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    Não é incomum ouvir alguns pais dizerem que o fim-de-semana começa à segunda-feira. É perfeitamente normal ter este tipo de sentimento, após quarenta e oito horas com crianças enérgicas, sobretudo no Inverno ou em dias em que não se pode ou consegue sair de casa. O mesmo se aplica ao cenário “criança doente em casa durante quatro dias”. Quando os meus filhos ficam doentes, a primeira coisa que me vem à cabeça é “oh não, vou ter de ficar com ele todo o dia em casa”. E não, a preocupação não é faltar ao meu trabalho, mas sim como vou conseguir entretê-lo todo o dia. Já para não falar do terrível cenário “Agosto: colégio fechado um mês inteiro”. 

    É nessa altura que damos valor às educadoras de infância. Como é que conseguem estar todos os dias fechadas numa sala com dez ou mais crianças??? Bem sei que os miúdos se comportam de maneira diferente quando estão com os pais e quando estão na escola. Há inúmeros relatos de crianças que não comem em casa, mas comem na escola, que não usam chucha à frente dos colegas, mas não a querem largar quando estão com os pais, que colaboram nas actividades da escola, mas só fazem birras quando estão em família, enfim. Ainda assim, não sei como conseguem controlar tantos diabretes à solta. Começo a achar que têm dotes de hipnose ou poderes mágicos. É também nesses dias que acho que as mães a tempo inteiro ou são supermulheres ou não são boas da cabeça. Se eu tivesse de ficar mais de uma semana em casa a cuidar das crianças, das refeições e de toda a lide doméstica, espetava um garfo na testa. Não me interpretem mal, adoro os meus rebentos e adoro os fins-de-semana, quando podemos estar todo o dia juntos e fazer as mil e uma coisas que durante a semana é impossível fazer, mas confesso que jamais teria a energia necessária para ficar com eles todo o dia, todos os dias do ano. 

    Por isso, deixo aqui a minha homenagem às educadoras de infância e a todas as pessoas que diariamente cuidam de crianças que não são suas, como as baby-sitters ou as avós, que chegada a reforma, em vez de descansarem, cuidam dos netos. E de graça!


    Texto originalmente publicado no livro "Coisas Que Uma Mãe Descobre e de que ninguém fala", Bertrand Editora, 2015



  • Não. Não é esta vaca loura que temos de salvar.


    Nem esta.


    O ser que precisamos mesmo de preservar nem sequer é um mamífero. Trata-se de um lindo escaravelho,lucanus cervus, típico das nossas florestas, que está em vias de extinção.


    O seu habitat - florestas mistas com carvalhos e castanheiros antigos - é cada vez mais reduzido e fragmentado, o que põe em causa a saúde das próprias florestas, já que estes escaravelhos alimentam-se de madeira de árvores de folha caduca, já morta e em decomposição, prestando (tal como outros escaravelhos decompositores de madeira) um importantíssimo papel no equilíbrio dos ecossistemas.
    O macho é inconfundível graças às suas mandíbulas em forma de pinça e pode chegar aos oito centímetros. As fêmeas são mais pequenas, variando entre 2,6 e 4,1 cm. São brilhantes, com a cabeça e tórax negros e abdómen e pinças de um castanho avermelhado.




    Mas a questão que se coloca é: como podemos salvar este lindo e precioso escaravelho? Simples. Quando andarem a passear pelo campo, em zonas onde haja castanheiros e carvalhos bem antigos, estejam atentos a este espécime. E se avistarem algum tirem uma fotografia, anotem o local e a hora do avistamento e enviem a informação para a REDE PORTUGUESA DE MONITORIZAÇÃO DA VACA-LOURA. Os meses de Junho e Julho são os mais propícios para esta monitorização, visto que no final de Julho os machos começam a morrer (depois de acasalar!) e as fêmeas andam escondidas à procura de uma árvore para colocar os seus ovos. Ou seja, este Verão, vamos brincar aos cientistas e contribuir para a conservação desta espécie. Boa?

  • Esta coisa das manifestações dos colégios privados já me começa a irritar. A sério. Tenho andado caladinha, mas agora, cada vez que vejo uma pessoa vestida de amarelo, apetece-me insultá-la. É que eu sou pelas manifestações e pela luta por causas em que acreditamos, mas quando os cartazes que estas pessoas exibem dizem coisas como "temos o direito à felicidade" ou "deixem o meu filho estudar na melhor escola" fico perplexa. É que eu e os meus dois filhos também temos o direito à felicidade, mas parece que a nossa é um bocadinho mais cara: custa €880 por mês. E ainda estão no jardim de infância.

    Mais, eu também quero que os meus filhos estudem na melhor escola. E para atingir esse objectivo tenho duas opções: ou inscrevo-os na escola pública aqui do bairro ou, caso a dita não me agrade, caso sonhe com actividades extra-curriculares espetaculares, visitas a museus, instalações com piscina, adivinhem o que é que acontece: pago.

    Sinceramente não percebo qual é a dificuldade em perceber o que são contratos de associação e para que servem. Estes contratos foram criados há mais de 30 anos, numa altura em que a rede escolar pública não conseguia servir todas as populações. Com o tempo e a modernização da rede escolar muitos deixaram de fazer sentido. E quando há casos como o que é relatado pelo jornal Económico, muito menos: "o estudo da rede escolar privada pedido pelo Governo revela, por exemplo, que há um colégio financiado que tem ao lado uma escola pública com metade das salas vazias, e um colégio com 27 estabelecimentos públicos a menos de dez quilómetros."

    Os colégios são um negócio, como são os hospitais e qualquer outro serviço privado. A escola pública não é. Os pais deviam lutar pela escola pública de qualidade, Universal e gratuita, como defende a Constituição, para a qual contribuem com os seus impostos, em vez de participarem em manifestações onde se ouvem coisas como "não há misturas". Não querem misturas com a realidade social onde se inserem, a qual preferem ignorar, e depois vêm fazer figuras ridículas nas ruas, mostrando um desfasamento com o país real e com as coisas que realmente são importantes para a maioria, como o facto de haver inúmeras escolas públicas à espera de serem concluídas enquanto as crianças almoçam num contentor, outras onde chove nas salas, ou o não poderem matricular os filhos na escola pública mais perto de casa por falta de vagas. Isso sim é interferir com a liberdade de escolha. Por isso, tenham mas é vergonha e aceitem que não são os contribuintes que têm de pagar para os vossos filhos andarem numa escola melhor. E se no final do ciclo os vossos meninos tiverem de passar "de cavalo para burro", se tiverem de se misturar com o resto do povo numa escola pública, vejam-no como uma vantagem: eles vão aprender mais cedo que a vida real não é uma redoma onde todos nos sorriem e dão palmadinhas nas costas.










  • Queridos leitores,

    Quero convidar-vos para aparecerem na Feira do Livro de Lisboa no próximo Domingo, dia 29 de Maio, pelas 16h, onde estarei à vossa disposição para autografar livros ou simplesmente para dar dois dedos de conversa.

    Não sejam tímidos. Apareçam, apresentem-se, digam-me o que gostaram e o que não gostaram nos meus livros ou, se ainda não leram nenhum, aproveitem os espaços de lazer da feira para dar uma olhada (sem compromisso). Há gelados, há farturas e há cachorros gourmet.  Há poesia, há literatura e inúmeros manuais. Há espaços verdes, azuis e amarelos. Há metro à porta, autocarros e estacionamento subterrâneo. Há tanta coisa para ver, para ouvir e sobretudo para ler. O que mais pedir para um domingo perfeito?

    Apareçam :)


  • O meu filho inventou um verbo. Ao início achei que era apenas uma gracinha, mas à medida que ele continua a utilizá-lo, pesem embora as sucessivas correcções, comecei a achar que é um verbo extremamente útil e não percebo porque é que ninguém se lembrou disto antes.
    O verbo é horrorar. Que vem de horror e significa ter aversão a algo horrível.
    Eu horroro
    Tu horroras
    Ele horrora
    Nós horroramos
    Vós horrorais
    Eles horroram

    Exemplo: Mamã, eu horroro esse xarope.

    Hoje dei por mim a fazer um trabalho horrível e notei que precisava mesmo de usar o verbo do Tiago. Eu horroro este trabalho! Muito mais forte do que odeio, abomino, detesto, desamo. Obrigada filhote, por enriqueceres a língua portuguesa. Poderás não seguir os passos da mamã na escrita, mas definitivamente terás lugar como linguista.



  • Começam hoje a circular os primeiros maços de cigarros com imagens chocantes e frases condizentes que alertam (ou melhor, ensombram) os fumadores para os malefícios do tabaco. A ideia não é nova. Quando estive no Brasil na minha viagem de finalistas, em 2002, já havia maços desses e desconheço o impacto que teve na sociedade brasileira. Mas se por um lado acho que é bom toda agente estar ciente do mal que o tabaco faz, por outro acho que é uma perseguição aos fumadores, que qualquer dia têm de deixar de sair à rua.
    É que seguindo a mesma lógica dissuasora, então também deviam focar-se noutros produtos igualmente mortíferos. Por exemplo, podiam colocar imagens de pessoas com obesidade mórbida ou amputações devido à diabetes nos produtos com demasiado açucar, como os refrigerantes e bolachas que damos às criancinhas. Também podiam mostrar o que o álcool faz às células cerebrais ou colocar um cadáver de um bêbado depois de um acidente rodoviário nas garrafas de cerveja. São só ideias.
    E estava eu aqui à volta de mais ideias quando descobri que várias pessoas já estavam no Twitter a ter ideias chocantes para colocar nos maços de tabaco (e noutros produtos maléficos, digo eu). Mostrando mais uma vez que o Tuga está sempre muito à frente no que toca a humor. Vão lá espreitar, que vale mesmo a pena e nem precisam de ter conta no Twitter.

    #ideiasparaimagenschocantesnosmaçosdetabaco







  • Parabéns ao Comité Paralímpico de Portugal pela iniciativa #SemPena2016. Uma iniciativa que pretende mostrar aos portugueses que os atletas paralímpicos são isso mesmo: atletas.
    Não precisam da nossa pena nem têm pena deles próprios. Precisam sim que os apoiemos como apoiamos qualquer outro atleta que represente Portugal em eventos desportivos internacionais, que sintamos orgulho, que partilhemos as suas vitórias, que são tantas, mas tantas, coroadas pelas respectivas medalhas, muitas mesmo, e que devem ser ainda mais valorizadas num país que não mostra grande respeito pelas dificuldades de quem é diferente.
    Um passo de casa vez. Sem pena. Boa sorte a todos os atletas que vão competir em Setembro e também aos que ficaram pelo caminho ao tentar, mas que merecem sempre os nossos aplausos por darem o melhor de si. Sem Pena.




        (e parabéns à FCB pelo trabalho)




  • Há várias partes do corpo que ficam optimizadas depois de sermos mães, como acontece com os super-heróis, que eram pessoas normais até que um dia algo de incrível lhes aconteceu. O Homem-Aranha foi mordido por um aracnídeo, o Hulk foi atingido por uma bomba de raios gama, e nós pusemos uma criatura no mundo. Parece-me justo que tal aconteça, visto que há tantas outras partes que ficam irremediavelmente danificadas, como as barrigas ou as mamas.

    Os olhos
    Os olhos de uma mãe vêem para lá do óbvio. Assim que entram numa sala comportam-se como os olhos do Exterminador Implacável. Analisam a área em segundos, evidenciando todos os potenciais perigos: esquinas de mesas desprotegidas, tapetes enrolados, degraus, janelas, varandas sem protecção, bibelôs frágeis, almofadas de seda, um abre-cartas pontiagudo em cima da mesa, um cinzeiro de cristal no aparador, velas acesas e todo o tipo de objectos passíveis de serem postos nas pequenas bocas e narizes. Mais, os olhos de uma mãe conseguem acompanhar uma conversa e ao mesmo tempo controlar os miúdos. A visão periférica estende-se para lá do imaginável.

    Os ouvidos
    Quem inventou a expressão “ouvido de tuberculoso” não sabia o que era o ouvido de uma mãe. Uma mãe ouve o seu bebé suspirar para lá de três portas fechadas. Uma mãe consegue distinguir os gritos do seu filho no meio do recreio cheio de crianças. Mais, uma mãe consegue identificar os diferentes choros em instantes: fome, sono, birra, tédio, dor, teatro. O alcance de um ouvido de mãe é quase infinito e mesmo as mulheres que costumavam dormir que nem uma pedra, começam a acordar ao mínimo som do seu bebé.

    A boca
    Não é só a capacidade de dar beijos infinitos que surge com a maternidade. Há também a capacidade de emitir sons nunca antes experimentados, do gugu-dádá ao eco das nossas próprias mães, com os típicos “vou contar até três” ou “estás quase a levar um estalo”. Mas a aptidão mais surpreendente é fazer coisas como agarrar a chucha com os dentes e enfiá-la na boca do bebé enquanto as mãos lutam para lhe enfiar o body no meio de uma birra monumental.

    O queixo
    Esta é uma parte do corpo considerada inútil pela maioria das pessoas. Nada mais errado. O queixo tem uma força tremenda e não imaginam a quantidade de objectos que uma mãe consegue transportar com o queixo premido contra o externo. É como ter uma axila extra.

    As mãos
    A mão de uma mãe é suave, dura, leve, pesada, firme, elástica, e consegue fazer mais sozinha do que as duas mãos de uma não-mãe juntas. Tudo começa nos primeiros dias a sós com o recém-nascido. O pai voltou ao trabalho, as visitas já satisfizeram a curiosidade e a mãe pode finalmente gozar o seu bebé e descobrir que dava mesmo jeito ter mais um par de mãos. Mas como não tem, assiste fascinada a tudo o que consegue fazer só com uma, como colocar uma fralda, fazer um biberão do início ao fim, incluindo colocar a tetina, abrir um frasco de doce, colocar um babete, enfim, um mundo fascinante!

    Os braços
    Antes de ser mãe ficava de rastos ao transportar os sacos do supermercado; hoje em dia consigo agarrar todos os sacos com um braço e carregar um bebé de 13kg no outro, mais a minha mala e a mochila dele. Antes de ser mãe pedia sempre ajuda para transportar a mala de viagem; hoje em dia consigo sair de casa com o mais velho num braço, o ovo da mais nova no outro, o saco das fraldas e sei lá mais o quê. O meu marido disse-me recentemente que os meus braços nunca estiveram tão tonificados. Pois é, meu amor, também nunca tinha tido dois filhos rechonchudos a pedir colo constantemente. Sim, os braços de uma mãe passam de fina donzela a estivador em poucos meses e a verdade é que dá muuuuuito jeito.

    Os pés
    Os pés de uma mãe tornam-se velozes e flexíveis, porque temos de andar sempre a correr: atrás dos miúdos e de um lado para o outro na azáfama quotidiana. Mas o superpoder de um pé de mãe é ser quase uma mão. Juro. É como se fossemos macaquinhas. Quando já não há mãos nem braços disponíveis, uma mãe atira o sapato pelo ar e começa a fazer as coisas com o pé: embalar a espreguiçadeira ou o carrinho de passeio, travar a queda de um rebento que está a rebolar no sofá, impedir o carrinho de deslizar para debaixo do móvel da sala, agarrar uma peça de roupa do chão, levantar a tampa do caixote do lixo, fechar e abrir portas e, para as mais hábeis, até mudar o canal da televisão.

    Por fim, há algo que não é uma parte de corpo mas que surge com a maternidade: os poderes psíquicos. As mães tornam-se videntes. Sabem o que os filhos fazem a toda a hora, adivinham como é que fizeram aquele arranhão e sentem quando uma asneira ou uma virose está iminente. É quase impossível uma criança conseguir enganar a sua mãe e todos nós, quando éramos miúdos, nos interrogámos como é que a nossa mãe sabia de certas coisas que aprontávamos. Agora sei como. Superpoderes meus amigos, superpoderes.



    (texto originalmente publicado no livro «Coisas Que Uma Mãe Descobre (e de que ninguém fala)», Bertrand Editora, 2015)

  • Os presentes mais valiosos são aqueles que não se podem comprar: um beijinho peganhento, um desenho que fingimos perceber o que é, uma flor apanhada no jardim... No entanto, não há mãe que não goste de receber um mimo extra, para compensar todas as noites mal dormidas, todos os cabelos brancos, todas as alturas em que tivemos de ser "más" para o bem deles, ou simplesmente as vezes em que não comprámos aquela camisola porque os miúdos precisavam de ténis novos e o dinheiro não dá para tudo.

    Assim sendo, deixo aqui estas pequenas sugestões para o próximo domingo (sim, o Dia da Mãe é já no Domingo). Tenho a certeza que farão as delícias de qualquer mãe.

    Para as mamãs que gostam de ler


    Livro de crónicas humorísticas sobre a gravidez e maternidade
    €15,50, Bertrand Editora
    (à venda nas livrarias tradicionais e online)


    Para as mamãs que adoram o sol


    Óculos de Sol SKOG Eyewear, modelo Cannes €79,90



    Para as mamãs que não passam sem praia



    Chinelos de cortiça As Portuguesas €32,90


    Para as mamãs vaidosas


    Colar Carla_M Jewellery, modelo Best Friend, €65 


    Para as mamãs que sobrevivem a cafeína




    Caneca Mr.Wonderful, €13,95


  • Na rua onde eu morava havia uma loja de discos. Foi lá que vi o Prince pela primeira, vez em meados dos anos 80. Era uma bandeira ou poster onde ele aparecia nu, com um ar andrógeno. Cada vez que passava pela loja ficava fascinada por aquela imagem, mas depois a Madonna, com as suas rendas e tutus, ganhou a minha atenção de menina e deixei o Prince de lado.

    Para grande sorte minha, o meu pai adora música, tem um extremo bom gosto musical e, na altura, tendo um bar, até fazia de DJ. O bar tinha uma parabólica que nos permitia ver a MTV. Prince estava sempre lá, na sua mota, nos seus fatos roxos, com as suas camisas victorianas, com a sua guitarrista (eu nunca tinha visto uma mulher na guitarra), com o seu talento (o meu pai contou-me na altura que ele tocava uns 10 instrumentos) . E “lá” não era só no bar do meu pai, mas na nossa casa. Prince and the Revolution.

    Ao longo dos anos fui acompanhando o seu trabalho com enorme curiosidade. Mesmo quando entrei na minha fase grunge, vidrada nos Nirvana, o álbum “Diamonds And Pearls” tocava lá em casa e no carro e no quarto do meu irmão. Acho Musicology um trabalho brilhante, que se calhar passou despercebido no meio do ruído da indústria neste século. Já para não falar das inúmeras músicaa que ele compôs e escreveu para outros artistas e que a maioria das pessoas nem imagina que sejam dele.

    Bom, mas na verdade, não importa o que eu acho. É unânime que Prince foi “um arquitecto mestre do funk, rock, R&B and pop" (NY Times). Um génio que, como qualquer génio, nunca se deixou limitar por um género e procurou sempre explorar novos caminhos, independentemente das críticas, dos níveis de popularidade ou do que a indústria achava que ele devia fazer. E hoje, perdeu-se um génio.









  • Não escondo que sou apaixonada por Moda. Gosto de estar a par das tendências, de conhecer os bastidores, de descobrir os processos criativos, e considero alguns estilistas verdadeiros artistas, que conseguem transformar uma peça de roupa numa autêntica obra de arte. Ou pelo menos em algo tão original que não passa despercebido.

    Por conhecer bem a indústria, mesmo que apenas como observadora, compreendo que haja marcas cujos preços são proibitivos para o comum dos mortais. Ou porque os materiais usados são de altíssima qualidade, ou porque é tudo feito à mão, ou porque tem aplicações de não sei o quê, ou simplesmente porque o corte é tão diferenciador que acaba por quebrar barreiras e lançar novas tendências. E claro, há toda a questão da construção de uma marca, do prestígio, do exibicionismo ou do simples prazer de possuir um objecto luxuoso. Às vezes fico algo chocada quando vejo um casaco (mesmo que feito da mais genuína pele), uma mala (mesmo que feita de crocodilo), uns sapatos (mesmo que feitos à mão pelos mais prestigiados artesãos) a custar mais do que o que eu ganho por um mês inteiro de trabalho. Mais chocada quando custam mais do que um presidente de uma empresa ganha, mas, pelas razões acima, compreendo e não julgo quem pode comprar. (Não só não julgo como confesso sentir  uma pontinha de inveja, sobretudo quando vejo a colecção da Dior.)

    O que eu não compreendo é que certas marcas, alavancadas pela sua popularidade entre celebridades, construídas à sombra de um criador, na sua maioria morto ou reformado, aproveitando o frenesim consumista da sociedade actual, vendam peças absolutamente básicas, feitas de materiais corriqueiros e que existem nos armários mais modestos do mundo por valores exorbitantes. Exorbitantes talvez seja um eufemismo. A palavra é mesmo absurdos.

    E julgo as pessoas que compram essas peças absolutamente básicas, feitas de materiais corriqueiros e que existem nos armários mais modestos por valores absurdos, só porque têm a etiqueta de uma determinada marca. Julgo sim. Julgo que são completamente parvas.
    Deixo-vos alguns exemplos.  Se alguém conseguir que me explique como é possível qualquer marca ter a lata de vender este tipo de peças a estes preços  (sim, eu estou familiarizada com a lei da oferta e da procura, mas ainda assim acho que isto é um insulto) e haver quem cometa a estupidez de as comprar. 600 euros por uma t-shirt branca? 800 euros por umas jardineiras de ganga? A sério? Tenham vergonha.










  • Como em tudo na vida, também na gravidez as opiniões dividem-se entre quem acha que é o momento mais espetacular da vida e quem o vê apenas como um longo e penoso meio para fazer seres adoráveis. Conheço mães que, uns meses depois do parto, já têm saudades da sua barriga e outras que até queriam ter mais filhos, mas não aguentam passar por tudo outra vez. É que a gravidez tem muitas coisas maravilhosas, mas também tem muitas coisas insuportáveis (as tais de que ninguém costuma falar).

    Decidi por isso fazer uma pequena compilação realista do melhor e do pior que uma mulher pode esperar durante uma gestação. A partir daqui, tirem as vossas próprias conclusões, mas depois não digam que ninguém vos avisou.

    10 para adorar

    1. Comer o que nos apetece
    Esta é uma das melhores coisas da gravidez, sobretudo para quem gosta de comer e passou uma vida inteira a ter cuidado com a alimentação. É que, a não ser que tenhamos alguma restrição médica, durante a gravidez podemos comer como umas bestas e ainda somos elogiadas por isso. A frase “toma lá mais um bocadinho, que tens de comer por dois”, embora seja a maior das mentiras, é repetida por todos os que nos rodeiam e torna-se música para os ouvidos de uma grávida esfomeada. Mais um bocadinho de risotto? Com certeza! Mais um quadradinho de chocolate? Porque não? Perdido por cem, perdido por mil, e quando o peso ganho ultrapassa os dois dígitos, uma grávida deixa de contar os quilos a mais. “O que é que interessa se engordei 14 ou 17 quilos? Dá cá mas é mais uma alheira, que de gorda não passo.”

    2. Passar à frente de toda a gente e ter lugares especiais
    A maioria das pessoas que nunca passou por uma gravidez (como gestante ou como familiar) não imagina o bom que é haver sítios com prioridade. É que, ao contrário do que possam pensar, uma grávida precisa mesmo deles. E é de aproveitar, não só pela nossa saúde, mas também porque sabe lindamente passar à frente de toda a gente naquela fila de meia hora. É um luxo que se tem uma ou duas vezes na vida, por isso, não tenham vergonha de aproveitar. E se alguém vos olhar de lado e murmurar a célebre frase “gravidez não é doença”, sorriam e respondam “azar o seu”.

    3. O mundo inteiro sorri
    Durante meia dúzia de meses, qualquer cidade do mundo parece a Disneylândia. Toda a gente nos sorri, nos dá passagem e se oferece para nos ajudar. Até o funcionário público trombudo que nunca ajuda ninguém. E isso faz-nos sorrir também e acreditar que o mundo é um lugar lindo para criarmos os nossos adoráveis bebés.

    4. Temos sempre um criado
    Seja o nosso companheiro ou o colega do lado, há sempre alguém que tem todo o gosto em ir buscar um copo de água, apanhar a caneta que caiu no chão ou acompanhar-nos ao carro num dia de chuva. E quanto mais a gravidez avança, maior a qualidade do serviço. Aproveitem, porque depois do bebé nascer, acabam-se as atenções.

    5. Podemos sair de casa de qualquer maneira
    Com nódoas na camisa, com o cabelo despenteado, com uma borbulha na ponta do nariz. Ninguém tem a coragem de dizer a uma grávida que ela está feia. Claro que há sempre aquelas cabras que gostam de nos torturar com um “já engordaste um bocado” ou “ tás um bocado inchada”, mas a verdade é que a maioria das pessoas foca-se na nossa linda barriga e pele radiosa. E, por mais que saibamos que estão a mentir um bocadinho, a verdade é que sabe sempre bem ouvir uns pequenos elogios.

    6. Mamas grandes sem cirurgia
    Ah, o sonho de todas as mulheres com o peito pequeno: de um dia para o outro, ficamos com umas maminhas grandes, firmes e 100% verdadeiras. E não mintam: não há nenhuma mulher que, podendo escolher, optasse por uma copa A, pois não?

    7. Sentir o bebé
    Esta é, sem dúvida, uma das melhores sensações da vida e uma das coisas que realmente deixam saudades. Sentir o nosso bebé, imaginar as cambalhotas que está a dar, ver como reage à nossa voz ou às festinhas que fazemos na barriga. Claro que, de vez em quando, levamos com um doloroso pontapé nas costelas, mas não deixa de ser adorável.

    8. Não fazer cerimónia
    Uma grávida nunca precisa de fazer cerimónia. Seja um almoço de negócios secante, seja o casamento da prima em segundo grau do nosso companheiro, ninguém leva a mal se dissermos “não me ando a sentir muito bem, por isso é melhor não ir”. O mesmo se aplica às visitas que nunca mais se vão embora. Um “desculpem mas tenho mesmo de me ir deitar” dito por uma pessoa normal é considerado um pouco rude, mesmo que tenha tido um dia horrível e precise de se levantar às 5 da manhã. Dito por uma grávida, é perfeitamente compreensível.

    9. Comprar o enxoval
    Não há coisa mais encantadora do que roupa de recém-nascido. É como voltar a brincar com Nenucos! Tudo é fofinho, bonitinho e cheirosinho. Tudo tem lacinhos, folhinhos, fitinhas. E o melhor é que, ao contrário de tantas outras vezes que vamos às compras, são coisas que precisamos mesmo de comprar! Até o mais forreta dos maridos é incapaz de uma palavra de censura. Querem melhor que isto?

    10. Incontinência verbal
    Todas as indiscrições, todas as irritações, todas as respostas tortas são perdoadas a uma grávida. É como com os maluquinhos ou os bêbados: a maioria das pessoas encolhe os ombros e pensa “deixa-a estar, coitada, está grávida”. Assim, esta é a altura perfeita para dizermos aquelas coisas que socialmente não deveríamos dizer, ou aquelas verdades que passamos a vida a esconder. É como o Carnaval: ninguém leva a mal. E se levar, pedimos desculpa e pomos as culpas nas hormonas.


    10 coisas para odiar

    1. Enjoos e dores várias
    Esta parte não é segredo para ninguém, mas vivê-la é pior do que parece. Os enjoos vão da simples sensação de náusea, como se estivéssemos em alto mar, até à cena de exorcista todas as manhãs, e tanto pode durar apenas algumas semanas como a gravidez inteira. As dores vão desde a simples dor de cabeça, até à enxaqueca de vários dias, dor de barriga, dor tipo cólica menstrual, dor nas costas, dor ciática... e por vezes podemos ter várias destas dores ao mesmo tempo. Simpático, não é?

    2. Privação de sono
    Se no início o sono pode ser interrompido pelos enjoos, à medida que a gestação evolui, há vários outros incómodos que nos acordam todas as noites. Vontade de fazer chichi, fome incontrolável, cãibras, contrações de treinamento, refluxo ou simplesmente insónia. Há quem diga que é o corpo a habituar-se ao ritmo que nos espera quando tivermos um recém-nascido em casa a acordar de 3 em 3 horas, mas devo dizer que é mentira. A privação de sono que o bebé nos causa nas primeiras semanas (ou meses) é muito pior.

    3. Transformamo-nos num taberneiro
    Sabem aqueles senhores mais velhos que passam o dia na taberna e que não se coíbem de deixar sair de dentro do si tudo o que lhes apetece? É assim que uma grávida fica. Desde flatulência, aos arrotos audíveis na casa do vizinho, há coisas que uma grávida não consegue conter. Mas há outra semelhança entre uma grávida e um taberneiro: as constantes nódoas na roupa. É que às tantas a barriga obriga-nos a comer a um metro da mesa e o guardanapo escorrega do colo. Sim, é embaraçoso. Sim, é motivo de gozo para os nossos companheiros. Sim, temos de aguentar.

    4. Desequilíbrio emocional
    Já dediquei uma crónica inteira a este tema, mas nunca é demais reforçar que as hormonas da gravidez provocam desequilíbrios emocionais incontroláveis, cuja consequência vai do simples choro a cada notícia do telejornal, até ao insulto de qualquer pessoa que nos contrarie. E o pior é que não há nada a fazer. Por mais que nos tentemos controlar, naquela altura, a nossa crise parece ser perfeitamente lógica e justificável. Haja paciência de todos os que nos rodeiam.

    5. Não beber, não fumar, não isto e aquilo
    Há coisas que custam mais deixar, outras que custam menos, mas todas as proibições acabam por se tornar irritantes. Não podemos fumar, não podemos beber, não podemos fazer uma data de desportos, não podemos comer não sei quantas coisas, umas por causa da toxoplasmose, outras por causa das bactérias, ou dos diabetes, ou do raio que o parta. Ah, e também não podemos dormir de barriga para baixo, nem para cima, nem tomar medicamentos, nem andar de avião a partir de certa altura... E é claro que é exactamente nesta altura que nos apetece todas estas coisas proibidas.

    6. Roupa pré-mamã
    Também já dediquei uma crónica inteira a este ponto, mas vale a pena relembrar que a roupa de pré-mamã é horrível e faz mal à alma. Todas as mulheres gostam de se sentir bonitas e já é difícil assistir a algumas das transformações menos abonatórias a que o nosso corpo fica sujeito. Mas ter de fazê-lo com roupa feia e pouco sensual é um verdadeiro martírio.

    7. Exames e análises

    Pelo menos três vezes por gestação há que tirar litros de sangue e fazer exames vários. Alguns são apenas incómodos, mas outros são mesmo dolorosos. Não é por acaso que algumas mulheres têm mais medo do “toque” do que do parto...

    8. Viajar de carro
    A partir da 35ª semana andar mais de 30 km de carro torna-se um suplício. Doem as costas, as pernas, o pescoço e a cada buraco na estrada parece que a criança vai saltar cá para fora. Quem faz barrigas muito grandes (como eu!) depara-se mesmo com a impossibilidade física de conduzir: é que a barriga encalha no volante e torna-se impossível chegar com os pés aos pedais...

    9. O sexo no terceiro trimestre
    Há mulheres que sentem a libido crescer durante a gravidez e a verdade é que, devido à maior irrigação sanguínea na zona genital e sensibilidade por todo o corpo, durante alguns meses, o sexo até pode ser melhor do que era. Isto até ao momento em que a barriga e os movimentos do bebé se metem no caminho. A questão da barriga ainda se consegue contornar com alguma criatividade na escolha das posições, agora os movimentos do bebé, que por vezes chegam a ser dolorosos, arrasam com a vontade de qualquer uma. Já para não dizer que, nas últimas semanas de gestação, a mulher já está completamente noutra e nem o Brad Pitt a fará tirar a roupa. Bom, talvez o Brad Pitt...

    10. Desfiguração física
    Não são apenas os quilos a mais, que a isso uma pessoa habitua-se e acaba por perde-los mais cedo ou mais tarde. O pior é assistir à desfiguração provocada pelo inchaço. Há mulheres que ficam sem tornozelos, outras que parece que puseram Botox a mais nos lábios e bochechas, outras que se conseguissem ver o seu traseiro achavam que pertencia a outra pessoa, e outras ainda que assistem ao alargamento do nariz e ao crescimento dos pés. Desagradável é um eufemismo e o pior é que a parte dos pés não é reversível.

    Por mais coisas boas e más que uma gravidez nos proporcione, é de facto uma experiência única, vivida de forma diferente por cada mulher. Não se entusiasmem muito com o bom, nem se assustem demais com o mau, porque no final é claro que vale a pena. Já passei por duas, não sei se quero passar pela terceira (a não ser que a Mãe Natureza resolva passar o tempo de uma gestação de 40 semanas para 25), mas recomendo a todas as mulheres. Quem puder, que experimente. É de facto o assistir ao milagre da vida.



    Texto originalmente publicado no livro "Coisas Que Uma Mãe Descobre (e de que ninguém fala)", Bertrand Editora, 2015

  • Os meus vizinhos têm um cão. Não os conheço, nem sequer sei os seus nomes e se me cruzo com eles é apenas na garagem, de passagem. Mas conheço bem o cão, que está sempre na varanda a olhar para dentro da casa onde não está autorizado a entrar.

    A dita varanda é grande, dá a volta ao enorme apartamento de um último andar no Parque das Nações. No entanto, também é inóspita. Precisamente por ser num último andar, onde não falta o vento e muito sol, o que é óptimo para uns fins de tarde a ver as vistas, mas nem tanto para se viver todo o dia, todos os dias. Principalmente se formos um cão com considerável pêlo. Ah, pois. O cão dos meus vizinhos é um pastor alemão. Grande. Muito grande. E de olhos tristes. Não tenho absoluta certeza, mas parece-me que se trata de um cão troféu. Passo a explicar.

    Quando me mudei para este prédio não havia cão nenhum. Havia um homem, muito simpático e comunicativo, que não devia trabalhar muito ou se o fazia era a partir de casa. Sei-o porque o prédio é em L e tem janelas do tecto até ao chão, ou seja, mesmo que eu não faça de propósito, quando me sento para almoçar, vejo quem está na varanda das outras casas. Assim, todos os dias o via, numa confortável cadeira, a apanhar banhos de sol, a ler ou a dormitar.  Como o carro em que andava era um chasso e o da mulher uma bomba, deduzi que ela é que tinha o dinheiro naquela relação. E não devo estar longe da verdade, porque um dia a confortável cadeira, o chasso e o próprio do homem desapareceram para nunca mais serem vistos.

    Poucos meses depois surgiu o dito cão. Era um cachorrinho adorável. O meu gato gostava de saltar de varanda em varanda para o ir visitar. Ao início, os filhos dos vizinhos brincavam muito com ele. Depois despediam-se, iam para dentro e o cachorrinho ali ficava ao relento, colado ao vidro, a ver os donos no interior e ele cá fora sem perceber bem porquê. (Presumo que tivesse uma casota para dormir, do outro lado da varanda, aquele que eu não consigo vislumbrar da minha janela. Ainda assim, deve ser um forno nos dias quentes e um gelo quando faz frio.) De manhã havia sempre cocós espalhados pelo chão, que a empregada limpava. Mas pessoas da casa nem vê-las. Só as crianças ao fim do dia, durante uns dez minutos.

    O tempo passou, o cachorrinho cresceu, perdeu a piada. As crianças já não vêm brincar com ele na varanda, já não há cocós porque agora a empregada (sempre a empregada) vai passea-lo quando chega e antes de se ir embora, mas de resto, tudo está igual. O pastor alemão, hoje adulto, grande e de olhos tristes, lá fica todo o dia e toda a noite numa varanda.

    O que mais me custa é vê-lo espreitar para dentro da casa ao final do dia. Deve ser quando a família chega a casa e se prepara para jantar.  Sem ladrar e sem abanar o rabo, o cão anda de um lado para o outro da varanda. Pára, fica um minuto a olhar pelo vidro, depois vai outra vez ao outro extremo, onde presumo que faça o mesmo. Faz isto umas três ou quatro vezes e, como ninguém lhe liga, já num passo mais lento e resignado, ou vai-se embora para o outro lado da varanda ou deita-se ali no chão, onde o consigo ver. De olhos tristes.

    Sei que não lhe falta comida, vejo que o pêlo está bem cuidado e não há vestígios de abuso físico, pelo que não há motivo para fazer uma denúncia por maus tratos. Mas não será isto uma forma de violência emocional? Mesmo para um cão? E quantos cães haverá como este? Alimentados, vacinados, mas nem por isso menos abandonados. Por que é que não compram antes uma Playstation às criancinhas?




  • Crianças são sempre um motivo de enorme alegria para toda a família. Pais, tios, avós, bisavós, primos, todos celebram o nascimento e querem acompanhar de perto a vida de cada novo membro, enchendo-o de amor e mimos. Só que, por vezes, essas mesmas crianças são fonte de desentendimentos e susceptibilidades feridas.

    É que toda a gente gosta de expor a sua opinião, contar a sua história, ensinar aos pais como se faz isto ou aquilo, divagar sobre pedagogia, mas nem toda a gente tem a capacidade de respeitar ideias divergentes das suas e, acima de tudo, as decisões dos pais.

    A partir do momento em que fica grávida, uma mulher tem de aprender rapidamente a sobreviver ao turbilhão de opiniões, conselhos e gostos contraditórios de vários membros da chamada “família chegada”. E se a coisa já não é fácil quando se trata da nossa família chegada, com quem temos todo o à-vontade, torna-se particularmente difícil quando se trata da família chegada do pai da criança. E isto só piora depois do nascimento.

    Podia acabar a crónica aqui, dizendo que os pais é que sabem o que é melhor para os seus filhos e que devem aprender desde cedo a pôr os outros no seu lugar. Só que isso não é verdade. Não é verdade porque, a seguir aos pais, os avós, tios e outros membros directos da família, são as pessoas mais importantes na vida dos nossos rebentos. São fonte de eterno amor, paciência e ensinamento. São os abraços e os mimos que não temos tempo para dar. São segurança, brincadeira e diversão. São consolo quando nos zangamos com eles e não podemos dar o braço a torcer.

    Assim, uma das coisas que uma mãe tem de aprender rapidamente é a relativizar todas as coisas que os familiares fazem e que a tiram do sério. Claro que há que impor limites quando é algo realmente grave e que ponha em causa a segurança ou saúde da criança. Sobretudo se esse membro da família está diáriamente com a criança e influencia directamente o seu comportamento e educação. Mas em quase todos os outros casos, há que aprender a fechar os olhos e a ser tolerante. Aqui vão algumas dicas para gerir situações muito típicas.

    A peça de roupa abominável 
    Quem já não recebeu uma peça de roupa abominável? Daquelas que jurámos nunca vestir aos nossos filhos? Pior: uma peça de roupa abominável feita à mão pela pessoa que oferece, tão contrária ao nosso gosto que parece que foi feita de propósito para nos irritar. Valerá a pena ofender quem ofereceu com um grito de horror ou um pedido de troca? Por mais que queiramos embirrar, aquela peça foi feita ou comprada com amor e isso é que conta.
    Solução: Sorrir, agradecer e vestir a peça à criança da próxima vez que estivermos com quem a ofereceu. Se for algo assim tão abominável, podemos vestir só no carro ou já dentro do elevador. A criança não vai ficar traumatizada por ter sido vista em público em tais preparos e a paz familiar reinará.

    A excitação antes de dormir
    Depois do almoço de família, já de si agitado, chega a hora da sesta. Mas ninguém (tirando a mãe) parece querer perceber. A brincadeira continua, há sessões de cócegas e jogos de apanhada, há mais um beijinho lambuzado e uma careta engraçada, há um nervoso miudinho a apoderar-se da mãe, que sabe que agora, em vez de demorar quinze minutos a adormecer a criança, vai demorar uma hora.
    Solução: Respirar fundo, pegar na criança e dizer "Pronto, agora vamos dormir a sesta está bem? Diz adeus bebé. Já voltamos para brincar mais um bocadinho.". O importante é dizer isto com um sorriso, mas com firmeza. É normal que quem só vê a criança de vez em quando queira aproveitar cada momento até à última. Que mal tem se a sesta naquele dia é mais curta? Uma vez não são vezes.

    A prova de alimentos proibidos
    Os primeiros anos de vida de uma criança estão cheios de primeiras vezes e é muito giro ver a sua reação perante algo completamente novo. Vamos dar-lhe a provar limão, para ver como reage? E chocolate? E um pacote de açúcar? E molhar a pontinha da chucha num copo de whisky? (Esta era a brincadeira preferida do meu avô, que levava a minha mãe aos arames e é responsável por eu ainda hoje abominar tal bebida)
    Solução 1: caso sejam alimentos alergéneos ou que o pediatra desaconselhou, não há que ter medo de o dizer. Mas sem exaltação. A ciência evolui todos os anos e há coisas que antigamente ninguém sabia que faziam mal e que hoje os estudos mostram ser prejudiciais. Por mais brincalhão que seja o avô, vai compreender e respeitar uma ordem médica.
    Solução 2: caso sejam alimentos que não fazem mal, o melhor é respirar fundo, permitir a brincadeira uma vez e depois dizer gentilmente, "Pronto, que giro, o bebé já provou. Agora vamos brincar com outra coisa para não fazer mal à barriguinha". E fugir com a criança para longe da tentação.

    As indirectas face a métodos de puericultura alternativos
    É muito fácil receber olhares de horror perante métodos de puericultura alternativos, sobretudo das avós, que não cuidam de um bebé há cerca de 30 anos e desconhecem as novas teorias dos pediatras. E se, por um lado, há coisas estranhas que podem realmente surpreender os mais velhos, como dar banho no balde ou transportar o bebé no pano (coisas que eu fiz e aconselho), outras há que derivam de novas descobertas, como o nunca deitar o bebé de barriga para baixo, não esterilizar biberões ou não tratar o umbigo do recém-nascido, que é exactamente o oposto do que se fazia no tempo das nossas mães.
    Solução: Respirar fundo, explicar o porque da nossa opção e permitir que, no que toca aos métodos alternativos, quem está a cuidar da criança faça a coisa como lhe dá mais jeito. Na creche as educadoras também fazem como entendem. Olhos que não vêem, coração que não sente.

    As indirectas face a métodos pedagógicos alternativos
    Também há quem goste de mandar umas indirectas às nossas opções educativas, que, por vezes, não são tão indirectas assim. "Mas porque é que não dás chucha? Tu usaste chucha até aos 4 anos e tens uns dentes óptimos" ou "Qual é o problema de ver televisão ou brincar com o iCoiso?" ou "Se ele não tem sono porque é que o vais deitar? Deixa-o ficar mais um bocadinho".
    Solução: Respirar fundo (sim, esta crónica parece uma aula de Yoga, mas, de facto, a respiração profunda resulta) e explicar cordialmente o porquê da nossa opção, mesmo que, por dentro, só nos apeteça gritar "mas o que é que tens a ver com isso???". Ceder na aplicação das regras, uma vez por outra, também não faz mal nenhum. Toma lá o iCoiso por mais dez minutos.

    A defesa de ideologias antagónicas
    Este ponto tem tanta importância quanto o nosso nível de dedicação a uma causa. Por exemplo, no outro dia fiquei sem palavras quando ouvi o avô dizer o seguinte ao meu filho, enquanto viam televisão: "Ah, que coelhinho tão giro, está a ver? É muito lindo e fofinho, como aqueles que o avô caça para o Tiago papar." Ora, eu não sou da PETA, nem sequer vegetariana, mas dizer a uma miúdo de dois anos que se matam coelhinhos fofinhos para ele comer, parece-me ligeiramente aterrorizador. Sobretudo quando um dos bonecos preferidos do dito menino é precisamente um coelho. Mas como não sou fundamentalista, não disse nada. Aliás, confesso que tive mesmo foi vontade de rir.
    Solução: educar os nossos filhos para a diversidade cultural e liberdade de expressão. Não é porque o avô caça, que ele se vai tornar caçador. Nem é por saber que se matam animais fofinhos para comer que ele se vai tornar vegetariano. O avô é alentejano de gema, daqueles que sonhava em caçar desde criança, que foi forcado e gosta de touradas. E tem quase 70 anos. Não vale a pena dizer-lhe que jamais em tempo algum vamos deixar o nosso filho aproximar-se de uma arma de fogo ou de uma arena. Pelo menos até ao dia em que convidar o neto a fazê-lo. O mesmo se aplica a outras ideologias e tradições, que parecem naturais para certas pessoas ou gerações e completamente retrógradas para nós.

    Conclusão: no que toca aos nossos filhos, haverá sempre atitudes dos nossos familiares que nos vão irritar e haverá sempre decisões nossas um pouco excessivas. Por isso, a palavra de ordem é relativizar. As crianças devem ser motivo de alegria e de união da família, e nunca causa de desentendimentos ou ódiozinhos de estimação. Se bem que algumas pessoas parece que fazem de propósito para nos irritar.



    Texto originalmente publicado no livro "Coisas Que Uma Mãe Descobre (e de que ninguém fala)", Bertrand Editora, 2015