meu já marido me tentou surpreender foi no meu trigésimo aniversário. Uma data marcante e especial, sobretudo para mim, que adoro fazer anos e levo o meu dia muito a sério. Nesse ano em concreto, andava a namorar uma mala Marc Jacobs e fiz questão de o dizer variadíssimas vezes. Mostrando estar mesmo muito empenhado em tornar o meu dia inesquecível, o meu amor ofereceu-me um bicicleta maravilhosa. Fiquei mais contente que uma criança a receber a sua primeira bicicleta e, ainda hoje, é nela que me desloco diariamente. Mas não se ficou por aqui. À noite, durante o jantar lá em casa com toda a família e amigos, ainda me ofereceu o bolo de aniversário, uma linda e deliciosa obra de cake design com um sapato no topo, e um vestido! Eu não podia estar mais feliz e hoje, olhando para trás, gostava sinceramente que a festa tivesse terminado ali, em toda a sua glória e magia. Mas não. Ainda havia um presente, que vinha numa caixa de cartão enorme. A primeira coisa que me passou pela cabeça é que ele tinha colocado a tal mala Marc Jacobs dentro daquela caixa para me surpreender. Abri com um sorriso expectante e qual não foi o meu espanto quando, entre quilos de esferovite, encontrei uma máquina para massajar os pés! A sério? Não, não pode ser. Quem é que dá à sua mulher de trinta anos um massajador de pés. Mais, quem é que dá um massajador de pés que custa o equivalente a não uma, mas duas malas Marc Jacobs? Mas amor, tu adoras massagens aos pés, dizia-me ele, mandei vir de Espanha porque nem sequer há cá... O que dizer? Nada... O massajador de pés lá está, a um canto do quarto, para ser usado duas ou três vezes por ano, enquanto a mala Marc Jacobs continua a aparecer-me nos sonhos, linda, reluzente, inalcançável.

    Como vêem, por melhores que sejam as intenções, por maior o cuidado e atenção na escolha de um presente, a coisa pode resultar num desastre épico. Por isso, caros leitores do sexo masculino, da próxima vez que comprarem um presente para as vossas mulheres, tenham em grande consideração estas preciosas dicas:

    1) Nunca, mas nunca, ofereçam um electrodoméstico, mesmo que seja um secador de cabelo que só ela vai usar.

    2) Nunca, mas nunca, ofereçam artigos de desporto, pois serão sempre interpretados como um aviso de que estamos a ficar gordas e, como já devem saber, uma mulher achar que o marido acha que ela está gorda pode despoletar um drama.

    3) Fiquem muito atentos às indirectas. Todas as mulheres, quando se aproxima uma data especial, inevitavelmente começam a dar dicas sobre o que gostavam de receber.

    4) Se não conseguiram compreender nenhuma das indirectas, peçam ajuda às vossas filhas, cunhadas ou à melhor amiga. Estas pessoas sabem sempre o que as vossas mulheres gostaram na última ida ao centro comercial. E sabem melhor que a prestável empregada da loja, que quer é vender e nunca viu a vossa mulher mais gorda.

    5) Por último, não tentem ser demasiado criativos. A maioria das mulheres gosta de surpresas, mas surpresas minimamente calculadas. Tipo, ai que surpresa, não sabia se me ias oferecer o perfume que pedi ou o livro que andava à procura há tanto tempo. A não ser que seja uma viajem a Nova Iorque. Aí podem arriscar. (Sim, para se redimir, houve um ano em que o meu querido marido me ofereceu uma viagem inesquecível, há que dizê-lo publicamente.)

    Quanto às senhoras, não tenham ilusões:

    1) Sejam muito directas, porque a maioria dos homens, a não ser que se trate de sexo, não consegue apanhar as dicas subtis quer lhe damos.

    2) Digam aos vossos filhos, cunhadas e melhores amigas o que querem receber. É provável que eles peçam ajuda a estas pessoas, sobretudo depois de lerem este texto.

    3) Escrevam uma carta ao Pai Natal, mas sejam muito concretas no que toca ao modelo, cor, tamanho e localização GPS da loja. Como sabem, uma mala preta não é apenas uma mala preta. Há a textura, o formato, o tamanho, o propósito, enfim, um mundo desconhecido e assustador para a maioria dos homens.

    Boas compras!


    (texto originalmente publicado n' A Farmácia de Serviço)
  • Livros é o melhor presente que se pode dar. Estes são os meus eleitos deste ano. :)


  • Chegou a minha época preferida do ano! Sim, admito, sou tão doida pelo Natal que suspeito que noutra vida fui duende. Adoro as decorações, os doces, as tradições e principalmente comprar e embrulhar, um a um, os presentes escolhidos com todo o carinho para as pessoas de quem mais gosto.
    Mas como sei que é precisamente a parte dos presentes que dá cabo das festas a muito boa gente, e não consigo reprimir o ajudante de Pai Natal que tenho dentro de mim, deixo-vos 10 sugestões 100% portuguesas (sem serem os meus livros!), que farão as delícias de quem as receber. Além disso, a maioria pode ser comprada online, o que é uma enorme vantagem para quem têm pesadelos com centros comerciais sobrelotados, cuja música de fundo é a Mariah Carey a gritar "All I Want for Christmas is you".

    1) Almofadas Gato das Botas e Capuchinho Vermelho, da loja online "O Rei Manda"
    No verso ainda têm um bolso com o respectivo conto infantil. Um amor!

    2) Bolsas e carteiras Bainha de Copas
    Uma homenagem às ruas portuguesas, feitas com base em fotografias de murais das nossas cidades. A partir de €8.50!

    3) Compotas em Bisnagas Meia-Dúzia
    Não é só o formato em bisnaga que torna estas compotas tão originais, mas também a conjugação de sabores como Ananás dos Açores com Erva-Príncipe, Cereja do Fundão com Lima ou Pêra Rocha com Baunilha. Hummmmmm...

    4) Calendário Feliz é Quem
    Mais do que um objecto essencial para saber a quantas andamos, este calendário relembra-nos a cada mês que feliz é quem aprecia as pequenas coisas da vida. E só custam €5!


    5) Boneco Xi-Coração,
    O boneco que dá abracinhos. Por apenas €15, pode oferecer este presente solidário da Fundação Rui Osório de Castro, que apoia crianças com doenças oncológicas. 

    O presente ideal para homens de barba rija :)


    7) Chinelos de quarto Xinelices
    Um clássico de Natal, mas muito mais divertidos e por apenas €10.


    8) Sabonetes Spumis
    Com modelos retro irresistíveis, como legos, space invaders ou o Pac Man. Lindos!

    9) Música Portuguesa - Marta Hugon
    O disco não é novo (é de 2011), mas vem provar que a Marta é uma das melhores vozes de jazz portuguesas. Acompanhada por músicos igualmente fantásticos. Vale a pena ouvir.

    10) Óculos de sol Skog
    Como embaixadora da marca, não podia deixar de sugerir um par destes maravilhosos óculos de madeira. Porque os nossos invernos até são bastante soalheiros e um par de óculos nunca está a mais. Ah, e só custam €49,90! 


    Vá, agora vão lá comer filhoses descansados. Não precisam de agradecer ;)
    Feliz Natal!




  • A última vez que estive com os meus amigos mais chegados foi há dois meses. A última vez que estive com outros amigos menos chegados mas de quem gosto muito, foi há um ano ou mais. Sim, é uma vergonha e sim, a culpa é toda minha que não lhes ligo, que não os convido para passarem lá em casa, que não combino um jantar. No meio de dois bebés pequenos, os livros, o trabalho na agência e em casa, os dias passam, o cansaço instala-se e aquele telefonema nunca chega a ser feito.

    Podia pôr a culpa nos meus amigos. A maioria deles não tem bebés, nem dois trabalhos como eu. Mas não. A culpa é só minha que não lhes ligo. Porque eles podem não ter bebés, mas têm outras coisas igualmente importantes a preencherem desenfreadamente os seus dias. A preencherem de tal forma que ninguém se lembra de contar há quanto tempo não nos vemos. E as saudades? Será que já ninguém tem saudades? Das conversas, dos abraços, das gargalhadas? Não, ninguém tem saudades e a razão é simples: estamos mergulhados na ilusão de proximidade que as tecnologias nos dão.

    Com as tecnologias hoje disponíveis temos a sensação de estar sempre a par de tudo o que os nossos amigos fazem. Sabemos que o João foi passar o fim-de-semana a Paris com a namorada nova, que ainda não conhecemos mas deve ser um amor. Sabemos que o Rita foi jantar fora com os colegas do liceu, que aproveitaram para publicar umas fotografias desses tempos, mostrando (para grande surpresa nossa) que ela usou aparelho e óculos de fundo de garrafa. Sabemos que a Mafalda ficou outra vez presa no trânsito, coitada, mas no fundo não temos assim tanta pena, porque ela bem que podia andar de transportes. Sabemos que o Pedro está a alugar a casa dele, o que significa que, provavelmente, vai mudar-se para casa da Maria - já não era sem tempo. Sabemos que o Diogo e a Teresa vão ter uma menina, que o Augusto mudou de emprego, que a Joana comprou uns sapatos novos e que toda a gente vai ao concerto do ano, menos nós porque não estávamos atentos e agora já não há bilhetes. No fim do dia, desligamos os computadores e os telefones com um sorriso. Os nossos amigos estão bem, pensamos. Estão felizes e viajam e divertem-se imenso. Não nos convidaram porque isso já não se usa. Agora criam-se eventos e faz-se check-in para toda a gente saber onde estamos. Não telefonaram porque fizeram imensos likes nas nossas fotografias, logo, estão atentos ao que fazemos. Não apareceram porque isso é demasiado anos 90. Agora faz-se um Skype ou um Facetime ou um Snapchat ou um vídeo pelo WhatsApp.

    Ilusão.

    Nenhuma tecnologia substitui o toque, o som de voz e o abraço de um amigo. Nenhum comentário simpático num qualquer post substitui um sorriso cara a cara. E tudo o que achamos que sabemos sobre os nossos amigos através das redes sociais, vem editado pelo filtro da felicidade que todos nós colocámos nas nossas fotografias e palavras virtuais. Ninguém partilha os restos de lasanha que está a comer sozinho à frente da televisão, porque há semanas que não recebe um convite para jantar. Ninguém mostra os olhos inchados de angústia, porque não é suposto sermos fracos e duvidarmos de nós próprios. Ninguém fala das horas a olhar para o telefone que não toca. Estamos a criar uma versão cor-de-rosa das nossas vidas. Vidas falsas, cheias de amigos cada vez mais virtuais, que apenas partilham connosco as suas existências igualmente falsas.

    Antes do advento das tecnologias, as pessoas também tinham bebés e empregos e compromissos. Ainda assim, ligavam e apareciam, porque era a única maneira de saber como estavam aqueles de quem gostavam. Arranjavam tempo, provavelmente porque não o perdiam com a cabeça enfiada em aparelhos electrónicos, e apareciam nos cafés, nos restaurantes, nas casas uns dos outros. Apareciam de carne e osso, olhos nos olhos. E telefonavam. E os outros atendiam o telefone, mesmo que as emissões da televisão não pudessem ser paradas. E havia sempre novidades para contar e temas para debater e coisas reais para viver. Se calhar estou a ficar velha e nostálgica, mas a verdade é que tenho saudades dos tempos em que a campainha ou telefone tocavam e não se sabia quem estava do outro lado. Dos tempos em que a minha amiga Laura passava lá em casa depois da escola sem avisar. Dos tempos em que ia sozinha para o café do costume ou para o bar da faculdade porque sabia que ia encontrar lá alguém conhecido com quem falar. Agora tudo isso parece mal. Aparecer sem avisar, telefonar sem hora marcada. E criam-se fossos cada vez maiores, até que o outro lado fica tão inalcançável que deixa de valer a pena o esforço para lá chegar.

    Não sou contra as tecnologias. Aliás, até as uso com muito gosto. São elas que me permitem partilhar o que escrevo e falar com os meus leitores. Não acho estranho que nas salas de espera, autocarros ou bancos de jardim, os jornais e os livros tenham sido substituídos por smartphones. É assim mesmo que o mundo avança. Mas acho absurda a necessidade de estarmos sempre ligados, incluindo quando estamos cara-a-cara com os outros. E ainda mais absurdo acharmos que um like, um SMS, um comentário, um desejo de feliz aniversário virtual seja o mesmo que pegar num telefone ou aparecer e conversar. Aquilo que devia estar ao nosso serviço, para nos aproximar, para partilhar, para nos trazer novos mundos e experiências, está afinal a deixar-nos cada vez mais sós. E na verdade, como escrevi no final do meu mais recente livro, de que nos serve vivermos qualquer mundo que seja, se o tivermos de fazer sozinhos?





  • Quando nos apaixonamos verdadeiramente por alguém, não há nada que nos pare. Tudo é cor-de-rosa, tudo é maravilhoso, tudo é superável, até ao belo e inesquecível dia em que conhecemos a família do nosso amor.

    Ao contrário dos amigos, dos empregos, dos vícios, a família é daquelas coisas que não podemos mudar. Pior, nem sequer podemos escolher. E se, até certa idade, os nossos familiares directos são a nossa grande referência, com o passar dos anos começamos a aperceber-nos dos seus defeitos, das suas manias, de todas as coisas que nos tiram do sério. Mas lá está, mãe é mãe, pai é pai, irmão é irmão, e, no final, o amor é cego e ajuda-nos a perdoar todas as suas falhas.

    O mesmo pode não acontecer com os pais e irmãos da nossa alma gémea. Para estes, o nível de tolerância é sempre menor e o nível de crítica inversamente proporcional, porque entrar numa família nunca é a mesma coisa do que nascer nessa família. Há toda uma história por trás de cada piada, por trás de cada afecto e, sobretudo, por trás de cada boca foleira. São precisos anos e anos para conhecer todas as tradições, achar graça a todas aquelas pessoas e não levar a mal o tipo de humor (ou a total ausência dele, nalguns casos) que se pratica naquele lar. E se a coisa lá vai funcionando durante o namoro, tudo muda de figura quando há um compromisso mais sério e se começam a passar natais e fins-de-semana juntos.

    Quanto mais sério fica o relacionamento, mais os pais percebem que os seus bebés se foram embora para sempre. Ou seja, para os nossos sogros seremos sempre ladrões de bebés. Pior, ladrões de bebés que fazem lavagens cerebrais, porque todas as decisões que os filhos tomam contra as expectativas dos pais, passam a ser vistas como ideias do recém-chegado membro. Quem nunca ouviu um "Aquilo é ideia dela, que o meu filho nunca faria uma coisa dessas"? Ou um "desde que foi viver com ele, nunca mais foi a mesma"? Assim, por mais amorosos que os nossos sogros sejam, há alturas em que um certo nível de hostilidade acaba sempre por transparecer.

    Depois temos o tempo que passamos com a nova família. Se, por um lado, ajuda a que todos se conheçam melhor, por outro lado, cria uma falsa familiaridade cujo resultado nem sempre é bonito de ver. Gostamos que nos façam sentir parte da família, mas não gostamos que nos digam coisas como "já te chamei para a mesa três vezes". Podemos dizer à nossa mãe que ela está a ser uma grande chata, mas não o podemos dizer à nossa sogra. Queremos desabafar com o nosso mais-que-tudo acerca da idiotice que o nosso irmão fez, mas não toleramos que seja o outro a apontá-la. Porque, lá está, eu posso dizer mal dos meus, mas mais ninguém pode.

    E é aí que surgem os problemas entre o casal. Começa com o "pede lá à tua mãe que não implique com os meus piercings" e acaba com o "nem penses que volto a por os pés naquela casa!". Passa do "amor, pára de implicar com a minha irmã" para o "e a tua é uma cabra!", entre muitas outras coisas horríveis como o "és igualzinha à tua mãe", "parece que estou a ouvir o teu paizinho", "vocês estão bem uns para os outros".

    Espera aí! Vocês? Então não era suposto ser "nós"? Não é isso que significa uma família unida? É. Em teoria. Na prática, a verdade é só uma: a pessoa com quem escolheres viver nunca vai gostar tanto da tua família quanto tu. E o inverso também se aplica. Por isso, o melhor é guardares as tuas opiniões para ti, a não ser que sejam expressamente solicitadas. E, lembra-te, quando ouvires um "epá, o meu irmão é mesmo estúpido", não caias na tentação de concordar de imediato. Diz antes algo como "deixa lá, ele estava só a ter um dia mau", mesmo que seja a maior das mentiras e o dito seja, efectivamente, uma besta quadrada.


    texto originalmente escrito para A Farmácia de Serviço

  • A Dona Infância era muito pequenina e sorridente, como se quem lhe pôs o nome tivesse vislumbrado numa recém-nascida o tipo de mulher em que se iria tornar. No dia em que a conheci, não queria acreditar que tivesse mesmo aquele nome. Ninguém se chama Infância, dizia eu do alto dos meus seis anos, Infância não é um nome. É sim, respondia ela, é o meu nome. E eu ria-me muito, porque não sabia que as pessoas podiam ter nomes assim.

    A Dona Infância cirandava pela casa a uma velocidade estonteante. Admira-me que não tenha partido mais bibelôs, tal era a pressa com que passava de umas prateleiras para as outras com o pano cor-de-laranja. Pensando bem, partiu bastantes. A minha mãe ficava furiosa, não pelo acidente em si, mas porque a D. Infância nem sempre confessava o crime e deixava ficar lá o objecto arrumadinho, até ao dia em que alguém lhe tocava e reparava que estava partido. A mim dava-me jeito o desleixo, pois das poucas vezes que parti alguma coisa, fiz como ela, evitando um raspanete. 

    A Dona Infância andava sempre a correr, escada acima, escada abaixo, com as socas brancas a espancarem o chão, e nunca tinha tempo para brincar comigo. Assim, andava eu atrás dela a fazer perguntas e a contar histórias. Foge daí sua magana, dizia-me ela quando eu me sentava na cama que ela acabara de fazer. E eu ria-me muito, porque nunca tinha ouvido a palavra magana. 

    A Dona Infância chamava-nos meninos e levava-nos o lanche num tabuleiro. Pão com manteiga para um, pão com fiambre para outro, leite com chocolate para um, sem chocolate para o outro e ainda voltava para trás quando os meninos mimados diziam que afinal queriam bolachas. Eu não gostava que ela andasse para a frente e para trás, por isso, comia quase sempre o que ela trazia, mesmo que não me apetecesse.

    A Dona Infância nunca fazia queixinhas aos nossos pais, por mais disparates que fizéssemos, e eram muitos, sobretudo quando convidávamos os amigos ou os primos para brincarem lá em casa. Deixava-nos fazer cabaninhas com os lençóis acabados de passar, deixava-nos escorregar pela escada num colchão, a fingir que estávamos a descer rápidos, deixava-nos pôr a televisão aos berros e saltar em cima da cama e nunca nos pediu para tirar os sapatos para não sujarmos o chão. Quando eu e o meu irmão nos pegávamos, a Dona Infância era o meu esconderijo e dizia fique aqui ao pé de mim menina, deixe lá estar o seu irmão. E eu ficava e deixava que me fizesse festinhas com as mãos ásperas.

    A Dona Infância não sabia ler. Foi um choque para mim quando me apercebi disso. Um adulto que não sabia ler? Então nunca foi à escola? Não, menina. Porquê? Porque tive de ir ajudar os meus pais no campo. E lá não havia escolas? Não. E porque é que não aprendeu depois? Porque comecei a trabalhar e não tinha tempo. Então como é que sabe qual o autocarro para casa? Pelo número. E quando a sua filha leva recados no caderno como é que sabe o que é que está lá escrito? Ela lê para mim. E a sua filha nunca lhe ensinou? Não. Porquê? Porque ela tem mais do que fazer e tem de estudar muito. E como é que assina o seu nome nos testes? Com uma cruz. E eu ria-me, porque não sabia que era possível alguém não saber escrever o nome. 

    No dia seguinte, decidi ensinar a Dona Infância a ler. Tinha sete anos. Todos os dias, enquanto a minha mãe não chegava e a D. Infância não tinha outro remédio senão ficar comigo, ia buscar o meu livro da primeira classe e ensinava-lhe as letras. Primeiro as vogais, depois as consoantes, como eu tinha apreendido. A Dona Infância não tinha paciência nenhuma para aquilo. Já estava de casaco vestido e só olhava para o relógio a fazer contas de cabeça ao tempo que ia demorar a chegar a casa se perdesse o próximo autocarro. Meia hora de caminho, mais fazer o jantar para filha, mais arrumar a casa dela depois de horas a arrumar a nossa. E eu irritava-me porque era tão fácil ler e ela não queria aprender. Então, mandava-lhe trabalhos de casa, que ela levava na mala mas nunca fazia. Porém não desisti: só a larguei quando me certifiquei de que sabia escrever o seu nome. 

    A Dona Infância uma vez levou-me a casa dela. Fomos de autocarro, no catorze, e chegámos a um bairro com muito prédios e poucas árvores. O dela era verde seco. Não me lembro bem da casa, mas lembro-me da filha, a Luísa. Estava decidida a não gostar dela. Imaginava-a uma filha má, baixinha e carrancuda, que nunca tinha ensinado a própria mãe a ler. Deparei-me com uma mulher alta, ruiva, e sorridente. Tinha uma voz muito calma e um tom muito doce e piscou-me o olho antes de se fechar no quarto. Passei a gostar dela.

    A Dona Infância um dia foi-se embora e eu chorei muito. Fiquei mesmo zangada com a minha mãe por ter permitido tal coisa, longe de saber as razões de uma e de outra. Ao longo dos anos fui-me cruzando com ela na rua e dava-lhe sempre um grande beijinho. Trabalhava numa outra casa ali perto. Também tem meninos? Perguntei numa das primeiras vezes em que nos encontrámos. Não, menina, é a casa de uma senhora velhota. E eu fiquei aliviada porque não ia haver outra menina para roubar o meu lugar. 

    Os anos passaram, eu deixei de a ver, mas mesmo depois de vir morar para Lisboa, ia tendo notícias suas. Volta e meia a minha mãe lá me dizia, sabes quem encontrei hoje na rua? A Dona Infância. Perguntou por ti e mandou-te um beijinho. E eu ria-me, porque me lembrava sempre dos seus beijinhos apressados, como toda ela. Até que um dia a minha mãe me disse, sabes quem morreu? A Dona Infância. E eu não achei graça nenhuma. Não tem graça nenhuma não nos podermos despedir das pessoas por quem temos algum carinho. Não tem graça nenhuma perder alguém que, embora muito distante, faz parte da nossa vida. Mas logo depois comecei a recordar os inúmeros episódios que vivemos juntas e não pude deixar de sorrir. Dela só retenho memórias boas. As memórias da minha Infância.





  • Ouvi dizer  que a Apple e o Facebook anunciaram que vão financiar o congelamento de óvulos para que as suas funcionárias possam adiar a maternidade.
    (Pausa.
    Pausa de incredulidade, de indignação, de estupefacção.)
    É das coisas mais assustadoras e ignóbeis que li em toda a minha vida. Aliás, enquanto mãe e mulher, é tão revoltante, que me apetece deitar o Mac onde estou a escrever pela janela fora e apagar todas as minha contas do Facebook.
    Segundo os defensores desta nova modinha de Silicon Valley, a medida permite que as mulheres dediquem os melhores anos da sua vida às suas carreiras, alcançando cargos nunca antes imaginados, até agora dominados por homens, podendo mais tarde (provavelmente aos 50, porque não?) abrandar o ritmo e ter filhos. É um procedimento caro, que não está coberto por seguros de saúde e, no fundo, os "beneméritos" estão a fazer um favor e a incentivar a natalidade, ainda que geriática.
    Ora, eu sei que os produtos criados por estas empresas são (supostamente!) facilitadores da vida moderna. O telefone que é um computador, o relógio que dá música, o tablet que armazena bibliotecas inteiras, a rede social que nos faz estar a par de tudo o que os nossos  amigos andam a fazer, as aplicações e todas as distracções que nos estão a tornar cada vez menos humanos, cada vez menos sociais. Mas sabem de uma coisa caros senhores de Silicon Valley? Não precisamos que interfiram nos nossos ciclos reprodutivos.
    Se querem realmente contar com as mulheres nas vossas empresas podem começar por lhes pagar o mesmo que pagam aos homens. Com um salário melhor, as mães não têm de sacrificar a carreira para dar atenção aos filhos. Porque podem pagar a uma empregada para lhes orientar a casa, a roupa e a cozinha; podem contratar uma ama para tomar conta das crianças nos dias em que têm de ficar até mais tarde; podem escolher uma casa perto do local de trabalho, para poupar o tempo de deslocações e assim terem mais horas livres para o seu cargo e para as crianças. Depois podem usar o dinheiro dos óvulos e usá-los para pagar as licenças de maternidade prolongadas, ou os dias em que temos de faltar porque os miúdos estão doentes ou têm a festa da escola. Por último, podem mesmo criar creches e ATLs no edifício, para que as mães não tenham de sair a correr de uma reunião porque a escola vai fechar e ninguém foi buscar o miúdo. Tal como criam refeitórios, ginásios e, no caso da nova sede do Facebook, canil! Com todo o respeito e amor que tenho por animais, construir um canil e não construir uma creche é o mesmo que dizer "aqui só queremos solteirões sem vida, cujo único ser vivo com quem contactam para lá da porta do escritório tem quatro patas".
    Em pleno século XXI, o tipo de mentalidade por detrás desta medida é aterrorizador. O corpo humano não é software sujeito a actualizações. A seguir vão programar o sexo dos filhos conforme as necessidades demográficas? Ou financiar a eutanásia para quem tem a seu cargo familiares debilitados? Saiam mas é de trás dos vossos computadores e abram os olhos. Olhem-se ao espelho e vejam os monstros em que se tornaram. Autómatos. Vazios. Olhem pela janela e reparem em algo de expraordinário: há vida para lá do vale onde só a tecnologia se desenvolve. Há vida, há valores, há humanidade. Acima de tudo, há a melhor coisa do mundo: as crianças.


  • Malala nasceu no Paquistão em 1997. O seu pai, poeta e professor, ensinou-lhe a importância da educação, sobretudo para as meninas. Quando o região onde Malala vivia foi ocupada pelos talibãs, que começaram a proibir primeiro a televisão, depois a música e, por fim, o acesso das meninas à educação, Malala, de apenas 11 anos, criou um blog na BBC Urdu onde escrevia sobre os seus pontos de vista acerca da educação e da vida sob o domínio talibã.
    O blog chamou a atenção internacional e Malala foi história no New York Times, passando a receber ameaças de morte. O primeiro Prémio da Paz para a Juventude no Paquistão e a nomeação pelo Arcebispo Desmond Tutu para o International Children’s Peace Prize foram a gota de água: os talibãs decidiram que tinham de a calar. Assim, no dia 9 de Outubro de 2012, um talibã entrou no autocarro da escola, chamou pelo seu nome e deu-lhe um tiro na cabeça.
    Qual guerreira de um livro de aventuras, Malala sobreviveu. Os médicos dizem que foi quase milagre, eu acho que foi por vontade superior. Assim que recuperou, Malala continuou o seu trabalho, tornando-se o rosto e a voz de milhões de meninas a quem a educação é vedada por razões políticas, culturais ou religiosas. O seu discurso nas Nações Unidas, no dia em que fez 16 anos, é das coisas mais inspiradoras que já vi. Mas uma das frases que mais me marcou noutros dos seus famosos discursos foi quando disse que "milhões de crianças do mundo não querem um iPhone, ou uma playstation ou chocolates. Querem apenas um livros e uma caneta". Hoje ganhou o prémio Nobel da Paz. Mais do que merecido.

    Se quiserem seguir e apoiar o trabalho de Malala, podem fazê-lo aqui.



    PS: O prémio Nobel foi "dividido" com outro ser humano extraordinário, Kailash Satyarthi, pela sua luta pelos direitos das crianças na Índia, sobretudo o fim do trabalho infantil e direito à educação. Já salvou mais de 80 mil crianças da escravatura.