• Estou agoniada, literalmente enjoada. Apetece-me chorar contigo e abraçar-te, Rita. Consigo sentir a tua dor, a tua incredulidade, o teu desespero. Sei que não há maior sofrimento do que perder um filho, seja de que maneira for, mas há maneiras bem piores do que outras.

    Quando ontem vi o teu apelo nas redes sociais, abafado pela "viralidade" do caso dos energúmenos que encurralaram o miúdo na Figueira da Foz, não prestei muita atenção. Confesso que nem sequer partilhei as fotografias, porque, tal como a polícia, ninguém se surpreende muito quando um adolescente desaparece, porque os adolescentes são criaturas estranhas e sabe-se lá o que lhes passa pela cabeça. De certeza que vai aparecer, tem de haver uma explicação. Quando hoje vi o título da notícia que o dava como morto, senti um enorme pesar, mas a primeira coisa que me passou pela cabeça foi que tivesse havido um acidente. Bebeu demais, foi atropelado, caiu ao rio, sei lá, tragédias que acontecem em noites de excessos. Porém, o pesar transformou-se em profundo choque ao ler que foi espancado até à morte.

    A minha angústia cresce à medida que te imagino a ti, Rita, neste três dias, desesperada à procura do teu filho, para depois receberes a notícia de que afinal, durante todas essas horas intermináveis, ele estava morto, fechado numa cave de um prédio pelos animais que o mataram. A minha angústia cresce pelo sofrimento dele, mas sobretudo pelo teu, que para sempre carregarás a culpa de não o teres protegido, de o teres deixado ir à festa, de não teres estado lá para acabar com aquilo ou nem deixar que começasse.  Quando alguém nos morre queremos que pelo menos nos deixe com o menor sofrimento possível. Que seja rápido e indolor, que seja durante o sono ou sob o efeito da anestesia. E a morte do Filipe foi tudo menos isso. E o peso, Rita, que vais carregar, por não teres estado lá para pegar no Filipe ao colo e levá-lo para casa, para o hospital, ou em última instância para o abraçar enquanto dava o último suspiro, tal como fizeste quando deu o primeiro.

    Mas, a par da minha angústia, cresce o meu terror por ter um filho e uma filha que também um dia vão querer ir a uma festa e por saber que vou ter de deixá-los ir, porque não os podemos manter numa redoma, porque eles têm de aprender a viver o mundo sem a nossa mão, porque também já tivemos 14 anos e sabemos bem como queríamos ter ido àquela festa a que toda a gente lá da escola foi. E esse terror, por sua vez, cresce ao assistir a tamanha violência entre adolescentes, no mesmo dia, em diferentes pontos do país, com diferentes histórias por trás, com diferentes desfechos (felizmente para o miúdo da Figueira da Foz) mas igualmente arrepiantes.

    Muito se tem falado de bullying nas últimas horas. Uns confessam que também foram vítimas e que isso não lhes pesou nada na vida adulta, outros relatam que foram vítimas e demoraram muito a recuperar, outros ainda defendem que sempre houve e haverá e que é assim a vida. (Curiosamente ninguém confessa que também chamava gorda à miúda do 3ºA e que também deu uns calduços ao "caixa de óculos" que lia livros no recreio, mas isso é tema para outra crónica). Só que o que se passou na Figueira e em Salvaterra não é bullying. É pura violência. É crime de agressão. É homicídio. É indesculpável.

    Eu sei da história de um outro Filipe que também foi espancado gratuitamente e sobreviveu por muito pouco, que esteve seis meses no hospital, que foi sujeito várias cirurgias e provavelmente vai ficar desfigurado na mesma. E há, com certeza, muitos outros Filipes que sobrevivem a ataques desferidos por este tipo de animais e ficam para sempre marcados, seja física seja psicologicamente. Mas o que é que acontece aos agressores? Se são menores, no máximo, vão para um centro de correcção conviver com delinquentes piores do que eles. Se são maiores de idade podem levar uns meses ou anos de prisão e fica a justiça feita. Menos para ti, Rita, que nunca terás o teu filho de volta e nunca esquecerás a maneira como te foi tirado.

    Não me interessa se estes trastes têm 12 ou 20 anos, nem me interessa se os pais lhes batem ou as mães se prostituem ou se foram violados ou se vivem nas ruas. Podem ser vítimas de algum tipo de crime, mas não deixam de ser também eles uns criminosos. Pior, uns cobardes. E agora que o mal está feito devem ser tratados e julgados como tal, independentemente de ter sido sem querer ou de estarem arrependidos. É preciso muito tempo para espancar alguém até à morte. Muito tempo para se arrependerem antes de darem mais um murro ou um pontapé. Que não haja desculpas, nem atenuantes, nem segundas oportunidades. Porque para o Filipe, também não vai haver.

    E aos defensores deste tipo de marginais, que os desculpam com a sua história de vida, não se insurjam agora contra as opiniões inflamadas de quem está indignado. Gastem antes o vosso discurso com a prevenção. Nas escolas, nos bairros onde eles vivem, entre educadores, psicólogos e autoridades. Ou então gastem o vosso discurso a consolar a Rita e todas as mães que já perderam um filho assim.

    A ti, Rita, apenas me resta deixar os meus mais profundos sentimentos e desejar que, de alguma forma e em algum lugar, encontres a força necessária para sobreviver.


  • Durante a investigação que estou a fazer para o meu próximo livro, dei de caras com este poema, guardado num dos meus inúmeros cadernos. Há muitos anos que não o lia, mas por mais anos que passem continua a ser das coisas mais bonitas que alguma vez alguém escreveu.
    Obrigada, Eugénio de Andrade, pelo legado incomparável que nos deixou.






    Adeus

    Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
    e o que nos ficou não chega
    para afastar o frio de quatro paredes.
    Gastámos tudo menos o silêncio.
    Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
    gastámos as mãos à força de as apertarmos,
    gastámos o relógio e as pedras das esquinas
    em esperas inúteis.

    Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
    Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
    era como se todas as coisas fossem minhas:
    quanto mais te dava mais tinha para te dar.

    Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
    E eu acreditava.
    Acreditava,
    porque ao teu lado
    todas as coisas eram possíveis.

    Mas isso era no tempo dos segredos,
    era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
    era no tempo em que os meus olhos
    eram realmente peixes verdes.
    Hoje são apenas os meus olhos.
    É pouco, mas é verdade,
    uns olhos como todos os outros.

    Já gastámos as palavras.
    Quando agora digo: meu amor,
    já se não passa absolutamente nada.
    E no entanto, antes das palavras gastas,
    tenho a certeza
    que todas as coisas estremeciam
    só de murmurar o teu nome
    no silêncio do meu coração.

    Não temos já nada para dar.
    Dentro de ti
    não há nada que me peça água.
    O passado é inútil como um trapo.
    E já te disse: as palavras estão gastas.

    Adeus.

    Eugénio de Andrade, in “Poesia e Prosa”

  • Esta sábado, 9 de Maio, às 17h na Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro, em Lisboa (Telheiras), estarei a apresentar o livro «Coisas Que Uma Mãe Descobre (e de que ninguém fala)» e à conversa com os leitores. 

    Um convite da Câmara Municipal De Lisboa.

    Apareçam para saberem mais sobre o livro, para saberem mais sobre mim, para fazerem perguntas ou simplesmente para levarem um livro autografado :)








  • Já falei algumas vezes da SKOG aqui no blog, uma marca portuguesa de óculos de sol feitos de madeira ou bambu, que tem no seu ADN tudo aquilo que eu mais gosto: por um lado, bom design e qualidade, por outro lado, um produto nacional e sustentável.
    Mas quando a coisa parecia não poder ficar melhor, eis que a SKOG lança uma edição especial e limitada a 50 exemplares desenhada por uma das minhas artistas portuguesas preferidas, a Vanessa Teodoro (aka The Super Van).

    Pegando num dos modelos do catálogo SKOG, a artista foi convidada a fazer uma intervenção, escolhendo o laser para cravar os seus desenhos originais na madeira. O resultado é simplesmente espectacular. Ora vejam:





    fotografias ©Lia Ramos



  • E se fosse por cá?
    E quando for por cá?
    Como será sair de casa de manhã para o trabalho e a última frase dita à pessoa que mais amamos ser qualquer coisa estúpida e banal como"não te esqueças de tirar os bifes para o jantar"? Ou deixar os miúdos na escola à pressa e não lhes ter dado aquele último beijinho que nos pediram à porta da sala, porque já estávamos atrasados?
    Como será sentir o chão fugir debaixo dos pés, sobreviver o terror e à devastidão e sair para a rua sem saber para onde ir? Sem um mísero telefone para saber se outros estão bem, sem possibilidade de avisar que estamos bem, sem saber o que aconteceu a todos aqueles que amamos?
    Como será chegar a casa e ela não existir, ouvir gritos e não conseguir socorrer, não ter como ajudar?
    Como será viver os dias seguintes, com a certeza de que perdemos tudo?
    Há tragédias que nos fazem pensar na mortalidade, na finitude, nas coisas que devem ser ditas e feitas antes de ser tarde de mais. E outras que estão tão longe que depressa se tornam notícia de rodapé, como se o sofrimento humano fosse diferente consoante o ponto geográfico onde nos encontramos.
    Mas não é.
    Lembremo-nos disso e ajudemos como gostaríamos que um dia nos ajudassem, tivéssemos a infelicidade de passar por algo semelhante.


    Como ajudar?

    Unicef
    A Unicef quer oferecer ao Nepal barras de purificação de água, kits de higiene ou suplementos nutritivos para as crianças e famílias .

    Cruz Vermelha
    As equipas da Cruz Vermelha no Nepal participam desde o primeiro dia em operações de resgate e ajuda médica.

    Programa Mundial de Alimentação
    Existe uma grave falta de água potável no Nepal, mas também falta alimentação para as populações afectadas. O Programa Mundial de Alimentação é financiado a 100% por doações.

    Handicap International
    Uma organização que se foca no apoio a pessoas com deficiência. Está no Nepal desde o ano 2000 e tem mais de quatro dezenas de voluntários que distribuem, por exemplo, kits para pessoas com deficiência, equipamentos de mobilidade e organizam programas de reabilitação.

    Oxfam
    Trata-se de uma coligação de organizações de apoio humanitário. Lançou uma missão de resgate de vítimas no Nepal e está em coordenação com a Unicef para distribuir água potável e cuidar dos feridos.

    Save the Children
    Tal como a Unicef, o seu principal objectivo no Nepal é prestar auxílio às crianças do país, mas também quer alcançar as famílias mais vulneráveis. Dez por cento da doação destina-se a operações futuras.

    Care
    A Care está no terreno no Nepal e pede doações. O seu plano é o de alcançar mais de 75 mil pessoas e oferecer abrigo temporário, alimentação e kits de purificação de água.

    Ajudar o Nepal
    Trata-se de uma rede nepalesa de apoio humanitário no Nepal. A sua acção, como explica a organização no seu espaço na Internet, concentra-se sobretudo no apoio educativo e médico.


  • O Dia da Mãe é sempre aquele dia que não gostamos de ignorar (afinal, mãe é mãe), mas que também não achamos necessário abrir o champanhe (afinal, é só um dia que alguém inventou). Ou seja, gostamos sempre de ter uma lembrancinha para as nossas mães queridas, mas não queremos gastar muito dinheiro, certo? Este dilema ganha proporções mais dramáticas para os jovens pais que querem dar algo especial às mulheres em nome dos filhos que ainda não têm idade para irem às compras sozinhos.
    Assim, para além de recomendar o meu novo livro, que, modéstia à parte, tenho a certeza que a maioria das mães ia gostar de receber, deixo aqui outra sugestão bem original e pouco dispendiosa:

    - um print personalizado da autoria da talentosa Sofia Silva



    Tal como todas as outras ilustrações que compõe as «Coisas Que Uma Mãe Descobre (e de que ninguém fala)», esta está à venda no blog da artista e pode ser personalizada com o nome ou nomes dos vossos filhotes. Agora imaginem numa moldura bonita pendurado na parede da sala ou do quarto. Digam lá que não é uma graça?

    E o melhor é o preço: apenas €10 para um print de 18x13cm. Apressem-se porque a Sofia só aceita encomendas até domingo (26/04) de modo a conseguir garantir que todas chegam a tempo. Ah, pois, para os mais distraídos, o Dia da Mãe é já a 3 de Maio.

  • O nome. Antropónimo. O nosso primeiro vínculo com o mundo. A confirmação da nossa existência. Parte inseparável da nossa identidade, tantas vezes influenciadora do carácter do denominado. Sim, o nome. Esse que deixa de existir a partir da concepção.

    Tudo começa nas consultas de obstetrícia. “Olá Mãe”, “sente-se aqui, Mãe”, “o seu livrinho, Mãe”, “está de quantas semanas, Mãe?”. Das enfermeiras às auxiliares, não há quem se lembre de usar o nosso nome. Também há amigos e familiares que, de forma carinhosa, começam a chamar-nos Mamã por tudo e por nada. Até aqui tudo bem. No meio de tanta felicidade, a antecipação dessa nova faceta na nossa vida acaba por nos enternecer. Só que o caso muda de figura quando as crianças nascem. A partir desse momento, quer se goste, quer não, do senhor do café, à dona da mercearia, todos ficam com amnésia e passam a referir-se a nós como “a Mãe de”, com a maior das naturalidades e sem que possamos ripostar. Pior: há maridos que começam a fazê-lo. Senhores, por favor, não façam isso. A sério, deixem esse tratamento para a vossa mãezinha, a bem de uma vida sexual saudável.

    Adiante! À medida que as crianças começam a socializar, seja no infantário, seja no parque lá do bairro, a coisa só piora. Dá um beijinho à Mãe do António, Diz adeus à mãe da Sofia, Boa tarde, daqui fala a Mãe do Nuno, Queres ir ao cinema com a Mãe da Rita?, até que, por fim, somos nós próprias que nos alheamos na nossa identidade, acabando por proferir a torto e a direito um “Olá, sou a Mãe do Tiago e da Carlota”.

    E se a coisa se passa assim quando estamos a conversar cara a cara, quando nos olham nos olhos e vêem efectivamente quem somos para lá do nosso papel de progenitora, nem queiram saber o suplício que se pode tornar uma simples conversa telefónica. Passo a transcrever o último telefonema com a costureira onde costumo por as roupas a arranjar:

    - Boa tarde dona Estefânia, daqui fala a Filipa.
    - Ah, que Filipa?
    - Filipa Silva
    - Não estou a ver...
    - A Filipa, da bicicleta
    (silêncio do outro lado)
    - A Filipa, estive aí no outro dia com um vestido branco para apertar, lembra-se?
    - Ah sim, loura, não é?
    - Não dona Estefânia, morena, baixinha... A Filipa, a mãe do Tiago e da Carlota!
    - Ah! Claro! Filipinha, como vai? E o Tiaguinho como está? Não o vejo há tanto tempo...e a menina? blá, blá, blá, blá, blá, blá...

    E pronto, andamos décadas a construir a nossa identidade, pelo estilo de vida, pelo aspecto físico, pela ocupação, pelos lugares que frequentamos, pelos livros que lemos, pela música que ouvimos, para num instante ficarmos reduzidas a isto. Ou aumentadas. Sim, deixamos de ter nome, mas ser “A Mãe” de alguém, no fundo, no fundo, compensa largamente a perda momentânea da nossa individualidade.

    Texto originalmente publicado no livro Coisas Que Uma Mãe Descobre (e de que ninguém fala)

  • Há uma história que se conta acerca das diferenças culturais entre americanos e portugueses. O americano vê o vizinho num carro novo e pensa: "Ena, tem um carro novo, deve ter trabalhado bem para isso". Já o tuga, pensa: "olha, olha aquele chico-esperto com um carro novo, deve andar a traficar droga ou a roubar alguém".

    Sim, o tuga é invejoso por natureza. Não sei de onde vem tamanha tacanhez, mas a verdade é que muitos portugueses não perdem a oportunidade de desdenhar quem tenha algum tipo de êxito, seja pessoal ou profissional. E pior, tenta relativizar sempre a dimensão do mesmo. "Não percebo porque é que lhe acham tanta graça", "não é assim tão gira", "foi promovido? grande coisa!", "qualquer pessoa faz aquilo", "melhor do mundo? Não acho nada".

    Podia ficar aqui um dia inteiro a citar exemplos de portugueses massacrados diariamente por este odioso sentimento, ainda por cima destilado dos seus compatriotas, mas prefiro apenas falar de mim, que nem sequer sou assim tão conhecida, nem bem sucedida.

    É incrível o número de hienas que estão lá em baixo, na base da árvore do meu sucesso, à espera que eu caia. São as hienas que andam sempre a vigiar, ansiando por um passo em falso. São as hienas que nunca me congratulam por um novo feito e que, confrontadas com o mesmo, se saem com um desdenhoso "ah, é verdade, lançaste um livro não foi?", como se fosse a coisa mais banal do mundo. Top 100 da Amazon? Grande coisa. Agora tem a mania que é escritora. Olha para ela, armada em boa, a partilhar fotografias dos programas onde esteve. Só programas foleiros, claro. De certeza que anda a escrever no trabalho. Só pode. Como é que ela tem tempo, com dois filhos? Ou então paga a alguém para escrever por ela. A vaca, que nem amamenta os filhos. E feia, ainda por cima.

    Pois, a inveja...
    Desde cedo que tive de lidar com ela. Primeiro porque a minha mãe me vestia bem demais (pindérica, vaidosa), depois porque os meus pais tinham lojas conhecidas (tem a mania que é rica) ou porque era uma aluna interessada e todos os professores gostavam de mim (graxista). Daí que também cedo tenha aprendido que o melhor a fazer é continuar a subir, sem olhar para baixo, mesmo correndo o risco de ver a minha determinação e auto-confiança confundida com altivez. Azar. Nunca fui indelicada, nunca pedi favores, nunca usufruí de qualquer vantagem. Tudo o que conquistei foi por mérito próprio, fruto do meu trabalho e das minhas horas sem dormir. Porque quando se faz o que se gosta, encontra-se tempo para tudo. Tempo, imaginação e vontade.

    A inveja...
    A inveja corrói e não é por acaso que é considerada um dos pecados mortais. Alimenta-se de todas as inseguranças e medos de falhar. Cega-nos até deixarmos de ver a mais clara evidência: o sucesso dá muito trabalho e há quem arregace as mangas e avance sem medo, procurando todos os dias fazer mais e melhor, e quem fique a ver a vida a passar.

    Por isso, aos invejosos, digo apenas isto: continuem a roer-se. Roam-se até não terem dedos, até não terem língua para espalhar o vosso veneno. Pretendo continuar a dar-vos bastantes motivos para o fazerem.
  • É já no Sábado o lançamento oficial do meu novo livro.
    Uma boa desculpa para um passeio de sábado pelo Chiado.
    Apareçam!



  • Diz-se que na sociedade há os que mandam e os que obedecem. Pois bem, num casamento também, sendo que quem manda geralmente é a mulher. Não digo isto de forma depreciativa para qualquer um dos géneros, e sou a primeira a defender a igualdade. Mas para que uma casa de família se mantenha um porto seguro, tem de haver alguém a pôr ordem nas coisas e, claramente, não são os homens, como nos mostra a história e a antropologia.

    O papel da mulher, em diversas culturas, sempre foi cuidar do lar. Nos tempos mais primitivos, faziam-no enquanto os homens iam caçar, mais tarde enquanto os homens iam para a guerra e, mais recentemente, enquanto os homens iam trabalhar. Mas ao contrário do que se pensa, excepto nas classes privilegiadas, as mulheres não se ficavam apenas pela casa: também trabalhavam fora, fosse no campo, a servir, numa fábrica ou no comércio. Ou seja, o cérebro feminino, que já por si trabalha com os dois hemisférios ao mesmo tempo, o que faz com que a mulher seja mais intuitiva e capaz de executar várias tarefas em simultâneo, foi-se aperfeiçoando ao longo dos séculos, tornando-se mais eficiente nesta coisa de gerir casa, trabalho e necessidades emocionais de toda a família. Já os homens... Bom, os homens são supereficientes em quase tudo a que se propõem, desde que seja uma coisa de cada vez.

    Não se deve esperar que um homem, depois de um dia de trabalho, chegue a casa e se aperceba imediatamente das infinitas tarefas que ainda há para fazer. Eles não percebem que o cesto da roupa está cheio, que a loiça tem de ser arrumada nos armários, que aquele quadro está para ser pendurado há três meses, que a saboneteira está vazia, que o leite está a acabar. Não é por mal, acreditem. Na maioria dos casos (pelo menos nas gerações mais novas, em que a divisão de tarefas é algo normal), nem é por acharem que não têm essa responsabilidade. É simplesmente porque precisam que alguém lhes diga o que fazer e, sobretudo, como fazer.

    É precisamente por isso que as mulheres têm de assumir o comando e dar instruções. E quanto mais específicas melhor. Não basta pedir que ponham a roupa na máquina. Há que dizer que é só a roupa branca, que o detergente se põe no compartimento da esquerda e o amaciador no do meio, que o programa é X e que a porta só está mesmo fechada se fizer clique. Não basta pedir que façam a cama. É preciso lembrar que uma cama bem feita implica os lençóis de baixo esticados, as almofadas de dormir sacudidas e as almofadas decorativas (sim, aquelas que eles pensam que foram compradas para enfeitar o chão) cuidadosamente colocadas (não atiradas!) por cima da colcha ou edredão. Clareza é a palavra de ordem. Não deve haver margem para interpretações livres.

    Há duas maneiras de fazer isto:

    1) dando essas pequenas ordens (ou orientações técnicas, para não ferir susceptibilidades) logo quando o marido chega a casa, devendo no entanto dar tempo para que o desgraçado ao menos tire o casaco e se ponha confortável. Deste modo garantimos que "não se esquecem".

    2) fazendo um quadro de tarefas, daqueles como algumas mães fazem para os filhos quando eles entram na idade de começar a ajudar lá em casa. Neste caso, a recompensa não é um chocolate mas sim a ausência de trombas e acusações, o que já é um enorme incentivo, não acham?


  • Relembro que no sábado dia 7 de Março estarei na EC.ON (escrita criativa online) no âmbito dos Cursos Ícone, para uma conversa e debate sobre estas coisas da escrita.
    Nesta terceira edição dos Cursos Ícone, que além de mim conta com autores como Maria Teresa Horta, Gonçalo M. Tavares, José Luís Peixoto, Sérgio Godinho ou Francisco José Viegas, cada autor foi convidado para, numa única sessão, fazer leituras de trechos da sua obra, conversar sobre as suas referências e falar sobre o seu processo de criação.

    Estou empenhada em fazer da minha sessão algo muito informal mas relevante, sendo que o meu grande objectivo é que todos os participantes levem daquela tarde dicas e inspiração para os seus processos criativos.

    Podem inscrever-se aqui, mas apressem-se, porque as vagas são limitadas.

    Vemo-nos por lá?




  • Coisas Que Uma Mãe Descobre (e de que ninguém fala) é uma compilação de crónicas, algumas das quais publicadas aqui no blog, onde partilho a minha experiência na grande aventura da gravidez e maternidade. Mas é mais do que um livro, pois graças às ilustrações da talentosa Sofia Silva, pode ser completado com fotografias e notas de quem lê, tornando-se, no final, um divertido álbum de recordações para as mães.


    Cheio de humor e algum sarcasmo, é um livro indispensável para pais recentes, que descobrem algumas dicas de como lidar com as situações mais inesperadas, para pais experientes, que se vão rever em muitas das peripécias descritas, para pais grávidos, que vão poder preparar-se para o que os espera, e ainda para todos aqueles que nunca quiseram ser pais e que precisavam de novas razões para continuarem a não querer.

    Dia 20 de Março nas livrarias
    Dia 28 de Março, lançamento na FNAC do Chiado!




  • O amor desperta a poesia em nós.
    Ficamos embevecidos com as coisas mais simples, como um pôr-do-sol ou uma música que está a passar na rádio e que nos transporta para um determinado momento a dois. Queremos desesperadamente pôr por palavras o que sentimos, numa mensagem enviada a meio do dia ou, nos dias que correm, num post do facebook. Cometemos loucuras, andamos aluados e a única coisa que importa é a pessoa que nos consegue despertar todas essas emoções.
    Por isso, neste mês que o consumismo transformou no mês do amor, a minha sugestão de leitura (e que certamente dará um belo presente de S.Valentim, para quem gosta de celebrar o dia) terá de ser um livro de poesia. Aliás, dois.


    O primeiro é "Vinte poemas de amor e uma canção desesperada" de Pablo Neruda, uma celebração ao amor, ao erotismo e à mulher, que o Prémio Nobel escreveu quando tinha pouco mais de vinte anos. Ainda assim, reúne alguns dos poemas mais celebrados da sua obra.




    O segundo é "No reino da Dinamarca" de Alexandre O'Neil, um livro incontornável na história da poesia portuguesa e que contém um dos meus poemas de amor preferidos, "Um Adeus Português".
    (Infelizmente este livro já não está editado, mas todos os poemas se podem encontrar na compilação "Poesia Completa" da Assírio e Alvim)



    Vá, admitam, existe coisa mais romântica do que alguém no sussurrar ao ouvido "torpeço de ternura por ti"?



  • Desde a adolescência que me considero ecologista e, sem cair em fanatismos, assim que comecei a viver na minha própria casa e a tomar todas as decisões de consumo, tornei-me rigorosa na adopção de um estilo de vida o mais sustentável possível. Compro maioritariamente produtos orgânicos, dos detergentes aos iogurtes, tento estar informada sobre as inovações científicas que possam  reduzir a minha pegada de carbono, ando de bicicleta, reciclo, reaproveito, reduzo, enfim, faço todos os pequenos gestos que contribuem para um mundo melhor. Mais, compro carne biológica para garantir que os animais são criados ao ar livre, e peixe pescado à cana para não destruir a fauna marinha que é arrastada pelas redes, para desespero do meu marido, que fica lívido cada vez que compara o preço do quilo dos mantimentos biológicos com os tradicionais (sim, já comprei perú da Serra-não-sei-do-quê ao preço de marisco). Pensava eu que assim, além de uma vida mais saudável, estava a promover a protecção da natureza e que todas essas minhas acções, pela lei do Karma, compensavam o facto de não ser vegetariana e ter diversas peças de vestuário e calçado de pele. Pensava e até já tinha escrito sobre o assunto aqui no blog.
    Foi preciso ver o documentário Cowspiracy para perceber que não podia estar mais enganada. Fiquei em estado de choque. Foi como descobrir que a Terra afinal não é redonda e que todas as associações ambientalistas que sigo e para as quais já fiz alguns donativos, andaram a omitir um problema de dimensões épicas. E se não andaram a omitir, pelo menos não lhe deram o destaque e prioridade que ele merece. Acima de tudo senti que todo o esforço e dinheiro gasto ao longo de tantos anos foram em vão.  Andei armada em ecologista, quando no fundo nunca deixei de contribuir massivamente para o buraco do Ozono e demais desastres ambientais. E qual é esse problema do qual ninguém quer falar? É que a coisa mais poluente e devastadora que existe para o nosso planeta não é o petróleo, mas sim a produção agro-pecuária.
    Senão, vejam o que descobri em apenas hora e meia:

    -  51% dos gases de efeitos de estufa são emitidos por gado e produtos derivados que produzimos para nosso consumo (http://www.worldwatch.org/node/6294)
    - a indústria da carne e lacticínios consome quase 1/3 da água potável de todo o mundo (http://www.forksoverknives.com/freshwater-abuse-and-loss-where-is-it-all-go)
    - a agro-pecuária é a principal causa de extinção de espécies, zonas oceânicas mortas, poluição aquática e destruição de habitats (http://www.epa.gov/region9/animalwaste/problem.html)
    - 100 milhões de toneladas de peixes são capturados todos os anos e 40% não são consumidos (inclui espécies como baleias, golfinhos, tartarugas e tubarões)  (http://ocean.nationalgeographic.com/ocean/global-fish-crisis-article/)
    - a agro-pecuária é responsável pela destruição de 91% da floresta Amazónica (https://openknowledge.worldbank.org/handle/10986/15060)
    - só no Brasil, 1100 activistas ambientais já foram assassinados por denunciarem estes e outros factos (http://www.theguardian.com/world/2009/apr/08/brazilian-murder-dorothy-stang)

    Isto e muito mais é relatado neste documentário que, no final, nos faz querer ir despejar o frigorífico e virar vegan. Como é possível as Greenpeaces da vida andarem há décadas a impingirem-nos o poupe água, poupe energia, largue o carro, diga não ao plástico, salve as focas, quando a coisa mais importante que poderiam dizer era, simplesmente, deixe de comer carne? Não que as outras coisas não sejam importantes, mas quando os dados mostram a peso gritante que agro-pecuária tem na poluição do planeta, não se compreende porque é que não é esse o foco de todos aqueles que dizem querer salvá-lo.
    Honestamente, não sei se algum dia vou conseguir ser vegan, mas estou empenhada em, gradualmente, até porque tenho duas crianças muito pequenas em casa, abraçar o vegetarianismo. Numa primeira fase, vou adoptar receitas vegetarianas ao jantar (as crianças podem comer carne e peixe na escola ou em casa de amigos, sem problema), mais tarde também ao almoço, mantendo o consumo de carne e peixe em locais que não tenham opções vegetarianas. Ou, seguindo conselho de Graham Hill nesta sua conferência no TED, tornar-me uma weekday vegetarian. É que depois de saber o que sei agora, não conseguirei viver comigo própria se não reduzir drasticamente o consumo de carne, peixe e derivados no meu lar.


    PS: Agradeço, do fundo do coração, a todos os vegetarianos e vegans que me quiserem enviar sugestões de receitas, dicas de nutrição, restaurantes e alternativas saudáveis para crianças. Pode ser que um dia consiga substituir o drasticamente, pelo totalmente.






  • As palavras e personagens de Colleen McCullough‬ preencheram a minha adolescência e início de vida adulta. Histórias românticas de mulheres fortes, determinadas, aventureiras. Dos Pássaros Feridos, ao Tim, do Toque de Midas à Canção de Tróia, guardo memórias de uma leitura empolgante e diversas viagem no tempo. 
    Obrigada Colleen por tantas horas de prazer e de inspiração. 

    1 Junho 1937 – 29 Janeiro 2015

  • Agora que os ânimos estão menos exaltados e que as atenções mediáticas já se viraram para outras tragédias, posso concluir que:

    - não se pode limitar a liberdade de expressão, a não ser que essa liberdade vá contra algo que defendemos

    - não se pode fazer humor com muçulmanos, judeus ou radicais de qualquer religião em geral, pessoas de qualquer raça ou etnia minoritária no país em que vivemos, anões, deficientes físicos, deficientes mentais, crianças, lendas vivas, lendas mortas

    - não se pode dizer "eu sou Charlie" sem dizermos que somos também sírios, iraquianos, nigerianos, palestinianos, ucranianos, presos políticos, mulheres mutiladas, crianças raptadas, florestas dizimadas, sob risco de nos chamarem hipócritas

    - não se pode ter uma conversa sobre o assunto sem alguém reproduzir as ideias de qualquer comentador ou opinador dos Media tradicionais

    - não se pode dizer o que se pensa em 90% das interacções sociais que temos durante o dia, sob o risco de nos mandarem internar

    - não se pode voltar a não saber quem é o Gustavo Santos.

    Resta-nos, portanto, falar do tempo. Parece que vai chover até ao final da semana e depois volta o frio, algo realmente surpreendente num mês de Janeiro no hemisfério norte.




  • نحن لا يمكن إسكاته. We can't be silenced. No podemos ser silenciados. Ons kan nie stilgemaak word nie. Ne nuk mund të heshtin. մենք չենք կարող լռել. Biz susdurulub bilməz. мы не можам маўчаць. Ne možemo da se utišaju. Ne možemo biti ušutkani ние не може да бъде спрян. nemůžeme být umlčen. Vi kan ikke bringes til tavshed. 我们不能沉默. We kan niet worden uitgezet. Me ei saa vaikima. Emme voi vaientaa. Nous ne pouvons pas rester silencieux. Wir können nicht schweigen. Nem tudjuk, hogy hallgasson. Við getum ekki að vera þögul. 私たちは沈黙することはできません. Mes negalime būti tyli. Tsy afaka ny ho mangina. Aħna ma tistax tkun siekta. Vi kan ikke være stille. ما نمی توانیم ساکت. Nie możemy milczeć. Nu putem fi tăcut. Vi kan inte vara tyst. Biz sessiz olamaz. Ми не можемо мовчати.





  • Já escrevi em vários lugares que devo à minha mãe a paixão pela leitura e à minha professora primária a paixão pela escrita. Mas houve alguém na minha vida de quem nunca falei e que também contribuiu significativamente para o meu desejo de me tornar uma escritora: o meu avô.

    O meu avô foi das pessoas que mais gargalhadas me arrancou durante a infância. Para ele, os netos eram uma festa e tudo valia: pô-los a rir, pô-los a chorar, virá-los de cabeça para baixo ou molhá-los com a mangueira, mesmo que fosse Inverno. Mas mais importante que tudo, foi ele quem me ensinou a usar a imaginação.

    É que um passeio com o meu avô pela Mata da Machada, não era um simples passeio: era uma corrida no meio de uma floresta cheia de perigos. "Cuidado! Está ali um leão!", gritava de repente. "Pára! Isso são areias movediças!", alertava, obrigando-nos a saltar por cima de uma poça de lama. "Sem rir, sem chorar!" e lá íamos nós atrás dele, esfolados, enlameados e profundamente felizes.

    E os Domingos de manhã, quando dormíamos lá em casa? O edredon transformava-se num café e nós os empregados que servíamos o pequeno almoço. "Ai, que porcaria! O café está frio!" e lá íamos nós, para baixo do edredon, preparar outro. "Mas o que é isto? O café tem sal!" e lá pedíamos desculpas, voltando para o fundo da cama às gargalhadas.

    Na praia, íamos caçar gambozinos e voltávamos com o balde cheio de caranguejos, o barquinho de borracha era um navio no meio da tempestade e as pernas dele uma ponte para passarmos por baixo e aprendermos a dar mergulhos (sem a mão no nariz!).

    Até foi o meu avô quem baptizou o meu amigo imaginário! Sim, Perana não é um nome que uma menina de cinco anos inventasse. Mas ao contrário dos outros adultos, que se riam das minhas conversas com o meu amigo invisível, o meu avô fazia-me perguntas sobre ele e obrigava-me a inventar histórias atrás de histórias acerca do que ele me dizia. Vendo bem, foi o meu avô que me ajudou a construir a minha primeira personagem, antes mesmo de saber ler ou escrever.

    Tenho pena de muitas coisas que não vivi nos últimos vinte anos ao lado do meu avô. Tenho pena que não tenha conhecido o meu marido e os meus filhos. Que não tenha estado no meu casamento, no meu final de curso e em tantos outros momentos marcantes da vida. Tenho pena de não poder abraçá-lo nem deitar-me na sua cama a conversar, como fizemos tantas vezes. Mas a coisa de que tenho mais pena é que ele não tenha assistido ao momento em que as minhas histórias, aquelas que ele ajudou a escrever por tanto ter exercitado o músculo da minha criatividade, se tornaram livros de verdade.

    Pode ser que aquela ideia reconfortante de que os nossos mortos estão a assistir às nossas vidas, lá onde se movem os espectros, seja real. Mesmo que não seja, uma coisa é certa: o meu avô vive dentro de mim há precisamente vinte anos e, enquanto assim for, continuarei a inventar histórias para lhe contar.